sábado, 24 de janeiro de 2026

Areia para os olhos




Vamos andando entretidos com as diatribes que nos aparecem lá do outro lado do Atlântico. E com as lutas presidenciais por cá. E as guerras a oriente, europeias ou mediterrânicas. E as horas de espera nos hospitais. E as depressões e tempestades, que mandam fechar estradas e suspender aulas. E os conflitos laborais, públicos ou privados.

E, no meio de tudo isto e o mais que venda jornais ou aberturas de noticiários, outras questões há que, na sombra de todas aquelas, vão sendo noticiadas mas quase que por engano.

Questões que não são urgentes mas que marcarão o futuro quotidiano de muitos milhares de portugueses. Em permanência.

Questões que não são de urgência ou de solvência mas tão só porque apetece à elite dirigente. Questões ideológicas, e à revelia dos programas eleitorais, que vão moldando aos poucos a sociedade sem que esta se possa pronunciar sobre o assunto.

No caso concreto, a eventual mas anunciada privatização das linhas urbanas da CP.

Aquelas linhas que transportam muitos milhares de cidadãos de e para o trabalho, gente que não tem alternativa nesse serviço público e imprescindível.

Porque, e não nos enganemos, a palavra chave desta classe dirigente é “privatizar”. Ideologicamente. Colocar os que menos têm a pagar para os que mais têm, através de serviços que são de todos e que querem só de alguns.

E vão-no fazendo com a discrição que conseguem, entre uma tempestade e uma sala de espera, à sombra de uma qualquer chacina lá longe. Com a cumplicidade dos media. Privados ou não.

Citando Saramago: “... e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.”

 

Nikon Coolpix P7000

 By me

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