Just for the fun
Samsung S1060
By me
Rondavam a mesma idade: vinte anitos, mais coisa, menos
coisa.
Ambas sentadas à minha frente, no comboio, contrastavam
entre si como azeite e água.
Uma, dita “gótica”, era toda preto e branco. Preto no
vestuário, em que o branco aparecia apenas na sola das sapatilhas. E no tom de
pele, que não deveria saber o que é sol há bem meio século.
A outra, também morena, mas com um ar rural, vestida com um
vestido estampado em tons de rosa e verde pálidos.
Tinha esta, por enfeites, um par de brincos metálicos, com
uns brilhantes, que me pareceram mais pechisbeque que outra coisa. Cara lavada,
unhas não pintadas.
A de preto, sentada à minha frente, também de cara e unhas
virgens, tinha tatuado no peito, que o decote em barco bem deixava ver, um
morcego preto, com olhos vermelhos. Simétricos, no lábio de baixo, dois
piercings metálicos. Nos lóbulos, brincos pretos, de massa.
Na mão de cada uma, um aparelhómetro de comunicação
portátil. Um preto, como seria de esperar, estava ligado aos ouvidos e deveria
ir jorrando música. Suficientemente baixo para que não a ouvisse eu.
O outro era cor-de-rosa, parecido com o do vestido, e estava
a ser usado para ler mensagens.
A outra mão de cada uma segurava uma mala. Uma, uma mala ou
saco, de pano preto, de alça bem comprida, decorado com caveiras em branco e
vermelho.
A outra, se bem que tivesse a sua malinha no colo, segurava
uma mala de viagem na coxia, não fosse tombar com os solavancos.
Saiu esta numa estação, na cidade. Ao levantar-se,
endireitou o vestido atrás e, pela velocidade e decisão com que caminhou no
cais, não teria muito tempo até ao autocarro de longo curso que supus que iria
apanhar.
A outra levantou-se na estação seguinte. Mesmo que o saco
fosse bem descido, a bater-lhe no joelho, o cós das calças de ganga preta fora
subidos atrás, tapando pudicamente o elástico das cuecas, azul-bebé. Que
contrastava com as rendinhas pretas que exibia de um lado e do outro das asas
do morcego. O seu passo era de quem caminha para onde é obrigada, quiçá um
emprego.
O que ambas tinham em comum era a dificuldade em tirarem os
olhos da minha barba, branca, e do que trago na lapela, um Azinho em preto e
branco. Estive vai-não-vai para lhes explicar o seu significado, mas não sei se
aceitariam a conversa ou se o entenderiam.
É por estas, e por todas as outras, que gosto tanto de andar
de comboio, suburbano ou longo curso. Que o mundo está ali, na lombriga
metálica, com todas as suas diversidades e contrastes, partilhando bancos e
coxias.
Pentax K7, Pentax 18-55
By me
Quando vejo estes sacos repletos na beira de uma intervenção
nas ruas alfacinhas, não posso deixar de pensar em munições.
Talvez sabendo disso, mudaram o piso pedonal da confluência
da Rua de São Bento com a Caçada da Estrela e com a Avenida Dom Carlos I.
Nikon Coolpix P7000
By me
Façamos um pequeno exercício de imaginação.
Imaginemos que contrato uma empresa para fazer a limpeza e pintura exterior de um prédio: paredes e telhado. Andaimes, mão-de-obra, tintas e demais consumíveis, responsabilidade civil, prazos e orçamento.
Acontece que a empresa não cumpre. Não faz o trabalho de limpeza, instala os andaimes mas não há gente neles a trabalhar, bloqueia portas e janelas, ninguém consegue dormir descansado ou mesmo sair de casa em segurança.
Junto com isso, os andaimes estragaram o jardim do prédio, caíram peças em cima de automóveis sem que houvesse tempestade, duas janelas ficaram danificadas, o telhado ficou sem telhas e os algerozes entupidos.
Que se faria a uma empresa destas? Que opinião teriam os moradores e os dos demais prédios da rua, que impropérios e correspondência seria feita? Por quanto tempo se aguentaria esta situação? Com que consequências?
Certo!
E se for um governo para gerir a coisa pública? Educação, segurança, justiça, legislação, redes viárias, saúde…
Por quanto tempo? Com que consequências?
Pentax MX, smc Pentax-M 75-150, Kodak TriX
By me
Hoje chegou pelo correio um livro, aliás, um catálogo de uma
exposição acontecida há muito tempo. Comprado num leilão on-line, veio
satisfazer a minha curiosidade, mas seu tempo falarei disso.
Enquanto via as fotografias e nelas pensava, veio-me à
memória um episódio, que até foi longo, acontecido faz muitos anos.
Estávamos numa fase de transição: enquanto na área de
produção já se trabalhava em “pal plus”, um formato de imagem que, para além
das características técnicas que implicava, tinha detalhes estéticos a
considerar, na área de informação onde eu estava estávamos bem nos inícios.
Por ser assumidamente rectangular, no lugar do quase
quadrado 3x4, tudo mudava: desde a forma como se enquadrava objectos e pessoas,
passando pelas distâncias de trabalho e respectivas perspectivas e relações de
primeiro plano com os fundos, até à velocidade com que se faz os movimentos
(entrada, saída e espaço intermédio), com tempos diferenciados.
Bative-me seriamente com as chefias para termos uma acção de
formação neste campo, nem que fosse sob o formato de “worshop” ou “learning on
the job”. Para pensarmos no assunto, para trocarmos ideias, para uniformizar
abordagens. Porque estava cada um de nós a descobrir métodos, sendo o resultado
uma manta de retalhos, fruto apenas do nosso desconhecimento e falta de
prática.
Há batalhas que se perdem e esta foi uma delas: nunca isso
sucedeu! E nota-se!
Não há uma “escola” de trabalho, não há critérios uniformes,
não há coesão na imagem. A manta de retalhos que antecipava e via então é
grande e evidente. Tanto do ponto de vista de quem capta e gere a imagem como
de quem concebe os espaços e os seus conteúdos. E é tanto pior quanto as
diferenças nas origens formativas de quem pega na rabicha do arado (só os bem
antigos conhecem a expressão, aos novos deixo o desafio de a descobrirem).
Enquanto trabalhamos solitários, como é o caso da esmagadora
maioria dos fotógrafos, cada um usa e concebe os seus próprios conceitos e
estéticas. Não há comparações!
Mas quando se trabalha numa equipa de imagem, estática ou
animada, é importante que esta seja definida e uniforme. O espectador não pode
ou não deve andar aos saltos, sendo a sequência de imagens fruto de uma linha
comum e de todos os intervenientes conhecida e aceite. Mesmo a “falta de coerência”
deve ser coerente.
Por mim, que faz muito tempo que deixei de lutar contra
todos os moinhos e que agora só o faço com os que seleciono, apenas fico
incomodado com essa ausência de linha de pensamento. Aprendo por mim já que não há “escola”, penso por mim já que não há uniformidade, evito os produtos de imagem
de consumo massivo para evitar os incómodos.
Felizmente existe a fotografia para não estar frustrado
durante todo o dia.
Pentax K100D, Sigma 400 1:5,6
By me
Porque mo lembraram, aqui fica um exemplar que, não sendo
uma raridade mundial, não será das peças mais comuns.
Trata-se de uma Novoflex 600mm f:8, uma focal longa (e não
uma teleobjectiva) concebida para fotografar natureza selvagem.
Infelizmente não possuo o apoio de ombro, o que a torna num
conjunto não particularmente prático de usar senão com recurso a um tripé ou
monopé.
Mas o seu sistema de focagem por gatilho, com prática, é
particularmente útil para acompanhar com rigor objectos em movimento sem
grandes amplitudes de movimentos.
Claro que, nos tempos que correm, isto é obsoleto. As
teleobjectivas vieram encurtar tamanhos e diminuir pesos, os sistemas
motorizados de focagem minimizar esforços e, se bem empregues, muito eficazes.
Além de permitirem fotografar aviões, por exemplo, sem se correr o risco de ter
uma brigada de intervenção rápida da polícia ao nosso lado ainda antes de
conseguirmos fazer uma imagem de jeito.
Em qualquer dos casos, trata-se de um objecto interessante para
a arqueologia da fotografia, em perfeito estado de funcionamento.
Não está à venda.
Pentax K7, Pentax 18-50
By me
Por vezes a fotografia vale por si mesma, sem mais
explicações. Outras, há que contextualizar o fotografado para que faça algum
sentido. Outras ainda será um texto ou uma ideia que necessita de uma
ilustração. E é frequente considerar-se a ilustração fotográfica um género
menor. Foi o que me saiu.
Num Setembro, há uns anos
A noite fora curta. Muito curta.
Somado a isso, um dia passado em andanças que me fizeram
recordar outros tempos, que tinha prometido não voltarem. Mas as promessas foram
criadas para se quebrarem.
Em cima de tudo isto, um almoço particularmente tardio, uma
tarde de muito calor e o suave embalar do comboio, acabaram com as minhas
resistências: quando dei por mim, tinha acabado de passar a minha estação.
Saí na seguinte e, no largo que lhe é fronteiro, parei um
pouco. À sombra. E fiquei, sem pressas, a ver o que acontecia no lago da
estação de um bairro suburbano num fim de tarde domingueira que, sendo Setembro,
bem que podia ser Agosto.
Uma moça, em idade de terceiro ciclo escolar, e com trajes a
condizer, esperava impacientemente por algo ou alguém. Não era da zona, que foi
confirmar com funcionários dos autocarros locais se estaria onde pensava. P’lo
semblante, pareceu-me que sim.
Eis que pára um carro, com um rapazola já bem crescidote ao
volante e que, p’la forma como abordou os incomuns sentidos rodoviários, também
não seria dali.
Toca o telemóvel dela, que atende: era ele. E não se
conheciam.
Aguardava ela, e trazia ele, um manual escolar. Que ela
reconheceu de imediato com um “É mesmo este, obrigado!”
Volta ele p’ro carro e ela p’ra carrinha de onde saíra, onde
uma mulher, ao volante, aguardava com mais duas garotas atrás.
Seguiram os dois veículos e eu fiquei a vê-los afastarem-se.
E pensando com os meus botões que aquilo terá sido uma cedência gratuita de
manuais usados. É bom ver tal coisa ao vivo.
E estou eu a pensar e a sorrir sobre isto, quando sou
abordado.
Um velhote, andrajoso e com um olho inchado e fechado, vinha
pedir-me um cigarro. “Mas só se puder ser e não lhe fizer falta”, disse-me.
“Claro!” e tirei a cigarreira do bolso, abrindo-a e
estendendo-lha. “Sirva-se”.
Olhou para ela, olhou para a sua mão suja e calejada e
deixou-me de boca aberta: “Se não se importa, tire o senhor.”
Dei-lhe quatro.
Por vezes, compensa adormecer no comboio!
Nikon Coolpix P7000
By me
Não tenho pressa. Nem cliente, nem prazos, nem encomenda.
Não tenho urgências, portanto vou com calma.
Quando estou para aí virado, vou para o estúdio e viro mais
algumas fotografias. Com tudo o que isso implica de preparação técnica, de
preparação e verificação dos assuntos, de tratamento de imagem e de pesquisa
posterior com o respectivo arquivamento. Uma hora cada, se tudo correr muito
bem. Bem mais, se tudo correr muito mal.
Refiro-me à criação de uma espécie de catálogo das peças
fotográficas que por aqui há. Para minha organização e organização de quem
nisso pegar.
Desta feita estou de volta dos aparelhos de medição de luz,
a que toda a gente chama de fotómetros. De tantos géneros e modos de utilização
que são que, genericamente lhes podem chamar de “fotómetros”, ainda que tenham
nomes específicos, em função da idade, do método e tecnologia, e da região do
globo de onde são originários.
Hoje calhou que, de entre os que tirei da gaveta para
fotografar viesse este. Um Quantum de sua marca, “calcu-flash-II” de seu nome.
Foi o meu terceiro aparelho de medida no campo fotográfico e
não me recordo onde o comprei. Sei, antes sim, que tinha uma necessidade
tremenda de aquilatar as luz emitida pelas unidades de luz instantânea:
quantidades e qualidades, zonas iluminadas e zonas sombreadas. Não havendo
lâmpadas piloto, isto é vital.
Acontece que de tanto usar e medir, de bem conhecer as fontes
de luz, fui deixando de necessitar do aparelho, passando a confiar mais na
minha experiência e colocando o “flashmeter” primeiro no saco, depois mesmo em
casa. Dei-me mal algumas vezes, que a arrogância do “eu sei fazer” nem sempre
resulta. Medir e ter certezas é importante.
Há anos que não lhe pegava, até porque uso outro, mais
moderno e multifuncional.
Mas hoje, depois de ter verificado a ausência de baterias,
ter limpo os contactos e colocado baterias novas, as minhas mãos sabiam o que
fazer e o que procurar, mesmo antes de a minha mente se aperceber do que estava
a fazer. Incluindo a escala adicional que lhe tinha acrescentado então e que
permite ler as relações de contraste no quadrante de leitura.
Foi com carinho que o usei, foi com gentileza que o fotografei
pensando na utilização da imagem, e foi com amor que decidi que, em terminando
esta sequência que tenho entre mãos, merecerá uma abordagem mais cuidada e
desligada de um catálogo.
Afinal, uma ferramenta como esta, com bem mais de quarenta
anos, em perfeito estado de conservação estético e funcional, e sendo a primeira
do seu género nas minhas mãos, merece um tratamento especial.
É que, digam o que disserem, não há amor como o primeiro!
Pentax K1
mkII, smc Pentax 100-M macro 1:4
By me
“As conversas são como as cerejas: umas atrás das outras”,
diz-se.
Pois não sei qual a cereja anterior, apenas sei que dei
connosco a conversar sobre fotografia (eu e quem trabalha atrás do balcão do
café aqui da rua), e de como há pequenas coisas, tão simples, e que podem
melhorar em muito as fotografias que fazemos. Isto sem se querer ser um
“artista”, apenas querendo obter satisfação do que se possui nas festas e
férias. Mesmo com um telemóvel.
A horizontalidade versus a verticalidade em função do
assunto e da contextualização; o espaço próprio do ser humano e dos objectos e
de como isso corresponde à nossa própria forma de estar e viver; o centro de
interesse e os centros da imagem; o uso de primeiros planos;…
A certa altura tinha mais dois vizinhos aqui da rua a
ouvirem e a experimentarem as minhas dicas com os seus telemóveis mesmo ali
encostados ao balcão, a meu lado.
Foram uns vinte minutos proveitosos para todos, entre cafés
e boletins de totoloto.
Pouco me importa o que dizem os lentes e catedráticos: tudo
na vida é fácil, desde que nos dispúnhamos a aprender e nos ajudem ao nosso
nível.
LG D405
By me