sábado, 16 de dezembro de 2017

Perdidos e achados



Encontrei os sete quilos que perdi.

Mas fiquei de cabeça a andar à roda.

By me

Uma história



Um photógrapho é um recolector das histórias dos outros. Um cronista também. Diferencia-os a luz da tinta. Mas que dizer de um photo-cronista?
Esta história, que reconto tal como me recordo da sua oralidade, foi-me contada em primeira-mão:

“Vivia sozinho e o meu orgulho impedia-me de ir pedir ajuda aos pais, apesar de, naquela altura, os pagamentos da empresa onde trabalhava estarem atrasados. Naquele dia não tinha dinheiro nem para tomar um café. Revirei tudo em casa em busca de uma moedinha que fosse e nada.
Acabei por me meter no carro e ir a casa de uma amiga, que me poderia emprestar algum, pouco, para os dias que ainda faltavam até vir o guito.
Mas acabei por me enganar no caminho e entrei na via-rápida no sentido oposto. Com a pouca gasolina que tinha, não sabia se daria para inverter a marcha mais à frente, pelo que decidi seguir em frente e ir a casa de uma outra amiga, que me haveria de ajudar.
Não estava em casa. Mas estava lá uma amiga dela. Não nos conhecíamos, mas já ouvíramos falar um do outro. Ajudou-me.
É hoje a minha mulher.


E se isto não é uma bonita história de necessidade, coincidências, solidariedade e final feliz, adequada a qualquer época em geral, incluindo a que atravessamos, não sei o que o será.


By me

Matinas



By me

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

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Pela janela do autocarro vejo um "restaurante asiatico - chinês e japonês".
Suponho que em Pequim ou Tokyo haja um restaurante ibérico - português e espanhol.
Imagino: paelha e cozido, tapas e migas. O gaspacho dá para os dois lados.
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Entro num centro comercial para comprar cigarros. (Sim, voltei a fumar há algum tempo)
Não encontrei a tabacaria e perguntei por ela num quiosque de cafés.
A resposta surgiu com uma expressão e um modo como se tivesse perguntado aquela senhora em que trottoir trabalhava a mãe dela.
Na tabacaria sou atendido em inglês e, quando falei a minha língua natal franziu o sobrolho, aquele caramelo.
Não espanta que o Saldanha Residence esteja a fechar lojas.
Não fora a excelsa livraria que possui e lá não voltaria.
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Aqueles não souberem dominar a perspectiva não sabem dominar a imagem.

E se não souberem dominar as suas perspectivas não sabem dominar a sua vida.
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Tradições



Dezembro é época de tradições. Pelo menos nesta zona do globo.
Usemo-la e contemos histórias ou estórias apropriadas.
Neste caso, um texto de um excelente autor, maldito para uns, magnifico para outros.
E, se excluirmos algum exagero aqui ou ali, certamente que reconhecerão o descrito.

Como a família da Lurdinhas passou a consoada do ano passado:

Para estreitar os laços familiares, não há nada que chegue à festa do Natal, lá isso é verdade, mas espero que neste ano as coisas corram melhor do que o ano passado e não seja preciso o meu pai ir mudar de roupa a meio do jantar por ter apanhado em cheio com o galheteiro do azeite nos cornos, atirado pela minha mãe que o topou a apalpar o cu à D. Filomena, uma prima da minha madrinha que veio de Angola e vive numa pensão em Almirante Reis e anda a estudar para manicure.
A minha mãe ficou bera e com razão, não é por ser minha mãe, esteve quase a dar-lhe o fanico e só gritava: «Tirem-me essa puta da frente! Tirem-me essa puta da frente!» Mas quando as pessoas são educadas, as coisas acabam por compor-se e bastou tirarem a D. Filomena de ao pé do meu pai para ficar tudo em sossego. No fim até estiveram as duas a falar de crochés e da telenovela, que nessa altura dava na televisão, e a D. Filomena ofereceu-se para tratar os pés da minha mãe, assim que acabasse um curso de calista que andava a tirar ali para os lados da Fonte Luminosa.
Essa bronca portanto foi o menos; o pior veio a seguir quando a minha avó teve a infeliz ideia de perguntar à prima Otília que presente de Natal é que lhe tinham dado os patrões do escritório onde ela trabalha e a parva descaiu-se a dizer que, do senhor Benjamim, recebeu um jogo de calcinhas e soutien em nylon, e do senhor Canelas, um vibrador-masturbador japonês, muito bonito, todo transistorizado.
Ora, ao ouvir isto, o Fernando, que é o marido da Otília e tinha metido na boca uma grande garfada, engasgou-se, engoliu uma data de espinhas de bacalhau, cuspiu o resto no prato do meu avô e desatou ao bofetão à mulher: «Sua cabra! Sua ordinária!» e a dizer que ia enfiar o vibrador pelo cu do Canelas acima e partir os cornos ao porcalhão do Benjamim.
E a palerma da Otília, em vez de se calar, como era a obrigação dela, cresceu para o marido que até parecia uma leoa: «Tire as patas de cima de mim, seu cabrão! Você é que tem cornos e dos grandes, ouviu?» E ele, todo a tremer: «Eu?! E ainda o dizes, grandessíssima puta?» E a Otília: «Pois digo para vergonha tua, que nem és marido nem nada! Se não fossem os meus patrões não sei o que seria de mim?». E desatou a chorar baba e ranho e então o Fernando agarrou na faca de cortar o bolo-rei e toda a família se pôs a gritar «Ai que ele mata-a! Ai que ele mata-a!», mas o meu pai tirou-lhe a faca e o tio Arnaldo obrigou-o a sentar-se na cadeira, deu-lhe palmadinhas nas costas e disse-lhe: «Não ligues ao que ela diz, pá, que as mulheres são todas umas putas», e ele ao ouvir estas boas palavras, ficou mais sossegado e até alargou um furo ao cinto para continuar a comer.
O pior é que a tia Palmira não gostou da conversa do marido e começou a refilar que não queria confusões, que se as outras eram putas ela era uma mulher séria, que quem não se sente não é filho de boa gente, etc., etc., mas o tio Arnaldo que é um bocado bruto atirou-lhe logo esta a matar: «Escusas de armar em séria, que todos sabem que andaste enrolada com o Gonçalves da farmácia quando ele te tratou do eczema»; e ela, logo: «E tu com a Gracinda da peixaria, que até escamas de pargo trazias para casa nas cuecas!» E o tio Arnaldo, muito fodido: «As escamas de pargo não são aqui chamadas para nada, porra!» E, ao dizer isto, deu tal murro num prato de filhoses que saltou calda para todo o lado e até eu fiquei com o cabelo enchapoçado dela. E o meu pai que ia acudir pela tia Palmira, esteve vai não vai para apanhar outra vez com o galheteiro, pois a minha mãe tinha-o sempre debaixo de olho; enfim, só visto!
O que valeu para que a festa de Natal não ficasse estragada foi a minha madrinha impor-se, visto ser ela a dona da casa, e avisar que não consentia faltas de respeito, que aquilo ali não era nenhuma taberna e que achava uma sacanice estarem a encher o bandulho à custa dela, com a comida cara como estava, e a portarem-se que nem javardos em vez de se mostrarem agradecidos. «Ou comem de bico calado ou vai tudo para o olho da rua!» disse ela e ninguém refilou; durante algum tempo só se ouviu mastigar, até que o senhor Aguinaldo, o sacana do velhote que está amigado com a minha madrinha e que até aí só abria a boca para meter para dentro, resmungou lá do canto que no olho da rua já nós devíamos estar há muito e que se a família dele fosse ordinária como a nossa já a tinha rifado. Um gajo bera, palavra de honra; não são coisas que se digam assim na frente das pessoas e ainda gostava de ver que merda de família é a dele; cheira-me que é para ali uma ciganada cheia de putas, chulos, sovaqueiras e arrebentas.
Mas a minha mãe, que tem muito jeito para compor as coisas quando não está com a bolha, disse que o melhor era a minha madrinha abrir a televisão, que tem programas muito bonitos no Natal, porque as conversas não fazem falta para nada e a gente não estava ali para conversar mas para comer e que assim as crianças sempre estavam mais distraídas. Foderam-me!
Foi assim que tive de gramar duas horas de chachadas como essa porcaria das canções do Natal, das entrevistas do Natal, das tradições do Natal, dos votos de Natal e até dos anúncios do Natal, sem ter feito mal a ninguém. Não é que eu goste de chavascal e sarrafada, mas, mal por mal, ainda preferia ver os parentes todos à porrada e a descobrir o cu uns aos outros do que ver a merda da televisão.

Texto: by José Vilhena
Imagem: by me


Apetites



O vazio da noite, os últimos transportes e a vontade de fotografar, mesmo que com um telemóvel.

By me 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Sinais dos tempos



A influência da forma como se usam os telemóveis para fotografar é de tal forma grande que até as marcas de câmaras fotográficas publicitam-se a serem usadas na vertical.
Sinais dos tempos, apesar de nos relacionarmos com o universo na horizontal. Ou não tivéssemos os olhos lado a lado e não em cima e em baixo.


By me

Condenado



Faz tempo que este coitado está condenado.
Creio que o mais difícil de resolver terá sido o desalojar do comércio no piso térreo, que as habitações há muito que estavam vazias. E com janelas abertas ou partidas como se vê.
Acredito que a sua estrutura esteja em mau estado. Vetusto que é, deve remontar ao início da urbanização destas “avenidas novas” da cidade.
Dirão os menos observadores: “Não tem nada de especial. Uma fachada lisa que se prolonga até à esquina e faz a curva, sem elementos que o distingam de tantos outros pela cidade ou país.”
Estão enganados.
Se observarem bem, cada um dos pisos tem a fachada diferente dos demais.
Pela disposição das janelas e porta-janelas, o interior será semelhante. Com variações na luminosidade, naturalmente.
A diferenciação dos pisos no seu exterior é algo de importante, gostemos ou não da forma como é feito.
Sendo certo que o ser humano é gregário, também é territorial. E a identificação do território, a afirmação “é meu” é vital para muitos. A simples colocação por parte dos residentes de cortinas, vasos ou outros objectos não é gratuita mas antes uma forma de dizer “esta janela é minha”. Ou de ajudar a identificar, perante terceiros, onde se reside.
Quem desenhou e construiu este edifício, destinado maioritariamente a habitação, considerou isto. Ou conscientemente ou porque era o hábito de então.
A assimetria das varandas e sacadas, as pequenas variações nas respectivas cantarias são disso evidência, mesmo que só tenha dois modelos ou desenhos de cada. Para reduzir custos, suponho.
Consigo imaginar alguém a descrever a outrem a janela do seu quarto: “Onde tem quatro varandas, é a segunda.”
Poderão os estetas de hoje pouco ou nada gostar destas fachadas irregulares nos detalhes, indo procurar a uniformidade, a descaracterização territorial para baixar custos e todos nivelar por igual. Edis, arquitectos e donos de obra gostam de ver monovolumes, como que “stencis” residenciais.
Por mim, gosto de ver fachadas que, tendo características próprias, defina residências, espaços pessoais, famílias com as suas próprias características.
Não sei o que aqui irá acontecer.
Talvez que seja bem mais barato a demolição e construção de raiz que o aproveitar as paredes exteriores. E sabemos que a construção civil, com honrosas excepções, se pauta pela relação qualidade/custo.
Acho que ficaremos todos bem mais pobres se esta fachada desaparecer, ajudando a descaracterizar e a desaparecer a memória da cidade que foi.
Que se estas são tecido vivo, pulsante e evolutivo, não deve o seu passado ser apagado sistemática e levianamente.
Indo mais longe, consigo imaginar que onde existe um edifício habitacional, ainda que neste estado, venha a surgir algo relacionado com hotelaria ou outros serviços.
Ou, tão mau quanto isso, um edifício habitacional de muito alto custo, reservado a classes mais que endinheiradas que, sabemos, não habitam o espaço público mas antes se reservam ao interior das suas habitações e outros espaços reservados. E, com isto, retirar das ruas e do espaço comum, os cidadãos, fazendo “morrer” a cidade e as suas características.
O investimento na hotelaria e restauração tem sido grande, na ilusão do “boom” turístico.
Quando Lisboa deixar de ter as suas características próprias e for apenas mais uma urbe estereotipada, como tantas outras pelo mundo, o que fará atrair o turismo? E o que acontecerá aos investimentos apressados e quase caóticos de hoje?


Gosto deste prédio, como de tantos outros equivalentes na cidade. Matando-o, matam um pouco de mim. E de todos nós.

By me