terça-feira, 4 de novembro de 2014

Dignidades ferroviárias



Parece que a Espanha vai investir e bem nas linhas ferroviárias de alta velocidade. E espera que Portugal lhe siga o exemplo.

Se for para manterem a mesma atitude de há uns anos, repetirei o que fiz no passado: não utilizar esses comboios. Lá ou cá.
É que em Madrid, tal como em Barcelona, o acesso a tais composições fazia-se como se fosse num aeroporto: pórtico com detectores de metais para pessoas, raio-x para malas e sacos.
Acontece que entendo isto como um insulto!
Partem do princípio que sou criminoso, que sou potencial terrorista, e tenho que demonstrar que sou inocente e sem más intenções.
E isto é a inversão do princípio da presunção de inocência que rege a lei e a minha cartilha pessoal. Não colaboro!
Tal como me recuso a andar de avião, por muito divertido, cómodo e rápido que seja, também me recuso a andar nestes comboios.
A minha dignidade, assim como o orgulho em ser como sou, assim mo impedem!
Manter-me-ei como cliente dos “ronceiros” comboios clássicos e das camionetas apertadas.
Pelo menos aí não me insultam.


Imagem: jornal Público
By me

Decidam-se



A diferença entre ensino e aprendizagem é simples.
Se no primeiro caso se disponibilizam os saberes, no segundo adquirem-se os saberes.

Donde, há que decidir onde se quer centrar a actividade: em ensinar ou em aprender. Ou, por outras palavras, se o que importa é a escola enquanto local de professores e ensino se a escola enquanto local de alunos e aprendizagem.

By me 

Uma questão de luz



Ao preparar o café, em casa de manhãzinha, cai uma bátega. E se o dia já estava farrusco, ficou escuro. Mesmo.
Por brincadeira e curiosidade científica, fui buscar o fotómetro: queria eu saber, com rigor, quanto menos luz estava naquele momento do que estaria se o sol estivesse a descoberto. Que “escuro” ou “muito escuro” pouco indicam.
Para quem souber destas coisas, digo que estavam seis diafragmas a menos que o habitual.
Para quem não sabe destas coisas, informo que estava cerca de 1/64 da luz do costume.
Para quem quiser ter uma indicação mais comum, acrescento que tive que acender a luz da cozinha para ver o que fazia, que o que entrava pela janela não era suficiente para perceber se o café moído na lata chegaria ou teria que abrir um pacote.

Postas coisas neste pé, e satisfeita a minha curiosidade, recordei-me tristemente daquilo que preferia nem saber.
Há uns anos, não muitos, andei a explicar a uns quantos o como usar uns aparelhos de medida de luz qualitativa. Calibrações, menus, significado das indicações e tabelas, usos, vantagens e desvantagens.
Não tinha que o fazer, que não era minha função nem me tinham encomendado o sermão. Mas ia surgindo em conversa e eu, que ando de mangas arregaçadas e sem nada nelas escondido, fui esclarecendo as dúvidas para justificar afirmações e práticas.
Andam hoje alguns desses ufanos do saber, exibindo-o perante mim como se ignorassem de onde veio, usando-o para me apoucarem e atropelarem.
Confrontado com isto, nem sei se hei-de rir se gritar de raiva.
Rir do caricato da situação. Afinal, estão a querer explicar o quê a quem?
Gritar porque, no fim de contas, não aprenderam que a frieza dos números e dos aparelhos de medida não faz ninguém melhor. Nem como pessoa nem nos desempenhos. Apenas serve de alicerce de barro mal cozido a egos descomunais.

Em qualquer dos casos, saiba-se que passados minutos a bátega terminou, as nuvens rarearam e o sol já me entra pela janela. 7500 Lux e, devido às nuvens, 4200 Kelvin.


By me

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Discurso do filho da puta



O pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho-da-puta.

no entanto, há
filhos-da-puta que nascem
grandes e filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos
palmos, diz ainda
o pequeno filho-da-puta.

o pequeno
filho-da-puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno
filho-da-puta.

no entanto,
o pequeno filho-da-puta
tem orgulho
em ser
o pequeno filho-da-puta.
todos os grandes
filhos-da-puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno
filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.

dentro do
pequeno filho-da-puta
estão em ideia
todos os grandes filhos-da-puta,
diz o
pequeno filho-da-puta.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.

o pequeno filho-da-puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem
e semelhança,
diz o pequeno filho-da-puta.

é o pequeno filho-da-puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que
ele precisa
para ser o grande filho-da-puta,
diz o
pequeno filho-da-puta.
de resto,
o pequeno filho-da-puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho-da-puta:
o pequeno filho-da-puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja,
o pequeno filho-da-puta.


II

o grande filho-da-puta
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho-da-puta,
e não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.

no entanto,
há filhos-da-puta
que já nascem grandes
e filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho-da-puta.

de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos
palmos, diz ainda
o grande filho-da-puta.

o grande filho-da-puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho-da-puta.

por isso
o grande filho-da-puta
tem orgulho em ser
o grande filho-da-puta.

todos
os pequenos filhos-da-puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
dentro do
grande filho-da-puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos-da-puta,
diz o
grande filho-da-puta.

tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos-da-puta,
diz
o grande filho-da-puta.

o grande filho-da-puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho-da-puta.

é o grande filho-da-puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa para ser
o pequeno filho-da-puta,
diz o
grande filho-da-puta.
de resto,
o grande filho-da-puta
vê com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho-da-puta:
o grande filho-da-puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja,
o grande filho-da-puta.



Poema de Alberto Pimenta

Salva-vidas?

Bonito mesmo é quando um montão de gente, de súbito, começa a querer mostrar serviço e isso passa por “abater” quem os rodeia.

Recorda-me aquele episódio que assisti em que um barquinho a remos, num lago recreativo em Lisboa, afundava e os quatro garotos a bordo trepavam uns por cima dos outros, tendo fugir ao inevitável banho.

Interessante também foi verificar em como os compinchas deles, num outro barquito ao lado, nada fizeram para os tirar da água.

A solidão da criatividade



A invenção da fotografia veio revolucionar a produção e posse da imagem.
Passados milénios desde a primeira gravura rupestre ou desenho na areia, finalmente a representação pictórica estava ao alcance de todos, deixando de ser necessário possuir dotes naturais para bastar saber fazer.
A técnica aliou-se à arte e o retrato, a paisagem, a informação visual, passaram a fazer parte do quotidiano.
Há quem afirme que a fotografia veio democratizar a imagem.
Século e meio depois, o advento do digital veio concretizar esta afirmação.
A fotografia deixou de ser o misterioso resultado da alquimia secreta do laboratório, mesmo que na lojinha do centro comercial, para estar ao alcance de todos. Pelo menos nas sociedades ocidentais ou ocidentalizadas.
Uma câmara, mesmo que embutida num telemóvel, e um computador pessoal e todo o processo técnico da produção fotográfica se banalizou.
Feliz banalização!
Este acesso “fácil” à produção da imagem fez com que muitos, que há vinte anos nem suspeitariam que poderiam ter satisfação no fazê-lo, hoje o possam descobrir. E levar a que muitos, com capacidades bem para além do domínio da técnica fotográfica, a possam usar com sucesso. Tanto no campo pessoal do acto criativo como no campo profissional e sucesso material.
E todos os dias surgem bons fotógrafos, que mais que saber fazer, são capazes de criar e inovar na produção da imagem.

Mas este realmente democratizar da imagem com o advento da técnica tem contrapartidas.
A fotografia já não é, hoje, só um acto criativo ou comercial. É também uma actividade lúdica e social.
E é ver, nos fins-de-semana, como grupos de gente com equipamento fotográfico se espraiam pelos jardins e praças, apontando as suas objectivas para qualquer coisa que reflicta a luz e seja fotografável. No meio de risadas, bom humor e salutar convívio, o que estes fotógrafos procuram não será, talvez, a expressão plástica daquilo que sentem (antes ou enquanto confrontados com o assunto fotografado) mas antes a competição em que cada um procura melhor dominar a câmara e melhor fotografar um assunto comum a todos.
Será, esta actividade, um acto de criação colectivo, uma mestria artesanal da moda fotográfica, uma socialização em torno da produção da imagem.
Sem dúvida que é fotografia, no seu sentido etimológico e técnico.
Será, também, uma forma de aprendizagem já que, ao ver o que o companheiro do lado fez, se tenta fazer equivalente nas mesmas circunstâncias. Do ponto de vista técnico e estético.
Mas é o relegar para segundo plano a relação íntima da criatividade. É um menorizar a relação do fotógrafo com o assunto. É um deixar de parte a criatividade individual para valorizar a criação colectiva. É a produção em uníssono de imagens fotográficas equivalentes ou iguais.
A socialização em torno da fotografia não é errada. E não o é pelo simples facto de que quem o pratica encontrar nisso satisfação ou felicidade. E isso não é – nunca – errado.
Mas os aspectos criativos, a busca pessoal de ir mais longe, a intimidade necessária para transpor para a matéria pensamentos ou sensações ficam muito limitados.

Não tenho dúvidas que o acima exposto irá deixar irritada ou incomodada muita gente. Muito boa gente, honesta e sincera no que faz e pensa. Gente que será capaz de me mandar às urtigas por o dizer.
Mas antes que, além de urtigas, me lancem pedras, sugiro um pequeno exercício.
Escolham uma mão-cheia de fotógrafos que admiram. Não importa a idade, nacionalidade ou época em que viveram. Gente cujo trabalho gostam e que, de um modo ou do outro, admiram e que gostariam de fazer igual ou equivalente.
Procurem saber sobre as suas vidas, métodos e grupos em que se envolveram. Procurem saber como conseguiram ou conseguem eles fazer os trabalhos que admiram. Paisagem, retrato, natureza morta, publicidade, reportagem, moda…
Constatarão, estou certo, que na esmagadora maioria dos casos esses trabalhos foram feitos na intimidade da relação do fotógrafo com o assunto e a câmara. Mesmo que rodeados de uma equipa de técnicos e fotógrafos.
A socialização que praticam ou praticavam em torno da fotografia passa ou passava pela troca de ideias e conhecimentos. Pela partilha de experiências e truques. Pela análise dos resultados e sugestão de abordagens. Pelo encontrar pistas que permitam ir mais longe. Não por fotografarem em grupo.

Tenho para mim, do que sei de outros fotógrafos e da minha própria experiência enquanto tal, que o acto fotográfico criativo é tão solitário quanto o escrever de um poema, o pintar de uma tela ou o compor uma melodia. É uma relação quase que narcisista de cada um consigo mesmo, uma intimidade solitária.
Nada disto impede a socialização em torno da fotografia. Muito pelo contrário!
Funcionar em circuito fechado, sem ir beber a outras fontes ou receber o feed-back do que se faz é limitador da evolução e criatividade.

Mas a sugestão que posso dar àqueles que querem levar a fotografia mais longe que apenas um passatempo é que o façam também ou principalmente a solo, procurando o diálogo íntimo com os assuntos que fotografam bem mais que com um companheiro de fotografias. 

By me 

domingo, 2 de novembro de 2014

Fraude



Na área da informação, a isenção é a pedra de toque.
As fantasias e ficções devem ficar restritas a comentadores e opinadores.
Na forma e no conteúdo, no que se vê, no que se ouve, no que se lê.
A separação entre os factos e as opiniões deve ser tão clara quanto azeite em água.

Qualquer outra abordagem, explícita ou sub-reptícia, é como aqueles fabricantes de enlatados que, com o mesmo tamanho da lata e o mesmo preço, diminuem a quantidade de conteúdo útil, aumentando o excipiente: fraude!

By me

22.45 - Rossio



Largo do Rossio, ou de D. Pedro IV, em Lisboa. Sábado, 22.45, 1 de Novembro.

A praça ex-libris da cidade está cheia de vida, pese embora a hora.
Na minha frente, o teatro Dona Maria. De luzes apagadas, na sua frente uma carrinha de uma ONG, que antigamente chamavam de “caridade”, distribui alimentos pelos “sem abrigo”, que antes se chamavam de “pobres”.
Ao centro, uma das fontes que ilustram a praça. As luzes a meio gás, sem água, exactamente como a sua irmã gémea, na outra ponta da praça.
Do lado esquerdo, duas moças e uma rapaz, repastam-se num pique-nique improvisado, saído de uns sacos de plástico e comido em cima de um dos bancos de pedra. São frios, os bancos, mas a noite está cálida, sem vento, e a juventude nem liga a tais minudências.
Do outro lado da praça, o restaurante de fast-food está repleto. Tal como no banco no meio da praça, a língua dominante é o inglês, mesmo que não seja nativa.
Mesmo em frente um carro patrulha. Do mesmo modo que o outro, que está nas minhas costas, encarregam-se de uma operação-stop, especialmente vocacionada para taxistas e camiões de mercadorias. Que, mesmo a esta hora e neste dia, aqui circulam. Ocasionalmente, lá fazem parar carros de matricula estrangeira ou motos potentes.
À esquina com o largo da Independência, o que resta do que parece ter sido um magusto, com meses e o que sobra de caixas e sacos. Aqui estão divertidos, tal como nos hambúrgueres e no banco ao centro da praça.
Só aqui.
Nem os restantes turistas, que atravessam a praça ignorando os semáforos, nem aqueles cujo negócio não muito claro (de dia ou de noite) e que se incomodam com a presença dos polícias, nem aquele estranho que segura uma câmara fotográfica com uma corrente de autoclismo… nenhum destes parecem divertidos, apesar de não relatados nem fotorregistados.

Nem sei para que faço o registo! Talvez que por causa das ondinhas no chão que, indiferentes a quem passa, ondulam contra tudo e contra todos,

By me 

sábado, 1 de novembro de 2014

Dualidades - Cogitando sobre pedagogia



Ao longo dos anos tenho estado envolvido em diversas acções de ensino/aprendizagem.
Todas elas envolveram aquilo que sei fazer (melhor ou pior) e revestiram-se de características bem diversas.
Desde o trabalhar com jovens nos chamados “tempos livres”, à formação profissional em ambiente de trabalho; da formação em ambiente formal de escola, aos apontamentos soltos sobre este ou aquele assunto; do trabalhar com adolescentes a grupos de adultos.
Nunca houve duas situações iguais, mesmo que em anos consecutivos na mesma instituição. Não há dois grupos de gente a querer aprender iguais!
Nem nas motivações, nem na facilidade, nem na interacção alunos (formandos, aprendizes) com os professores (formadores, auxiliares de aprendizagem), nem nas relações entre discentes, nem nas relações entre docentes…
A minha sorte tem sido, no meio de tantas variáveis saudáveis, o ter tido “pulso livre” nos conteúdos, precedências, organização e métodos. Mesmo quando os objectivos são semelhantes (“saber fazer” e “saber justificar”, teóricos e práticos), esta liberdade de acção tem-me permitido ajustar métodos e abordagens em função do grupo de trabalho, tentando tirar partido das diversas dinâmicas presentes, tanto do grupo como de cada indivíduo.
Tudo se torna muito mais fácil quando se trabalha com um grupo homogéneo. Homogéneo nos saberes e práticas anteriores, homogéneo nas motivações, homogéneo nas relações dentro do grupo, homogéneo na vontade de aprender, homogéneo na facilidade em aprender.
Quando algum destes factores diverge a coisa complica-se. E complica exponencialmente na medida em que aumenta o número de factores de divergência. E o factor mais complicado com que se pode lidar é a vontade de aprender. Melhor, a falta de vontade de aprender.
Em regra, esta manifesta-se entre os jovens.
É, naturalmente, muito mais divertido viver a vida lá fora que dentro de uma sala de aula, mesmo que esta seja um estúdio onde estão a praticar novos saberes. Esta situação resolve-se, as mais das vezes, com estratégias de estimular o interesse, quer seja pela descoberta de coisas novas, quer seja pelo alimentar o ego, quer seja pelo ajuste dos conteúdos às necessidades e curiosidades de quem aprende. Com diplomacia, boa-vontade e tratar cada um por si mesmo e não como mais um. Que se há coisa que todo o jovem, pré ou pós os vinte anos, gosta é de marcar o seu lugar ao sol.
Com não jovens, a falta de vontade em aprender é bem mais complicada. Desde logo nos motivos.
Muitos dos que frequentam locais de aprendizagem fazem-no não porque queiram realmente aprender e obter novas competências mas tão só porque o obter o respectivo certificado lhes permite melhorar a vida. É legítimo mas complicado de resolver, já que boa parte do trabalho de quem ajuda a aprender passa por criar a motivação para que tal aconteça.
Depois porque alguns dos que frequentam os locais de aprendizagem fazem-no porque o seu principal objectivo, mesmo que não assumido pelo próprio, é o convívio. A aprendizagem e tudo o que em torno dela acontece é um meio para que tal aconteça. Uma vez mais, contornar esta não vontade de aprender passa por criar motivação em tal. Quase metade do trabalho passa por tal.
Some-se-lhe que a vontade ou disposição de aprender acontece na proporção inversa da idade. Não é regra, nem pouco mais ou menos, mas é comum. Isto porque aprender implica treino. Treino no aceitar novas ideias e práticas, treino na capacidade de concentração, treino na capacidade de retenção ou entendimento. Na medida em que o tempo de vida vai passando, cada um vai criando zonas de conforto. Físico e intelectual. Aquilo que venha perturbar esse conforto provoca, naturalmente, desconforto. Que impede ou limita a aprendizagem e a vontade em a ter. Mesmo que de tal não se tenha a percepção.
É papel de quem ajuda a aprender o contornar estas limitações ou condicionantes. E com estratégias várias. Para além do estímulo individual, a diplomacia em não ferir susceptibilidades tem que ser muito maior que quando se trabalha com adolescentes. Tal como a graduação das complexidades dos novos saberes e competências tem que ser mais gradual e adaptada, tanto quanto possível, às necessidades e capacidades de cada um. Mais cuidado ainda que com adolescentes.
Obviamente que se um grupo de trabalho de não adolescentes é composto de gente com hábitos de aprendizagem, com mentes abertas para as novidade e a diferença e com tolerância interpessoal e intergeracional elevada, então é um prazer talvez que maior que com adolescentes. Que a experiência de cada um e os seus respectivos contributos valorizam em muito todo o trabalho do grupo.

Em todas as situações em que estive envolvido como ajudante de aprendizagem tive sempre a mesma dúvida. Para a qual espero nunca encontrar resposta.

Nunca sei quem mais aprende: se o grupo com quem estou a trabalhar se eu mesmo.

By me

Ética e pedagogia



Quando ouvi a campainha pela primeira vez disse cá para comigo: “Ora batatas! Esqueci-me!”
Resolvi a coisa como pude e tratei de me pôr em campo para não ser de novo apanhado: arranjei-me e fui tomar café, trazendo junto com o pão o que me faltava.
Da vez seguinte estava pronto, tal como nas duas mais que aconteceram.
Mas numa delas, as idades eram tão baixas e estavam sozinhas que nem me atrevi a propor. Da vez seguinte recebi um “não” por resposta, ainda que no meio de risos. Só da terceira consegui os meus propósitos: uma fotografia.
Falo de quê? De uma tradição por mim criada em face da tradição inventada do “doçuras ou travessuras”: Em abrindo a porta e vendo os petizes, rindo, fazendo o pedido, respondo “troco” de imediato. E perante a surpresa deles, acrescento: “Contribuo em troca de uma fotografia”.
Para tal, tenho um saco com “doçuras” (rebuçados ou pastilhas ou bolinhos pequenos) comprados propositadamente para o negócio.
Todos os anos consigo uma, duas ou três, dependendo do dia da semana em que acontece e das horas em que estou em casa.
Mas, a seguir a fazer a fotografia e de lhas mostrar, acrescento uma lição de moral:
“Vocês não deviam permitir o fazer de uma fotografia por um estranho. Não me conhecem nem sabem o uso que posso dar-lhe. Da próxima digam que não.”
Ficam a olhar para mim, estranhando o recado, e acabam por se rir e seguir para outras portas. E eu regresso aos meus afazeres, sabendo que cumpri o que entendo que devo fazer.
Das que tenho feito ao longo dos tempos, apenas uma exibi. Três mocinhas talvez que com quinze ou dezasseis anos que, de tão mascaradas estavam, nem se lhes podia reconhecer as feições. Todas as outras têm ficado – e continuarão – no recato do meu arquivo.
Esta de ontem? Bem, foi um fiasco técnico meu com o flash, logo corrigido.

E serve para ilustrar o que não deve ser feito.

By me