quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Como é que é?



Leio, por aí, a expressão “… as crianças educadas da forma correcta.”

Na Grécia antiga os pedagogos eram castigados se os jovens não aprendiam.
Na idade média os camponeses pertenciam à terra, tal como casas, árvores, caminhos…
Ainda não há 300 anos, a escravatura era parte integrante da civilização portuguesa.
Em meados do século passado, o adultério era punido por lei.
Só há alguns anos o aborto é legal por cá.
A mutilação genital feminina é, hoje, parte integrante de algumas culturas.
A pena de morte é válida em muitos países ditos civilizados.


O que é forma correcta?

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Tattoos



A legenda que acompanha esta fotografia, no site do “dailymail” onde a fui buscar, diz-nos:
“These metal stamps were used to tattoo prisoners at the Auschwitz concentration camp during the early days of the holocaust before the Nazis replaced them with a more efficient system
Há minutos vi uma fotografia de uma agente de polícia checa a imitar os seus congéneres húngaros e a usar uma caneta para identificar no braço os refugiados.


Ai! Que os deuses nos protejam! A todos nós, seres humanos.

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Fotografias obscenas



Devo confessar que tenho uma séria aversão a falar de regras de composição em acções de formação de vídeo ou fotografia. E quanto mais simples forem as respectivas regras mais escrúpulos tenho e para mais tarde as adio.
Isto porque as sensibilidades não são todas iguais e o recurso a regras, como a regra de ouro, acaba por ser para alguns uma “muleta sacro-santa”, impedindo-os de sentirem ou usarem outras formas de gerir os elementos dentro do enquadramento.
Prefiro assim falar de regras mais tarde, quando as questões de linhas, pontos, espaço próprio e ar, equilíbrios de massas e interesses já forem algo com que os formandos lidam com algum à-vontade.
Foi este o caso, também, com aquele grupo.
Tratava-se de adultos, de idades muito variáveis e cujos interesses também o eram. E o objectivo da acção era, mais que preparar “fotógrafos”, permitir que aquelas pessoas tivessem “ferramentas” e competências para tirarem prazer das fotografias familiares e de férias. Nada mais e com a maior das informalidades. O próprio conceito da acção baseava-se na partilha e não em pagamento, tendo assumido um nome genérico de “trocas fotográficas”.
Num desses encontros, como sempre num jardim público, o tema que levava preparado era a gestão do espaço do enquadramento e a colocação do ou dos centros de interesse.
Levei de casa uma boa trintena de livros, de reportagem a moda, de paisagem a publicidade, de nus a retratos, de clássicos a experimentalistas, do séc. XIX ao séc. XXI. O mais variado possível.
E, assim que nos encontrámos, pedi-lhes que vissem os livros de acordo com o que mais lhes conviesse e que, de três ou quatro, escolhessem e anotassem as quatro ou cinco que mais gostassem de cada um. Sem mais indicações.
Só depois disso lhes falei da proporção dourada, da sua história, motivos culturais e aplicação nas artes, fotografia incluída. E eles, em regressando às imagens escolhidas, constataram que tal se aplica a boa parte delas, mas não a todas. Tratariam de seguida, na parte prática, de o aplicar (ou não).

Entre os presentes estava um casal com dois filhos. A mais velhinha, talvez que com uns oito ou nove anitos, ia-se integrado nas actividades à sua medida, tanto pelo gosto, que já levava uma câmara, como pela imitação natural da idade.
Quando ela se chegou à mesa para escolher um livro para ver, a mãe foi peremptória: “Esse não! Qualquer um menos esse!”
Olhei, claro, para ver de que se tratava, e ela acrescentou qualquer coisa como isto:
“Na tua idade, prefiro que vejas estes de nus que esse de guerra e corpos estraçalhados.”

Senti-me particularmente orgulhoso e satisfeito por ter aquela senhora entre os formandos.
Com aquela noção pedagógica e certezas sobre as diferenças entre o belo e o horrendo, o natural e o obsceno. E de como nem sempre a forma justifica ou se sobrepõe ao conteúdo.

Tudo isto a propósito de como estão a ser banalizadas as imagens sobre o drama dos refugiados na Europa.
De tantas e tão chocantes e obscenas que são, de tão divulgadas e partilhadas, tornaram e tornam a morte e o sofrimento alheio em algo banal ou quase.

Transformadas, bem mais que alerta ou despertar de consciências, em garantias de tiragens ou audiências nos media, ou em troféus ou declarações ao estilo de “vejam como sou sensível!” nas redes sociais.

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A mentira dos media



Isto de um tipo ter boa memória visual e um aguçado espírito céptico dá
nisto.
Em tudo quanto é lado se replica uma ou mais imagens de um mar de gente a querer embarcar num navio. E as legendas referenciam como sendo em Tripoli, África e como sendo refugiados desesperados para fugirem para a Europa.
Abri um motor de busca e usei-o.
Comecei por pesquisar o nome do navio: Vlora.
Trata-se de uma cidade na Albânia. Pouco consentâneo, portanto, com fugas de África.
Em seguida pesquisei por imagens, usando uma das que agora estão replicadas. E fui dar com este site que mostra as mesmas imagens reportando o vigésimo aniversário da chegada de mais de 15000 Albaneses a Bari, na Itália. No ano de 1991.
Em caso de dúvidas, observe-se com atenção os trajes e as cores de pele destes desgraçados a tentarem embarcar e compare-se com o que temos visto dos que agora chegam à Europa.
O drama agora é francamente maior. Na altura das fotografias, foram os Albaneses bem mal-tratados em Itália.
Agora estão a morrer no mar.

Escusavam era de nos mentir com fotografias!


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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Solidarie-quê?



Li por aí algures que circula uma petição on-line para impedir a criação de um centro de acolhimento no Algarve para refugiados vindos do médio-oriente.
A proposta do centro surge da Cruz-Vermelha e a petição apresenta um conjunto de argumentos sobre a economia local e a segurança ou a falta dela provocada por esses refugiados na zona.


Uma vez mais, a solidariedade é coisa muito bonita mas só se for no quintal dos outros.

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A lua



Na noite da super lua, foram uns milhares (poderei dizer milhões?) que trataram de usar as suas objectivas mais potentes e os seus melhores conhecimentos de exposição e edição para encher o enquadramento final com uma lua cheia de detalhes, exibindo as crateras na sua máxima pujança.
Como exercício de estilo, como satisfação da nossa curiosidade sobre o universo e como demonstração de perícia, são um conjunto de fotografias magníficas.

Mas alguém consegue distinguir essas fotografias de quaisquer outras feitas numa noite de lua cheia normal?

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O tasco



Esta fotografia foi feita há uns três anos.
O seu objectivo foi o acompanhar visualmente um texto, tentando recriar a ambiência nele descrita.
Nele contava eu um episódio com uns 35 anos e que está indelével na minha memória: o interromper-se o jogo, os copos, as conversas, porque começou o noticiário televisivo. O silêncio que se criou naquele tasco de uma aldeia ignota nos arrabaldes da capital foi esmagador.
Hoje ninguém interrompe um jogo de dominó ou uma conversa mais animada porque a televisão está a dar notícias: já não se joga dominó e as notícias estão ao alcance do indicador no rato ou do polegar no comando ou no telemóvel.
Não creio que estejamos hoje melhor informados.
Mas estamos certamente mais pobres em termos de vivências sociais.


Quanto à fotografia, não sei se hoje a faria assim.

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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Para que conste


Uma espécie de selfie desfocada



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O arco



Confesso que esta foi original.

Eu tinha chegado cedo. Não muito, mas o suficiente para me poder dedicar um pouco àquilo de que gosto: ver o que acontece. No caso, no arco da rua Augusta em Lisboa, ver a enormidade de gente forasteira que ali passa e tentar perceber quem de todos eles faria uma fotografia realmente diferente.
Por aquilo que pude perceber, ninguém. O mesmo arco com a estátua equestre em fundo, os mesmos candeeiros de um lado ou do outro, as mesmas de grupo, selfies ou não… Incrível, a quantidade de paus de selfie que ali vi. Aliás, vi três casais (talvez existissem mais, mas só dei por três) em que ele transportava uma pesada DSLR, full frame, com grip de baterias e sempre sem pára-sol, e ela uma pequena compacta numa mão e um smartfone num pau de selfie na outra. Suponho que regressarão a casa com uma enormidade de fotografias de recordação mas talvez não tantas nos neurónios.
Em qualquer dos casos, e sendo que não estava com pressa nem iria a lugar algum, decidi fazer uma que talvez fosse diferente. Pelo menos daquelas que ali via fazer, que é difícil ser-se original com aquelas pedras vetustas.
Colocando-me bem ao centro do arco, que por sinal até tem o local assinalado no chão, apontar e obturar para cima. Toda aquela geometria formal mo pedia.
Depois de ter estado um nico a verificar o ponto e de ter feito o registo, sou abordado. A conversa decorreu em francês mas, desculpem, se ler ainda me safo e se consigo fazer-me entender falando (mal) nesta língua, não me peçam para o escrever.

“Olá! Você é o sr. Paul Qualquercoisa?”
“????”
“Fala francês?”
“Sim, um pouco.”
“E não é o sr. Paul Qualquercoisa?”
“Não, por acaso não sou.”
“Mas não é do Quebec?”
“Não, sou português mesmo.”
“Aaaah. É que estamos à espera de um compatriota e pensámos que fosse o senhor. Desculpe.”
“De nada. Tenham umas boas férias.” E ele afastou-se para junto do seu grupo. Três casais.

Confesso que me irrita solenemente ser abordado como forasteiro e noutra língua quando entro num qualquer comércio, em particular de restauração. Que diabo! Por muito importante que possa ser o dinheiro que os turistas por cá deixam, negligenciar os autóctones, os nacionais, faz-me sair do sério. E quando me colocam, logo à partida, a ementa em modo multilingue menos o português… Já tive uma ou duas conversas menos simpáticas à conta disso.
Agora ser confundido por turistas como turista na minha própria terra… Essa, confesso, foi original.

Muito mais que a fotografia que fiz, naturalmente.

By me