domingo, 15 de fevereiro de 2026

José?




Enquanto fumador é-me difícil recusar um cigarro a quem mo pede. E quanto mais difícil a vida de quem mo pede aparenta, mais facilmente o dou. Que sei o quão difícil é ter que escolher entre comer e fumar. E o quão bom é, nessas condições, conseguir fumar um cigarro inteiro, novinho em folha.

Por isso quando um sem abrigo ou equivalente me aborda dou sem mais aquelas. A única questão é a forma como sou abordado, que se for abrupta ou em forma de ordem, bem podem ir fumar para outro lado.

Por vezes, se estou de maré e a conversa o permite, proponho uma troca sem obrigações: um cigarro por uma fotografia. Dou o cigarro na mesma quando não aceitam o negócio, mas fico todo satisfeito quando consigo o boneco.

Terá sido este o caso, há uns bons quinze anos.

Sei o tempo porque o arquivo me informou. Sei que terá sido uma “troca” porque me enfrenta com o cigarro apagado (por regra dou primeiro e fotografo depois).

Aquilo que não sei, ou talvez tenha sabido mas esqueci, é o seu nome. E isso irrita-me.

Uma fotografia de alguém não é apenas um troféu no cinto do fotógrafo. É alguém que acedeu a partilhar-se, a dar-me um pouco de si. E isso não pode ou não deve ficar no anonimato ou na frieza de um número.

Não sei o seu nome de baptismo. Mas vou chamar-lhe José para que não seja apenas mais um. Nunca somos apenas mais um.

 

Pentax K7, SMC Pentax-M 50 1:1,7


By me

Sem comentários: