sexta-feira, 3 de junho de 2016

Paciente



Um destes dias, no centro de saúde a que pertenço, aguardava eu ser chamado para marcar uma consulta.
Um à-parte: Chamam de paciente aos doentes porque têm que ter paciência para serem atendidos. Também lhes poderiam chamar de expectantes, já que são os que esperam.
Encostada à parede e perto dos seguranças que em voz alta iam chamando pelos números das senhas, uma senhora, na casa dos vinte e poucos, “muito grávida”. Não posso assegurar, até porque não questionei, mas estaria com oito meses de gravidez, bem medidos. Isso ou gémeos.
Nestas condições, as cadeiras das salas de espera não são, nem de perto nem de longe, as mais confortáveis, pelo que a sua opção de ficar em pé se entende. Mas incomoda.
Incomoda a própria e incomodou-me a mim que, apesar de ser “paciente”, me custou ver aquela senhora assim.
Chamei de parte um dos seguranças e perguntei-lhe se ela não seria uma pessoa classificável como “prioritária”, passando à frente dos demais que, mesmo que doentes, apenas aguardavam vez para marcações, tal como eu.
Fui informado que não, que nos centros de saúde, e para questões burocráticas, não há prioridades e que todos são tratados por igual, por ordem de chegada. Tal afirmação foi confirmada pelo colega, enquanto segurava na mão o papel onde ia anotando os números chamados.
Com os olhos esbugalhados e a barba eriçada, preparava-me para trocar de senha com ela se lhe fosse vantajoso quando o seu número foi chamado.


Por vezes, a paciência necessária nos centros de saúde não é tanto pela afluência de gente ou escassez de meios mas antes pelas normas vigentes.

By me 

Saber fotografar



Difícil não é saber o que fotografar.
Afinal, o mundo está aí, o sol existe e o relógio não pára.
O que é mesmo difícil é saber o que ou o quando não fotografar.
Quando o viver é mais importante que o registo;
Quando a ética é mais vigorosa que o troféu;
Quando o respeito pelo ser humano se sobrepõe às competições “artísticas”;

Quando nos sentimos irmanados e não voyeurs.

By me

Feitios



Tenho uma colega relativamente recente lá onde trabalho.
Hoje, em conversa, contei-lhe que volta e meia coloco um aviso de reforço a pedir que se mantenha a porta para a zona de fumo, no exterior, fechada.
O motivo é simples: manter o ar condicionado controlado, no interior das instalações, coisa difícil de acontecer em particular se na rua estiver frio ou calor.
O conteúdo desse meu aviso também é simples:
“Da frase ‘Mantenha a porta fechada’, qual a parte que não percebeu?”
Ficou essa minha colega a olhar para mim, meio de lado, acabando por proferir: “Que feitiozinho…!”
Não confirmei nem desmenti. As tarefas que se seguiam implicavam uma boa dose de tranquilidade da parte de todos, dela incluído.
Que se lhe contasse como ficam os carros estacionados no passeio no meu trajecto ou como ficou aquele primeiro-ministro depois de eu o agredir, ou daquela vez que andavam a roubar carros na minha rua, ou daqueloutra que… não sei se seria capaz de fazer o que dela se esperava,
Fica para outra ocasião.

Mas quando regressou ao interior teve o cuidado de fechar a porta, lá isso teve.

By me 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A espera é



Numa sociedade realmente livre e igualitária o conceito de "ridículo", bem como as anedotas, não fazem sentido, já que não há normas, regras nem moral pública para serem infringidas.


By me

Prazeres



A fotografia tem uns anitos e o texto também.
Mas é tão verdade hoje quanto o era então, quando o escrevi.
Para o contextualizar, à época eu fazia o papel de fotógrafo à-lá-minuta no jardim da Estrela, oferecendo as fotografias que me pediam para fazer.
Foi um projecto que durou três anos, com pouco mais de mil e duzentas imagens assim feita.

“Difícil mesmo é fazer com que as pessoas entendam que há coisas na vida que se fazem pelo prazer de as fazer. Tão só e apenas pelo prazer!
Que todo o resto que lhe possa estar associado pode ser secundário. E que não tem que ser, obrigatoriamente, por dinheiro.
No Jardim da Estrela perguntam-me porque ofereço as fotografias.
Encenando um pouco, acabo por dizer que se trata de um estudo sobre fotografia e, se insistirem muito, atiro-lhes com um ou dois nomes pomposos, acabados em –gia. E acrescento que não vivo daquilo, quando não já teria morrido de fome.
Houve mesmo quem me perguntasse em que universidade estava a fazer o mestrado ou doutoramento, para ali estar, assim, a fazer aquilo para estudar.

Há quem não entenda que o “saber” pode ser um prazer e que a aprendizagem também o é. E que se juntarmos a isso um outro prazer, no caso a fotografia, então as coisas acontecem pelo prazer, tão só e apenas pelo prazer.”

By me

Semântica ou talvez não



Esta fotografia foi feita por um conhecido. Com o meu telemóvel.
Na sequência da conversa que estávamos a ter, entreguei-lhe o aparelho pronto, disse-lhe para segurar nele e premir o respectivo “botão”.
De seguida perguntei-lhe o que acabara de acontecer. E a resposta foi a do costume: “Tirei uma fotografia.”
Neguei a sua afirmação e disse-lhe que acabara de fazer de deus. Um deus qualquer, não importando o nome ou a origem.
Que com os seus gestos, e usado de três tipos de energia (a da luz, a do aparelho e a sua criativa) havia produzido algo que não existia segundos antes. E é isso que os deuses fazem: criar do nada a partir de energia. Fazer coisas!
A consequência dos actos deste meu conhecido foi o “fazer” de uma fotografia, não o “tirar” uma fotografia.
Que temos o verbo tirar como negativo, enquanto que o fazer é positivo.

Tenho feito este exercício prático com conhecidos de proximidade e com desconhecidos que o acaso coloca de conversa comigo.
E o resultado deste exercício, bem como do resto da conversa, em regra deixa-me satisfeito. O que vejo nos seus olhos, quer seja a dúvida do “isto será mesmo assim?”, quer seja a dúvida “ele será mesmo louco?” deixa-me com a certeza de ter provocado alguma dúvida e uma brecha nas certezas que as palavras nos dão, em particular aquelas que usamos sem pensar.

E ter dúvidas ou colocar em causa as certezas antigas é, talvez, a coisa mais inteligente e produtiva que o ser humano pode fazer.

By me 

quarta-feira, 1 de junho de 2016

.

Apontamento fugaz de um pensamento sério:
"O facto de um sábio dizer algo não implica que seja uma verdade universal. Significa apenas que ele o disse e que seria isso que queria dizer.
Quanto à infalibilidade de um sábio... Mesmo os sábios são humanos."

.

.

- Então e não viste o poste?
- Não! Estava no ângulo morto.

- Ahhhh! E quem é que o matou?
.

Heuh… Vamos?



By me

Pó dos livros



Na montra de uma livraria, em Lisboa, está isto.
Supondo que terão dificuldade de ler, eu relato-vos:

Direitos inalienáveis do leitor:
1 – O direito a não ler;
2 – O direito de saltar páginas;
3 – O direito de não acabar um livro;
4 – O direito de reler;
5 – O direito de ler não importa o quê;
6 – o direito de confundir um romance com a vida real;
7 – O direito de ler não importa onde;
8 – O direito de saltar de livro em livro;
9 – O direito de ler em voz alta;
10 –O direito de não falar do que se leu.
(In Pennac, Daniel, “Como um romance”)

Deveres inalienáveis do livreiro
1 – O dever de ler;
2 – O dever de saber o que é um livro;
3 – O dever de saber que há milhões e milhões de livros;
4 – O dever de saber que há livros e livros;
5 – O dever de tentar encontrar, sempre, qualquer livro;
6 – O dever de sigilo;
7 – O dever de saber que há ladrões de livros com bom gosto e com mau gosto;
8 – O dever de os apanhar;
9 – O dever de sorrir;
10 – O dever de agradecer.

Sendo certo que tenho uma barriga grande e uma curiosidade maior, voltei atrás depois de ter comprado o que me havia feito entrar, e fui saber o que é um “ladrão de livros com bom gosto”.
A pergunta deu direito a quase uma hora de conversa.
E fiquei a saber que há ladrões de livros que levam agora para vender de seguida, ou mesmo amanhã. São as “novidades” e os livros dos “autores da moda” que são levados.
Tal como fiquei a saber há ladrões de livros selectivos. Que só levam de um dado autor ou género. Contou-me quem comigo conversou que durante um ano foram roubados mais de trinta livros de poesia. Apenas durante um ano e sempre e só das prateleiras. Sem que nunca tivessem apanhado o ladrão, esses roubos deixaram de acontecer.
Este foi um dos casos que me foi contado como “de bom gosto”.

O que tem graça é que consigo imaginar o aspecto de um ladrão de livros de poesia.

Tal como me consigo imaginar a voltar amiúde a esta livraria para fazer negócio e alimentar a alma.

By me