Hoje tive que ir ao centro da cidade. Àquele espaço a que
chamam de Rossio mas que, na verdade, tem o nome de praça D. Pedro IV. A esse
respeito, aliás, há uma história curiosa sobre a estátua que a encima, mas fica
para outros contos. O certo é que a loja que vende aquilo que procurava
fica-lhe nas imediações.
Feito o negócio voltei a atravessá-la, desta feita para ir a
uma outra. Não teria que ser exactamente aquela, apenas era a farmácia mais
próxima. Comprei o que necessitava, deixando lá ficar o saco de plástico que me
queriam impingir, atravessei meia praça e sentei-me.
Faz tempo que não usava o meu tempo naqueles bancos e fui-me
deliciando com um passatempo muito meu: adivinhar à distância a nacionalidade
de quem por ali está. É divertido, ainda que nem sempre tenha oportunidade de o
confirmar.
Estava nestes entreténs e sou abordado. Com muita educação,
com um “boa tarde” e um “desculpe” inicial e um “faz favor” de permeio, pede-me
uma moeda de auxílio. Não resisti!
Enquanto que uma das minhas mãos rebuscava o bolso do colete
em busca das que lá estivessem, atirei-lhe: “Até que enfim que oiço falar
português aqui no Rossio!”
Sorriu de orelha a orelha e retorquiu-me: “Sabe, venho a
descer a pé a avenida desde o Marquês e é só gringos!” (O seu sotaque era de
terras de Vera Cruz) “Nem eles me entendem nem eu os entendo. E hoje, tal como
ontem, isto está muito vazio.”
Eu já me tinha apercebido da escassez de gente, apesar do
dia sorridente e bonito, e concordei. “Deve ser das tempestades e do frio que
se tem sentido.”, concluiu ele.
Trocámos mais umas banalidades sobre o tempo, mostrando-me
ele o pesado casaco amarelo berrante que tinha para quando o sol se escondesse,
e preparava-se para continuar a sua rotina de abordagens a transeuntes.
Mas não resisti e, mesmo com a 40mm que tinha na câmara,
pedi–lhe por um retrato. Este.
Acedeu mas estranhou quando lhe sugeri que mudássemos de
posição para que não ficasse com a parede de fundo cheia de sol. A sua
desconfiança manifestou-se na sua expressão, que se desvaneceu com um sorriso quando
depois a viu.
Seguiu ele para o lados de um fast-food das imediações, onde
as pessoas são mais generosas, e eu voltei para o banco de pedra, para dar mais
um momento de tranquilidade às minhas amigas que vivem nas minhas ancas.
Uma hora e muito depois, já sem luz para fotografar,
levantava-se uma aragem fria e eu conseguia imagina-lo a envergar o casaco antes
de regressar ao local onde pernoitaria.
Fica o retrato de alguém a quem não perguntei pelo nome mas
a quem posso apelidar de Nelson.
Pentax K-S2, smc Pentax-M 40 1:2,8


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