sábado, 9 de fevereiro de 2019

Sensações




Por um qualquer motivo que se me escapa, tenho a sensação que se fabricam por dia mais balas e outras munições que papo-secos e outros tipos de pão.
E mais metros de arame farpado, também.


By me

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Patranhas



Estávamos no ano de ‘98. Decorriam os saudosos Encontros de Fotografia de Coimbra, espalhando fotografia e fotógrafos por toda a cidade. Um dos espaços usados era o emblemático “Edifício Chiado”, bem no centro da cidade.
Esta história passou-se nele, já depois do seu restauro.

A exposição era sobre um cosmonauta soviético e a fundação Sputnik. 
Nas paredes e nas vitrines, no centro da sala, abundavam fotografias do herói, fardado ou à civil, quando pequeno ou junto aos seus camaradas de armas e de curso.
Constavam também recortes de jornal, livros de estudo, cadernos de apontamentos e cartazes alusivos à sua viagem. Entremeados com estes documentos, elementos da sua farda e divisas, óculos, carteira e outros objectos pessoais e, se a memória me não falha, pedaços do seu fato espacial e do simulador onde terá treinado.
Tudo isto era acompanhado de legendas em inglês, que identificavam cada uma das peças, recortes e fotografias, que nos seria difícil de entender a língua russa em que estavam escritos.
No final da exposição, um cartaz com letra miúda, onde nos era passado um atestado de… ingenuidade!
Todo aquele estendal de livros, fotos, recortes e objectos diversos mais não era que um fenomenal embuste.
A pessoa ali retratada nunca tinha sido cosmonauta, nem sequer militar ou mesmo russo e todos os documentos, fotografias e objectos eram falsos.
O público, ao ler esta explicação, ria, sorria ou franzia o cenho, incomodado com a sua própria credulidade e por ter sido enganado.
Mas não o tinha sido!
Foram os próprios que atribuíram um valor real ao que estavam a ver, que acreditaram nas legendas numa língua estranha, já que não entendiam o original e que quiseram, no seu íntimo, que tudo aquilo fosse “verdade”.

Perguntava-me, um destes dias, um estudante de comunicação se eu admitia a manipulação da imagem, fotográfica ou não.
Claro que admito, aceito e recomendo. 
O problema, a existir, nunca está na imagem por si só mas antes na leitura que dela fazem autor e público!
Se ambos dizem ser verdade aquilo que está exibido, e se essa afirmação não é posta em causa, então a patranha passa a verdade, eventualmente desmontável mais tarde, e com todas as suas consequências.
Mas se não for assumido por parte do autor um carácter de veracidade, se não lhe for dado o carácter de “documento”, então tem tanta validade quanto as esculturas que se fizeram ou fazem de Moisés que, tanto quanto sei, nunca foi retratado em vida.

By me

Cidadania



Diz-se por sistema neste país que “Eles” têm que fazer algo! As instituições, o governo, os sindicatos, a policia, os tribunais, os patrões, a sociedade civil... 
No entanto tudo isso somos todos nós. Está no nosso direito esperar que o resultado dos nossos impostos sirva para resolver todo o tipo de situações. Mas quem toma as decisões são cidadãos vulgares, com o mesmo tipo de vivência como quaisquer outros. São elementos do chamado “povo português”, votam e pagam impostos como quaisquer outros (espero eu). E se alguns dos portugueses fazem pasteis de nata ou vendem artigos de vestuário, outros trabalham em instituições. As tais dos “Eles”.
A solidariedade, bem como a intervenção cívica, são deveres de todos os cidadãos, seja qual for a sua ocupação. Ao ver alguém com fome ou ao assistir a uma violação, não posso esperar que “Eles”, os das instituições, estejam em horário de funcionamento para o solucionar.
Somos nós, cidadãos, que devemos intervir a cada momento no decorrer da vida, no que ela tem de bom e de mau. Devemos esperar que as instituições funcionem, devemos esforçarmo-nos para que o façam cada vez melhor, mas não devemos esperar que elas actuem como uma intervenção divina. Nós somos as instituições! Eles somos nós! E se nós não actuarmos, como podemos esperar que elas actuem?

By me

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Saberes



Um dos “truques” surgidos com a fotografia digital é, mais que saber o que ou quando fotografar, decidir o que ou quando não fotografar.
Que a facilidade e o baixo custo da obturação digital, junto com o terrivelmente fácil destruir de imagens, leva a que muitas fotografias sejam feitas quase que sem pensar no resultado final.
Saber fazer e quando fazer é importante. Saber quando não fazer, é igualmente importante!

By me

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

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Num artigo de jornal conta-se que no primeiro congresso do partido Aliança não haverá oportunidade de apresentar e discutir outras moções de estratégia que não a apresentada pelo seu presidente.
O argumento, por aquilo que li, é falta de tempo.
Numa organização fundada e liderada por Pedro Santana Lopes isto não me espanta.
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Quis custodiet ipsos custodes




Sobre um caso recente e mediático:
O Conselho Superior da Magistratura aplicou a pena mínima a um juiz que julgou um caso de violência doméstica. Na sentença então proferida, foi dito (mais ou menos) que a mulher agredida era responsável por o ter sido ao ser adúltera e, com isso, atentado seriamente contra a honra do marido. Mais disse que antigamente as mulheres adúlteras eram apedrejadas até à morte. E mais umas minudências.
Esta sentença polémica e a respectiva sanção aplicada pelos juízes ao juiz que a proferiu recorda-me uma situação antiga de muitos anos e que refiro de cor:
Algures no norte, suponho que em Vila Real, um homem foi condenado a uns meses de prisão por violação de uma criança. Na mesma época, um industrial do centro do país foi condenado a anos de cadeia por fuga ao fisco.
É certo que as sentenças foram decididas por juízes diferentes, em locais diferentes. Mas basearam-se, estou certo, nas mesmas leis e códigos. E as leis são escritas por pessoas e aplicadas por pessoas, sempre passíveis de errarem.
As leis deveriam ser revistas com mais frequência, sempre na tentativa de reflectirem as sensibilidades da cultura em que se inserem e procurando sempre reduzir o papel interpretativo e pessoal de quem julga.
E quem julga deveria ser frequentemente avaliado na sua actuação profissional para evitar a existência de critérios pessoais e discrepâncias na aplicação da lei.
Pela parte que me toca, espero nunca vir a ser julgado, seja em que situação for, por alguém que minimiza a agressão do marido à mulher porque ela teve relações extra conjugais. Nem pelos juízes que entendem que tal sentença é coisa menor.



By me

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Porquê?




Nem sempre o tempo ou a inspiração do momento é suficiente para explanarmos tudo o que queremos ou como queremos.
Mas porque mo perguntaram, aqui fica o resumo de um sumário minimalista de tópicos das razões de fotografarmos.
Entenda-se que cada um dos temas abordados daria para muitos livros de grossa lombada: alguns que já li, outros que ainda não li e outros que eu mesmo ainda não acabei de escrever.

O fazer de fotografia pode ter vários motivos, uns mais bonitos que outros.
Em primeiro lugar, e para alguns, é um modo de vida, de garantir o pão de cada dia.
Mas pode querer apenas criar algo que não existe: um jogo de luz, cor e formas que, de algum modo, satisfaça a necessidade criativa de quem fotografa.
Pode ser apenas uma moda. Há anos, quando comecei, a fotografia era particularmente cara, o suficiente para ser chamada de “hobby”: algo que se faz por gosto mas que esgota os recursos materiais e intelectuais. Agora, qualquer um a pode fazer, que o equipamento de captura e processamento está ao alcance de qualquer um (ou quase). “E se um fotógrafo de renome pode fazer, porque não eu, que basta apontar e disparar?”, será o que muitos pensam ou sentem.
Pode ainda ser uma necessidade de comunicar, que outras formas não satisfaçam. Mostrar o que de belo ou de horrendo vemos é comunicar sentimentos.
Pode ainda ser um acto de exibicionismo, que ao mostrar o que fizemos podemos estar a dizer “vejam como penso e sinto isto!” E, com isto, afirmar a nossa forma de pensar.
Por outro lado ainda, a febre das tecnologias de comunicação fazem com que a imagem faça parte do nosso quotidiano. E comunicar sem se usar imagens é ser-se “out” nas modas modernas. Boas ou más, há que fazer fotografia, de preferência com câmaras ou caras ou vistosas. Será, no entanto, fácil de ver que os bons fotógrafos raramente se exibem falando do que têm mas tão só do que fazem.
Há também um outro motivo possível: cobiça! Não podemos possuir tudo o que gostamos: o pôr-do-sol, o carro, a pessoa. Vai daí, fotografa-se e fica-se com o seu ícone. Não será bem o mesmo, mas é o mais próximo possível.
Ainda se pode acrescentar outra razão: a vida actual é vivida em frenesim, rapidamente e esquecendo com facilidade os momentos que vamos vivendo. A fotografia permite, mesmo que inconscientemente, abrandar o tempo e “guardar para mais tarde recordar”. Claro que, com os Gb dos cartões, câmaras e sistemas de arquivo, não se recorda coisa nenhuma, que tantas se fazem que cada uma deixa de ter importância.
Por fim (ou talvez não) faz-se fotografia porque sim. Pelo mesmo motivo pelo qual se trauteia uma musiquinha, ou se fica parado a olhar uma borboleta no verão, ou porque se dá um beijo: porque nos apetece, nos dá prazer, nos satisfaz naquele pedaço de nós que não tem razão ou, como diria o poeta, “tem razões que a razão desconhece.”
Criar, para alguns, é uma necessidade afectiva; para outros, uma necessidade cultural; para outros ainda, uma necessidade social; e para outros, uma necessidade intelectual. O que diferencia uns de outros é que alguns fazem-no para serem mais que outros. Outros para serem mais que si mesmos.
Em qualquer dos casos, o mais importante será, creio eu, que encontremos satisfação no que fazemos. Porque o fazemos e não porque outros o fazem.

By me

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Ser fotógrafo



É uma daquelas coisas curiosas: não conheço uma só biografia de fotógrafo que diga que tenha sido má pessoa. Nem conheço um fotógrafo que seja má pessoa.
Não significa isto que não tenham existido ou existam. Apenas que eu não conheço.
Passa isto, penso, por a fotografia implicar uma relação positiva e de partilha com o mundo circundante, sendo um sério entrave à prática da maldade ou do egoísmo.
Esta é uma opinião. Passível de ser contestada, naturalmente, mas é a que tenho.

Ciente disto, durante os anos em que trabalhei com jovens para que aprendessem os rudimentos da fotografia ou vídeo, e um pouco mais que isso, sempre tentei transmitir-lhes essa noção da partilha ou intimidade com o mundo e o assunto registado. E ainda hoje o tento, sabendo que quanto maior for, mais satisfação ou sucesso se tem no registo da imagem. Para o próprio e para com os clientes.
Nem sempre o consegui. Naturalmente que nem todos os jovens que tentavam essa via profissional estavam particularmente vocacionados para isso e, apesar de nunca ter reprovado nenhum, alguns ficavam-se pelos limites mínimos dos objectivos propostos.

Passados que são alguns valentes anos, vou encontrando alguns deles. Na vida real, nas redes sociais, por interpostas pessoas, por mero acaso ou profissionalmente. E vou sabendo o que fazem e no que se tornaram. O que pensam, as opiniões que emitem, as atitudes que tomam…
E apenas vou reforçando a minha opinião, confrontando o rendimento escolar de então com o que são hoje.
Os que hoje, adultos que são, têm atitudes pedantes, opiniões de desprezo para com os outros, sectários sociais, alguns a roçar o racismo ou xenofobia, são exactamente aqueles que, enquanto estudantes, nunca demonstraram grandes qualidades no campo da fotografia ou vídeo. E o contrário é igualmente verdade. Pouco importando o rumo profissional que seguiram, uns no ramo, outros fora dele, que a vida é isso mesmo.

Não é necessário praticar-se a fotografia para se ser boa pessoa. Mas é imperioso ser-se bom e generoso para com o mundo para se ser Fotógrafo com F maiúsculo.

By me

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Fedon




A morte é um dos três momentos importantes de um individuo. Os outros dois são o nascimento e o casamento.
E se estes são motivos de alegria, para o próprio e/ou para os familiares, já a morte é, regra geral, um momento difícil e de tristeza. Porque resultou de sofrimento e porque os sobreviventes sentem a sua falta.
Estes três momentos são vividos em conjunto, cerimonialmente. Para além dos sentimentos dos directamente envolvidos, a sociedade assim o organiza e há, quanto a mim e não só, motivos para tal. Motivos materiais que remontam a muito longe:
A apresentação da criança (recém-nascido ou já infante) para mostrar ao mundo quem herda. Terrenos, rebanhos, negócios; A declaração de união ou casamento para mostrar ao mundo que os bens de ambos se juntaram. Terrenos, rebanhos, negócios; A cerimónia fúnebre para que o mundo saiba que os seus bens pertencem aos herdeiros.
Por muito cínico que isto pareça, estas são as razões para se fazerem desses três momentos reuniões de parentes e amigos, de juntar um razoável número de pessoas em torno de eventos que são muito pessoais, alguns de alegria, outros de tristeza.
Claro que a religião – o conceito do divino e os medos do inexplicável – vieram ocupar um lugar de destaque nestes momentos, reclamando para si – para a organização – o papel de regulador das cerimónias, de testemunha dos eventos e sancionador das consequências. Quer se trate de um ente incorpóreo, com várias cabeças ou braços ou à imagem e semelhança da zoologia.
É de acordo com a teologia que as cerimónias decorrem. Introduzindo o recém-chegado na comunidade e atribuindo-lhe uma identidade, vinculando os noivos a um compromisso e desejando uma vida para além da morte tranquila e feliz. E depende das tradições religiosas e dos conceitos o tipo de celebração.

A imagem, tanto a pintura quanto a fotografia, não se exclui destas celebrações. Fazem-se os registos dos baptismos e casamentos, sendo quase que uma obrigação haver este registo pictórico. Como se a imagem fosse o testemunho indiscutível. E negócio rentável e apetecido.
Já no funeral as coisas são diferentes.
Não queremos, em regra, registar os momentos tristes. Como disse alguém “Quando ris, o mundo ri contigo, quando choras, choras sozinho”.
E apesar de na maioria das confissões religiosas a morte ser uma passagem para algo melhor, não ficamos com esse registo porque nós próprios, que ficaríamos nas fotografias, não estamos felizes ou sorridentes. E ninguém quer retratos ou registos da infelicidade.
Sugiro que procurem nos vossos arquivos, nos vossos livros e nas vossas memórias imagens de funerais ou velórios. Que não as feitas para os media ou as dos filmes. Talvez não encontrem nenhuma.
Por isso mesmo, fiquei particularmente surpreendido quando, um destes dias, vi uma fotografia de uma cerimónia fúnebre. No caso, o último adeus perante o corpo, antes de fechada a urna. Uma fotografia privada, que não para jornais, incluindo um vislumbre do defunto, o cônjuge e os amigos próximos. Uma fotografia que foi feita não sei por quem mas divulgada pelo cônjuge.
Não será algo comum. Eu diria que será algo de raro, muito raro. Mas… Mas é aqui que a coisa se complica.
A raridade da imagem prende-se com a cultura em que o acontecimento se desenrola. Com a tristeza individual e colectiva e a perspectiva do que sucede depois da morte.
Para os chamados “ocidentais” tal imagem poderá ser chocante. Quase que indigna por violar uma privacidade absoluta de um momento muito difícil. Para outras culturas, para outras fés, para outros pensamentos, pese embora a dor da ausência, será uma despedida tão suave quanto o possível, um “até já” quase certo.
Não creio que volte a ver tal tipo de imagem. Eu (nós), que vivemos no mundo ocidental, de cariz cristão. Pelo menos uma imagem feita pelos próximos do defunto.

A fotografia, mais que o registo de uma sociedade, nos seus usos e costumes, é ela mesma parte sociedade, integrando os usos e costumes.
Podemos – nós os fotógrafos – colocarmo-nos à margem, como voyeurs que somos, alienarmo-nos do nosso do nosso papel de parte integrante da sociedade. Mas não o conseguimos.
Enquanto a fotografia for feita por humanos – e ainda bem que o é – serão sempre as emoções e as culturas dos fotógrafos que nela estarão espelhadas, com tanto ou mais impacto que aquilo que elas registam explicitamente.

Nota adicional: Não me sinto nem autorizado nem com coragem de aqui mostrar a fotografia que gerou todo este perorar.
Fica apenas um grafismo e os meus sentimentos para com quem a publicou.



By me

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Justiça a prazo




Por aquilo que li, aqui e ali, Marcelo Rebelo de Sousa, no seu papel de Presidente da República, terá avisado que vetará uma nova lei de bases da saúde se esta não for votada favoravelmente pelo PSD. De igual modo, terá vetado o estatuto de utilidade pública à Escola Superior de Terapêuticas Não Convencionais.
Pensando no quadrante ideológico e partidário de onde vem Marcelo, pensando no quadrante ideológico e partidário em que enquadram a maioria dos licenciados em medicina, e pensando no poderio económico e corporativo do sector privado da saúde, não me espantam estas atitudes.
Diz-se que a História se encarregará de julgar os actos de hoje. Só que as consequências desses actos acontecem já hoje!



By me