terça-feira, 1 de dezembro de 2020

A fotografia

 



“Ou então pegas num álbum de fotografias, um álbum qualquer de uma pessoa qualquer, como eu, como tu, como toda a gente. E dás-te conta que a vida está ali nos diferentes segmentos que aqueles estúpidos segmentos de papel encerram sem a deixar sair dos seus acanhados limites. E no entanto a vida é coisa prenhe, impaciente, quer ir mais além daquele rectângulo, porque sabe que aquele menino vestido de branco, de mãos postas e com a fita da primeira comunhão no braço, amanhã (digo “amanhã” só para dizer um dia qualquer) há-de chorar às escondidas com vergonha de si próprio: uma pequena torpeza? Pequena ou grande, pouco importa, porque ela implica o remorso, e é dele que estamos a falar. Mas aquela fotografia feroz, mais severa que um vigilante, não deixa que a verdadeira verdade fuja dos seus escassos centímetros. A vida fica prisioneira da sua representação: serás o único a lembrar-se do dia seguinte.”


O título é meu, a fotografia também, mas o texto é de António Tabucchi, no seu livro “Está a fazer-se cada vez mais tarde” 

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Liberdade e poder



 

Em 1871, em França e durante a Comuna de Paris, os revoltosos deixaram-se fotografar nas barricadas, orgulhosos de serem alvo de fotografia, coisa de elite então, e orgulhosos da causa pela qual combatiam.

Esmagada a revolta, as forças governamentais identificaram-nos pelas fotografias, detiveram-nos e fuzilaram-nos.

Em 1992, em Los Angeles e durante uns violentos motins por motivos raciais, um jornalista amador foi para as ruas registar os acontecimentos com a sua câmara de vídeo.

Acalmada a multidão pelas forças policiais e militares, os tribunais exigiram-lhe as cassetes para identificar os amotinados, coisa que ele recusou fazer. Foi preso, julgado e condenado a pesada pena de prisão, acabando por ser libertado após a intervenção de movimentos cívicos.

Em 2020, em França, foi aprovada uma lei que permite a utilização de registos de imagem, incluindo drones, por parte das forças da ordem durante manifestações e a identificação facial por meios digitais durante as mesmas.

Ao mesmo tempo, proíbe e pune os cidadãos que façam fotografias ou vídeos dos agentes policiais ou militares durante a sua acção sobre civis. Em manifestações ou não.

Agora, em Portugal, o presidente do Chega quer proibir, punindo com pena de prisão, a captura e difusão de imagens ou vídeos de actuação policial, especialmente sobre "grupos étnicos ou raciais minoritários", através de uma proposta para alterar o Código Penal.

 

Fica um resumo histórico, forçosamente incompleto, e o alerta sobre a sua repetição na actualidade.


By me

sábado, 28 de novembro de 2020

Ir ao cinema


 


Quando as pipocas invadiram as salas de cinema eu deixei de ser um espectador assíduo.

Ele é o cheiro das pipocas que nos é imposto, gostemos ou não dele… ele é o ruído do consumo, que nos impede de aceder ao som na sua plenitude… ele é o terminarem a projecção aquando da ficha técnica final, para que haja tempo de limpar a sala antes da sessão seguinte…

Se eu vou pagar para ver um filme quero-o a ele e não a toda esta poluição sonora e olfactiva. E quero o filme por inteiro, e não apenas o que o exibidor entende que devo ver e ouvir.

Fiquei agora a saber que a Direcção Geral de Saúde proibiu, por motivos sanitários, o consumo de pipocas e refrigerantes nas salas de cinemas.

Claro que isso afecta o negócio, que por vezes mais parece de restauração que de espectáculos. E coloca em risco muitos postos de trabalho, com tudo o que isso significa para essas vidas.

Mas talvez que a medida fique para sempre e eu volte a ser um consumidor regular de cinema, vendo-o na plenitude do grande ecrã, ouvindo-o na magnificência dos multi canais e sem incómodos adicionais.


By me

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Pré-epitáfio


 


Em tempos conheci um mestre!

Sócio na traineira que comandava, nos mares algarvios e na costa Vicentina, o Mestre Luís Benjamim era um homem ímpar.

Firme no leme e no sonar, assim como com a companha, a sua generosidade para com o mar e a gente que o amanhava era enorme. Mas bem maior que ela era o gosto que tinha pelo que fazia. Meio a sério, meio a brincar, costumava dizer que era no mar e junto da roda do leme que gostaria de morrer.

A vida, mãe ou madrasta como quiserem, fez-lhe a vontade. Uma noite o coração colapsou-se-lhe enquanto que com as mãos na roda buscava cardume.

Quando o soube, muito tempo depois, sorri e disse de mim para mim que era assim que gostaria de morrer: fazendo algo de que goste!

Há pouco, quando preparava o saco da “tralha” antes de sair, não tive dúvidas!

Não sei o que o futuro me reserva, ainda que provavelmente decidido por mim. Mas se puder escolher ou dar uma ajudinha, gostaria que fosse a fotografar. A tentar fazer com que a luz que vejo se materialize no papel ou no ecrã, se possível provocando algumas reacções a quem as veja.

E na minha tumba, se a isso tiver direito e se se justificar, no lugar de uma cruz coloquem uma objectiva encastrada num cérebro.

Afinal, é isso que tenho feito quase toda a vida!


By me

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Liberdade




 “ - O que é para si a Liberdade?”

“ - É ser livre numa prisão!

Todos nós vivemos numa prisão que nós mesmos construímos.

Porque nos impomos limites. Porque temos receio de os ultrapassar.

Acho que o próprio do Homem não é viver livre em liberdade de facto. É viver livre numa prisão!

Todos nós temos uma polícia política interna, cheia de proibições e de regras em relação as nós mesmos.”


Citação: António Lobo Antunes

Imagem: by me

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Festividades


 


Vejamos assim:

O Natal é uma festividade a três tempos: religiosidade, familiar e comercial.

Quanto à religiosidade, a celebração do nascimento de Jesus e a relação dos crentes com o seu deus, não creio que tenha que ser feita em conjunto. Se as preces têm que ser feitas no templo e em grupo, tanto as de alegria quanto as de pedidos, então não faz sentido as recomendações para que se reze diariamente, em casa, nas refeições, ao deitar e levantar…

Quanto à familiar, sejamos honestos: a maioria das reuniões de família resultam de hipocrisia, que há sempre quem passe todo o ano sem falar com os restantes, ficando reservados os sorrisos e os abraços para a consoada. E se as famílias só se sentem unidas e felizes aquando do Natal, que pobres vidas têm no resto do ano.

Resta a comercial. A obrigatoriedade de comprar prendinhas ou prendonas, os incentivos ao consumismo útil e inútil, as decorações mais ou menos estilizadas das ruas e montras… tudo isto em pouco se relaciona com a religiosidade ou família. Mero negócio, meras despesas, por vezes sacrifícios, com algo que pouco depois se esquece ou guarda numa gaveta esconsa.

Quando oiço governantes a alertar que este Natal vai ter que ser diferente, com limitações ao comércio e às reuniões… se calhar, para além de ser recomendável no que respeita à saúde pública, será também uma salutar mudança de hábitos sociais, tornando as relações mais honestas e menos conflituosas.


By me

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Saber em pó


 


Um dos problemas da actual sociedade de informação é ela mesma: a informação!

Quer seja através dos meios convencionais quer seja através das novas tecnologias, temos todos os dias mais informação, acesso a mais conhecimento. Em variedade e profundidade.

Mas esta é também a sociedade de consumo. Há que consumir mais e mais, que assim somos levados pelas campanhas de marketing e pela definição de status social.

E quando misturamos conhecimento com consumo o resultado da fórmula redunda em superficialidade. Não há tempo para aprofundar o conhecimento em tantas e tão várias áreas. E fica-se pela superfície.

 

Exemplificando, e forçando um pouco a nota:

Depois de se ler um artigo de 100 palavras sobre física nuclear, passa-se a outro sobre botânica, seguindo-se direito internacional, motores de combustão interna, culinária e termina-se a manhã com economia.

E, depois de os ler, fica-se com a sensação de “saber” sobre a matéria. Não nos damos ao trabalho de questionar as ideias lidas, que isso levaria a procurar outras leituras e autores, a aprofundar o sentido de cada palavra, frase ou conceito. E, em chegando ao fim da manhã, não teríamos passado, talvez, de meio do primeiro artigo. Com sorte!

E, quando mais tarde, em torno de uma imperial vespertina no café ou de uma bica na cantina, passaríamos por ignorantes. Saberíamos alguma coisa de um tema, mas os outros passar-nos-iam ao lado. Que vergonha social, não se saber nada de tantos assuntos!

 

Mas, tão ou mais grave que este consumismo de conhecimento, com fórmulas instantâneas de saber, é não só a falta de curiosidade de quem consome como a superficialidade dos meios onde se consome. São os artigos breves, os guias práticos, o saber para totós. Que entopem quiosques, livrarias, grandes superfícies e páginas web.

E esta super-abundância de conhecimento por atacado, de incentivo à superficialidade do saber, transforma-nos em idiotas doutores, que tudo sabemos sobre coisa nenhuma e que nada sabemos sobre tudo.

E como as fontes são semelhantes, tipificadas, minimalistas, quando se ventilam ideias, se trocam opiniões, os pressupostos são os mesmos: as mesmas origens, as mesmas superficialidades. E o resultado é nulo!

Os argumentos apresentados nas conversas são os mesmos, baseados nas opiniões de outrem, sem que os próprios tenham tido perguntas para as quais tenham procurado respostas. Em existindo discordâncias de opiniões, a profundidade com que os assuntos são sabidos é tão pequena, que pouco mais podem fazer os oponentes que recorrer a chavões e frases feitas, porque lidas no guia prático ou no suplemento dominical.

E, ao sair-se do café ou ao fechar-se o chat, fica-se satisfeito consigo mesmo porque se demonstrou saber e decepcionado com o vizinho ou colega, que não entendeu a frase linda e bem sonante que ouviu e que, prazenteiramente, lhe dissemos.

E, desta “Conversa da Treta”, que lucraram os interlocutores? Nada, para além do convívio e do alimento do ego.

 

Vem toda esta algaraviada a propósito de uma pergunta que me foi feita num blog: “Quantas pessoas pensas tu que lêem os teus textos até ao fim?”

Sei que são algumas. Não muitas, mas algumas.

Que, da mesma forma que procuro que aquilo que vou aprendendo seja algo mais que o conteúdo de um guia prático e, de preferência, com mais de 100 palavras, também tento que as minhas argumentações não se fiquem só pela rama.

Que frases feitas há-as nos dicionários humorísticos e conhecimento em pó suspeito que em supermercados e, certamente, em instituições de ensino por atacado.


By me

 

domingo, 15 de novembro de 2020

Coisas velhas

 


 

As memórias são como as cerejas: surgem umas atrás das outras.

Hoje recordei tempos antigos porque vi, mostrei e discorri em torno de uma fotografia antiga dos meus tempos de escola.

E, com essas memórias, outras vieram, no mesmo local e tempo, ligadas a algumas outras posteriores.

Esta escola primária era pequena e instalada num rés-do-chão de um prédio. O pátio de recreio acontecia nas trazeiras, de terra batida e onde existia uma árvore que não recordo ter tido folhas, pelo que presumo estar morta à época.

Os alunos distribuiam-se por duas salas, uma para a primeira e segunda classes, outra para a terceira e quarta. Eramos todos rapazes, normal nesses tempos, excepção feita a uma menina, que era filha da dona e directora da escola. Recordo o seu nome mas, a bem do bom recato, aqui não o referirei, tal como nenhum outro. Nem mesmo o da funcionária da escola que, anos passados e já no liceu, continuei a visitar até que faleceu já velhinha.

O que também recordo foi a inconsequência de actos pouco recomendaveis que ali aconteciam. Refiro-me, muito concretamente, a dois irmãos que partilhavam a sala comigo. Terríveis e muito solidários entre si, juntavam-se com mais um ou dois para agredirem aqueles que não “alinhavam” nos seus esquemas.

Lembro, quase como que de ontem, o amarrarem algumas das suas vítimas (eu fui uma delas) na árvore, aquando dos intervalos, e açoitarem-nos com os cintos. Ou usarem pedras nas mãos quando resolviam as coisas sem amarras, com os seus cúmplíces a impedirem os demais de pararem os “massacres”. A coisa era feia!

E recordo uma ocasião em que me foram buscar à escola, que sangrava da cabeça e do nariz, e de me perguntarem porque não tinha eu reagido também com violencia. E de eu ter respondido que a pancadaria não resolvia as coisas e que eu não bateria em ninguém.

Anos mais tarde vim a encontrá-los no liceu. Todos nós já mais velhinhos e mais “sabidos” Tinham eles um “regimento” de seguidores e a sua técnica era mais requintada: mandavam os demais “arrear” nas vítimas, ficando eles de parte a assistir e ficando impunes, se houvesse investigação. De uma dessas vezes deram-se mal, comigo. Quando me apercebi que “ía sobrar para o meu lado”, evitei os enviados e ataquei a sério, na mesma moeda, um dos mandantes. Foi remédio santo, para mim, que não mais me importunaram.

Nos entretantos, acontece a revolução de Abril e as nossas vidas apartaram-se, com a minha mudança de liceu. Mas mantive-me mais ou menos atento ao que no anterior se passava.

E fiquei sabendo que esses irmãos foram mais que uma vez detidos por militares primeiro, por polícia depois, devido a acções violentas entre os estudantes liceais, naqueles tempos conturbados. Sempre com acusações de “contra-revolução” e, constava, com armas evolvidas.

Os anos passaram, muitos. E, há coisa de uns dois ou três anos, sou surpreendido com uma entrevista televisiva. O entrevistado era alguém que lutava por um lugar numa instituição bem conhecida no país. Não o reconheci pela imagem. Mas o nome acordou-me memórias velhas, e a voz parecia-me familiar. Fui investigar, que a net dá-nos muitas informações uteis. Era mesmo um desses irmãos. Prestei atenção.

O discurso era actual, sobre os temas em causa e denotavam um saber estar em altos postos. Mas, bem lá no fundo, e para quem lhe conhecesse o passado, não podia deixar de sentir a violência antiga quase selvagem, agora bem controlada com a experiência e a vida.

Felizmente, para a institução a que se propunha dirigir e para as demais que com ela se envolvessem, não conseguiu os seus intentos.

 

A memória é terrível e, estimulada ou não por fotografias, sons ou conversas, não morre. Mesmo que muito antiga. Fica adormecida algures num canto até que a vamos buscar e usar. E nem sempre é o melhor que recordamos.


By me

Em torno de uma fotografia


 

 

Esta fotografia tem cinquenta e um anos, mais ou menos uns meses.

Foi feita aquando da minha quarta classe, no pátio da escola que frequentei.

Dos que aqui estão recordo quase todos. Pela cara a maioria, pelo nome alguns. A uns acompanhei por uns anos, noutras escolas e aprendizagens, aos outros perdi o rasto.

Mas o que recordo, pessoas, espaço, árvore e janelas, não é agora importante. Esta fotografia, encontrei-a num envelope, junto com mais quatro, onde eu mesmo consto. Terão sido feitas por um fotógrafo “profissional”, que deveria correr pelas escolas da zona, aceitando as encomendas da memória para a posteridade. Várias da mesma criança, em várias situações, para que os familiares se sentissem tocados e as comprassem. Nenhuma espontânea, mas todas marcando uma época.

Mas o que também marca essa época, e acredito que o fotógrafo não contasse com isso, é o que consta no envelope que as contém: o preço.

Escrito a lápis a quantia de 100$00. Vinte escudos por cada fotografia.

E, se eu bem me recordo daquilo que minha família contava de quanto ganhava na altura, e eramos bastantes em casa, uma verdadeira fortuna. Para ser sincero, não quero imaginar o que, nessa altura, terá sido deixado de fazer para que estas fotografias tivessem sido compradas.

Pergunto-me agora se hoje, no séc. XXI, na era das tecnologias da informação e da banalização da imagem, se alguém faria tamanha despesa. De uma forma ou de outra, toda a gente tem uma câmara, tenha ela a qualidade que tiver. E aqueles que não as têm, provavelmente nem têm os seus filhos na escola.

E terão as imagens feitas hoje o valor comercial que esta teve nessa altura? Ou, indo um pouco mais longe: durarão as fotografias deste género, feitas com as técnicas e os suportes de hoje, tanto tempo?

 

Fica o alerta aos pais e avós dos tempos modernos para que acautelem e preservem as suas fotografias. E, se quiserem pôr a sorrir ou pensar daqui por umas dezenas de anos os que hoje são pimpolhos, ponham-lhes o preço atrás.

 

Texto by me