quinta-feira, 12 de março de 2026

Talvez Nelson




Hoje tive que ir ao centro da cidade. Àquele espaço a que chamam de Rossio mas que, na verdade, tem o nome de praça D. Pedro IV. A esse respeito, aliás, há uma história curiosa sobre a estátua que a encima, mas fica para outros contos. O certo é que a loja que vende aquilo que procurava fica-lhe nas imediações.

Feito o negócio voltei a atravessá-la, desta feita para ir a uma outra. Não teria que ser exactamente aquela, apenas era a farmácia mais próxima. Comprei o que necessitava, deixando lá ficar o saco de plástico que me queriam impingir, atravessei meia praça e sentei-me.

Faz tempo que não usava o meu tempo naqueles bancos e fui-me deliciando com um passatempo muito meu: adivinhar à distância a nacionalidade de quem por ali está. É divertido, ainda que nem sempre tenha oportunidade de o confirmar.

Estava nestes entreténs e sou abordado. Com muita educação, com um “boa tarde” e um “desculpe” inicial e um “faz favor” de permeio, pede-me uma moeda de auxílio. Não resisti!

Enquanto que uma das minhas mãos rebuscava o bolso do colete em busca das que lá estivessem, atirei-lhe: “Até que enfim que oiço falar português aqui no Rossio!”

Sorriu de orelha a orelha e retorquiu-me: “Sabe, venho a descer a pé a avenida desde o Marquês e é só gringos!” (O seu sotaque era de terras de Vera Cruz) “Nem eles me entendem nem eu os entendo. E hoje, tal como ontem, isto está muito vazio.”

Eu já me tinha apercebido da escassez de gente, apesar do dia sorridente e bonito, e concordei. “Deve ser das tempestades e do frio que se tem sentido.”, concluiu ele.

Trocámos mais umas banalidades sobre o tempo, mostrando-me ele o pesado casaco amarelo berrante que tinha para quando o sol se escondesse, e preparava-se para continuar a sua rotina de abordagens a transeuntes.

Mas não resisti e, mesmo com a 40mm que tinha na câmara, pedi–lhe por um retrato. Este.

Acedeu mas estranhou quando lhe sugeri que mudássemos de posição para que não ficasse com a parede de fundo cheia de sol. A sua desconfiança manifestou-se na sua expressão, que se desvaneceu com um sorriso quando depois a viu.

Seguiu ele para o lados de um fast-food das imediações, onde as pessoas são mais generosas, e eu voltei para o banco de pedra, para dar mais um momento de tranquilidade às minhas amigas que vivem nas minhas ancas.

Uma hora e muito depois, já sem luz para fotografar, levantava-se uma aragem fria e eu conseguia imagina-lo a envergar o casaco antes de regressar ao local onde pernoitaria.

Fica o retrato de alguém a quem não perguntei pelo nome mas a quem posso apelidar de Nelson.

 

Pentax K-S2, smc Pentax-M 40 1:2,8

 

 By me

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