segunda-feira, 5 de junho de 2017

Mão que importa



Foi algo que aprendi há muito tempo, nos primórdios da minha actividade profissional:
Numa orquestra os instrumentos dividem-se em naipes: cordas, sopro e percussão. Os de sopro dividem-se entre metais e madeiras, o de cordas entre tangidos e dedilhados. E, claro, por instrumentos: do violino à trompa, dos tímbales ao violoncelo, das flautas ao piano, etc, etc, etc.
Indo mais longe, fazia parte da minha formação profissional saber identificar visualmente cada um deles e saber em que lugar de uma orquestra cada naipe e cada instrumento se coloca.
Indo mais longe ainda, saber como se toca cada instrumento, mesmo não sabendo tocar, para saber como o mostrar ou captar: como o instrumentista age, por onde sai o som, qual ou quais os locais mais importantes na virtuosidade do músico…
Fazia tudo isto parte da minha formação profissional, tal como fazia o saber das regras dos diversos desportos, individuais ou colectivos, com ou sem bola, saber quem é quem numa formação ministerial, saber o que é a “crença natural”, conhecer e identificar diversos rituais nas celebrações religiosas, etc, etc, etc.
Dir-me-ão, por exemplo, que é pouco importante saber que, numa missa, parte das leituras do livro sagrado só se fazem pelo sacerdote, enquanto que a outra parte é indiferente ser um sacerdote ou um membro da comunidade a ler para todos ouvirem.
Dir-me-ão, por exemplo, que é pouco importante saber que nos jogos de hóquei em campo o taco só pode tocar na bola de um lado, sendo falta se for com o lado oposto, o rombo.
Dir-me-ão, por exemplo, que é pouco importante saber que a mão que define a nota que se ouve num violino ou guitarra ou qualquer outro instrumento de cordas é a que se aplica no braço e não a que dedilha ou tange as cordas.
Todos estes conhecimentos (e tantos outros tão díspares) parecem ser inúteis à esmagadora maioria das pessoas. Mas no meu ramo profissional é vital sabê-los, já que é desse saber que depende a maior ou menor qualidade do produto que entregamos.

A quantidade de coisas que hoje se não sabe nota-se na qualidade daquilo que se consome. E que eu vejo produzir.
Mas tal como temos o “fast food” que, e como me disse uma amiga, “dura pouco”, também hoje o meu ramo profissional é de “consumir e deitar fora”. Rapidamente, que muito mais para consumir vem atrás.
E o nível qualitativo do que hoje se produz está, na esmagadora maioria das vezes, na proporção directa da quantidade do que se produz.
Pensam muitos dos responsáveis de produção que se o consumidor não diferencia o bom do mediano do sofrível, porque nem tem tempo para isso, para quê investir no bom quando o sofrível se consome da mesma forma e quantidade, sendo muito mais barato de produzir?

Os “Fast Food”, tal como os “Fast Afectos” e os “Fast Cultura” são os cancros que irão fazer cair esta sociedade, tal como caíram as sociedades grega, romana, chinesa e tantas outras.


Fica a pergunta: daqui por 500 anos, que nome darão à sociedade de hoje?

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sábado, 3 de junho de 2017

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A ti, que me lês



Há dois tipos de conhecimento: aquele que sabemos existir e que, em maior ou menor grau, dominamos; e aquele que, por estar fora da nossa área de interesses, nem suspeitamos que exista.
No segundo caso, a questão talvez não seja grave. É fruto das nossas vivências, do nosso círculo de convivências e de termos ou não o nosso espírito aberto a coisas e saberes novos.
Mas no primeiro caso a coisa é mais grave. É fruto de alguma preguiça, de conformismo, de auto-confiança no que sabemos que, em regra, é muito pouco.
Assim, tanto num caso como no outro a culpa de pouco saber, em havendo-a, é nossa, apenas nossa. E as consequências da nossa ignorância repercutem-se, maioritariamente, em nós mesmos.
Por isso mesmo, nunca peças a outrem desculpas por não saberes!
Se alguma coisa haverá que dizer será a oportunidade de aprender, por pouco que seja. E, mais tarde e em frente do espelho, pedir desculpa a quem se lá vir por aquilo que não se sabe e poderia saber.
E, se fores pessoa para isso, aproveitar a oportunidade para te predispores a aprender mais. Aprofundando o que sabes e descobrir novos campos de conhecimento.

Até porque “A vida é uma aula de que não há toque de saída!” nem graduações ou exames, para além de cada minuto que passa.

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Gostos

Gosto de gostar de.
Não gosto de não gostar de.

E é-me indiferente aquilo que me é indiferente.
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É triste ver como algumas pessoas fazem de tudo para ficar na História.

Infelizmente, as mais das vezes não ficam pelos melhores motivos.
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Gostos

Parece que o senhor Trump, no seu papel de presidente dos EUA, decidiu retirar o seu país do acordo de Paris, sobre o controlo das alterações climáticas.
Creio que é algo que nenhum país esteja a gostar. Parece que mesmo por lá muitos são os que discordam.
Mas, digamos, cada país é soberano de alinhar ou não com os outros em questões internas. Claro que elas se repercutem no resto do mundo, mas começam por ser internas.
Mesmo que os demais não gostem.
Mas o que os demais haveriam de gostar era que esse mesmo país perdesse a arrogância de se entender como polícia mundial e fizesse retirar dos outros países a quantidade astronómica de forças armadas que tem espalhadas pelos quatro cantos do mundo.
O facto de esse país possuir homens, barcos, aviões, mísseis, prontos a intervir nos cinco continentes para “defender os interesses vitais”, parece-me ir muito além das simples questões internas.
O mundo não está a gostar que os EUA se excluam de prejudicar o planeta com questões ambientais.

Mas haveria de gostar que se retirasse para dentro de fronteiras, excluindo-se de atitudes bélicas e ameaçadoras.

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Insólitos Oldfashion



O meu projecto “Old fashion” (um fotógrafo à lá minuta num jardim, oferecendo gratuitamente as fotografias que faz) durou pouco mais de três anos.
Neste período, fiz cerca de 1300 fotografias. Todas iguais, ou quase, do ponto de vista formal, técnico, luz… Variou, muito naturalmente, quem se colocou à frente da câmara para ser fotografado, as poses, as motivações para tal e as conversas tidas antes, durante e depois da função.
Tenho que admitir que, de quase iguais que são, poucas recordo de memória, sem para elas olhar. E as que recordo, consigo-o apenas porque o fazê-la se revestiu de características especiais. No entanto…
No entanto cada uma delas foi especial para cada um dos fotografados. Pelo insólito acto fotográfico, pela circunstância em que aconteceu, pela companhia ou falta dela… haverá um montão de motivos para que cada uma delas seja especial.

Ainda não há muito tempo, depois de ter passado umas horas de passeio no jardim da Estrela, e estando já na paragem de autocarro de regresso a casa, sou abordado por um casal. Ela divertida, ele meio a medo. Mas foi ele que conversou.
“Desculpe, mas… não era o senhor que tirava fotografias ali no jardim, com uma máquina grande, num tripé?”
Anuí, claro, ele prosseguiu, meio para mim, meio para ela:
“Estás a ver? Eu bem dizia! E aquela fotografia que tenho presa lá no espelho, estás a ver, com aquele arzinho de não sei o quê, foi este senhor que ma tirou, ainda eu andava aqui no liceu.”

Não perguntei porque é que uma fotografia de um adolescente, de corpo inteiro, feita num jardim junto ao liceu, era importante o suficiente para estar sempre visível no espelho, mesmo depois de homem, ou quase.
Mas fiquei particularmente satisfeito por saber que foi e é importante e que ainda sobrevive.
As mais das vezes os fotógrafos preocupam-se com os troféus que conseguem (situação, acontecimento, paisagem, modelo), sendo isso que conta do resultado do acto fotográfico.
Mas… e a importância para o fotografado?

Na imagem?

A minha câmara, eu e uma mocinha tailandesa de turismo em Lisboa, que fez questão de se fotografar com o fotógrafo. Que deste meu projecto, tenho imagens espalhadas pelos cinco continentes

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quinta-feira, 1 de junho de 2017

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No dia de hoje gostaria de recordar o poeta:
"Não fui ouvido no acto de que nasci."
É uma verdade insofismável.
Tal como é absolutamente verdade que a maternidade ou a paternidade não é o roçar de mucosas, o parir, o mudar as fraldas ou jogar à bola no domingo.
A maternidade - ou a paternidade - vai muito para além disso. E quantas vezes nada tem a ver com genes.
A paternidade - ou a maternidade - não se herda, não é instintivo, obrigatório ou encomendavel.

Neste dia da criança, bom seria pensar também em todos aqueles - tantos - que tendo uma família "normal" não têm nem pai nem mãe.

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Celebração



Hoje é dia de qualquer coisa. Todos os dias são dias de qualquer coisa.
Das unhas encravadas, à criança, de portugal ao santinho da região, todos os dias são dias de qualquer coisa.
Há mesmo dias que, por falta de disponibilidade, são dias de várias coisas. Recordo, por exemplo, que o dia de São Valentim também é o dia europeu da disfunção eréctil.
Claro que os dias de servem para recordar aquilo de que são dias, para colocar nas agendas noticiosas e nas redes sociais o tema e fazer com que todos se sintam condoídos pelas vítimas ou satisfeitos com alegrias nesse dia lembradas.
Que se esquecem logo ao passar a meia-noite.
E, de caminho, para ajudar o comércio, sempre atento aos dias de.


Juro que celebrarei com pompa e circunstância o dia que for de coisa nenhuma.

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Máscara



As máscaras escondem algo, por vezes bem melhor que aquilo que nos mostram.

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