domingo, 3 de julho de 2016

Diógenes



Consta que Diógenes, na velha Grécia, terá sido visto a caminhar de dia com uma lanterna acesa. Questionado sobre tal bizarria, terá respondido que procurava um homem honesto.

Por vezes, dou comigo assim.

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Pinceis e outros



Confesso que aqui em casa tenho diversos tipos de pincéis e escovas.
Para além das de higiene pessoal, bem como as dos sapatos e roupa, para não falar nas óbvias da limpeza doméstica, tenha bastantes outras.
Mas de todas essas outras, estas duas são as que uso com mais frequência.
Limpar as ópticas, limpar tampas de objectivas, limpar as objectivas por fora, limpar os corpos das câmaras, limpar o interior das câmaras (neste caso uso outras bem mais especiais), são mesmo os pincéis e escovas de fotografia que mais uso.
Claro que tenho trinchas, pincéis finos e médios, escovas de dentes de várias durezas, na caixa da ferramenta tenho escovas de arame, manuais e rotativas… o que por aqui não vai faltando são escovas e pincéis.
Mas aquelas pelas quais tenho maior estima e cuidado são estes dois.
No entanto, nunca pensei que pudesse ser identificado como uma pessoa que passa a vida ligado a pincéis e trinchas. Nunca isso me passaria pela cabeça! Apesar disso, houve quem tal pensasse.

Um destes dias fui abordado no café por uma casal vizinho no prédio. Para além da saudação trivial e das conversas parvas de elevador, nunca tínhamos falado a sério sobre o que quer que fosse. Mas desta vez…
Desta vez, já com o saquito de pão na mão, perguntam-me se seria pintor ou estaria relacionado com pintura. “Não é pintura de paredes”, esclareceram eles, “É mesmo pintura de quadros!”
E lá lhes expliquei que, de pintura, gosto de ver as paredes limpas e os quadros nelas pendurados, mas mais nada disso percebia.
Contaram-me então que um seu parente havia comprado um quadro, num leilão, e que tinha a firme convicção de que seria de um Mestre espanhol. Já o haviam posto em análise junto de entendidos e todos eles o haviam negado. No entanto, não havia quem lhes tirasse isso da cabeça.
E ficámos um pedaço a falar do assunto, como se eu mesmo fosse um entendido. Acrescentaram que as análises às tintas tinham confirmado a época, mas na ausência de assinatura…
Sugeri-lhes que comparassem a forma como as tintas estavam aplicadas, de que forma a luz estará trabalhada, se os jogos de perspectiva seriam idênticos aos do Mestre… E que, eventualmente e visto ser em muito semelhante a um outro, esse sim, desse Mestre e que estará no Prado, tratar-se-ia de um trabalho de um dos discípulos do Mestre, que frequentemente praticavam baseando-se nos trabalhos dele.
Lá nos separámos no elevador, que o piso deles é mais acima. Com uns sorrisos de circunstância e eles ainda convencidos que teriam uma obra fabulosa e desconhecida em casa.

Pergunto-me eu se, no lugar de costumar andar com uma câmara fotográfica pendurada no ombro, andasse com uma palete multicolorida na mão e uns pincéis a sair-me do bolso da camisa, pensariam eles que eu fosse fotógrafo.

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sábado, 2 de julho de 2016

A espera é!



By me

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Um dos roubos de equipamento fotográfico mais antigo e de que há memória, em Portugal, aconteceu no Porto no ano de 1903, tendo sido levado o conteúdo de um estúdio.

A questão que se põe é: quem terá sido o receptador de tal material à época?
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Um programa de televisão sobre fotografia, idealizado e produzido por alguém que entende que só a foto-reportagem e o foto-jornalismo merecem atenção e destaque, que argumentou e argumenta que as fotografias boas são apenas as efectuadas por uma conceituada e dispendiosa marca, que despreza quem não se desloca em viaturas de topo de gama, que censura as opiniões que se lhe opõem...
São estas pessoas que dão mau nome à actividade fotográfica. E são estes programas que afastam o público do consumo televisivo.
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Diversão preferida dos deuses:
Juntarem-se em torno de uns canecos, galhofando do que fizeram aos planos e projectos dos humanos que os veneram.
"Só para ver se aprendem!", costumam comentar.
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Há pouco mais de um século era escrita esta crítica fotográfica no jornal Primeiro de Janeiro sobre uma exposição:
"... absoluta verdade, sem alterações de retoque, nem alindamentos amáveis mas descaracterizantes, naturalíssimas poses, simplicíssimas de arranjo, cheias de propriedade na luz - verdadeiros e sinceros retratos, em suma..."
Se eu não tivesse referido a data, alguém duvidaria que poderia ter sido publicada esta semana?
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sexta-feira, 1 de julho de 2016

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Faz hoje 38 anos que cruzei uma cancela, num dos momentos e decisões mais importantes da minha vida.
Não creio que fosse a mais pálida amostra do que sou hoje, de bom e de mau, se esse momento não tivesse acontecido algures naquela manhã.
E, passado todo este tempo, e apesar de todos os percalços vividos, posso afirmar com orgulho que o saldo é positivo e que continuo a ter uma camisola vestida.

Contra tudo e contra todos!
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Do sobre a utilização da imagem fotográfica – parte 12



Volta e meia falo disto: de como os revoltosos da Comuna de Paris se deixaram fotografar nas barricadas, orgulhosos do que faziam e lisonjeados por serem objectos de fotografia (segunda metade do séc. XIX) e de como, em falhada a revolta, as polícias revistaram os arquivos dos fotógrafos em busca dessas mesmas imagens, que usaram para identificar e executar quem tinha enfrentado o poder instituído.
E falo nisto não apenas pelo significado político da Comuna, então e agora, como pelas consequências do fotografar ou ser-se fotografado. E a fotografia, não sendo partidária, não é apolítica, tomando sempre posição: a posição ou perspectiva do fotógrafo face ao que fotografa.
Pois fiquei agora a saber que também Portugal não escapou aos ventos da Comuna ou à fotografia.
Estabeleceu-se em Portugal um fotógrafo francês, Alfred Fillon, como refugiado político. Regressou a Paris para retomar os seus discursos e lutas socialistas, acabando por regressar a Lisboa na sequência do falhanço da Comuna de Paris.

Perguntar-me-ão sobre a utilidade do saber-se o acima contado.
Bem, tenho para mim que a riqueza não se mede em dinheiro ou em bens que ele permita mas antes na imaterialidade daquilo que sabemos e podemos usar ou fazer a partir desse saber.

Na imagem: uma das fotografias feitas durante a Comuna de Paris.

Repare-se na importância atribuída à fotografia: um dos presentes faz questão de segurar à sua frente uma pequena criança, que haveria de constar em tal momento especial.

By me

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Desculpem falar nestas coisas num momento de alegria desportiva, mas se não o fizer rebento…
Abro a página do jornal “Público” e a primeira coisa que vejo é publicidade (dois blocos, um horizontal, outro vertical) à universidade de verão do PSD.
Pronto! Agora que já desabafei, que tentei sublimar a raiva de assim ver comprometidos os ou alguns media independentes, já podem regressar aos festejos da vitória da selecção, que isso é bem mais importante para o país.

Desculpem o incómodo.
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