sexta-feira, 15 de abril de 2011
Inocências
Eu estava à porta do café, fazendo aquilo que não posso fazer lá dentro: fumar um cigarro depois da bica matinal.
Ela passou, de mão dada com a mãe, que na outra mão levava a irmã mais velha.
Quando os seus olhos caíram em mim, abriram-se quais faróis de nevoeiro, quase saltando para além dos óculos de hastes coloridas que usava. E foi-se afastando, meio tropeçando, sempre com o nariz, e olhos, pregados em mim.
Pisquei-lhe o olho, como faço a catraios e catraias nestas circunstâncias, e regressei à minha nicotina volátil.
Passados momentos, hei-la de volta, de mão dada na mesma. Suponho que a mãe não terá gostado do café a seguir e decidiu-se pelo meu. Subiram os degraus as três, ela sempre de olhar em mim. Mais que faróis, os seus olhos quase pareciam mós de moinhos.
Instantes depois, oiço uma vozinha infantil, que suponho a sua, a perguntar lá dentro:
“Oh mãe! Porque é que o Pai Natal está vestido assim?”
Quase que me engasguei! Pus em evidência a câmara que trazia no ombro, desci para a rua e afastei-me, deixando à mãe a tarefa de explicar o porquê dos trajes ou o porquê das barbas.
Suponho que não estivessem à espera que aqui mostrasse uma fotografia da garotinha que ainda acredita no Pai Natal, pelo que vos deixo uma imagem igualmente bucólica e inocente.
Texto e imagem: by me
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Rigores
- Oh pai? A água ferve a 90º?
- Não, filho, que disparate! A água ferve a 100º.
- Ah, pois… A 90º ferve o ângulo recto!
Piadas à parte, a verdade é que quantificamos tudo na vida. Pesos, volumes, distâncias, temperaturas, energias, tempo… Ainda não quantificaram os afectos, mas creio que não faltará muito.
Com as artes e as expressões pessoais, o mesmo se passa. Nas métricas, nos rimos, nas proporções, nos equilíbrios… As fórmulas algébricas definem à priori ou explicam à posteriori aquilo que apeteceu fazer, aquilo que o criador entendeu por bem materializar.
E estas quantificações impõem regras e normativos. Que, por um lado, definem e generalizam o conceito de qualidade e, por outro, padronizam técnicas e materiais usados por cada um para se exprimir. E tente-se lá encontrar uma tela redonda para pintar…
Com a fotografia sucede exactamente o mesmo!
Submergida que está à ditadura das normalizações dos fabricantes, é difícil a roçar a impossibilidade de se lhes fugir. E se fabricarmos nós mesmos os materiais (equipamento e consumíveis) é quase uma impossibilidade, as expressões de surpresa ou de desprezo por parte de quem atende o público ao lhe ser pedido um trabalho não normalizado acaba por ser hilariante, se não fosse trágico.
Tente-se mandar imprimir uma fotografia a partir de negativo ou de ficheiro digital que tenha, por exemplo, uma proporção de 1:7,5. Suspeito que só alguma lei recôndita e obscura que impede os empregados de balcão de rirem, inibe o ouvir-se uma valente gargalhada. E provocaria uma chamada de urgência para o hospício mais próximo que pedíssemos um enquadramento trapesoidal irregular.
O alfa-numérico das regras, leis e normalizações é tão castrante quanto um capador de porcos.
E o ângulo recto, com os seus 90º exactos, da esquadria do nosso enquadramento é a cereja no topo do bolo!
Texto e imagem: by me
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Jornal na Linha
Todos os nomes são ficção!
Chama-se Isabel e tem 48 anos. Trabalha na limpeza da firma e parece uma formiguinha, sempre de um lado para o outro, mantendo tão impecável quanto o apertado das rondas impõe, as mesas e os cenários, por um lado, os sanitários por outro.
Chama-se João e tem 52 anos. É mecânico de precisão, com especialidade em óptica, e está para vir a primeira objectiva de fotografia, cinema ou vídeo que não saiba reparar, com peças recuperadas ou mandadas vir de fábrica.
Chama-se Joana e tem 49 anos. É assistente de produção e conhece, como poucos, a forma de colocar uma pequena multidão em ordem, ou os impressos certos a serem preenchidos para os cachêts. A sua agenda de contactos telefónicos vale o que pesa em ouro.
Chama-se Pedro e tem 51 anos. É técnico administrativo e nunca soube eu, por experiência própria ou de ouvir dizer, que algum trabalho por ele feito tenha sido recusado por imprecisões ou erros. Em gestão de pessoal ou meios técnicos também poucos lhe levam a melhor.
Chama-se José e tem 53 anos. É técnico de imagem e, apesar de a idade já não recomendar muitas horas com a câmara no ombro, poucos o desafiam para um travelling, para acompanhar uma jogada de bola ou conhecer os tempos e contra-tempos de uma música para saber o quando mudar de perspectiva.
Como disse no início, todos os nomes são ficção! Mas são estes e muitos outros, mais especializados ou mais indiferenciados que terão o seu futuro pintado de muito negro com a fobia agora no auge das privatizações para salvar o mundo. Ou o país.
Que quem quer que queira aceitar comprar a empresa, esta ou qualquer outra de qualquer outro ramo, das primeiras coisas que fará será a redução de pessoal, trocando os quadros experientes por mão de obra contratada a uma qualquer empresa de outsorcing, sem responsabilidades patronais, sem contratos de trabalho ou limites de horários, pagando-lhes muito menos de metade do que agora é pago. Como se o que agora é pago fosse alguma fortuna.
Acontece também que estes a que me refiro e cujos nomes são ficção, não tendo idade para reformas, receberão uma indemnização mixuruca (que também essas serão reduzidas no quadro legal) e cedo terminará o subsídio de desemprego. E quem os quererá contratar?
A menos que seja por um empresário de visão e que saiba que idade pode ser uma mais valia importante devido à experiência, com mais de 40 anos ninguém é contratado.
Temos assim, e não estou a pintar as coisas com cores demasiado fortes, que o que aí se avizinha será, talvez, uma solução para o colectivo, com aparentes soluções empresariais de privatização. Mas os custos sociais que isso irá implicar serão gigantescos.
Porque aquilo de que se tem falado como empresas a privatizar, alem de ser um rombo nos bens públicos, têm muita gente (uns milhares bem contados) a quem esta história aqui contada, com nomes fictícios, irá acontecer.
A pergunta que se impõe é: estará cada um de nós na disposição de concordar que, para o bem comum, alguns (muitos) sejam deitados fora como um jornal velho ao sabor do vento?
Na resposta que der a si mesmo (e que não espero que aqui a deixe), não se esqueça de usar adjectivos para se auto-classificar!
Texto e imagem: by me
“Se soubesse como o País ia ficar, não fazia a revolução”
A entrevista, ou depoimento, veio publicada no “Diário de Notícias” de hoje.
Esqueceu-se ele de dizer, no entanto, que se se tivesse feito como ele diz, continuariam a morrer jovens em África, esta entrevista nunca teria lugar, ele nunca teria estado numa formação política e que as manifestações, “à rasca” ou não, nunca teriam sido possíveis.
Deu-nos ele, e todos os outros (ainda vivos ou já defuntos) aquilo que não tínhamos: Liberdade. E nós encostámo-nos à oferta e não soubemos com ela cuidar do nosso futuro.
Otelo Saraiva de Carvalho ouve todos os dias populares dizerem-lhe que o que faz falta é uma nova revolução, mas, 37 anos depois, garante que, se soubesse como o país ia ficar, não teria realizado o 25 de abril.
Apesar de estar associado ao movimento dos "capitães de abril" e aceitar o papel que a história lhe atribuiu nesta revolução, Otelo não esconde algum desânimo. Ele, que se assume como um "optimista por natureza". "Sou um optimista por natureza, mas é muito difícil encarar o futuro com optimismo. O nosso país não tem recursos naturais e a única riqueza que tem é o seu povo", disse, em entrevista à Agência Lusa.
Otelo lamenta as "enormes diferenças de carácter salarial" que existem na sociedade portuguesa e vai desfiando nomes de personalidades públicas, cujo vencimento o indigna. "Não posso aceitar essas diferenças. A mim, chocam-me. Então e os outros? Os que se levantam às 5:00 para ir trabalhar na fábrica e na lavoura e chegam ao fim do mês com uma miséria de ordenado?", questiona, sem esconder o desânimo.
Para este eterno capitão de abril, o que mais o desilude é "questões que considerava muito importantes no programa político do Movimento das Forças Armadas (MFA) não terem sido cumpridas". Uma delas, que considera "crucial", era a criação de um sistema que elevasse rapidamente o nível social, económico e cultural de todo um povo que viveu 48 anos debaixo de uma ditadura".
"Este povo, que viveu 48 anos sob uma ditadura militar e fascista merecia mais do que dois milhões de portugueses a viverem em estado de pobreza", adiantou. Esses milhões, sublinhou, significa que "não foram alcançados os objectivos" do 25 de Abril.
Por esta, e outras razões, Otelo Saraiva de Carvalho garante que hoje em dia não faria a revolução, se soubesse que o país iria estar no estado em que está. "Pedia a demissão de oficial do exército, nunca mais punha os pés no quartel, pois não queria assumir esta responsabilidade", frisou.
Otelo justifica: "O 25 de abril é feito em termos de pensamento político, com a vontade firme de mudar a situação e desenvolver rapidamente o nível económico, social e cultural do povo. Isso não foi feito, ou feito muito lentamente". "Fizeram-se coisas importantes no campo da educação e da saúde, mas muito delas têm vindo a ser cortadas agora outra vez", lamentou.
"Não teria feito o 25 de abril se pensasse que íamos cair na situação em que estamos actualmente. Teria pedido a demissão de oficial do Exército e, se calhar, como muitos jovens têm feito atualmente, tinha ido para o estrangeiro", concluiu.
Imagem: in "Diário de Notícias"
terça-feira, 12 de abril de 2011
Nesgas
Por vezes pensamos que estamos encurralados e que mais não nos resta que ver uma nesga do céu. Que tudo tem um fim e que, quando nos toca de perto, tudo colapsa, qual sismo violento e terrífico.
Mas depois vemos a lua, que gira e torna a girar, crescendo e definhando como mandam as leis da natureza. E concluímos que também connosco tudo cresce e definha, queiramo-lo ou não. E torna a crescer, logo de seguida.
Afinal, e tal como diziam os Anarcas em tempos de antanho, “Tudo na vida tem um fim, excepto a salsicha, que tem dois!”
By me
Pistas
Eram o sonho de qualquer miúdo, fosse qual fosse o seu nível económico.
Creio mesmo que só era suplantado pela posse de uma bicicleta.
Por mim, nunca tive nenhuma das duas. Aprendi a pedalar (e a cair) nas dos vizinhos sortudos e a “correr” em casa de um deles, onde alguns dos da rua se juntavam em dias de chuva em que a rua nos estava interdita.
Melhor que estas só mesmo a que existia num velhérrimo cinema da rua da Palma, em Lisboa, onde, no sótão, havia uma pista de oito carros para alugar. Só lá estive uma vez mas não o esqueço, tal como o filme que então ali vi.
Hoje, além das memórias e de alguma em loja (nova) ou casa de velharias, sobram estas peças, num montão de lixo.
Que as pistas de automóvel não têm ligação usb, não se vêem nos plasmas nem possuem a diversão de uma qualquer playstation.
Claro que os catraios de hoje estão enganados, mas vá lá convencê-los do contrário…!
Texto e imagem: by me
Pedaços de que gosto
Estou em crer que já por aqui falei dele, mas nunca é demais.
Quando me encontro numa daquelas fases em que o enfado é geral, em que a falta de vontade de reagir é notória e que o que mais me apetece é “Não me chateiem”, recorro a um canto particular da minha biblioteca. Passo veloz pelos tratados, monografias, álbuns e literatura sortida (séria ou nem tanto) e vou até ali buscar um dos meus “amigos”.
Desta vez escolhi o Mário de Carvalho, com o seu “Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto”.
Aqui deixo um pedacinho. Não é o fulcro da estória, mas apenas um pedacinho. Recomendo, para estes estados de alma ou quaisquer outros:
“(…)
A televisão, nessa noite, exibia oferta sortida: um concurso em que um fulano tomava banho num composto espesso de banha de porco e dejectos de pardal e depois se lambia, com acompanhamento de morangos e felicitações dum vasto público; um filme em que o herói derrubava um bandido, lhe traçava as costas com cinco ou seis facadas horizontais, lhe sacava as costelas para fora e as partia, uma a uma com estalidos fortes e repulsão de matérias rubras; um programa em que um marinheiro regressava após vinte anos de ausência, com uma perna a menos devido à dentada dum tubarão e a mulher, recebendo-o de braços abertos, bradava: «Assim ainda gosto mais de ti, caraças!»; uma curta-metragem sobre o sentido de orientação da mosca drosófila.
Joel optou pela mosca drosófila, contra a vontade de Cremilde que preferia o marinheiro perneta. Não conseguiu adormecer, mesmo com o Lorenin. No escritório doméstico, quadra limpíssima e rebrilhante porque raramente frequentada, ligou o computador e conseguiu aceder a um jogo em que um boneco, uma espécie de sapo vermelho, com misturas de verme e lagarto, saltaricava por sobre um campo de minas. Ao segundo pincho, eis que pisou a mina. Catapum! Ruídos ásperos e pedaços sanguinolentos do sapo a esvoaçar pelo visor. Acordes da marcha fúnebre de Chopin. Joel desligou o aparelho e ficou a ver-se no reflexo do vidro do monitor. Fez caretas. Fez pose. Aborreceu-se.
(…)”
Nota extra – Não tinha aqui nenhuma mosca drosófila, pelo que recorri a um gafanhoto, fotografado lá no pátio de onde trabalho. Só por uma questão de coerência.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Fotografias
São os metros quebrados, as molduras obtusas em segundos fluidos.
São os limites que nos impomos quando a alma anseia pela distância. É a visão toldada por uma perfuração cerrada. É fotografar às escuras num laboratório de sol e imprimir em papel amarrotado as luzes aromáticas.
Abomino o formato quadrado. E o rectangular. E o triangular, se o houvesse. Ou o trapezoidal que invento com a minha câmara virtual, onde o tempo não pára na fracção de segundo de uma exposição condenada!
Quando emolduro uma fotografia, estou a fazer uma redundância. Já disse, com o meu enquadramento, que só me interessa isto. Que todo o resto é inútil e que deixo de fora.
E estou a mentir, com todos os meus dentes e os que já tive.
Nunca me interessa só isto! Ou só aquilo! Ou só aqueloutro!
O meu interesse, como fotógrafo, como ser humano, é todo o mundo e arredores, do segundo que passa à humanidade que existe.
E quero ser dono de tudo! Das árvores e dos pássaros, dos colos e das gárgulas. Cabelos, rugas, gestos e sorrisos, palavras ditas e sonhadas na prata ou no electrão.
Mas tudo isto não cabe no meu enquadramento! Como um sonâmbulo furioso, vou coleccionando as peças do puzzle que é a vida, formando um desenho abstracto, tal como eu mesmo.
E quando o desenho estiver concluído, esgotados que estiverem os raios de sol ou eu próprio, olhá-lo-ei de onde quer que esteja e verei o que fui e o que fomos.
Aí, com todo o cuidado, escolherei os pedaços bons. Juntá-los-ei com todos os outros pedaços bons, de todos os outros homens, e faremos um novo universo, revisto e melhorado.
Porque se para isto não servir a fotografia, nem vale a pena dar-me ao trabalho!
Texto e imagem: by me
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