segunda-feira, 19 de junho de 2017

sábado, 17 de junho de 2017

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Se vocês acham que isto é calor, haviam de estar com uma câmara de quinze quilos no ombro, no cimo de um escadote com um projector de 2kw a dois metros das costas.

Num estúdio sem ar condicionado e por mais de duas horas.
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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Não basta



Não basta estar calor! A sombra de um prédio não é igual à de uma árvore frondosa.
Não basta ter apetite! Encher a barriga não é o mesmo que apreciar o que se come.
Não basta gostar! Uma cambalhota não é o mesmo que amar.


Os que se ficam pelo que basta limitam-se a existir. Os outros vivem.

By me

A rosa



As coisas já não são o que eram.
Esta bonita rosa encontra-se a escassos 250 metros de uma escola secundária. Em tempos chamávamos-lhe liceu e eu frequentei-o anos a fio.
Pois esta rosa está pacatamente do outro lado de um muro baixo, junto com irmãs e primas, umas assim, outras brancas, outras ainda cor-de-rosa. Incólumes!
No meu tempo, de estudante, é seguro que nenhum jardim nas imediações do meu liceu teria tantas e tão bonitas rosas!
Garantidamente que já teriam sido colhidas, por mim ou por outros, para as oferecer às namoradas. Sei-o porque o fiz e sei-o porque não poucas vezes me piquei, gloriosamente, nos seus espinhos.
Dir-me-ão que roubar rosas de um jardim é crime. Pois será! Mas é romântico!
E algum apaixonado olha a tais minudências quando se trata de agradar à sua amada?
Pergunto-me o que darão os garotos e rapazes de hoje ás suas namoradas, de longo ou curto prazo, se não se atrevem a palmar uma rosa de um jardim.

De um jardim de rua ou do jardim da vida.

By me

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Retratos



Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, uma fotografia não é uma representação do que foi fotografado!
Claro que, ao olharmos para ela, vemos as pessoas, os locais, os objectos. Aquilo que o fotógrafo viu com os olhos e com a objectiva. Vemos o pedaço de espaço-tempo que ele imortalizou com a sua perspectiva.
Mas também vemos, e isso é o principal numa fotografia, o seu estado de alma, a sua perspectiva interior. O facto de ele ter escolhido aquele instante e não um pouco antes ou depois, de ter optado por aquele ponto de vista e não um pouco mais ao lado, o ter sido com aquele ângulo de visão e não mais aberto ou fechado, mostra-nos como ele se sentiu naquele momento, ao olhar, ver e captar.
Indo ainda mais longe, mostra-nos, caso ele – o fotógrafo – nos mostre a fotografia que realizou, que ela é de facto um reflexo dos seus sentimentos e estados de alma. Porque senão o fosse, e ainda que tivesse obturado a câmara, teria ficado esquecida num qualquer arquivo ou caixa.
O corolário desta afirmação (A fotografia é um retrato do fotógrafo e não do fotografado) é fácil de encontrar.
Aqueles que, por um qualquer motivo, transportam consigo em permanência uma câmara fotográfica, acabam por fotografar inúmeras vezes o mesmo assunto. Com variações de luz, de hora, de circunstância. E de elementos variáveis como pessoas, animais, sombras…
O que faz, então, o fotógrafo fotografar o que já fotografou? Registar o que já está registado? A forma como viu o que já está visto! Como sentiu aquilo que conhece de perto. E os sentimentos, tal como a luz, mudam ao sabor dos acontecimentos. Umas vezes abordagens positivas, outras negativas, um pôr-do-sol pode ser um fim de dia ou um inicio de noite. A mesma porta será uma entrada ou uma saída. O mesmo sorriso um convite ou um sarcasmo.
A fotografia não retrata o que está à frente da objectiva mas antes o que está atrás do visor!

A fotografia é uma impressão digital da alma, em que a luz mais não é que a tinta!

By me

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Não gosto



Não, não gosto de dinheiro!
Começando pelo simples facto de, ele mesmo, ser coisa alguma. Não é mais que um símbolo, representando os valores que atribuímos ao que temos ou produzimos. O dinheiro é uma ilusão! Uma mera equivalência!
Segue-se que cada um de nós não possui o dinheiro que tem na carteira ou bolso. É propriedade do banco emissor e qualquer tentativa de danificar ou destruir notas ou moedas é punível por lei. O dinheiro que supostamente ganhamos não nos pertence!
Claro que também há que considerar que o dinheiro que não possuímos e que é uma ilusão está mal distribuído. Pessoas há que, por o terem em abundância, comem para além da saciedade, deitando fora os restos e sobras, enquanto que outros, à míngua de o terem, comem aquém do básico, e dos detritos dos outros. Não se dispor de dinheiro implica fome e sofrimento.
Acrescente-se que tudo, ou quase, se faz por dinheiro ou com o fito de o obter. Actos gratuitos, sem terem por objectivo a obtenção de dinheiro, aquilo que não nos pertence, que é uma ilusão e que provoca sofrimento, é olhado com desconfiança, por vezes mesmo com medo. O bastante para ser, frequentemente recusado, por insólito, porque fora da normalidade, vá-se lá saber o que é “normalidade”! O dinheiro, origem de sofrimento, ilusão e fugidio, é também um atestado de credibilidade.
Curiosamente, veja-se a crise mundial recente e constate-se como tudo o que acima dito corresponde a ela!

Pois tenho para mim que o dinheiro, não sendo “O” mal da sociedade, é certamente um deles e que estaríamos bem melhor se ele não existisse ou mesmo se nunca tivesse sido inventado.
Cada um deveria exercer a sua actividade, na medida dos seus saberes e capacidades, e ter, sem ser em troca mas naturalmente, o resultado das actividades dos restantes elementos da sociedade. Sem dinheiro pelo caminho, que significasse coisa alguma, sem provocar sofrimento e sem testemunhos de credibilidade. Cada um vale o que vale por si mesmo e não devido a uma qualquer certificado volátil.
É assim que penso e que procuro agir, na medida em que a sociedade em que estou inserido o permite. E se tenho que ter um trabalho que me permita comer, vestir, abrigar e alimentar, em parte, o espírito, procuro que parte dos meus actos sejam coerentes com os meus ideais. É o caso da fotografia!
Faço questão de com ela não fazer negócio, de dela não obter dinheiro em troca. Fotografo se e quando quero e, no caso de mo pedirem, não cobro nem apresento contas. Na melhor das hipóteses, espero e sugiro que quem fica com as imagens que produzo tenha comportamentos equivalentes, usando dos seus saberes e competências em beneficio da comunidade e sem esperar obter nada em troca.
Conseguir que tal suceda será o meu lucro, real e palpável, verdadeiro certificado das qualidades de quem o faz, provocando prazer no lugar de sofrimento. Com a “vantagem” de não ser colectável em impostos!
Recentemente pediram-me para fotografar uma família que, indo a um evento de circunstância, gostaria de ficar com recordações do momento e dos trajes usados. Claro que o fiz, para prazer mútuo. O problema virá, em breve, na aceitação por parte deles que não há dinheiro envolvido e que das fotografias já entregues gostaria apenas de vir a saber que algo de equivalente da parte deles foi feito a terceiros.

É que, sabem, eu não gosto mesmo de dinheiro!

By me

terça-feira, 13 de junho de 2017

Facilitador



Acordei hoje com esta expressão gravada fundo na cabeça:
“Facilitador de aprendizagem”!
Acho que será algo que passarei a usar amiúde.

Não sou professor. Para além de não saber muito de fotografia, também não sei muito de pedagogia. E não tenho nenhum título académico, dos que enchem o olho e tanto estão na moda.
Também não sou formador. O próprio termo me incomoda, que provém de forma, deriva em formatação e redunda em falta de criatividade de quem aprende.
Mestre também não se me aplica. Teria que saber fazer muito mais e melhor do que sei. Tive uns três mestres de ofício na vida e bem sei do que falo.
Acrescento que sempre entendi que nunca ensinei nada mas tão só ajudei a aprender, já que o importante sempre foi a aprendizagem e não o ensino

Sobra-me, assim, esta expressão: “facilitador de aprendizagem”.
Dispor perante os que querem aprender os conhecimentos de molde a que a aprendizagem se faça. Completa, simples e com facilidade.


O que, juro, não tenho por tarefa fácil. Mas imensamente divertida e compensadora.

By me

Um olhar - A história



Uma ocasião entro eu numa loja de artigos de belas artes, em Lisboa, em busca de um bloco de notas com o formato de que gosto e que sei já só se encontrar neste tipo de comércio.
Conversa vai, conversa vem, e consigo convencer a empregada que ali trabalha a deixar que lhe fotografe os olhos. Não foi fácil o convencê-la, tanto mais que tivemos que vir para a ponta do balcão, que a luz no interior não me chegava.
Aquilo que não veio junto com o bloco de notas e a fotografia foi o seu nome, que não mo quis dar. Inventei um na hora, um que os arquivos de identificação não aceitam para registo mas que ela aceitou, e foi o que ficou no meu próprio registo fotográfico.
Um ano depois entrei de novo na mesma loja, desta feita em busca de um outro artigo bem mais difícil de encontrar. Não o tinham, como eu já suspeitava, mas tinha ela, a “menina”, uma boa memória que me surpreendeu.
Perguntou-me se não teria sido eu que, em tempos, lhe havia “tirado” uma fotografia ali mesmo, na loja. E queria saber o que havia eu feito com ela.
E se eu, sem pensar no assunto, não me recordava do episódio, assim que a “menina” o referiu recordei-me de imediato. E foi questão de, enquanto dávamos dois dedos de conversa extra, ligar o portátil e procurar no arquivo on-line a referida imagem. Mostrei-lha, fiz cópia e enviei-lha, muito naturalmente. E fiquei a saber aquilo que há um ano me tinha sido sonegado: o seu nome.

Tem esta história todos os ingredientes para ser uma história feliz, com prólogo, desenvolvimento e epílogo. Excepto na sua moral.
Se para nós, que lidamos com a fotografia como um padeiro lida com pãezinhos, cada fotografia é única mas é mais uma no meio de centenas ou milhares, para os fotografados assim não é.
De cada vez que escolhemos alguém para fotografar e interagimos com essa pessoa, passa ela de “Uma” pessoa a “Aquela” pessoa. É-lhe dada uma importância bem fora do habitual e, durante aqueles breves minutos de conversa e click, passou a ser o centro do universo. Para benefício mútuo de quem regista e é registado.
E se nós, fotógrafos, estamos habituados a recortar o universo em pequenos rectângulos de luz, para quem assim é recortado é um daqueles momentos “para mais tarde recordar”.
A situação, no seu todo, não me foi original. Já muitos foram os que me abordaram, recordando-me que os havia fotografado nesta ou naquela situação. Mas veio a “menina” (mantenhamos um véu pudico sobre o seu nome) recordar-me da responsabilidade que temos, nós os fotógrafos, para com quem fotografamos, na forma como o fazemos, nos destinos que damos a cada registo e no respeito que devemos ter para com a pessoa que, sabendo-o ou não, nos permite ter mais um nico do universo guardado na câmara.
E se sobre a Ética muitos foram já os que pensaram e escreveram, muitos mais são os que esquecem ou nunca souberam o que é a Ética Fotográfica.


Que o uso e porte de câmara bem como o recortarmos e guardarmos o universo em pequenos pedaços, não nos dá o direito de omnipotência sobre ele ou sobre os registos.

By me

segunda-feira, 12 de junho de 2017

A escada



Há uns dias desembarquei numa estação de caminho de ferro e deparei-me com o que já sabia:
A saída das plataformas para o exterior faz-se, exclusivamente, por escadas mecânicas ou por elevador. As bilheteiras encontram-se num piso superior e transversal à linha, evitando assim os atravessamentos no trajecto dos comboios. Segurança e rapidez.
Mas que o que eu esperava também aconteceu: o elevador e a escada desligados.
A única solução é trepar pelos degraus metálicos, que outros não existem nem rampas, vencendo a sua altura que, e é sabido, é muito maior que os de alvenaria.
Fiquei a olhar para aquilo e a ver duas senhoras idosas que se deixaram ficar para últimas para poderem fazer aquele caminho de calvário com a lentidão que o seu peso e maleitas implicavam. De doer a alma.
Quando eu mesmo terminei a escalada, esperava-me o pior:
Um jovem mãe, com um enorme carrinho de bebé com uma minúscula criança a dormir no seu interior, perguntava-se como haveria de descer. Aos saltos naqueles degraus infames não seria e agarrado em braços também não.
Acabei por lhe propor uma solução de compromisso: ela levaria o bebé ao colo e eu desceria com o carrinho.
Desceu ela e esperei eu ao cimo das escadas, que entretanto chegara outro comboio e quem subia não dava espaço para eu descer com aquele volume.
O seu olhar desconfiado lá em baixo bem mostrava o invulgar da nossa situação, mas não encontrei alternativa. Compensou o agradecimento efusivo que exprimiu quando lá cheguei.
Fica a pergunta: E amanhã? E depois? E quem usar muletas ou cadeira de rodas? Ou quem já não tiver forças ao fim do dia para aquele Evereste metálico?

A frieza dos números nas secretárias dos gestores distantes é terrível! E bem que os gostaria de ver confrontados diariamente com aquele suplício.

By me 

domingo, 11 de junho de 2017