quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Não foi um bom dia, este


É daquelas tristezas que vamos tendo.

Com o passar do tempo e com a imposição de grandes superfícies comerciais, certas lojas de qualidade vão desaparecendo. Não podem aguentar a concorrência de empresas que compram por atacado e vendem a preços quase imbatíveis.
Mas não conseguem – ou não querem – ter aqueles produtos que só aparecem em catálogos de pequenas fábricas mas que são únicos. São aquelas pequenas peças, por vezes raras, que vão fazendo a diferença no quotidiano de um fotógrafo.
Como um cabo disparador duplo, de marca já apagada, mas que ainda não tem folgas e é ajustável como nenhum outro. Ou aquele visor em ângulo recto, com prisma interno, que permite aceder a pontos em que fotografar implicaria um deitar no chão ou uma valente dor de costas. Ou ainda aquele anel de extensão para macro fotografia, ajustável no seu comprimento e que não consta em nenhum catálogo que conheça.
São estas pequenas lojas onde se vão encontrando pequenas preciosidades que vão desaparecendo. Sobrando em Lisboa duas ou três que têm os artigos do costume do grande público ou a especialização do profissional. As pequenas secaram e morreram!

Hoje dei com a morte de mais uma. No centro comercial fonte nova, Benfica, Lisboa, desapareceu uma das mais antigas ainda existentes. Onde esse tipo de artigos se iam encontrando. No seu lugar sobra mais uma loja de pronto-a-vestir, de uma qualquer marca que se encontra em qualquer espaço comercial.
Do namoro com aquelas montras em particular e do que lá aguçava a vontade de usar restará a memória, a boa memória. E uma ou outra peça rara ali comprada e que consta de um dos meus sacos.


Não foi um bom dia, este!


Texto e imagem: by me

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Sem palavras



"If I were taller"

By me

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Ilustração suburbana para um poema


Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras

Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas

Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte

Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra

Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza

Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à aventura


Texto: "O Natal dos simples" by José Afonso
Imagem: by me

O aviso


Para os que acham que tenho a mania destas coisas do “Big Brother” e afins, aqui fica uma notícia retirada da edição de hoje do jornal Público.



Ordem abrirá processo disciplinar a médicos que se deixarem filmar a dar consulta

Presidente do conselho de administração do Hospital S. João, no Porto, quer usar um sistema interno de televisão para controlar produtividade

O bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, acha que instalar um sistema interno de televisão para vigiar a produtividade dos profissionais de saúde "viola profundamente os direitos humanos". E abrirá "processos disciplinares a quem der consultas debaixo de uma câmara de filmar".
A polémica nasce de uma entrevista dada pelo presidente do conselho de administração do Hospital S. João, António Ferreira, e publicada ontem no Jornal de Notícias. O médico está também apostado em diminuir faltas na maior unidade hospitalar do Norte.
No hospital, há profissionais da função pública e profissionais com contrato individual de trabalho. "A taxa de absentismo na função pública, em termos brutos, é da ordem dos 14 a 16 por cento. Nos contratos individuais de trabalho não ultrapassa um por cento", referiu António Ferreira. "Temos profissionais que faltam 59 dias, vêm trabalhar dois ou três e faltam mais 59, com base em atestados", exemplificou. "Como se resolve isto? No respeito por todos os direitos legais, com a publicação das listas de ausências. Isto nos locais de funcionários do hospital, não para doentes ou visitas."
O bastonário acha que fazer aquilo "não é normal, num país democrático e civilizado". Enquadra tal pretensão numa "cultura gestionária que não leva a nada". "As administrações não querem saber se o médico opera bem ou mal, querem é saber quantas operações faz; o que conta é a produtividade."
Para Pedro Nunes, "não é a avaliação dos médicos que está em causa". Quando o pontómetro foi introduzido, declarou que picar o ponto "não incomodava os médicos, embora tivesse um certo carácter de insulto". O importante "era analisar" o que os profissionais faziam. "Um médico pode ser brilhante e ter uma doença crónica que o faz faltar", lembra. Mas o que o espanta mais, na entrevista de António Ferreira, é o método proposto para saber se os médicos trabalham.
"Corporate TV"
Ferreira sublinhou que o pontómetro não diz se os médicos deram consultas e viram doentes. Dos futuros painéis irá constar a produtividade: "Terá o que fizeram durante aquele mês. Com a corporate TV, para o ano, vamos ter essa possibilidade. É um sistema interno de televisão. E isto é fundamental porque quem não faz nada um dia há-de ter vergonha disso".
O presidente do S. João não esclarece onde irá colocar as câmaras e o PÚBLICO não conseguiu ontem contactá-lo. "Não se admite que um cidadão vá ao hospital praticar um acto que é íntimo - tira a roupa, diz ao médico coisas que pode não querer que mais ninguém saiba - e que seja vigiado por câmaras de televisão", reagiu o bastonário. "Isso tem um nome: fascismo!""Qualquer médico que aceitar fazer consultas com videovigilância será sujeito a processo disciplinar", afirmou. "Isto não tem a ver com os médicos", repete. "Se isso for para a frente, accionaremos todas as instâncias nacionais e internacionais", incluindo o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.


Texto: in público.pt
Imagem: me by me, with a webcam

domingo, 4 de janeiro de 2009

O olho do Big Brother


Um destes dias perco a cabeça!
Passo por uma loja de artigos de “Paint-Ball” e compro uma pistola. Uma daquelas que dispara pequenas bolas de plástico com tinta lá dentro que pinta o alvo em acertando-lhe.
E passo a trazer isso comigo. Não na sovaqueira, que nem um detective privado dos filmes, mas num simples estojo no saco, esse sim, que anda sempre pendurado do ombro ou costas.
E, em dando com um destes olhos electrónicos que, à revelia da minha (nossa) vontade, registam o que fazemos na via pública, atiro-lhe. Sem estragar, apenas obstruindo a objectiva.
É que faz-me sair do sério esta vigilância permanente e em tudo quanto é sitio, privado ou público. O que quer que façamos, em Lisboa e noutras cidades grandes, quase não há rua que não esteja vigiada e gravada. Por entidades de segurança, para “garantir” o fluxo do tráfego automóvel ou para garantir a segurança de quem lá anda. Claro está que não garante coisa nenhuma, já que não impede o que quer que seja.
E, tão mau quanto estas, as que estão ao serviço de empresas ou condomínios privados. Com o pretexto de serem de “segurança dos imóveis”, estão apontadas tanto para os imóveis ou estabelecimentos como para a rua, registando quem quer que por ali passe.
Nada tenho a esconder, pelo menos não mais que o comum dos mortais. Mas essa sensação de estar a ser permanentemente vigiado, como se de um criminoso se tratasse incomoda-me. Em profundidade.
Um destes dias perco a cabeça!


Texto e imagem: by me

sábado, 3 de janeiro de 2009

O PC e o peixe


Então e agora?! Vou ficar sem computador no Natal?! Como é que vai ser?

Quem tal afirmou, com um tom de desespero que aqui escrito não consigo descrever, foi um companheiro de trabalho.
Tinha ele emprestado o seu portátil não sei a quem e, não sei como nem até que ponto, ficou desconfigurado. E terá ele ido pedir a gente ligada profissionalmente à informática e a soluço encontrada foi a reinstalação do Sistema Operativo de raiz.
Acontece que o SO que foi instalado não correspondia, em idade e versão, ao que a máquina necessitava, pelo que o funcionamento era mais que deficiente.
E veio ter comigo, contando-me as suas desventuras e para que eu, em sabendo e podendo, o ajudasse.
A minha resposta foi, em ambos os casos, que sim mas que, idealmente, deveria ser usado o CD de recuperação que acompanhava o portátil aquando da sua compra.
Não o tinha. Nas voltas e reviravoltas da vida, com um divórcio e uma mudança de casa pelo caminho, ele tinha desaparecido.
Disse-lhe que isso não impediria de por aquilo a trabalhar decentemente. Eu traria de casa o SO adequado e, depois de instalado, era só ira à página do fabricante buscar o que faltava. Mas só no dia seguinte, que não ando com isso comigo.
De orelha murcha afastou-se e não o vi durante uns dias.
Quando o voltei a ver, vinha sorridente. Um amigo tinha-lhe instalado o SO e vinha pedir-me para acabar a coisa. Mas, depois de ver o que ali estava instalado e de consultar o fabricante, tive que lhe dar a triste notícia que não senhor, que o que lá estava instalado não servia.
Em qualquer dos casos, poderíamos começar de imediato, que desta vez eu estava preparado e, umas duas horas depois, estaria quase como novo. Era questão de ele se sentar a meu lado e ir fazendo o que lhe fosse explicando.
E ele que não, que não podia, se eu não podia ir fazendo as coisas que ele depois voltava. E eu que sim, que aquela era a forma de fazermos as coisas e de eu o ajudar. Que não só o problema ficava resolvido como ele aprenderia a resolver se a questão se repetisse.
Acontece que insistiu que queria assim, que teria que ser eu a fazer e ele a voltar depois. E, perante a minha posição inabalável, pegou no portátil mais o CD e abalou. Não sem que antes exclamasse:
Então e agora?! Vou ficar sem computador no Natal?! Como é que vai ser?

Ainda não o vi, de então para cá, e não sei se resolveu ou não a questão.
Mas o problema que tem que ser mesmo resolvido não é o do computador! É o de cada vez menos as pessoas quererem saber daquilo que lhes diz respeito e que usam. Apenas lhes interessa o resultado de carregarem no botão, seja ele do que for, e que aconteça acto contínuo. O como e o porquê não tem interesse nenhum.
É o fast-food do saber e da tecnologia, que vai transformando, cada vez mais, os cidadãos em idiotas com pernas.
Apesar de o conhecimento estar cada vez mais perto, à distancia de um link da web.
Por mim, continuarei a, mais que dar o peixe, ensinar a pescar. A quem quiser aprender, entenda-se!


Texto e imagem: by me

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

The first one


Returning home, after a regular day of work on this new-year, I couldn’t resist and took this picture. The first one of the year. Even with my cell phone, with almost no light, getting some help from a handrail. And having lots of doubts about its sharpness.
The same kind of doubts we have about the future that, some how, it shows to us.
Any way, even if it is a foggy night, with lots a grain and a non perceptive horizon, we can see there a very small light, shining for us.
We just have to have the nerve to keep walking and try to reach it. Knowing that, with self-reliance, we can get there.



Texto e imagem: by me

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Yin & Yang efémero


Teria uns trinta anos, bem medidos. A sua cor de pele e a modéstia da suas roupas em nada destoavam na estação de comboios daquele bairro periférico, construído naquela zona de ninguém que é a fronteira entre dois municípios.
Quando a composição parou, neste primeiro de Janeiro, aproximou-se da porta e premiu o botão para a abrir. Mas não entrou.
Em vez disso, deixou-se ficar no cais, olhando com intensidade para um lado e para o outro. Sem dúvida que estava a tentar descortinar em que porta estaria o revisor, para saber se poderia entrar por aqui ou teria que correr um pouco, não muito, para a porta seguinte. E esta outra, sendo que ficava na segunda das duas unidades quádruplas, não estava acessível por dentro, pelo que o revisor não se lhe chegaria.
Entretanto, de outras portas, passageiros foram saindo, de todas as idade e aspectos, mas sempre dentro da mesma tónica modesta.
Um destes, aí já de uns cinquenta contados, ao passar por ele a caminho da saída, estendeu-lhe a mão e passou-lhe algo. Quase nada se falaram e, pelas expressões, suspeito que não eram íntimos. Que ele agarrou e, acto continuo, entrou. A porta fechou-se, o apito fez-se ouvir e retomámos a marcha.
Aquilo que ele recebeu, vi-o depois na sua mão, era um bilhete de comboio. Suponho que ainda não validado pelo “pica” e com viagem paga até duas estações depois, o fim daquela zona de tarifa.

Esta é, sem sombra de dúvida, uma boa forma de se começar o ano, supondo que ele começa em algum dia: usar de solidariedade para com quem tem os mesmos tipos de dificuldades, partilhando o pouco que se tem. Mesmo que seja para fugir à tirania das tarifas, dos revisores e das multas!
Nem tudo está perdido no género humano!



Texto e imagem: by me

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Uma proposta de fim-de-ano


Há quem faça questão de passar o fim do ano a beber. Espumante, vinho, bebidas fortes. Suponho que, por não a terem naturalmente, vão procurar na álcool a alegria que entendem dever ter nesta data arbitrária.
Outros cumprem a tradição comendo uma passa a cada badalada da meia-noite. O objectivo simbólico é ter comida durante todo o ano que então começa.
Também há quem, logo no início do ano, atire fora um sapato velho. Quês as coisas velhas devem ser descartáveis. Pena é, em Bagdad, não ter sido o fim do ano há pouco tempo, ou Bush teria recebido uma chuva de sapatos.
Tradição igualmente antiga é o dar um salto, subindo ou descendo, aquando da exactidão da meia-noite. Provavelmente uma tentativa de ter todo o corpo, naquele instante, como é costume ter a cabeça: no ar.
Por mim, bem, por mim espero estar, aquando desse momento igual a todos os outros, a ver fogo de artifício. De uma forma ou de outra, enche-me a alma e mostra-me sem sombra de dúvidas o efémero que somos. Uma relação íntima, também, com a fotografia e o “momento decisivo”, aquele instante em que é forçoso fotografar ou já nem vale a pena darmo-nos ao trabalho.
Mas também espero estar, nesse mesmo momento, com uma mão no bolso. Mais exactamente, com a mão no bolso e os dedos no buraco que sempre por lá encontro. Porquê? Bem, para tentar estancar a sangria de dinheiro que vou sentindo, a par com todo o mundo. No meu caso, acredito, que seja por ele fugir por este buraco.



Texto e imagem: by me

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Talvez porque estava sol!


Talvez porque estava sol! Talvez por ser feriado! Talvez por faltarem ainda uma mão cheia de dias para o final do mês! Talvez…!
O autocarro levava apenas meia dúzia de gatos-pingados. Uma senhora idosa, gorda e de ar modesto, num dos bancos da frente; eu mesmo, de pé e com o saco nas costas e o tripé ao peito, no patamar junto à porta; um casal de meia-idade, num banco logo a seguir; lá para o fundo, em bancos separados, dois homens de idades indefinidas. E nada nos unia naquela viagem, não fora o partilharmos o autocarro e, por ser o dia que era e a hora que era, parecermos uma multidão.
Mas, metido que estava nos meus próprios pensamentos e observando que ia a avenida deserta como nunca, não teria dado por nada, ou quase.
O que me fez despertar para o que acontecia ali dentro foi uma voz, vinda da porta da frente. Um rapaz, de vinte e poucos, nem bem nem mal vestido, exclamava para o motorista: “Oh chefe! Não me faça isso! Logo hoje!”
Olhei, como os demais devem ter olhado também. A nota de vinte euros que tinha na mão contava a história sem falar. Ele queria pagar o bilhete, um euro e trinta cêntimos, mas o motorista/cobrador não tinha troco. Deve ter-lhe proposto entregar-lhe um vale da quantia a devolver, para ser recebida numa das estações centrais da Carris. Lá na outra ponta da cidade e não naquele dia, que se tratava de um feriado.
Acredito que o rapaz não tivesse ali mais dinheiro que aquele e ficar sem nenhum, naquele dia, seria catastrófico. Depois de trocar mais uma palavras, em voz baixa, com quem lhe devia vender o bilhete, veio de passageiro em passageiro, perguntando se, por mero acaso, não teríamos troco de vinte euros. E a nossa resposta, cada um à vez, foi negativa. Por mim, tinha uns cinco ou seis euros em moedas e a nota mais pequena era de dez. Não chegava!
Regressou lá à frente, sempre com a nota na mão, suponho que para tentar convencer o funcionário da sua vontade de pagar mas também da sua impossibilidade de encontrar trocos para tal.
Entre mim e ele, a velhota sentada chamou-o. Tinha decidido fazer aquilo que eu mesmo estava a hesitar em fazer. Abrindo e rebuscando no seu porta-moedas, foi contando moedas até perfazer os malfadados euro e trinta do bilhete. E entregou-lhos, dizendo: “Tome! Vá lá pagar!”
“Mas…” titubeou ele, “Mas…!” “Vá lá”, interrompeu ela, “Vá lá antes que ele lhe passe a multa!”
E ele foi. Pagou o bilhete e deixou-se ficar por ali, junto à porta da frente.
Duas paragens depois a velhota saiu, transportando com dificuldade o seu próprio peso e o de um saco, volumoso também, que segurava. Não trocaram mais palavra e, creio, não mais se encontrarão.
Um euro e trinta cêntimos. O preço da satisfação de ambos. O conceito de barato e de caro dependerá das posses de cada um deles. Que não me pareceram abastados, bem pelo contrário.
Mas…. Qual o preço de um sorriso?Talvez porque estava sol! Talvez por ser feriado! Talvez por faltarem ainda uma mão cheia de dias para o final do mês! Talvez…!
Texto e imagem: by me