quarta-feira, 25 de junho de 2014

Paragens



Quando cheguei à paragem, ele já lá estava. Assim, como se vê. Com o acréscimo, não visível, de usar gravata, óculos e chapéu preto na cabeça.
E só lá estava ele. Tinha acabado de passar um autocarro da carreira que eu mesmo queria usar, logo antecedido de um outro da outra carreira que ali passa, e só lá estava ele.
Depois de mim, outras pessoas foram chegando. Uma, duas, cinco… não muitas, que já passava das sete da tarde, o comércio já estava fechado ou em vias disso, e os transeuntes eram ou pareciam ser residentes na zona, de regresso a suas casas. A maioria sem grandes pressas, parecendo querer aproveitar o fim do dia simpático e a pacatez que se instalava. O próprio trânsito, sempre denso naquela avenida, amainava.
Muito pouco regulamentar, porque demasiado perto da paragem, uma carrinha de uma empresa de publicidade havia estacionado. Os seus ocupantes foram beber uma imperial (ouvi-os falar disso) num café em frente, e a viatura ficara de tal forma que não se via o eventual aproximar dos autocarros.
Pese embora haver ali um indicador do tempo de espera para cada carreira, tenho pela prática muito pouca fé no que indicam. Vê-los lá ao fundo aproximarem-se é bem mais rigoroso. Por isso estava eu alerta, espreitando de quando em vez quase já na faixa de rodagem. Não que me preocupasse muito a meu respeito: rapidamente lhe faria sinal de paragem, mesmo que a meros cinco metros, e rapidamente me aproximaria dele para subir.
Mas ele, sentado que estava, concentrado que estava na leitura, limitado que estava nos movimentos, que a bengala bem o indicava, não seria tão lesto.
Chegou um autocarro, que seguiu o seu caminho. Alguns ficaram, esperando pela carreira que interessava. Eu e ele incluídos. Eu de olho na avenida e nele, ele de olho no jornal, concentrado. Nem levantava a cabeça.
Quando, finalmente, chegou a carreira que me interessava, ele nem se mexeu. Embarquei, junto com os demais que ali estávamos, mas ele ficou, ali, numa paragem de autocarro, lendo o jornal dobrado.
Suponho que aquele banco de paragem de autocarro fique bem mais perto de sua casa que os de jardim, a uns trezentos metros de distância. E protegido de alguma eventual aragem ou humidade, com as suas paredes de vidro. E gratuitas, ao contrário das do café em frente. Talvez bem mais luminosas e cosmopolitas que as de onde reside, de alvenaria e opacas.

Talvez que solitárias.

By me 

terça-feira, 24 de junho de 2014

Um olhar - Andreia



By me

Irresistível



Confesso que isto é irresistível.
Não consigo passar por esta parede sem fazer o registo da fotografia que o sol faz nela.
Porque, e se fotografia é a escrita da luz, o que aqui se vê será a fotografia de uma fotografia.
E, de todas as vezes que por aqui passei – e foram já muitas – vi fotografias diferentes. Todas elas únicas, a lembrar os tempos em que a photographia se fazia em suportes únicos, impossíveis de duplicar.
Bem ao contrário do que sucede hoje, com a imagem digital e as redes de difusão.

Talvez que o sol seja bem mais sábio que todos nós juntos.

By me

Já cá canta!



Certo! Já cá canta! Um choradinho ao telefone com a editora (Relógio d’Água, uma simpatia de gente), uma ida rápida antes que mudassem de ideias, e já cá canta.
Só consegui, mesmo, foi um só exemplar. E eu queria dois. Queria mesmo dois exemplares do mesmo livro.
Não se trata de açambarcamento de algo que está esgotado. De forma alguma.
É que, pese embora o que disse, quero poder continuar e emprestar livros. Que gosto tanto deles que é um prazer partilhar. E estarem em casa, a apanhar pó nas prateleiras faz pena.
Mas alguns há que não quero perder, não quero que torne a acontecer ficar impedido de a eles voltar só porque alguém sem alma resolveu transformar a partilha em dádiva irreversível.
E, enquanto vinha para Lisboa, com os dedos cheios de comichão de os pôr naquilo de que gosto, fui pensando:
Dos que tenho, quais os que me levariam a ter um segundo exemplar para poder partilhar?
A lista é longa e, de memória, é certamente incompleta.
Mas aqui fica uma mão-cheia de títulos. Alguns já tenho em repetido, outros será de todo impossível (ou quase).

“1984”, George Orwell
“Um estranho numa terra estranha”, Robert Heinlein
“Os Maias”, Eça de Queiroz
“História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar”, Luís Sepúlveda
“Memorial do convento” José Saramago
“Estação de trânsito” Clifford Simak
“Fahrenheit 451”, Ray Bradbury
“Metamorfose”, Kafka
“A inaudita guerra da Av. Gago Coutinho”, Mário de Carvalho
“Sete cartas a um jovem filosofo”, Agostinho da Silva
“Ensaio sobre a fotografia”, Vilém Flusser
“Ensaio sobre a fotografia” Susan Sontag
“Câmara clara”, Roland Barthes
“Photographic seeing”, Andreas Feininger
“Fotografia básica” Micchael Langford
“Modos de ver”, John Berger
“Ponto, linha, plano”, Kadisnky
“Dicionário das cores do nosso tempo”, Michael Pastoureau
“A língua da tua mãe”, Steohen Burgen
“Gaston la Gaffe”, André Franquin


A lista poderia ser bem maior mas, assim de cor e numa esplanada, é o que se ocorre.

Aos bocadinhos, tratarei de encontrar segundos exemplares (os possíveis) para poder partilhar. Que estes, façam o que fizerem, não ficarei sem eles!

By me

Porque me apeteceu, prontos!



By me

Imagem/Identidade



O texto e a imagem remontam ao ano de 2006. Os factos relatados não seriam hoje possíveis, face a actualizações tecnológicas. Pelo menos no local em causa.
Mas fica a história e a pertinência das questões levantadas, sempre actual.

Com grande frequência sou levado a entrar numa instituição. O seu acesso é condicionado, pelo que só pessoas identificadas podem entrar. Existe uma empresa de segurança que controla as entradas, em que os seus agentes verificam as creditações, apoiados em sistemas de vídeo.
Aqueles que, como eu, têm que lá ir com assiduidade possuem um cartão personalizado, com o seu nome, função e fotografia inscritos. Os que só lá acedem esporadicamente, são identificados à entrada através dos sistemas habituais e é-lhes fornecido um cartão temporário.
Um dia resolvi fazer uma brincadeira. Tratei de falsificar o cartão que possuía!
Ainda que o pudesse fazer com um bom nível de qualidade, fiz questão de fazer uma má falsificação. A mancha gráfica, tal como a palete de cores estava lá perto, mas o resto nem pouco mais ou menos.
Para começar, assumi o nome de “José Maria Pincel”. Em seguida reclamei para mim o cargo de “Presidente da Junta”, O mais complicado foi mesmo a fotografia. Teria que ser alguém com barbas e mais ou menos conhecido.
Ainda pensei em Karl Marx, mas corria o risco de ser desconhecido para muita gente. Optei então pela fotografia de Fidel Castro.
Durante dois meses lá entrei com esta identificação. No decurso desses dois meses, mudei de vestuário habitual, cortei a barba, mudei de chapéu. Mas mantive esse cartão.
Resultado: nunca questionaram a minha entrada nem vieram verificar a autenticidade da identificação apresentada.
Admitindo que, por causa da distância, não conseguiriam ler as palavras inscritas, no mínimo seria de esperar que a fotografia levantasse algumas questões, mesmo quando eu estava a usar barba. Para já não falar de quando a cortei. Nem isso.

Desta experiência, podem-se retirar pelo menos duas elações:
Por um lado, a segurança das instalações deixa muito a desejar. Essa era uma das tónicas que eu queria deixar bem clara. E dei-me ao luxo de enviar o falso cartão ao topo da hierarquia da instituição, junto com um relato das circunstâncias, para o demonstrar.
Por outro lado, e é o que é pertinente neste caso:
Será que quando olhamos para uma fotografia ou objecto vemos efectivamente o que lá está ou apenas aquilo que esperamos ver? Seremos sensíveis àquilo que nos é transmitido visualmente ou apenas àquilo que os nossos filtros mentais deixam passar?
Para além de vos deixar estas perguntas, deixo-vos também uma sugestão:

Façam um exercício semelhante a este. Na escola, no trabalho, na biblioteca, no aeroporto, etc. E verifiquem as reacções. Mas com uma cautela: tenham por perto a verdadeira identificação, não vá dar-se o caso de o funcionário ser zeloso e eficaz!

By me

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Um olhar - Paulo



By me

Um olhar - Sofia



By me

Lâmpada apagada



É verdade que sim: os génios conseguem.
Eu, que não sou génio, tenho que recorrer a truques e aceitar as minhas limitações.

Não me é possível mostrar por imagens, quer sejam escritas quer sejam visuais, sentimentos que não possuo real e profundamente.
Fazer imagens visuais ou usar de palavras que descrevam sentimentos é fácil: cores e tons, surpresa e originalidade, organização de ideias e elementos menos comuns, perspectivas e linhas de pensamento concordantes ou que surpreendam quem as vê ou lê… tudo isto são técnicas que se aprendem, umas mais fáceis, outras não tanto.
Abundam escolas de fotografia e de escrita criativa onde tudo isso se ensina e de onde se sai conhecendo-as.
Mas se não se sentir, se as situações não tiverem sido vividas ou emotivamente vividas… serão apenas mais uns gigabytes grafados, com teclado, caneta ou câmara, iguais uns aos outros, sempre todos iguais uns aos outros mesmo que diferentes. Mesmo que atraentes.
Os génios, esses, sabem sem aprender a ver com a alma e a materializar esse ver. E quando vemos o que viram… são génios.

Eu não sou génio. E tenho que trabalhar muito, emotivamente, para conseguir algo que se veja. Mesmo que mau.

Passar para além do visível, do tangível, e materializa-lo sob forma de letras ou enquadramentos é das coisas mais difíceis que conheço. Que o mais que faço, por muito que tente que não seja, mais não é que fotocopiar o que me cerca.

By me 

Suburnanidade estival



Não chove nem faz sol. Neste momento.
Está um daqueles tempos que, convidando-nos a andar na rua em mangas de camisa, nos desaconselha a andar com elas arregaçadas. Aragem, quase que nem se dá por ela na pele ou nas folhas, de tão imóvel que está o ar.
Por isso mesmo, entretido que tenho estado com outras letras e grafias que não estas que vedes, tenho mantido as janelas abertas. Não de par-em-par, que algumas são triplas, mas o suficiente para que os fumos dos cigarros se não acumulem e que o exterior dê um ar da sua graça cá dentro.
Lá fora, do outro lado da praceta e longe do tráfego automóvel, algumas crianças brincam na rua. A escola acabou e agora, de tarde, nada como dar vazão ao esforço de crescimento ósseo e muscular. Incluindo o pulmonar.
P’las paredes da praceta, mesmo que do outro lado, vão subindo os seus gritos e risadas, sons reconfortantes e que contrastam com outros mais habitualmente ouvidos por aqui. Entre parágrafos ou ideias, encosto-me um nico e fico a senti-los.
E, por entre o bru-à-à jovial, sobressai uma exclamação violenta:
“Dá cá a carteira, miúdo! Dá cá a carteira senão espeto-te!”
Assusto-me. Como não poderia deixar de ser. E, antes ainda de me poder levantar da cadeira, as frases repetem-se, com o mesmo volume e entoação: “Vá! Dá cá a carteira, miúdo! Dá cá a carteira senão espeto-te!”
Corro à janela. Quem estaria, aqui e assim, a assaltar tão descaradamente? Poderia eu, da minha distante janela, fazer algo?
Por entre as ramagens das árvores (que os garotos brincam do lá de lá delas, no parqueamento) já só os vejo a eles e só oiço as suas risadas. Nem ameaças nem algum “matulão” a fazer das suas.
Mais não fora que uma brincadeira entre eles, repetindo, como boas crianças que são, o que vão vendo e aprendendo na vida real e nas televisões.
Mas o “miúdo” e o “espeto-te” não aparece nas televisões, nem cedo nem tarde. Vem das vivências tidas, de algum episódio assistido ou tido na primeira pessoa. E repetidas, meio de escárnio, meio de exorcismo.
Tempos vão em que os policias e ladrões, ou índios e cowboys, não iam tão longe, tão assustadoramente próximos de uma realidade que gostaríamos que fosse ficcionada.

Deixei-os lá onde estavam.
Incapaz de retomar as ideias interrompidas, fui retemperar animicamente com um café, ali a meio da rua.
Regressei com uns sapatos que lá deixei, com a certeza de que quando for tomar a bica depois de jantar já por lá não estarão.

Mesmo que o tempo não mude.

By me