terça-feira, 8 de janeiro de 2019

I'm blue. Or not.



By me

Viajando




Há sempre algo de belo, mesmo que atrás de um portão de um saguão, fechado com corrente e cadeado ferrugentos.
É a história que nos conta, ou que imaginamos, que nos faz ir além das superfícies, do pó, do abandono.
Ultrapassar a barreira física do espaço e do tempo, mergulhar no que foi e ouvir os ruídos, sentir os cheiros, os movimentos, os paladares…


By me

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Simetrias




Na procura do belo, usando os deuses como exemplo, o Homem procura a simetria como fórmula magistral. Na figura humana em geral e no rosto em particular, a representação do corpo ideal é, desde sempre, o simétrico.
Na pintura, na escultura, na arquitectura, esta enquanto lugar de vivência e aparência exterior do que no interior acontece.
Mas a simetria mais não é que a excepção da natureza. Os corpos, mesmo que aparentem sê-lo, não são simétricos. O seu interior, congénito e natural, o seu exterior à nascença e com a evolução do individuo. Mesmo entre os vegetais, a simetria perfeita é rara, quase mesmo que uma aberração, O terreno de onde cresce, o lado mais exposto ou não ao sol, os ventos dominantes… de um modo ou outro a simetria é a peça rara deste puzzle a que chamamos planeta.
E mesmo saindo dele, do pouco que conhecemos do imenso universo em que existimos, a esfericidade, a equidistância, os ângulos rectos… são peças fúteis de procurar, tanto quanto um corpo simétrico.
Mesmo os movimentos dos corpos celestes, no imenso “vazio” em que se encontram, não são simétricos ou exactamente iguais, mas antes evolutivos, como se a perfeição da forma (e do tempo) fosse algo ainda não encontrada.
Por cá o Homem tenta igualar os deuses, ou as suas manifestações visíveis: a natureza.
Mas parece ignorar que a cada minuto esses mesmos deuses se divertem em frustrar os planos humanos, mostrando e evidenciando as nossas falhas, fazendo com que aquilo que queremos perfeito (e simétrico) nos seja mostrado exactamente da forma oposta. Há um momento, um brevíssimo instante, em que a posição aparente do sol nos mostra essa raridade que procuramos: a simetria. Depois continua no seu caminho, como se nada fossemos (e não somos) exibindo a futilidade dos nossos esforços.
Talvez que a perfeição dos deuses esteja mesmo aí: na evolução, na modificação, na procura sempiterna de um ponto tal que, em atingido, nada mais faça sentido procurar ou fazer. Nem mesmo para eles, os deuses.
E se os deuses o são, quem seremos nós para encontrar perfeição numa simetria de forma e tempo que eles não criaram? Nem permitem?
Não vêem as sombras?
Pentax K7, 50mm f/1,2, medição TTL

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Negócios ou talvez não




Sempre gostava de saber quem foi a cabeça privilegiada que inventou o copiar placas toponímicas de outros países para Lisboa.
Provavelmente, as clássicas de pedra, cravadas na parede, são tão arcaicas que os turistas não as saberiam identificar ou ler.
Ou, quem sabe, é sócio na empresa que fez o estudo ou na fábrica que as vende ou coloca.



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Limpinho




Por vezes é bom ver como enquadramentos integrais, sem tratamento posterior, de uma parede perto de casa funcionam.
As actuais tecnologias de processamento de imagem são um mundo, que eu até nem domino em profundidade.
Mas saber que “à moda antiga” tem iguais resultados é bom, saibamo-lo fazer na tomada de vista.
Pentax K7, 50mm f/1,2.

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domingo, 6 de janeiro de 2019

Opções




Enquanto te preocupares com o equipamento e com o que ele pode fazer em vez de te questionares com a luz, com o assunto e com o que queres mostrar, não serás um fotógrafo mas antes um eventual bom vendedor de tralha e um mero registador de instantaneos.



By me

Diaphoto




Fotografar é medianamente fácil. Olhamos para o assunto, gostamos do que vemos, a luz é do nosso agrado e apontamos a câmara. E deixamos o controlo de exposição aos automatismos.
Alguns, não muitos, interpretam ou avaliam as indicações do exposímetro da câmara, seguindo as suas indicações ou conjugando as leituras com a análise da luz existente, bem como das reflectâncias dos elementos na imagem.
Mas… e antes de haver forma de avaliar e medir a luz através da câmara? Como era?
Usavam-se aparelhos de medida, manuais e externos: fotómetros ou exposímetros.
A diferença entre os termos (e sei que o segundo é estranho) está nas leituras que neles podemos fazer. Os fotómetros indicam-nos a quantidade de luz em “foot-candle”, ou “candela por pé quadrado”, havendo alguns que usam outra unidade, o “Lux”. Dessa leitura, e conjugada com a sensibilidade do material de registo luminoso, deduz-se tempo e abertura. Através de cálculos complexos ou, o que é generalizado, usando uma escala de correspondências integrada no aparelho.
Por sua vez o exposímetro apenas nos dá valores de exposição, ficando o seu utilizador sem saber a quantidade de luz. Profissionalmente usam-se os primeiros, que nos permitem fazer outros tipos de interpretação.
Grosso modo, destes aparelhos de medida existem dois tipos: os que, ao receberem a luz geram energia eléctrica que é quantificada ou os que, em recebendo a luz variam a resistencia à passagem de energia eléctrica, resistência essa igualmente quantificada. Nos segundos, é necessário fornecer a energia, em regra usando pilhas ou baterias.
Ambos os sistemas têm vantagens, sendo que os últimos são mais exactos quando existem tipos de luz com temperaturas de cor extremas, muito altas ou muito baixas: muitos azuis ou muitos vermelhos.
Mas… e como faziam os fotógrafos antes destes sistemas existirem? Como mediam a luz ou calculavam a exposição?
A experiência, fruto de tentativa e erro, era a pedra de toque. Consta que alguns fotógrafos, aquando do surgimento dos aparelhos de medida de luz, mesmo depois de os usarem ajustavam as leituras obtidas às suas próprias experiências visuais e de laboratório. Convenhamos que o rigor seria diminuto, mas a satisfação por se obter o efeito desejado seria grande, certamente.
Mas existia outro sistema que, ainda que dependesse da experiência do seu utilizador, era um auxiliar precioso: o extintómetro.
O seu sistema de funcionamento era relativamente simples: Olhando-se por um orifício, fazia-se deslocar à sua frente uma cunha fumada, cuja transparência ia da máxima até à opacidade. Quando o observador deixasse de ver parte do assunto, parte essa que dependia da calibração feita pelo fabricante, consultava-se a tabela do aparelho para se saber a relação tempo-abertura em função da sensibilidade.
Método estranho e de rigor bem duvidoso, mas na época fotografar, mais que uma ciência, era uma arte ou artesanato, com tudo o que isso implica.

Ao longo da minha vida havia visto apenas um aparelho desses. Em óptimo estado de conservação, ainda razoavelmente rigoroso, pertencia a um companheiro de andança fotográficas e lectivas. Que nunca se deixou convencer a vender-mo, ofertar-mo ou mesmo deixar-se “roubar”. Quando ia a sua casa, ficava eu a admira-lo, se não estivesse sacramentalmente guardado numa gaveta.
Há uns tempos, numa feira de velharias no Jardim da Estrela, dou com um. Ao preço pouco mais que simbólico de 15 euros. Confesso que se me tivessem pedido 3 ou 4 vezes esse valor, tê-lo-ia dado sem pensar muito. E, tão ou mais interessante ou excitante o tê-lo encontrado, foi que quem o vendia não sabia como funciona ou para que serve. Só depois do negócio feito lho expliquei.
Nos tempos que correm, nem deu muito trabalho a encontrar referencias. Referencias ao fabricante e data de fabrico, bem como o respectivo manual de instruções.

Para os que ainda pensavam que o jardim da Estrela não é um mundo cheio de surpresas, espero que tenham mudado de opinião.



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sábado, 5 de janeiro de 2019

Polícia do pensamento




As coisas são o que são e o tempo muda as embalagens mas não os conteúdos.
Está toda a gente, das redes sociais ao governo, passando por classes profissionais, escandalizadas com uma entrevista feita a um líder de extrema-direita. Dizem, com alguma razão, que foi dar tempo de antena e visibilidade a gente que melhor seria estar longe de nós, que os seus ideais são perigosos, tal como as suas práticas.
É um consenso de opiniões. Atitudes equivalentes às que aconteceram no pós revolução, em que os simpatizantes do antigo regime eram votados ao olvido, meio para que as suas ideias não voltassem, meio como forma de muitos sobrevivessem ao “caça às bruxas” da época.
Faz sentido considerando o pensar colectivo. De então e de agora.
Mas vejo os mesmos (ou quase) a ficarem indignados com a anunciada perseguição a pensadores comunistas e socialistas no brasil. Anunciada pelos novos governantes e sem disfarce algum. Logo no dia seguinte a estar em funções.
Convenhamos que o pensamento fascista não se pode comparar ao pensamento socialista ou comunista. Pese embora algumas ditaduras ditas comunistas não serem melhores que qualquer ditadura fascista. Nem as práticas.
Mas os crimes de pensamento (ou a polícia do pensamento, como descreveu Orwell) são tão perigosas num como noutro regime, sejam quais forem os alvos.
Pensar faz parte da liberdade. Privar o direito a pensar é limitar a liberdade. E o conceito “excesso de liberdade” é perigoso na medida em que haverá que definir os limites à liberdade e saber quem os define. Um ditador também defende a liberdade, dentro dos seus próprios moldes.
Perseguir, seja de que forma for, quem pensa diferente de nós é limitar a liberdade. E sabemos o que isso foi por cá, noutros tempos. Ou o que está a começar a acontecer por cá, agora. Um bom exemplo de perseguição à liberdade de pensar é o que acontece com as críticas à entrevista deste perigoso extremista. Este é de direita, mas poderia ser de esquerda, ou de uma profissão de fé, ou de um clube de futebol.
Deveremos agir, individual ou colectivamente, para que os pensamentos que atentem contra a liberdade não possam tomar forma. E uma boa forma de o fazer é não lhes dar publicidade.
Mas impedir que se expressem, calando-os ou censurando-os, é tão grave quanto atirar para um calabouço ou despedir alguém porque segue outra linha de pensamento. Ou fé.
Não será fácil gerir o equilíbrio entre os pensamentos e as paixões. Mas quando deixamos que as segundas tomem posse dos nossos actos, estamos a renegar os nossos próprios pensamentos.
Qualquer tipo de ditadura é perigosa. A que incide no pensamento será a pior, vinda de que lado vier.



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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Os pequenos donos da chave da retrete




Fala-se, em tudo quanto é media, na entrevista feita a um conhecido activista de extrema-direita em Portugal. Pessoa que já foi condenada por práticas relacionadas com os ideais que defende.
Infelizmente, este é apenas um líder a quem, eventualmente a comunicação social dá destaque. Pela positiva ou pela negativa.
O pior, mesmo, são os outros. Aqueles que não são lideres de coisa nenhuma mas praticam o mesmo ou equivalente.
Os que, activamente, praticam a discriminação negativa por género, cor ou ideias. Os que censuram quem fala, impondo a lei da rolha ou remetendo-os para locais inócuos. Os que, em lugar decisório, chamam a comentar a vida portuguesa gente sempre do mesmo quadrante, deixando de fora outras formas de pensar, mesmo que não extremistas. Os que, no escondido, mandam calar porque “falas e escreves demais” ou que se escondem no anonimato para imporem comportamentos e ideias.
São os quase anónimos, do nosso quotidiano, que se vão impondo, com sorrisos e falinhas mansas mas saudosos de tempos malditos. São os que, dizendo-se democratas, agem em contrário.
Ao Mário Machado deram tempo de antena e, por causa disso, irá entrar no olvido mediático. Os outros, de quem não se fala mas que conhecemos, ganham terreno com a nossa complacência.
É desses que tenho medo. Dos pequenos títeres, dos “donos da chave da retrete”, dos que, por pura ambição de poder, tentam subir usando os demais como degrau.
É contra esses muitos que me bato, se ao que faço se pode chamar bater. No trabalho, no café, no autocarro. Com conversa e actos que não apenas os impeçam de vingar como os denuncie em público pelos seus comezinhos comportamentos.
Enquanto deixarmos os pequenos propagarem os seus pensamentos e acções, teremos sempre o risco de termos Trumps ou Bolsonaros a guindarem-se e a estarem legitimamente a influir fortemente na nossa liberdade ser e pensar.



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Elogios




Não será o que há de mais bonito de contar, mas sempre aqui vai: há uns dias fizeram-me um dos mais rasgados elogios que me poderiam fazer.
Gente que me conhece desde há muito terá comentado que, e para além do meu desempenho profissional, eu era (ou sou) uma carta fora do baralho.
É particularmente curiosa esta expressão, em que nunca tinha pensado, mas que acho que se aplica perfeitamente.
Em qualquer uma das actividades que já exerci, tanto individualmente quanto integrado em equipas de trabalho, sempre fui o crítico, o que procura entender antes de executar, o que procura a justificação teórica e prática que melhor permita o resultado final.
E se isto é fácil e natural em tarefas ou trabalhos individuais, em equipa a coisa é mais difícil. Que muitos são os que, mesmo fazendo muito bem o que deles se espera, o fazem de forma mais automática, sem questionarem ou ponderarem os porquês do como desempenham as tarefas. E haver quem questione, quem pare para pensar, quem não seja um “Maria vai com as outras”, pode dificultar o trabalho do conjunto, mesmo que o resultado seja tão bom ou melhor que o previsto. E nem sempre o será.
Acontece que nunca deixei ter em mente uma forma de agir: “Se eu souber porquê, sei como”. Mesmo que isso signifique ter ouvido, num outro contexto e num outro tempo, que “É bom haver sempre alguém que sabe por um pauzinho na engrenagem”.
Talvez que o ser uma carta fora do baralho seja uma perturbação da vida regular, monótona e tranquila para muitos. Mas não sei ser de outra forma e dizerem-no é, do meu ponto de vista, um valente elogio.

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