sábado, 11 de julho de 2009

O anel


Ceptro ou faixa, coroa ou anel, todos são símbolos do poder.
Muito se luta em torno deles, para os possuir, para os manipular, para lhes por as mãos em cima e usar o poder que deles advém, nem que seja por uns momentos. “Mais vale ser rei por um minuto que plebeu toda a vida!”
Alguns destes símbolos, para além do poder da decisão e de influência que conferem, obrigam os demais, os súbditos, a vergar a espinha e a beijar a mão de quem possui o anel.

Mas “O anel que me deste era de vidro e se quebrou”…
O poder é efémero e dura tanto quanto o próprio anel. Já não pode timbrar documentos, já não permite decidir da vida e da morte dos servos, já não confere a autoridade de cobrar impostos e de cunhar moeda.
Quando o anel se quebra e a mão se torce, o povo julga.
Não numa sala e sem togas nem becas. Mas na rua e nos cafés, à hora do jantar ou na fila da repartição. Julga-se e condena-se. Ao ostracismo, ao ridículo, à ira e ao desprezo.
Por vezes ao poste ou à guilhotina. Mas raramente!

Aqueles que pelo poder passam, actuam a seu bel-prazer, decidindo e executando como entendem. Mesmo numa democracia, em que supostamente representam o povo, agem e decidem inconsequentemente. Na pior das hipóteses, é-lhes retirado o anel.
Excepção feita à opinião e ao julgamento popular.
Mas depois de o terem exercido, de terem o ego cheio (e algo mais eventualmente), bem pode o povo julgar, condenar, ignorar, que as suas ilustres nádegas já estiveram sentadas nas privilegiadas cadeiras, no dedo ficou a marca de tão brilhante anel.

O anel muda de mão, de cor ou de forma, mas a luz bruxuleante que atrai os insectos continua acesa, alimentada pela ingenuidade do povo.
Que pensa que ao votar está a decidir sobre quem o vai governar.
Alija a responsabilidade do seu destino sobre uns poucos que se babam alarvemente com a possibilidade de usar o anel.
E o anel na mão de uns é uma grilheta no pescoço de muitos. De todos nós.
Que achamos fácil o entregar as nossas próprias rédeas e nos sujeitamos ao beija-mão ao poder.
Entre os servos da gleba de então e a democracia de agora, a diferença está apenas na ilusão.
E no formato do anel.

Texto e Imagem: by me

sexta-feira, 10 de julho de 2009

PGR teme cerco à liberdade


PGR teme "cerco à liberdade" em nome da segurança

O procurador-geral da República, Pinto Monteiro, mostrou-se ontem preocupado com o que caracteriza ser um cerco às liberdades individuais em nome da segurança. Num seminário na Universidade de Coimbra, Pinto Monteiro disse que hoje há cada vez mais "medidas excepcionais". "Temos as buscas domiciliárias nocturnas, casos excepcionais de investigação, vigilâncias de rua", disse o procurador-geral da República.
"Pouco a pouco, há uma espécie de pequeno cerco a determinadas liberdades individuais, que o cidadão em nome da segurança aceita", acrescentou Pinto Monteiro. "Penso que é perigoso ir por aí." "A liberdade sempre tem de ser tida em primeiro lugar, ou pelo menos numa situação de igualdade, aliás como exige a nossa constituição", referiu o procurador.
"Em nome da segurança não podemos esmagar a liberdade do cidadão. E em nome da liberdade não podemos descurar a segurança individual. É um equilíbrio difícil. Seria mau esmagar a liberdade para impor uma segurança reforçada", sustentou, citado pela agência Lusa. O procurador-geral da República disse ainda que "não há ninguém inocente" no que respeita à lentidão da justiça em Portugal, e que magistrados e cidadãos são igualmente culpados. "Não estão inocentes os juízes, o Ministério Público. Têm culpa os advogados pelos expedientes a que recorrem. Têm culpa os funcionários judiciais e os cidadãos, que levam a tribunal as coisas mais incríveis", sustentou.
O procurador-geral frisou, contudo, que a justiça "não funciona tão mal como se diz". "Todos temos de fazer melhor", declarou, manifestando-se contra megaprocessos como o da Casa Pia, por tenderem a arrastar-se muito tempo e pelos riscos de nulidade e prescrição.
Em resposta a uma questão colocada pela assistência sobre quando acabará o julgamento do processo Casa Pia, Pinto Monteiro respondeu, com humor: "Espero viver para ver".


Texto: in publico.pt, 10/072009
Imagem: by me

Um olhar em profundidade


By me

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Para que conste


Ao cimo da Av. Álvares Cabral. Mesmo coladinho ao Jardim da Estrela. Uma rotunda em que uma das ruas está fechada para obras.
Não vá alguém queixar-se, sinalizaram o trajecto alternativo para o outro extremo dessa rua.
Claro que não é minimamente importante que o sinal de “Desvio” tape por completo o aviso de passadeira de peões.
Afinal, bem mais importante que eles, essas coisas de duas pernas que só atrapalham, é o automobilista não se perder nas ruas da capital, agora que as obras estão aí por via das eleições.
Viva a sinalização: vertical para os carros, horizontal para as lápides fúnebres!

Texto e imagem: by me

sábado, 4 de julho de 2009

On my way to lunch


There I was, on my way to lunch, on a fast-food place, when I saw him.
And we stood there, chatting a bit and sharing the sun.
After a wile, he challenged me to have some lunch with him. And I didn’t accepted, since I had people waiting for me, up there at the restaurant.
I guess his lunch was far better than mine!


Texto e imagem: by me

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Um olhar


São coisas que se tornam difíceis de fazer: encontrar alguém com um detalhe bem fora do comum, que faça vir ao de cima a nossa cobiça de caçadores de imagens, e ter a capacidade de conseguir fazer essa imagem com o consentimento do retratado.
E é tão mais difícil quanto mais desconhecida for a pessoa.

Pois eu, lá no Jardim da Estrela, gozando da excentricidade do estar ali, aliada ao meu aspecto igualmente menos comum, de barbas cabelo já quase brancos e de tamanho pouco comum, consigo-o com relativa facilidade.
Um sorriso, um piropo polido e alimentador do ego e aí estamos, com a câmara atestada sobre uns olhos lindos e, ainda por cima, consentidamente.
Mas posso garantir que tudo depende da presença da câmara e da função. Que a mesma pessoa, com a mesma pilosidade e o mesmo linguajar, algures na cidade e sem o artefacto visível, e mais que consigo é um olhar de indiferença, senão mesmo insultuoso.


Texto e imagem: by me

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Insólitos Oldfashion


Atrás deste simpático casal e desta vetusta câmara fica uma aprazível zona de sombra, fornecida por uma frondosa árvore, onde esteve por mais de uma hora um carro patrulha da PSP, fugindo assim ao sol abrasador que hoje se fez sentir.
Ambos os agentes, um homem e uma mulher, são meus conhecidos desde o início das minhas idas regulares ao Jardim da Estrela e são elementos do programa “Escola Segura”. Ambos simpáticos e agradáveis no trato. Em havendo possibilidade, de parte a parte, damos um pouco à língua.
Pois estávamos, ele e eu, à conversa junto ao carro, quando surge uma avó. Pelo menos tinha idade para isso. E uma energia de movimentos que explicava a agilidade com que abordou o carro patrulha. Mas com uma mentalidade que parecia ser bem mais antiga que a idade que aparentava. Algures bem atrás, em meados do século passado.
Vinha ela queixar-se que na relva, naquela zona aqui meio escondida e ao sol atrás das árvores, estavam duas raparigas deitadas, uma em cima da outra, aos beijos na boca e outros maneios.
Pelo que me foi dado ver, pois que ouvi a queixa, não havia um centímetro de pele visível a mais que o que se espera ver em gente daquela idade e com o calor deste dia. Aliás, tinham mais pele tapada que muitas dondocas, algumas da idade da queixosa, quando vão a festas muito in, muito jet-set.
Pois a avozinha queixava-se que aquilo era uma pouca-vergonha, que não havia direito nenhum, como iria explicar aquilo às suas netas que estavam a ver…
A agente que estava no carro, a tratar de papelada, lá se levantou e, com bastante calma, foi falar com as mocinhas em questão. Esteve uns minutos por lá, numa conversa que àquela distância me pareceu afável, e regressou com um sorriso na cara. Enquanto que as garotas, que não teriam mais que 15 ou 16 anos, se juntavam a amigas que por ali estavam.
Ficou a conversa sobre a homossexualidade e a sua liberdade, bem como se a avozinha teria apresentado queixa se se tratassem de um rapaz e uma rapariga. O que, aliás, é comum ali ver, como em muitos outros jardins por este mundo fora.
Desta história o que retiro é que, apesar de estar extinta há muito a polícia de costumes, que fiscalizava o bom comportamento moral dos portugueses, basta haver uma queixa sobre um eventual atentado à moral pública e as forças de segurança actuam. Ainda que a moral em causa seja a de uma avozinha que, a bem da população e da paz social, não deveria ser autorizada a sair de casa para que não pudesse incomodar os demais cidadãos. A bem da liberdade de pensamento e de acção!

Agora, contada a história, podem perguntar o que esta imagem tem a ver com o relatado.
Com toda a certeza que não estavam à espera que eu fotografasse, e menos ainda que exibisse, os intervenientes no sucedido. Não apenas não o autorizariam como seria uma intromissão da minha parte.
Mas esta fotografia foi feita uma meia hora depois do contado, por um passante e a pedido, e é tão surpreendente como o atrás descrito.
Quem esperará ver, em pleno coração de Lisboa, Portugal, uma estudante Tailandesa? Menos ainda que se queira fazer fotografar por uma caixa de madeira com objectiva. E muito menos que queira ficar com uma outra imagem, desta feita junto com o fotógrafo. E eu, aproveitando o ensejo do passante, quis fazer uma com a câmara de bolso, que por acaso até anda no meu cinto. Esta!
Duas situações insólitas em meia hora e sem sair do meu lugar, entre o portão e o coreto.



Texto: by me
Imagem: by um estranho

Tântrico


Heuuuuh.... Vamos?


quarta-feira, 1 de julho de 2009

Até ao próximo episódio


Já o tenho dito vezes sem conta: cada fotografia tem uma história e uma estória.
E um bom fotógrafo consegue contá-las sem mais que com a fotografia.
Talvez porque não o seja eu, é frequênte as minhas fotografias ficarem aquém das estórias em torno delas.
E neste projecto, com quase três anos e mais de oitocentas fotografias feitas, algumas estórias acabam por, no geral, repetirem-se. Com pequenas diferenças nas abordagens, nas poses e reacções ao que recebem, para já não falar na questão do preço, mais de metade das que faço em cada dia de jardim da Estrela acabam por ser rotineiras na sua variedade.
Algumas há, no entanto, que primam por serem diferentes de todas as outras. Quer seja por aquilo que se constata na fotografia, quer seja pelas conversas tidas antes ou depois dela, quer seja pela empatia criada entre os dois lados da caixa de madeira.
Esta fotografia é, certamente, merecedora de pertencer a um álbum de selecção porque consegue, creio eu, retratar com razoável fidelidade as estórias que a antecederam e sucederam, bem como as pontes que se criaram entre os quatro intervenientes: os retratados, o retratista e a maquina de retratos.
Foi um privilégio tê-la feito e, como me foi dito em contra-ponto ao meu costumeiro “Divirtam-se!”:
“Até ao próximo episódio!”


Texto e imagem: by me