segunda-feira, 13 de julho de 2026

Um retrato - Inês

 



Acredito que muitos dos que usam a câmara fotográfica não entendam este prazer:

Estarem confrontados com uma situação a registar e fazê-lo com o ângulo de visão que têm disponível. Ajustando as diversas vertentes do acto fotográfico a essa objectiva. Ou, em alternativa, decidirem que querem esta ou aquela objectiva porque é a que tem as características que se desejam e colocá-la na câmara. A satisfação advém, neste caso, da decisão se verificar acertada.

Últimamente tenho andado com uma 85mm 1:1,9, numa câmara APS-C. É um ângulo de visão que se aproxima do meu natural, sendo quase uma extensão natural do meu olhar. Hoje, ao sair de casa, acrescentei ao saco, nem sei porquê, uma 35mm 1:3,5. Bingo!

Sentado na esplanada, retemperando forças da tarde longa que as minhas pernas já não são o que eram, ia contemplando a avenida, o seu movomento, as suas luzes.

Eis que fui surpreendido por uma mocinha (esta) que se sentou a uma mesa de distância mas que me surpreendeu: sentou-se de costas para a avenida e de frente para mim. Poderia ser lisonjeiro para com a minha pessoa, mas não era o caso.

E ficámos ali, eu de volta do meu bolo de chocalate, ela de volta do seu croissant, tentado cada um lidar com os pombos atrevidos que vinham pelas migalhas.

Já ela se afastava e acabámos por estar à conversa, agora partilhando mesa, sobre arte, críticos de arte, filósofos da imagem contemporânos e trocando sugestões literárias sobre os temas. Entenda-se que ela é estudante de artes nas vertentes teóricas, pelo que estes assuntos não lhe serão estranhos.

Mas não se foi embora sem me satisfazer a minha curiosidade: porque se havia sentado de costas para avenida, ao contrário de todos os demais que ali estavam. Queria ela isolar-se para poder pensar muito a sério. Não lhe perguntei sobre o quê.

Antes de levantar, o meu pedido sacramental: “Posso fazer-lhe uma fotografia?”, que anuiu.

Abençoei o momento, uns minutos antes, em que havia trocado a 85 pela 35. O trocar de objectiva é sempre um quebrar o momento do acordo tácito ou explícito com um desconhecido. Foi o que me saiu!

E para aqueles que defendem que a 35mm não serve para retrato, eis uma demonstração do seu contrário, pese embora a perspectiva próxima.

E eis também a demonstração que uma objectiva com mais de meio século completamente manual faz corar de vergonha algumas das modernas, com todos os seus automatismos e etc.

 

Pentax K7, Super Multi Coated Takumar 35 1:3,5


By me

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