sexta-feira, 13 de maio de 2016

Citando



“Olhando o sofrimento dos outros”, Susan Sontag, sobre o trabalho Êxodos, de Sebastião Salgado
A ilustração é minha, valha o que valer.


“Mas o problema está nas fotografias propriamente ditas e não no modo ou locais em que são exibidas: na sua focagem nos fracos, reduzidos à sua fraqueza. É significativo que os fracos não sejam identificados nas legendas. Um retrato que recusa nomear o seu sujeito torna-se cúmplice, ainda que inadvertidamente, do culto da celebridade que alimentou um apetite insaciável pela sorte oposta da fotografia: reservar apenas aos famosos o direito ao nome reduz o resto a instâncias representativas das respectivas ocupações, etnias condições.” 

No dia de hoje



Não tem muito que saber: a igreja católica está ao ataque!
Até as celebrações de Fátima servem de terreiro para lançar fortes farpas sobre as recentes decisões governamentais sobre a continuação ou não de subsídios a alguns colégios particulares.
Falta apenas regressar a figura da excomunhão.
Muito pouco tempo depois deste discurso foi aprovado na Assembleia da República o diploma que alarga a todas as mulheres, e não apenas as heterossexuais, a reprodução medicamente assistida.
Tal como o regime de gestação de substituição, geralmente conhecido por “barrigas de aluguer”.


Foi dado um importante passo na civilização.

By me

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Credibilidades



Foi uma lição que aprendi em profundidade e para o resto dos dias da vida: a credibilidade é algo que não pode ser posta em jogo.

Foi logo no meu primeiro ano em que trabalhei com uma turma numa escola profissional. Falávamos de fotografia, óptica, distâncias focais. E, na época, a imagem digital era algo para um futuro que supúnhamos mais distante do que foi na realidade.
Virando-me para a turma, perguntei-lhes em tom de gozo: “Sabem porque a 50mm se chama de objectiva normal?”
Não sabiam, como eu desconfiava. E continuei no mesmo tom de gozo:
“É porque é a objectiva que vem normalmente com a câmaras. Por isso normal.”
Ri-me da minha piada, a rapaziada riu-se porque me viram rir, e de seguida desmontei a graçola, explicando os quês e os porquês da objectiva normal, do ângulo de visão, da distância focal, da diagonal do negativo… essa tralha toda.
Dias depois, regressando ao tema em geral, usei a técnica clássica: recuar a assuntos sabidos pelos alunos para ganhar balanço para temas desconhecidos. E perguntei para a geral: “E porque é que a 50mm é a objectiva normal?”
Uma das alunas (parece que estou a ver a coisa, passados que são quase 25 anos!) consultou o seu caderno de apontamentos e disse sorridente:
“Porque é a que vem normalmente com as câmaras.”
Fiquei sem pinga de sangue!
Eu tinha dito aquilo. Aquilo era citar-me, a mim, ao professor. Eu não poderia dizer que ela estava enganada ou que tinha acabado de dizer uma besteira. Quem se havia espalhado ao comprido fora eu, dias antes, que não diferenciara de um modo bem claro a brincadeira da coisa séria. E ela estava a sério!
Tratei de corrigir a aluna, passando o ónus da responsabilidade para os meus ombros e nunca a deixando pensar que fora gozada.
E nunca mais eu disse uma graçola deste calibre sem me assegurar que todos percebiam, e muito bem, que era paródia!

Hoje passei por algo de semelhante, se bem que ao contrário.
Estive num museu recém inaugurado, que cobre a minha actividade profissional.
E o que vi de citações erradas, de classificações incorrectas, de identificações absurdas, de equipamentos mal montados… deixou-me com muito pouca vontade de lá voltar. Aliás, não creio que lá volte.
Porque, do mesmo modo que um professor não pode dizer asneiras, proferir erros, induzir os estudantes em más práticas ou conhecimentos, também um museu não o pode fazer. A frase “Estava escrito no museu” tem tanto ou mais peso quanto aqueloutra “Foi o professor que disse!”
O museu? Não digo qual é, pelo menos até perceber se as reclamações e protestos foram atendidos.

Mas mostro uma 50mm, a tal “Objectiva normal”. Exactamente aquela que mostrei aos alunos naquele dia!

By me

O sumo



Vejamos as coisas desta forma:
Tenho um sentimento muito pouco positivo para com as embalagens de sumo que, já não deitando nem uma gota pela abertura que nos proporciona, ainda se ouve líquido a chocalhar no interior quando as abanamos.

O meu lado menos cordato e mais selvagem vem à tona nestes casos, tanto nas palavras pronunciadas como no estado em que acaba por ficar a dita embalagem, com o auxílio do meu canivete suíço.

By me 

Fim do dia



Talvez haja quem não acredite, mas garanto que esta fotografia foi feita ontem, ao fim do dia.
Calhou ser no meu bairro suburbano, mas sendo que vinha de Lisboa, bem que a poderia ter feito por lá, pelo menos no que respeita a condições atmosféricas.
Que durante toda a tarde o céu esteve no jogo do tapa/destapa com as nuvens e o sol, simpático quanto baste para ter visto mais de uma dúzia de mães ou casais com crianças de colo ou de carrinho na rua. E sorridentes.
A mais sorridente foi uma muito jovem mãe que, sem que me apercebesse, se sentou atrás de mim enquanto eu lanchava e estava entretido com um livro. Só quando me levantei me apercebi que o seu pequenote também tinha lanchado. E tão pequenote era que não resisti a perguntar:
“Quantos…?”
“Faz amanhã um mês!”
E todas as lâmpadas daquele centro comercial onde parei por um crepe me pareceram fracas e mortiças, perante o radioso sorriso daquela mãe que, literalmente, me cabia debaixo do braço.

Quem quer que leia isto e veja a fotografia poderá pensar: “Mas esta treta é de ontem ou do ano passado?”

Garanto que este fim de dia é de ontem, apesar de hoje parecer pouco provável.

By me 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

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Considerando a posição da Conferência Episcopal Portuguesa sobre a questão dos subsídios a colégios particulares, acredito que em breve ouviremos falar em Excomunhão.
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Sejamos honestos!

Bem mais importante que os sentimentos que possamos ter para com quem se deita à noite connosco é o que sentimos por quem acorda connosco de manhã.
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Ideológico



Não nos enganemos: a questão dos apoios estatais a colégios privados (alguns colégios privados) é mesmo ideológica. De parte a parte.
Será interessante pensar que quem protesta contra a medida são os proprietários de alguns colégios, alguns políticos e alguns pais ou famílias que não aceitam que os seus filhos frequentem os mesmos locais de ensino que “os pretos, os ciganos, os filhos das classes baixas… “
É mesmo uma questão de elitismo o que está em causa. Mas um elitismo que seria sustentado por dinheiros públicos. Como diria um famoso escritor, “Somos todos iguais, mas uns mais iguais que outros.”

No entanto, a recepção a esta medida governamental tem o apoio ou contestação por parte dos cidadãos que se constata na fotografia.
O que aqui se vê é a frente do ministério da educação, em Lisboa. Que, até há uns seis meses, tinha sempre bem visíveis e arrumadas na rua as grades de contenção de multidão, bem como dois ou mais polícias bem à porta. Por vezes, carrinhas de reforço nas imediações.
Hoje quem por aqui passar e não souber o que é o edifício não encontra nada que o diferencie de outros para além das placas no prédio e de estacionamento.

Talvez que seja um bom indicador do que se prevê de contestação popular sobre esta e outras medidas que alguma elite portuguesa está a contestar.

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terça-feira, 10 de maio de 2016

Tempo



Todos temos tempo. As vinte e quatro horas de cada dia são iguais para todos. É a forma como as usamos que as fazem parecer curtas ou compridas, abundantes ou escassas, úteis ou absurdas.
Ontem tive o tempo por minha conta.
Fui buscar um livro encomendado numa livraria (sim, livraria e não grande superfície), sentei-me numa pastelaria a deliciar o palato, abriguei-me sob um toldo a ver passar quem tem medo de um aguaceiro de fim de tarde, fiquei a observar as alterações de trânsito por causa de obras na cidade…
A Câmara Municipal de Lisboa, que empreendeu a obra que abrange um dos principais eixos viários da cidade colocou em campo uma quantidade notória de polícias municipais para ajudar à fluidez do tráfego rodoviário. E houve um deles que me prendeu a atenção.
Fazia uso do apito quase que a cada 10/15 segundos, por vezes menos. Umas vezes para acelerar os automóveis, outras para lhes alterar a trajectória para que não bloqueassem o cruzamento, outras ainda ajustando o ponto exacto onde ficavam parados… Não parava quieto no seu esbracejar, apitar, mudar de posição. Confesso que até fiquei cansado só de o ver actuar.
Mas tive vontade de lhe bater palmas. Bem alto e bem no meio do cruzamento.
Que ele garantia sempre que a zona de atravessamento de peões estava sempre desobstruída. Os carros que paravam em cima dela eram “convidados” a chegarem uns metros à frente (dois ou três, não mais) para que a passagem de peões fosse notória e larga quanto baste.
Fiquei por ali a ver a eficácia daquele cívico até que aproveitei um momento de pausa dele e aproximei-me. E perguntei-lhe, por cima do ruído dos motores, quanto tempo estava ele seguido naquele posto e função.
“Quatro horas”, respondeu-me.
“Não lhe gabo a sorte. Obrigado pelo trabalho!”, respondi-lhe afastando-me.
O sorriso que vi na cara encheu-me a alma.

Deixei-me ficar por ali mais um nico, fotografando com o telemóvel, que a de película demoraria a mostrar o que guarda, e percebi que ele tinha sido chamado para o cruzamento seguinte, deixando aquele a funcionar só com os semáforos.
Curioso, fui ver o que se passava.
De facto, o cruzamento seguinte era mais complicado, porque com mais tráfego da perpendicular à avenida. E o agente que tentava regulá-lo… benza-o deus!
Tudo se acumulava, o cruzamento obstruído, as passagens de peões bloqueadas… Não era mesmo uma questão de quantidade de tráfego mas de quem o regulava. Que o pedaço que ficou ao cuidado do recém-chegado agente ficou um brinquinho, ao invés do eixo principal.
Quando me afastei, sorri e acenei para o agente com quem falara. Que me devolveu o aceno com a cabeça, entre duas apitadelas.


Em todos os ofícios há bons e maus profissionais. Mesmo entre os agentes da Polícia Municipal.

By me

Impropérios



Leio um artigo num jornal de hoje onde se fala da venda de um palácio a uma instituição ismaelita.
O palácio, construído no início do séc. XX e classificado desde 1982, pertenceu nos últimos 25 anos a uma universidade, foi agora vendido à fundação Aga Khan.
Nada de especial até aqui. E o artigo conta-nos mais, como o valor do negócio, o destino a dar às obras de arte cedidas pela Gulbenkian, o valor estimado da reabilitação…Nada de muito preocupante.
Não fora este parágrafo, de que gosto aos montinhos e com mostarda:



“A Resolução de Conselho de Ministros refere os vários acordos e protocolos assinados desde 2005 pelo Estado português com a Comunidade Ismaelita, comprometendo-se esta, no mais recente, assinado em junho, a apoiar "ativamente os esforços da República Portuguesa para melhorar a qualidade de vida de todos aqueles que vivem em Portugal, nomeadamente através do desenvolvimento em Portugal de projetos de investigação de nível mundial naquela área [desenvolvimento científico e económico] e, em termos mais gerais, em matérias de interesse comum da República Portuguesa e do Imamat Ismaili." Este acordo confere a Aga Khan uma série de benefícios e regalias, incluindo isenção de imposto sobre rendimentos e património.”

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