domingo, 31 de maio de 2020

Mestre



A história conheço-a mais ou menos assim:

Um jovem arqueiro, o melhor da sua aldeia, quis ser melhor ainda e foi ter com um mestre arqueiro, que vivia isolado no alto de uma montanha.
Perguntou o jovem:
“Mestre: como consigo atingir a sua perfeição?”
“Consegues”, disse o mestre, “fazer chegar a tua flecha tão alto quanto o voo de uma águia?”
“Mas mestre, isso é quase impossível!”
“Quando o conseguires vem falar comigo.”
O jovem voltou para a sua aldeia e praticou, praticou, praticou. E voltou à montanha.
“Mestre: a minha flecha já vai tão alta quanto o voo da águia. Vê.” E disparou uma flecha.
“E consegues acertar na águia?”
“Na águia, mestre?! Mas mal a vejo lá no alto!”
“Quando conseguires acertar com a tua flecha na águia, vem falar comigo.”
E o arqueiro regressou à sua aldeia e praticou, praticou, praticou até que já conseguia acertar na águia, que mal se via lá no alto.
“Vê mestre: já consigo acertar na águia com a minha flecha!” E mostrou-lho.
Sorrindo, perguntou-lhe o mestre:
“E consegues acertar na águia sem flecha?”



Por mim, ainda estou a tentar perceber como raio se segura no arco.

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Pensar e sentir



De tanto me dizerem “Não tens nada com isso!” ou “Mete-te na tua vida!”, um dia ainda vou acreditar nisso.

Até lá, vou continuar a acreditar na solidariedade, no espirito de grupo, na fraternidade, na partilha.

Mas, considerando a idade que tenho, é muito provável que venha a morrer a pensar como penso hoje. A agir como ajo hoje. A sentir como sinto hoje.


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quinta-feira, 28 de maio de 2020

Opções



Calor e programação televisiva

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A feira



Para que conste, uma das actividades que mais sofreu com a suspensão do comércio e o confinamento, obrigatório ou voluntário, foi a de feirante.

Sem direito a lay-off, subsídios ou qualquer outro tipo de apoios, numa actividade económica que mal dá para a sobrevivência, dependendo das condições atmosféricas para poder montar banca e conseguir vender, a situação tem estado terrível para quem vive disto.

Agora, aos poucos, vão retomando as feiras, mas com os clientes a escassearem, ou porque ainda estão em casa ou porque estão com medo.

A todos esses que vivem da rua, os meus votos de bom recomeço e que os deuses, o clima e os clientes sejam clementes.


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Códigos



Neste mundo em que vivemos, as diferenças culturais são mais que muitas e bem evidentes: a língua, as danças, a gastronomia, os trajes, a mitologia…
Viajar de um ponto para outro distante pode ser pouco menos que um salto no escuro. A capacidade de comunicação fica reduzida a muito pouco, se não se dominar a língua, escrita ou falada. Sobram dois recursos, mais ou menos globais: o gesto e a imagem, desenhada ou não.
Esta é, sem sombra de dúvida, a parte da comunicação mais universal. Um cavalo é um cavalo, na Europa, Ameríndia ou Ásia. Com excepção de alguns pontos ainda não penetrados pela “civilização”, quem souber usar a imagem, sabe comunicar.

Mas os padrões não são iguais. Há algumas diferenças, ainda que subtis, dividindo o planeta em alguns grandes blocos. Quer tenha sido o desenho que influenciou a escrita (fonética ou ideográfica) ou vice-versa, a verdade é que a forma como a imagem se estrutura no espaço que ocupa varia.
Horizontal ou vertical, esquerda/direita ou ao contrário, a organização dos elementos pictóricos tem regras e significados diferentes.

A globalização (que não apenas económica mas, e principalmente, cultural) tende a padronizar estes aspectos, tal como outros. Mas a cultura não é algo que se imponha por decreto, como provou a falhada revolução cultural chinesa.
Se na fotografia, cinema e televisão, áreas que além de criativas são também bastante técnicas, no quotidiano, na vida diária de cada um, as coisas são um pouco diferentes.
A imagem acima é disso um exemplo. É uma nota Afgã, divulgada por cá através de um jornal.
Os códigos de escrita estão bem definidos. Escrita regional, para os locais entenderem, e caracteres mais ou menos universais para definir valor e origem. Até aqui pouco há de invulgar.

Mas observem-se os desenhos, os cavalos em particular. Correm da direita para a esquerda, num galope livre e intenso.
Uma leitura superficial pouco os dirá mas, a nós, ocidentais, mas não nos agradará. De acordo com os nossos padrões, correm “para trás”, uma atitude retrógrada. Poderíamos mesmo dizer que estão a fugir de algo. Mas para os Afgãos, onde a escrita e a leitura se fazem da direita para a esquerda, este é o sentido da liberdade, do progresso, do futuro.
Esta imagem será, eventualmente, evocativa de um qualquer momento histórico local, que dificilmente será o de uma derrota militar. A interpretação dos utilizadores desta nota será a de confiança e de confiança naquilo que o dinheiro significa.

Para aqueles que como eu vivem e dependem da imagem, esta questão de orientar os elementos que a constituem para um lado ou para o outro é banal. Fazemos isso quase que por instinto, usando-o como uma ferramenta de base.

Mas convém sempre lembrarmo-nos que os nossos códigos não são universais e que a nossa comunicação depende da nossa capacidade em usar uma linguagem conhecida e familiar do destinatário.

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domingo, 24 de maio de 2020

Imago



Para quem não saiba, esta é a imago (ou a representação tri-dimensional) do rosto de Pancho Villas.
Foi feita a partir de uma máscara moldada na face do defunto, seguindo métodos bem antigos.
Tão antigos quanto os usados na Roma antiga, em que estas imagos eram colocadas em local de destaque na habitação senhorial, reverenciando os antepassados.
Saiba-se que o nosso termo "imagem" provem do milenar "imago".

Por outras palavras: as imagens, mesmo as fotográficas, mais não são que o perpetuar ou reverenciar o passado.

Imagem palmada da net

sábado, 23 de maio de 2020

A cabine



D'arquivo

“Boa tarde! Faça o favor…?”
“Boa tarde! Eu queria falar com o sr. Duarte.”
“Com certeza. E quem é que quer falar com ele?”
“Eu disse que queria falar com o sr. Duarte.”
“E quem é que quer falar com o sr. Duarte?”
“Eu queria falar c…”
CLIC
A situação ou diálogo repetiu-se.

Só aquando da terceira ligação, sempre de número explícito, é que do outro lado se identificaram. Por sinal de uma loja onde eu havia feito uma encomenda, a avisarem-me que já lá estava o que tinha pedido.

No meio de tudo isto, o que tem mesmo piada é ter acontecido pouco depois de eu ter feito algumas fotografias em torno de uma vetusta cabine telefónica, que quase só existe para turista ver. De uma época em que ninguém se lembraria de iniciar uma conversa telefónica sem ser pela sua própria identificação.

Outros tempos.

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quinta-feira, 21 de maio de 2020

Sem importância



Esta é uma fotografia sem importância alguma.
Apenas uma parede, que me bloqueia o caminho, e uma janela, que não me deixa ver para além mas tão só o reflexo do que está atrás e acima de mim.
Não importa rigorosamente para nada!
Talvez que seja um aviso para que pare e pense no que foi.
Ou um incentivo para que siga e derrube o que se me atravesse na frente.
Ou apenas um relembrar que as imagens que vemos não são realidade mas antes uma ilusão daquilo que pensamos que existe.
Ou talvez, nada de pensamentos profundos, muito simplesmente que o meu olhar parou e fez-me parar, em trânsito para o trabalho, e que o meu vício de usar a câmara me obrigou a usá-la.
Como disse antes, não tem importância alguma esta fotografia.

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Pudor



É uma palavra que todos conhecem mas da qual raramente nos lembramos. Um destes dias ouvi-a num contexto curioso e fiquei com ela na cabeça.
Era a palavra que me faltava e que melhor descreve alguns dos meus sentimentos.
Tenho pudor em fazer certas fotografias.
Há mais de 40 anos que faço televisão. Comecei ainda no tempo do preto e branco e da aventura do inicio da cor. Cem por cento, menos umas milésimas de unidade, das imagens por mim captadas, registadas e transmitidas foram de seres humanos.
No estúdio e no exterior, dentro e fora do país, anónimos ilustres e ignóbeis figuras públicas, ou qualquer outra combinação, como entenderem.

Em todas elas, de uma forma mais ou menos explícita, existiu uma cumplicidade no fazer dessas imagens. A câmara estava lá, bem visível, e o cidadão sabe que eu estou lá, o que estou a fazer e para quê. Uns exibem-se e quase que pagam para constar no registo ou transmissão, outros são apanhados ao correr da objectiva, mas nada há de sub-reptício.
Além do mais, mercenário que sou da imagem televisiva, não me sinto eu, enquanto indivíduo, a fazer aquelas imagens. Faço parte de uma equipa, de uma organização. A minha co-responsabilidade na captação e utilização das imagens que faço é limitada. Ainda assim, alguns escrúpulos que tenho tido ao longo dos tempos, têm-me trazido alguns amargos de boca.
Já enquanto fotógrafo a minha atitude tem sido diferente.
Raramente fotografo pessoas desconhecidas ou anónimas. Pelo menos ao ponto de estarem em evidencia no enquadramento ou de serem reconhecíveis.
Os trabalhos que tenho feito a pedido (não gosto do termo profissional) têm sido na área do teatro, da publicidade e da arquitectura, passando ao de leve pela reportagem.
Nestas circunstâncias, as figuras fotografadas fazem parte do evento e querem “ficar no boneco”.
Mas, sendo o Homem aquilo que quero retratar nas minhas imagens pessoais - aquelas que faço para minha satisfação exclusiva -, procuro fazê-lo sem que conste explicitamente delas.
Aquelas imagens de instantâneo – uma expressão, um gesto, um evento – que poderia fazer para meu prazer e deleite, não as faço. Tenho pudor!
Com conhecidos, próximos ou não tanto, sou mais atrevido. A cumplicidade existe, as pessoas em causa sabem o que sou e o que faço e, se bem que possam não “se fazerem à fotografia”, sabem que ela pode acontecer e comportam-se mais ou menos em conformidade.
Agora os estranhos, aqueles que apenas me conhecem de vista ou nem isso, vivem a sua vida ignorantes da possibilidade de eu os poder fotografar. São o que são, sem reservas, acanhamentos ou exibicionismos, alegres, tímidos, carinhosos ou bem pelo contrário, inconscientes que um gesto, uma expressão pode ficar registada para todo o sempre.
Da mesma forma que não espreito ou fotografo para dentro de janelas alheias, também tenho pudor em o fazer quando estão da parte de fora delas.
Esta minha atitude e sentimentos é tanto mais forte quanto mais “frágil” é a pessoa ou situação em causa. As misérias, materiais ou outras, tantas vezes vistas em espaços públicos, estão ali porque não podem estar em qualquer outro local privado.
Os pedintes, vagabundos, sem abrigo, catadores de lixo, para não citar todos, são-no, estão-no e fazem-no não por vontade própria mas como último recurso, muitas vezes já sem pudor algum porque não se podem dar a esse luxo. A seguir a este degrau…
Se eu soubesse, com certezas ou alto grau de probabilidade, que o eu fazer estas imagens iria de alguma forma melhorar-lhes a vida – na auto-estima, na fome, na saúde ou no conforto – esta minha invasão das suas intimidades públicas poderia fazer algum sentido.
Mas eu sei que do meu acto de fotografar nada de diferente lhes acontecerá. Apenas ficarei com mais um troféu de caça na minha galeria que, eventualmente, exibirei dizendo: “Vejam o que eu vi, sintam o que eu senti!”
Poderão dizer os fotojornalistas: “Mas uma das missões nobres do nosso ofício é denunciar as misérias do mundo e tentar com isso melhora-lo!”
É verdade que sim! Tal como eu o faço com a minha câmara de vídeo, que é o meu ofício.
Mas as minhas fotografias não se destinam a nenhuma publicação, de pequena ou grande tiragem. Faço-as porque me dá prazer fazê-las e, raramente, exibi-las, se as entendo como capazes e se me apetecer.
Se, de alguma forma, as imagens que faço e exibo podem melhorar o mundo, não sei, ainda que o tente. Mas prefiro fazê-lo mostrando os objectos, a luz, as atmosferas, as consequências e as causas e não as pessoas em si mesmas, não violando a sua privacidade pública.
Há uma palavra que define o que sinto e que me inibe de fotografar amiúde desconhecidos:

Pudor!

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quarta-feira, 20 de maio de 2020

Ponto quarenta e dois



Ainda não há muito tempo um amigo mostrou-me um link com cem dicas de um fotógrafo profissional.
Foi interessante de ler. A maioria conhecia, concordando com quase todas. Algumas desconhecia por completo e aprendi qualquer coisa ou, pelo menos, fiquei a pensar no assunto. Algumas discordo em absoluto.
Aquela que condeno veementemente recomenda: “Encontre o seu próprio estilo e mantenha-se nele”.
Talvez que seja uma boa sugestão para quem queira entrar no ofício, lutando com tanta concorrência. Ter um estilo próprio e aperfeiçoado é uma mais-valia no mercado. Mas é tão redutor!
Com o passar dos tempos, mais ou menos dependendo das pessoas, aquilo de que se gosta transforma-se em rotina e o prazer da criação transforma-se em obrigação, quiçá enfadonha.
Para quem queira vencer no mundo da fotografia pode ser um bom conselho. Para quem queira fazer da fotografia uma forma de expressão, tente tudo, por favor.
Procure o que não sabe fazer e aprenda. Procure usar as técnicas e estilos que encontra nos outros e decida depois se lhe convêm, se se sente satisfeito com aquela abordagem ou se prefere deixá-la de parte. Experimente! Tente e erre! Diga “não é isto que eu quero” só depois de o fazer! E, quando sentir que está a fazer qualquer coisa parecida com o que já fez e que não lhe está a dar a satisfação que espera, parta para outro caminho.
Que, se definir um estilo e se mantiver nele, em breve mais não será que um plagiador de si mesmo!
A menos que seja um génio, claro.

By me