domingo, 16 de outubro de 2016

Equi



É interessante (ou triste) pensar o quanto se esforçam nas escolas de artes e comunicação para impor os números de ouro, as linhas de fuga, as perspectivas geométricas, as proporções de acordo com os cânones, deixando gloriosamente de fora aquilo que é realmente universal na representação pictórica: o equilíbrio.
É o equilíbrio formal e o equilíbrio semiótico (ou as suas ausências) que dão sentido e leitura ao representado, que fazem com quem haja quem interprete o pintado (ou gravado, ou esculpido, ou filmado, ou fotografado).
Ao longo da história, das culturas e das geografias encontramos diversas formas de representar bidimensionalmente. O conceito de perspectiva, de linhas de fuga, de numero divino é algo que resulta apenas das evoluções estéticas oriundas no mediterrâneo.
A noção de espaço, de profundidade, de volume não é uma obrigatoriedade no planeta e no tempo.
Nalgumas culturas o tamanho depende da importância, não do lugar. Noutras nem sequer se altera escalas. Noutras ainda, na mesma imagem (ou pintura ou escultura) existem diversas linhas de fuga, dependendo dos pontos de observação dos representados ou do ponto no tempo da história representada. Noutras ainda a profundidade é expressa com perda de detalhe no pintado, a chamada perspectiva aérea.
Mas aquilo que sempre foi considerado como vital, inalienável, obrigatório para que fosse considerado agradável à vista e eficaz na comunicação é o equilíbrio.
Equilíbrio de volumes, equilíbrio de cores e luzes, equilíbrio de importâncias… equilíbrio.

Equilíbrio – ou desequilíbrio – é a chave para a composição. Tudo o mais são as linguetas para a abrir.

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Conversas



“(…)
Fizeram-lhe uma proposta de trabalho no norte. Ele que vá para o norte, que vá para o sul, que vá para o caralho, desde que saia da minha vida!
(…)”

As conversas telefónicas alheias que ouvimos a bordo de uma carruagem…

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Tiranias



- Oh pai? A água ferve a 90º?
- Não, filho, que disparate! A água ferve a 100º.
- Ah, pois… A 90º ferve o ângulo recto!

Piadas à parte, a verdade é que quantificamos tudo na vida. Pesos, volumes, distâncias, temperaturas, energias, tempo… Ainda não quantificaram os afectos, mas creio que não faltará muito.
Com as artes e as expressões pessoais, o mesmo se passa. Nas métricas, nas rimas, nas proporções, nos equilíbrios… As fórmulas algébricas definem à priori ou explicam à posteriori aquilo que apeteceu fazer, aquilo que o criador entendeu por bem materializar.
E estas quantificações impõem regras e normativos. Que, por um lado, definem e generalizam o conceito de qualidade e, por outro, padronizam técnicas e materiais usados por cada um para se exprimir. E tente-se lá encontrar uma tela redonda para pintar…
Com a fotografia sucede exactamente o mesmo!
Submergida que está à ditadura das normalizações dos fabricantes, é difícil a roçar a impossibilidade de se lhes fugir. E se fabricarmos nós mesmos os materiais (equipamento e consumíveis) é quase uma impossibilidade, as expressões de surpresa ou de desprezo por parte de quem atende o público ao lhe ser pedido um trabalho não normalizado acaba por ser hilariante, se não fosse trágico.
Tente-se mandar imprimir uma fotografia a partir de negativo ou de ficheiro digital que tenha, por exemplo, uma proporção de 1:7,5. Suspeito que só alguma lei recôndita e obscura que impede os empregados de balcão de rirem, inibe o ouvir-se uma valente gargalhada. E provocaria uma chamada de urgência para o hospício mais próximo que pedíssemos um enquadramento trapesoidal irregular.
O alfa-numérico das regras, leis e normalizações é tão castrante quanto um capador de porcos.

E o ângulo recto, com os seus 90º exactos na esquadria do nosso enquadramento, é a cereja no topo do bolo!

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sábado, 15 de outubro de 2016

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Parece que a cerveja vai ficar mais cara para o ano que vem, de acordo com o previsto no Orçamento do Estado para 2017.

Tenho até ao fim do ano para aproveitar.
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Informação meteorológica minimalista



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Promessa que espero manter:
Não levo mais livros p'ra casa enquanto não "despachar" uma das pilhas dos "por ler".
Excepção: a feira do livro da fotografia, daqui por um mês.
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Leio num jornal que uma das medidas do orçamento do estado é um imposto de 0,02 euro sobre cada bala ou projéctil feito de chumbo.

Considerando que as balas são feitas para matar, parece-me que este imposto é particularmente baixo.
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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

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Incomoda-me que o parlamento tenha como principal ocupação o redigir de leis que impõem ou proíbem, com as respectivas sanções.

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Foi ontem



Tal como em outras corridas de toiros, juntou-se uma pequena multidão em protesto contra a barbárie da tortura animal na arena.
Tal como em outras corridas de toiros, as forças da ordem estavam presentes, para obstar a distúrbios da ordem pública.
Tal como em outras corridas de toiros, a polícia delimitou com grades a zona onde o protesto ou manifestação poderia ocorrer.
A cada corrida de toiros essa zona é mais afastada da praça e de menor área. Este ano, e medido a olho, teria uns dez por oito metros.
Tal como em outras corridas de toiros, a polícia define a área de curro onde confina os manifestantes.

Não muito diferente do que acontece lá dentro, em boa verdade.

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Troféus



Não tenho nem um autografo ou mesmo uma selfie que prove o que vou contar.
Mais ainda: os que comigo estavam aquando do episódio já não trabalham por perto para que os possa chamar a testemunhar.
Mas há coisas que não necessitam de testemunho, humano ou material. São verdade porque eu sei que são verdade e quem o puser em causa bem se pode dedicar à pesca.
Certo é que um dos pontos mais altos da minha carreira profissional aconteceu quando tive na minha objectiva, ao mesmo tempo, três grandes: Chico Buarque, José Saramago e Sebastião Salgado.
Três tão grande e tão ao mesmo tempo, unidos por uma mesma causa, que me senti mais pequenino que o diafragma da minha objectiva.
Se o cruzamento de informações que consegui na net estiver certo, bem como o que recordo daquela hora, ainda não tinha sido atribuído o premio Nobel a Saramago.
Tal como recordo Salgado ter desfeito um mito, ao afirmar que a sua primeira câmara fotográfica não foi uma Leica mas sim uma Pentax.

Há quem tenha por troféu na vida uma conquista, uma competição desportiva que venceu, o resultado de uma pescaria, um automóvel comprado…
Ter estado junto a estes três gigantes em simultâneo é um dos meus.


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