Foi talvez há um pouco mais de quarenta anos, não posso
precisar.
Fui contratado por uma agência para fazer as fotografias de
uma campanha publicitária de uma fábrica de camisas. Um trabalho de
envergadura, com produção complexa, que envolvia fotografar modelos em locais
alugados, o produto acabado em lojas e a fábrica em laboração.
Fotografado em formato 9x12, com uma câmara Linhof que havia
comprado pouco tempo antes.
Quando o trabalho me chegou às mãos já quase tudo estava
combinado entre o produtor e o cliente, ficando a meu cargo as questões
técnicas e estéticas, e pouco de publicidade ou comunicação.
O trabalho correu mais ou menos bem, com alguns episódios
caricatos e algumas falhas da minha parte, mas que fui resolvendo como podia. E
eu era um bocado inexperiente.
O último dia de produção era na fábrica. A mais complicada
em termos de luz, considerando a enormidade do espaço: uma nave grande, cheia
de gente a costurar, com uma mistura de luz natural entrada pelas janelas e
telhado e luz fluorescente vinda do tecto. Um pesadelo, se considerarmos que o
trabalho era a cores e não havia photoshop para correcções posteriores.
Enquanto o produtor e o cliente ficavam à conversa, eu
passeei-me pelo espaço, tentado senti-lo: máquinas, pessoas, luz, acções…
E apercebi-me de sorrisos constrangidos das senhoras que iam
costurando ou cortando as peças de tecido. Fui metendo conversa com elas.
Fiquei sabendo que tinham sido avisadas da nossa vinda, que
haveriam de vir com uma bata lavada e penteadas para as fotografias. Mas
bastantes, algumas com idade para serem minhas avós, não queriam ser
fotografadas. Ou por timidez, ou porque não gostavam da forma como ali eram
tratadas, ou tão simplesmente porque não gostavam de fotografias. Sempre em tom
baixo de conversa, não fosse serem ouvidas.
Eu era ainda puto, a experiência reduzida e o trabalho
poderia lançar-me para outros voos. Mas aquilo foi-me batendo forte. Muito
forte! Eu iria fotografar gente que não queria ser fotografada mas que era
obrigada a isso pelo patrão. Não gostei. Nem um nico!
Regressei para junto do grupo que me aguardava: O dono da
fábrica, a sua secretária, o produtor e o Jorge F., o meu assistente,
inigualável no seu desempenho, que me entendia e me completava nas tarefas como
nenhum outro com quem trabalhei. E disse-lhes que o trabalho não podia ser
feito como combinado.
Ficaram a olhar para mim com ar espantado. E expliquei com
argumentos técnicos e estéticos não iriam ser possível fazer boas imagens com a
presença humana, já que ficariam tremidas ou com cores estranhas e que a
solução seria fotografar a fábrica e a maquinaria por pedaços em vez de por
inteiro e sem a presença das operárias.
A discussão foi renhida, entre mim, o dono da fábrica e o
produtor. De parte, o Jorge, junto da tralha entretanto já descarregada, olhava
para mim e sorria discretamente. Disse-me, mais tarde, que havia percebido o
que eu queria com aquilo.
Acabei por ganhar a batalha. Afinal, mesmo sendo puto, eu
era o “expert” na coisa e aquilo que propunha não iria alterar em muito o
conjunto do projecto inicial. E, depois do almoço, a produção parou por
algumas, não muitas, horas.
As imagens foram feitas, com as máquinas bonitas, brilhantes
e eficientes, com peças a meio do tratamento tanto de corte como de costura ou
dobragem e embalamento. Mas sem ninguém contrariado nelas. Nem com sorrisos
contristados nem com mãos calejadas ou com cicatrizes.
Quando, no final dos trabalhos, estávamos a arrumar a tralha
e as operárias regressaram às suas máquinas, os sorrisos de algumas pagaram
muito bem pago o só ter feito mais um trabalho, já agendado, para este
produtor.
Ainda hoje as recordo.
Nota extra: A fotografia não é da época. Os originais, em
diapositivo 4x5, foram entregues ao cliente na altura. Esta foi feita ali, a
correr, para acompanhar o texto.
Pentax K7,
Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5
By me


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