segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Entaladas




Talvez já tenham reparado que alguns edifícios de Lisboa têm “enfeites” destes na sua fachada, geralmente encimando a porta principal.

Não sei se existem no resto do país, mas em Lisboas há-os. Na zona de Benfica, de Alvalade, de Belém...

Apelidadas de “Entaladas” pelo arquiteto Keil do Amaral, foram colocadas entre a porta principal do edifício e a varanda do primeiro andar, permitindo que a “obra de arte” valorizasse o imóvel e, com isso, a venda ou aluguer bem mais alto.

Estas esculturas ou relevos têm como motivo genérico mulheres (musas ou ninfas) mas não se restringindo a isso. Há exemplos de figuras masculinas, operários e não só, numa abordagem e simbolismo muito à época do decénio de 1950. Os temas também versavam o mundo animal, privilegiando a pomba da paz que, numa versão não tão prosaica, se referiria eventualmente ao espírito santo.

De parceria com estas “entaladas”, e com o mesmo objectivo de valorizar o negócio imobiliário, também encontramos azulejos mais ou menos trabalhados, por vezes colocados no átrio do prédio e não no exterior. Sempre com o mesmo objectivo de enobrecer o edificado, aumentando-lhe o valor e, com isso fazer distinguir os residentes dos demais em redor, quantas vezes muito mais singelos nas decorações, se alguma, e nas dimensões. A elite protege-se.

Ainda hoje, no bairro de Alvalade, qualquer prédio da avenida de Roma onde as entaladas pululam, é muito mais valorizado que os circundantes.

As entaladas marcam uma época da cidade no conceito arquitetónico, na separação social e no uso das artes enquanto elemento agregador.

 

Pentax K-S2, smc Pentax pancake 40 1:2,8


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