quarta-feira, 8 de março de 2017

Café



O outro pedia um cavalo. Eu, mais modesto, fico-me por um café.


Um Café! Um café! O meu reino por um café!

By me

terça-feira, 7 de março de 2017

O cinzeiro



Há uns anos comprei este cinzeiro. Foi barato e veio de uma dessas lojas de inutilidades de que os centros comerciais estão cheios.
O que é interessante é que o comprei e usei que não para receber cinza ou pontas de cigarros.
Serviu, antes sim, e para além de objecto fotografado, como estimulador de memória. Que muitos não terão.
Em tempos, era eu catraio e ainda não fumava, este tipo de cinzeiro era símbolo de posição social e só os possuía em casa que estivesse num patamar médio ou elevado ou muito aspirasse a tal.
Tive um tio que muito aspirou a tal. E tinha um cinzeiro destes em casa.
Claro está que ele, o cinzeiro, estava interdito ao sobrinho, não fora ele estragar o dito cujo com o constante premir a haste e ver rodar o prato logo abaixo.
Mão vão lá dizer a um petiz que este tipo de coisas não são para brincar! Bastava ver pelas costas a minha tia e logo eu punha aquilo a rodar. E logo era descoberto, que o barulho que fazia era inconfundível.
Passado um meio século, ou quase, eis-me na posse de um cinzeiro destes. Recordo que quando o comprei parecia o petiz que fui e a fazer subir e descer a haste e a rodar o prato coma mesma fúria de então e com um secreto temor que minha tia surgisse ali na ombreira.
Agora, que já não fumo, mais não fará que estar por aqui a avivar-me a memória ou ir para uma das caixas de inutilidades que tenho até que seja necessário para uma fotografia ou quejando.
Mas confesso que há pouco, quando dei por ele e decidi fotografá-lo, não resisti a por aquilo a trabalhar. E deliciar-me com o que via e o som que ouvia.

Traquinices!

By me 

Por ser hoje



Quando oiço gente a tentar puxar de galões, lá onde eu passo boa parte do tempo, fico sempre com vontade de perguntar sobre o até quando esses galões recuam.
E, se quiser ser mais incisivo, penso em compararmos quais desses galões ficaram na mente e na história dos “clientes”.
Mas depois…
Depois penso que não vivo para competir, que não quero “meças” em coisa nenhuma e que bem mais importante que aquilo que se fez é aquilo que ainda faremos, com que empenho e profundidade.
Que o passado só é importante para alicerçarmos o futuro.
Poderia deixar aqui aquilo que são testemunhos visuais desses tais galões que foram. De pouco adiantaria.

Fico-me a tentar imitar Diógenes, na sua busca de um homem honesto. Na forma e no conteúdo.

By me 

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O privilégio de ter trabalhado com os melhores não faz de mim bom.

Mas deixa-me inchado de orgulho!
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Amado Freitas



No início da TV, as imagens que se viam em casa tinham apenas duas origens: ou registadas, reveladas e exibidas em cinema ou em directo.
Noticiários, teatro, musicais (clássicos ou populares), conversas, eram em directo, que o registo magnético era ainda o futuro.
As automações não existiam e quem operava os equipamentos tinha uma margem de erro mínima, que o público daria pela coisa. Alguns ficavam aquém da margem de segurança, outros iam muito para além, entrando no campo da genialidade.
Acontecia em alguns musicais, ouvir-se o realizador dizer, pelo sistema de “ordens”: “Vai Freitas, vai! Este é todo teu!”
E ele ia! Em plano único, sentindo a música e as palavras, a câmara ia e vinha, da voz para os instrumentos e volta. Sempre com a mesma objectiva e ângulo de visão, que as zooms televisivas ainda não tinham chegado por cá.
O Amado Freitas e a câmara no tripé dançavam unos como nenhum outro, num tango de “nacional-cancenotismo” ou fado.

Quando entrei para a RTP, já ele não operava. Era realizador. Mas ainda o vi, agarrado aos equipamentos arcaicos do centro de formação, mostrando como se fazia. Único!

Hoje as coisas são diferentes. O espectador já não é levado a passear-se pela música e seus intérpretes. Aos saltos da montagem, com cortinas e Keys, a interpretação visual da música é tão ou mais agressiva que os noticiários ou entrevistas.
Fazem-se transmissões musicais pelo ritmo, esquecendo que também há melodia e harmonia. Tratam-se todos por igual, nas salas de edição. A criatividade fica ali, nos pontos de “in” e “out”, pelos menus importados e as transfigurações electrónicas.
E a virtuosidade de alguns, poucos, torna-se inútil porque não conforme com os cânones consumistas.
Não que em outros tempos é que fosse bom! Apenas que a quantidade submergiu a qualidade. Na produção e no consumo.

Televisivo ou não!

By me

sábado, 4 de março de 2017

Exames



Nota prévia:
Este texto e fotografia estão aqui publicados não tanto pelas peculiaridades auto-biográficas mas pela diversidade de formas de imagem que aborda, tanto nos suportes como nos equipamentos.
É bom pensarmos, de quando em vez, que há imagens que não vemos, que há imagens imaterializáveis porque apenas cerebrais, que a ferramenta que usamos para nosso deleite ou ofício pode ser usada para coisas bem mais elaboradas e importantes…
A imagem é muito mais que apenas o premir do botão.

Quando perdi o uso da vista direita, a coisa foi complicada.
Complicada pelo facto em si, complicada porque foi difícil de fazerem o diagnóstico, complicada pela perda da noção das três dimensões… difícil.
Um dos momentos mais difíceis foi um exame.
A prescrição do médico dizia “endoscopia oftálmica”. E eu, que sou um especialista em medicina como é sabido, fiquei logo a imaginar que tipo de sonda usariam, onde entraria, que espessura teria, como manteriam o globo ocular imóvel para o exame…
Aqueles dias que anteciparam o exame foram mesmo complicados aqui na cabeça, com medos, suores frios, insónias. A tal ponto que eu, que costumo ir de peito feito para o que me espera, recorri a uma parenta para ir comigo.
Estava mesmo apavorado com este exame.
No fim de contas a coisa foi fácil e divertida: uns pingos para dilatarem a pupila até parecer a foz do rio, um líquido contrastante no sistema circulatório e vá de fotografarem a retina através da pupila, escancarada que estava. Como remate da diversão, usaram uma Pentax MX igualzinha à que eu possuía, com motor e tudo. E Kodak Tri-X, a mesma película em preto e branco que eu usava.
O resultado foi isto que aqui vêem e que, não percebi o porquê, não foi conclusivo para o diagnóstico.
A resposta definitiva foi-me dada mais tarde, noutra instituição e por outros médicos, depois de terem estado cinco deles, à vez, de volta do aparelho para ecografias, que não havia forma de chegarem a um consenso. Também neste exame não gostei de ver tantos especialistas com tantas dúvidas.
A verdade é que, por muitos exames que façamos na escola, aqueles que de um modo ou do outro acabam por moldar o nosso futuro, nunca estamos completamente preparados para os outros exames a que somos submetidos na vida.

Oftálmicos ou outros.

By me 

sexta-feira, 3 de março de 2017

Três fotografias - 1



Fizeram-me uma encomenda: três fotografias, três dias.
Coisa simples, dirão.
Coisa nenhuma, digo eu. Que a subjectividade daquilo que me pediram ou encomendaram é terrível. Mesmo.
Mas eu gosto de desafios e aceitei. E, quase logo no momento, concebi o como satisfazer o pedido: Uma fotografia de arquivo, uma outra fotografia que se me desenhou quase logo na cabeça e que espero conseguir fazer quase só no fim do prazo e uma que será feita ao correr da pena e que nem desconfio o como ou o que fazer.

Esta é a primeira.

By me

quinta-feira, 2 de março de 2017

O segredo



“Sabes guardar um segredo?”
“Sei pois.”
“…………”
“Então, não contas?”

“Não, que eu também sei guardar. Mas bem que gostaria de não saber a andar por aí pelo mundo a contar.”

By me

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Ele é a inspecção militar, a inspecção do carro, a inspecção civil, a inspecção do trabalho, a inspecção do gás, a inspecção da vizinha, a inspecção ambiental, a inspecção veterinária…
Passamos a vida a ser inspeccionados e umas vezes sabemos antes, outras vezes sabemos depois e de algumas nem sabemos.

Mas quando sabemos antes, e em algumas em particular, ficamos com a barriga tão pequenina…
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quarta-feira, 1 de março de 2017

Rotinas



É hábito velho meu.
Sair da cama com pelo menos hora e meia de antecipação em relação ao que seria necessário se fosse directo das cobertas para a rua, com passagem pelo banho e pequeno-almoço.
Esta hora e meia, que muito criticam, é-me necessária para encontrar a paz comigo e com o universo. Uso-a para fazer coisas de que gosto, que me dão satisfação e que fazem com que um eventual depósito de boa disposição se vá enchendo antes de enfrentar as agruras e incómodos da vida e que enchem ao longo do dia um eventual depósito de má disposição.
Com esta rotina, consigo sair de casa com um sorriso estampado no rosto e com uma piada ou trocadilho na ponta da língua. Mesmo quando o meu horário de trabalho me faz sair do sono quando muitos ainda não se lhe chegaram.
“Mas que coisas são essas, de que gostas para fazer logo ao sair da cama?”, perguntam-me alguns.
Claro que isto é uma questão que varia de indivíduo e só posso falar por mim: escrever um texto que surgiu ao pôr-me de pé ou acabar um que na véspera ainda não tinha ganho corpo na cabeça; terminar um conjunto texto/imagem, em que um deles ficou a meio porque o relógio o impôs, fazer uma fotografia que me apeteceu aquando do banho, acabar um capítulo de um livro que o sono me roubou na noite anterior, ou filme não acabado de ver… há um conjunto de coisas que me agradam e cuja prática me enche a alma antes de enfrentar o clima, os impostos, as normas sociais e os governos, os outros seres humanos…
Acrescente-se que, não sendo a vida uma rotina, podemos descobrir assim como que de repente novos prazeres que queremos acrescentar a essa lista. Alguns que se podem sobrepor a tudo resto.

Quando isso acontece, o dia mereceu ser vivido.

By me