segunda-feira, 10 de julho de 2017
Compras
Na fila para pagar
no supermercado.
Uma senhora a ser
atendida, uma outra com os seus produtos já no tapete, eu com um cesto e, atrás,
um homem com quatro artigos na mão. Três de carne, talvez de um quilo, e um
pacote de massa de canudos.
Quando chegou a
minha vez de colocar os meus artigos no tapete disse ao homem para passar à
frente. Aquilo pesava um pedaço e não é cómodo estar com as embalagens nos
braços, encostadas ao peito, à espera de vez.
Abriu ele os
olhos, abriu a mocinha atrás dele entretanto chegada, abriu o homem da caixa…
Parecia uma festa de olhos abertos.
“A sério?”
perguntou ele.
“Claro! Isso assim
agarrado não dá jeito nenhum.”
Agradeceu ao passar,
agradeceu quando se afastou, depois de pagar.
E eu, já de
regresso a casa e com a mochila das compras nas costas, não consegui esquecer o
seu sorriso de agradecimento.
Ganhei o dia.
By me
Vida privada
Bera, mas bera
mesmo, é ser considerado ilegal e punível por lei o graffitar um espaço e ser
considerado legal a publicidade exterior.
Que se a primeira,
é uma expressão individual, mesmo que de qualidade duvidosa, ou mesmo uma
identidade grupal, já a segunda é uma agressão permanente a quem estiver no
espaço público, não sendo possível fugir aos permanentes apelos, quantas vezes
enganosos, a menos que andemos de olhos fechados.
Se os fabricantes,
através dos publicitários e painéis exteriores, nos podem quase forçar a
consumir os seus produtos, faz todo o sentido que cada indivíduo possa
publicitar as suas mensagens, quer de afirmação pessoal quer de identidade.
Claro que os graffitys
fogem ao controlo da moral pública, sendo muitos deles subversivos.
E isso é
inadmissível!
By me
domingo, 9 de julho de 2017
sábado, 8 de julho de 2017
Modos de ver
“(…)
Uma imagem é uma
vista que foi recriada ou reproduzida.
É uma aparência,
ou um conjunto de aparências, que foi isolada do local e do tempo em que
primeiro se deu o seu aparecimento, e conservada - por alguns momentos ou por
uns séculos.
Todas as imagens
corporizam um modo de ver. Mesmo uma fotografia. As fotografias não são, como
muitas vezes se pensa, um mero registo mecânico. Sempre que olhamos uma
fotografia tomamos consciência, mesmo que vagamente, de que o fotógrafo
seleccionou aquela vista de entre uma infinidade de outras vistas possíveis.
Isto é verdade mesmo para o mais banal instantâneo de família. O modo de ver do
fotógrafo reflecte-se na sua escolha do tema. O modo de ver do pintor
reconstitui-se através das marcas que deixa na tela ou no papel. Todavia,
embora todas as imagens corporizem um modo de ver, a nossa percepção e a nossa
apreciação de uma imagem dependem também do nosso próprio modo de ver.
(Por exemplo,
Sheila pode ser uma entre vinte pessoas; mas, por motivos pessoais, só temos
olhos para ela.)
As imagens foram
feitas, de princípio, para evocar a aparência de algo ausente. A pouco e pouco,
porém, tornou-se evidente que uma imagem podia sobreviver àquilo que
representava; nesse caso, mostrava como algo ou alguém tinham sido - e,
consequentemente, como o tema havia sido visto por outras pessoas. Mais tarde
ainda, a visão específica do fazedor de imagens foi também reconhecida como
parte integrante do registo. A imagem tornou-se um registo de como X tinha
visto Y.
Constituiu isto o
resultado de uma crescente tomada de consciência da individualidade,
acompanhada de uma crescente consciência da história. Seria ousado pretender
datar com rigor este último avanço. No entanto, pode afirmar-se com certeza que
esta consciência existe na Europa desde o início do Renascimento. Nenhuma outra
espécie de vestígio ou de texto do passado nos pode dar um testemunho tão
directo sobre o mundo que rodeou outras pessoas, noutros tempos. Sob este
aspecto, as imagens são mais rigorosas e mais ricas que a literatura. Esta
afirmação não nega a qualidade expressiva ou imaginativa da arte, como se a
considerássemos uma mera prova documental; quanto mais imaginativa é a obra, mais
profundamente nos permite compartilhar da experiência que o artista teve do
visível.
Ainda assim,
quando uma imagem é apresentada como obra de arte, o modo como as pessoas olham
para ela é condicionado por toda uma série de pressupostos adquiridos sobre a
arte. Pressupostos que se ligam a:
Beleza
Verdade
Génio
Civilização
Forma
Estatuto Social
Gosto
etc.
Muitos destes
pressupostos não se encontram já ajustados ao mundo tal como ele é (o
"mundo tal como ele é" é mais do que um puro facto objectivo: inclui
também a consciência). Em desacordo com o presente, estes pressupostos
obscurecem o passado. Mistificam, em vez de clarificar. O passado nunca está
pronto a ser descoberto, reconhecido, exactamente como foi. A história
reconstitui sempre uma relação entre um presente e o seu passado. Por
consequência, o medo do presente conduz à mistificação do passado. O passado
não serve para se viver nele; é uma mina de conclusões que utilizamos para
agir. A mistificação do passado arrasta consigo uma perda dupla: as obras de
arte tornam-se desnecessariamente remotas; e o passado dá-nos menos conclusões
a completar com a acção.
Quando
"vemos" uma paisagem, situamo-nos nela. Se "víssemos" a
arte do passado, situar-nos-íamos na história. Quando nos impedem de a ver, estamos
a ser privados da história, que nos pertence. A quem lucra esta privação? Ao
fim e ao cabo, a arte do passado vem sendo mistificada porque uma minoria
privilegiada se esforça por inventar uma história que possa justificar
retrospectivamente o papel das classes dirigentes e porque tal justificação já
não faz sentido em termos modernos. Por isso, inevitavelmente, mistifica.
(…)
Excerto da obra
“Modos de ver” de John Berger.
Editado por
“Edições 70”, na colecção “Arte e comunicação”, Lisboa, 1999
Imagem: by me
.
“Junta-te aos bons
e serás como eles, junta-te aos maus e serás pior que eles”, diz o povo na sua
sabedoria.
Ando há demasiado
tempo a ler publicações nas redes sociais para conseguir escrever ou fotografar
algo que se veja.
.
sexta-feira, 7 de julho de 2017
.
Parece que os
festivais de música têm medidas de segurança semelhantes às que são usadas para
embarcar para um avião: revista à bagagem, inspecção corporal por agentes
masculinos ou femininos, consoante o caso.
Este será, a
partir de agora, a principal razão para não ir a nenhum desses festivais.
Não admito que
duvidem da minha bondade de intenções e que tenha que demonstrar que não
pretendo fazer mal a ninguém.
Essa atitude
suspeitosa, vigilante, inquisidora, securitária, em que todos são suspeitos até
prova e contrário, não é a minha forma de me relacionar com o mundo e os meus
semelhantes.
E não aceito que
me tratem como tal.
Lamento que, em
nome da segurança, tantos milhares aceitem ser assim mal tratados.
Eu não!
Nem em aviões, nem
em festivais, nem onde quer que seja.
By me
quinta-feira, 6 de julho de 2017
.
A notícia tinha
(ou tem ainda) o seguinte título:
“Polícia do
Vaticano interrompe orgia gay em apartamento de conselheiro do Papa”.
O assunto, que terá
tido divulgação em Itália, foi considerada suficientemente importante para ser
divulgada por cá.
No entanto,
ficam-me algumas dúvidas sobre a questão.
Que crime estaria
a ser cometido para que a polícia tivesse que intervir?
Estaria a
acontecer alguma violação? Estariam menores envolvidos? É ilegal a prática
homossexual? É esta prática punida com penas de prisão ou morte como em alguns
pontos do globo, que o “ocidente” lamenta e condena? É um escândalo porquê?
Eu diria que
escandaloso é a polícia intervir numa situação destas. Eu diria que escandaloso
é os jornais disso fazerem eco. Eu diria que escandaloso é a sociedade, tão crítica
e agressiva no que aos de fora diz respeito, fazer exactamente o mesmo no seu
seio.
Preocupem-se,
senhores polícias, jornalistas e juízes de sofá, com as assimetrias sociais,
com os que realmente fazem mal a terceiros, no corpo e na alma, com os que
enfrentam a morte para fugir dela.
Já quase não se
ouve falar, por exemplo, no que se passa na Grécia. Ou na Síria. Ou na
Palestina. Ou das mulheres nos países “amigos” árabes e africanos. Ou nos escândalos
político-económicos no Brasil.
Para já não
referir o povo Mapuche do Chile. Ou o que é ser deficiente no Japão.
Agora sexo
consentido?
E de caminho:
porque ilustraram semelhante notícia com uma fotografia do Papa? Ele estava no
apartamento? Foi conivente com o que lá acontecia? Deu a ordem de intervenção
da polícia? Excomungou os que lá estavam?
Ide dar banho ao
cão, puritanos de pacotilha.
By me
quarta-feira, 5 de julho de 2017
Mau feitio
Tenho duas
certezas na vida: que irei morrer e que ninguém escreverá na minha tumba “aqui
jaz um tipo de bom feitio”!
Precisei de
comprar uma pasta. Daquelas de cartão, com elástico, em tamanho A4, barata de
preferência, e que não tivesse desenhos demasiado extravagantes.
Podendo ir a
vários locais, optei por fazer o negócio numa papelaria aqui da minha zona. A
diferença de preço existe, é verdade, mas sempre vou dando o meu apoio ao
comércio local. Que merece e necessita.
Entrei na loja,
disse ao que ia, a senhora mostrou-me várias, escolhi uma, ela guardou as
restantes e eu estiquei-lhe uma nota de cinco euros para pagar.
Nesse momento
tocou um telemóvel. Que estava no seu bolso das calças.
Pousou a nota no
balcão, pôs-lhe a mão esquerda em cima e, com a direita, atendeu a chamada. Sem
uma palavra que fosse para mim.
Fiquei a saber que
falava com uma tal de Isabel, que tinha uma prima e um marido e que havia
problemas no casal.
E fiquei a saber
tudo isso porque a chamada durou cinco, dez, vinte, trinta, cinquenta, oitenta
segundos, talvez mais.
Quando me fartei
de esperar pacientemente, estendi a mão para a nota e retirei-a de sob a sua.
Olhou para mim, estranhando.
Guardei-a na
carteira com um sorriso, ao mesmo tempo que empurrava para ela a tal pasta que
ainda estava no balcão.
E desejei-lhe as
boas tardes, enquanto ela tentava, em simultâneo, responder ao telefone e dizer-me
já nem sei o quê.
Saí!
Como disse acima,
não tenho bom feitio. Mas vou melhorando.
É que consegui não
recorrer a vernáculo nem levantar o tom de voz.
Talvez que daqui a
duzentos e cinquenta anos eu esteja no ponto certo para aturar coisas destas
sem reagir.
By me
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