sábado, 21 de janeiro de 2012

Buracos




É uma daquelas coisas que me faz sair do sério.
Irrita-me! Incomoda-me! Odeio ter que o fazer!
Emparelhar meias depois de lavadas e secas.
Vivi com este desagrado durante anos e anos, até que um dia resolvi a coisa: comprei uma data (vulgo – muitos) pares de meias iguais. Iguaizinhos: da mesma marca, da mesma cor, do mesmo modelo.
Assim, quando as vou guardar depois de secas, limito-me a atirá-las para dentro da gaveta. E quando, de manhã, vou por um par lavado, basta-me agarrar quaisquer duas, que estão sempre emparelhadas.
No entanto, tudo na vida tem um fim, excepto a salsicha, que tem dois.
Com o passar dos tempos, elas (as meias) vão-se rompendo e vou-as deitando fora. Com alguma pena minha mas, apesar de ter ovos de madeira, não tenho vista nem paciência para as passajar.
Significa isto que vou reduzindo a quantidade de meias iguais que tenho. E que, um destes dias, terei que ir a uma loja que as venda e tornar a fazer um bom stock de meias iguais. Guardando as que tenho para situações de emergência, naturalmente.
Porque continuo a detestar emparelhar meias. Até porque, e se outros motivos não existissem, tê-las todas arrumadinhas e certinhas na gaveta dá-me a sensação que eu mesmo me tornei metódico e organizado. E isso assusta-me.

Texto e imagem: by me

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Hoje...



... Lisboa adormeceu assim.

By me

Portas




Para chegar à cadeira onde faço aquilo que justifica o meu salário, tenho que atravessar um torniquete e doze portas.
Umas de vidro, outras banalíssimas de madeira, outras especiais, de ferro e corta-fogo.
Talvez um dia me expliquem se tudo isto é para evitar que lá cheguem se para evitar que de lá saiamos.

 By me

Dúvida




Ficarei sempre sem saber se se terá sentado antes ou depois de terem vedado o banco.

By me

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Dão-nos música




Havia os walkman. Cassetezinha lá dentro, auscultadores na cabeça e vá de ir ouvir a música para qualquer lado.
Depois vieram os “tijolos”. Rádios com leitores de cassetes incorporados, altifalantes com palmo e meio bem medidos, dispensavam os auscultadores, que a potência do seu som era tal que ensurdecia quem o transportasse no ombro, ligado. De caminho, faziam com que em redor todos soubessem quais as preferências musicais dos seus donos. Gostasse ou não quem estivesse em redor.
Vieram de seguida os mini-disk, topo de gama na época, em paralelo com os leitores de CD portáteis. Para ouvir com auscultadores, alguns com dupla ficha para partilhar.
Há uns tempos surgiram os leitores de MP3 portáteis, para usar com auscultadores. Alguns há com altifalantes incorporados e existem mesmo altifalantes que se acrescentam. Para partilhar a música, mas em ambiente sossegado, que a potência não é muito grande.
Claro que, em paralelo com tudo isto, sempre existiram os clássicos transístores, pequenos rádios, AM e FM, os melhores dos quais permitiam um auscultador monofónico de enfiar no ouvido, ainda que as mais das vezes se partilhassem músicas e relatos de bola. Muitos possuíam antena telescópica.
Hoje a moda é telemóveis e outros gadgets reprodutores de MP3 que são especialmente concebidos para partilhar a música com quem estiver em redor. Melhor dizendo: para partilhar parte da música, que a alguma distância, e para além do ritmo bem audível, nada se escuta da melodia ou harmonia.
Qualquer uma destas formas de partilha forçada sempre me incomodou. Gosto de música, quando a quero e a que quero. E é muito raro que estes concertos coincidam com o meu gosto ou disposição.
Para piorar as coisas, o local mais comum de ouvir estes concertos forçados é em transportes públicos, de onde é complicado fugir. Quando os começo a ouvir surgem-me na ponta da língua uma colecção de palavrões, que consigo guardar atrás dos lábios.

Pois desta vez a coisa foi diferente. Vinha eu entretido com as minhas cogitações quando começo a ouvir música. De um telemóvel, p’la certa. No comboio, no início da noite e da viagem.
Mas, antes ainda de me sentir incomodado, começo a gostar do que ouvia: Madredeus. Muito pouco comum de ouvir nestas circunstâncias, confesso. Aliás, creio ter sido uma estreia.
Olho em redor, com a discrição que a situação impunha, em busca de quem teria este gosto musical. E vejo-a.
Melhor: vejo-as, que eram duas. Entretidas à conversa, em criolo, uma delas estava grávida, já bastante adiantada. E, com um sorriso de felicidade, ia encostando o telemóvel à barriga, para que lá dentro se ouvisse bem.
Talvez que não tivesse que estar encostado, que a dois bancos de distância, eu bem ouvia. Em qualquer dos casos, habituar a criança que há-de vir a música com Madredeus, além de raro é de bom gosto.
Saíram a meio caminho, as três: duas jovens e o rebento a caminho. E, com elas, a malfadada máquina de agredir sonoramente.
Mas por uma vez, por uma vez só, fiquei com pena que se tivessem afastado.

Texto e imagem: by me

Política à margem de partidos




Esta senhora que conheço tem quase trinta anos e conta que é originária de uma família humilde, que o pai saiu do país cedo e que tem mais de onze tios, todos criados com muita dificuldade.
Apesar de tudo isso, e do mais que não contou nem conto eu, conseguiu concluir um curso superior. E que o trabalho que agora tem, apesar de ser na linha do seu curso, ainda não é o que ambiciona. Diz ela que não desiste de o conseguir.
Até aqui tudo bem. Só posso aplaudir o seu esforço e empenho, bem como o sucesso. E o não baixar os braços e continuar a lutar pelo seu sonho. É de gente desta que precisamos, aparentemente. É que…
É que me dói a alma, bem lá no fundo, o ela assumir-se de direita!
Não isso em particular, que muitos são os que afirmam e que parece que o praticam, mas que no fundo o fazem como forma de afirmação social ou de identificação grupal.
O que me dói é ela defender, convicta, a fractura social e a separação de classes. Bem como a indiferença para com os que não conseguem, por motivos endógenos ou exógenos, triunfar como ela.
Pior ainda, o afirmar sem pejo que aqueles que não têm capacidades que se cuidem. Que a sociedade não os tem que apoiar e que “Se não conseguem, temos pena!”
O que me assusta nesta senhora, quase que ainda mocinha, é que o mais natural é ela vir a ser “engolida” pela máquina triturador que é a sociedade em que vivemos. E que, mesmo que sobreviva (e desejo bem que sim e que concretize os seus sonhos) será sempre uma frustrada, que haverá sempre alguém que lhe provocará “inveja”, pois conseguiu ir ainda mais longe que ela.
É que, nesse seu anseio e frustração, aumentará o desprezo e indiferença para com aqueles que não têm a sua força e capacidade.
Tenho pena por ela, que irá sofrer, pois irá encontrar no seu caminho gente tão ou mais ambiciosa que ela pela vitória e poder. E que a tratará exactamente como ela trata os que lhe estão “abaixo”.
E tenho pena de todos nós, pois que ela não é caso isolado. É que não são tão poucos quanto isso os que ombreiam na sua forma de pensar e agir. Do mesmo grupo etário. E muitos com o mesmo tipo de origens humildes mas honrosas.

O Homem é o único que mata o seu igual por “dá cá aquela palha”. E esta mulher e os seus semelhantes, são bons representantes do género humano como o conhecemos hoje.
Mas, apesar disso, ainda somos bastantes os que por cá andamos a fazer o possível para que, se ela falhar ou se ela necessitar, tenha o apoio de que irá precisar por parte de quem a cerca: todos nós. Esse mesmo apoio que ela agora nega aos outros.
Tal como farei – faremos – os possíveis por inverter este processo social e transformar o mundo num local onde gostaria que os meus filhos vivessem.
Que não o é hoje por causa de pessoas como ela.

Texto e imagem: by me

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Dúvida




E depois fica-me aquela dúvida foleira atravessada na garganta:
Porque motivo as ideias me saem tão fluidas e coerentes quando escrevo durante uma refeição?
É que começo a ficar preocupado com a escolha: escrevo para comer ou como para escrever?
Por outro lado, talvez que fosse bom alguém inventar uma forma de eu poder comer enquanto fotografo. Quem sabe o que poderia fazer!

Texto e imagem: by me

Obviamente...




... que deixei ficar a imagem tapada!

E quanto ao direito, não há direito nenhum




Fiquei hoje a saber que entrou em vigor (ou estará para entrar em vigor) uma lei que taxará, em nome da protecção dos direitos de autor, todos os dispositivos de armazenamento de dados, para além da taxa que já existe sobre CD’s e DVD’s virgens.
Ao que soube, esta taxa extra destina-se a compensar os autores cujos direitos possam ser violados com cópias ilegais de videogramas ou fonogramas.
Ou seja: eu (nós) já pagamos para os tais autores pelo facto de arquivarmos os nossos próprios trabalhos em suportes virgens. Mas passaremos a pagar pelo simples facto de possuirmos um telemóvel, uma câmara fotográfica ou um computador, já que todos estes dispositivos possuem sistema de armazenamento de dados: discos rígidos, memória RAM, cartões de memória…
Tão ou mais grave que isto, essa nova taxa será indexada à memória em causa. O que significa que quanto mais elaborado seja o aparelho, mais se pagará.
Ora acontece que isto me parece ser à margem da constituição e do bom senso.
Estão a presumir que, pelo simples facto de possuir uma câmara fotográfica ou um telemóvel irei fazer ou possuir cópias ilegais, pelas quais sou assim obrigado pagar direitos. Por outras palavras, supõem que cometerei o crime mesmo antes de nele poder pensar.
Mais vale enviarem-nos para um campo de re-educação, pois o termos facas de cozinha pode significar queremos pôr as tripas de alguém ao sol. Ou encaminharem as crianças para fornos crematórios, que os lápis que usam na escola podem ser usados para um versão actual de Mein Kampf.
Disse eu que esta ideia peregrina parecia estar à margem do bom-senso. Desculpem! Esqueci-me que estava a falar de algo concebido pelo actual governo Português.

Texto e imagem: by me

Hoje o dia...



... acordou assim

By me