quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Dos invisíveis




De algum modo todos nós acompanhamos a tempestade que atravessou o país. Quer fosse porque se a viveu, quer fosse porque a comunicação dela falou.

Casas destelhadas, gente que morreu, negócios, indústrias, colheitas, áreas inundadas, falência de serviços e bens básicos... de quase tudo se falou e mostrou.

O que ficou de fora das pantalhas e letras, gordas ou magras, foi o que aconteceu aos vivem nos cartões ou frageis tendas.

Esses, os invisíveis que mais não são que os incómodos porque nos abordam à porta do supermercado ou nas esplanadas, a quem se vira a cara e que nem uma negação de ajuda têm direito porque lhes damos as costas, de quem nos desviamos porque o seu aspecto incomoda o nosso sentido de ordem pequeno-burguês, esses invisíveis não eleitores, não cidadãos, não pessoas, sem rosto nem voz, não tiveram nem cinco segundos ou duas linhas na comunicação social.

Que mais grave é o voar do telhado da indústria que a frágil tenda; que mal falam para as câmaras, que vergonha têm de terem perdido os cartões ou de terem os finos cobertores encharcados. E que sabem que as moedinhas à porta do supermercado vão rarear até os telhados se refazerem e as luzes voltarem a iluminar o sofá onde se acede às redes sociais.

Dos fracos não reza a histórias. Nem os noticiários.

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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