quarta-feira, 4 de março de 2026

Verdades


“Os grandes cómicos e os grandes palhaços, contrariamente ao que às vezes se imagina, não são fúteis.

...

É que às vezes há umas coisas que nós demoramos dez minutos a proferir, três semanas a escrever e a vida inteira a pensar.”

 

José Barata Moura, in “Primeira Pessoa”, RTP 2026

 

Pentax MX, smc Pentax-M 50 1:1,7


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Um par




Já os tenho encontrado, solitários ou em pares, nos locais e situações mais diversas.

Mas fico curioso sobre como fica um par de sandálias, num dia farrusco, assim arrumadinhas lado a lado a um canto de uma paragem de autocarro em Lisboa.

Não foram jogadas fora, não foram perdidas, não fora esquecidas, não caíram de nenhum saco.

As histórias e estórias que estão por de trás de um ou dois sapatos caídos na rua ao abandono encheriam creio, vários tomos, tal como enchem a minha própria imaginação.

Em tom de conclusão, sempre acrescento que nove horas depois de ter feito esta fotografia já ali não estavam. Nunca saberei se foram recolhidas por algum cantoneiro municipal se apanhadas por alguém que entendeu dar-lhes préstimo.

 

Nikon Coolpix P7000


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terça-feira, 3 de março de 2026

Liberdade




De acordo com as leis e normas portuguesas, é obrigatório possuir-se um documento identificativo oficial: Bilhete de Identidade ou Cartão do Cidadão.

No entanto, e pasme-se, para se renovar o dito documento, mesmo que nada seja alterado, há que pagar por isso.

Por outras palavras: sou obrigado a pagar regularmente por algo que sou obrigado a fazer.

Posso não ter casa, posso não ter nenhum contracto com nenhuma empresa, posso não ter rendimentos, posso mesmo viver apenas do ar e das ervas selvagens que existem.

Mas pelo simples facto de existir sou obrigado a pagar.

 

Ouvi aí alguém falar em Liberdade?

 

Pentax K7, smc Pentax 50 1:7

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Um clássico




Suponho que conste em todos os manuais de governação:

Criar um inimigo, dentro ou fora de fronteiras, agir contra ele e afirmar que o estado e os governantes protegem os cidadãos.

Quanto assustador for esse inimigo e mais veemente for essa acção, quer pelos discursos, quer pelas legislações, quer por acções bélicas, mais os cidadãos se juntam em redor dos líderes, dando-lhes mais poderes na sua acção.

Claro que, em usando esta estratégia, o poder instituído consegue afastar para segundo plano, por vezes definitivamente, os seus detratores, garantindo assim a manutenção do status adquirido.

Isto nada tem de novo e tem sido usado ao longo de séculos em diversas civilizações mais ou menos autocráticas ou governantes com grandes ambições a tal.

Mesmo neste jardim à beira-mar e mal amanhado a que chamamos Portugal.

Já agora recordo o incremento da contestação interna e as eleições intercalares nos EUA em novembro.

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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Alfarrabismo




Confesso que não resisti.

Numa página on-line sobre fotografia o autor mostra-nos este livro. Não exatamente este mas a sua versão original cuja capa não contém fotografias.

Quando o vi soaram campainhas na minha memória. Melhor, soaram carrilhões cá dentro. Eu conhecia aquilo e, ao mesmo tempo, não conhecia.

Apesar da hora bem tardia, atirei-me às estantes que, apesar de não lá muito bem organizadas, me mostravam as lombadas. Ao fim de um bom pedaço lá encontrei. Este.

O que acaba por ter graça é que o autor da página é um bem-disposto e provocava o público dizendo que lojas de livros usados sobre fotografia que se prezem têm que ter um ou dois exemplares deste. Claro que residindo no Reino Unido, local onde a versão original foi publicada, não conhece a realidade livreira portuguesa. Mas lá lhe respondi, exibindo o meu exemplar, que não está à venda.

Graça, mas graça mesmo, foi saber pelos demais comentários que esta obra se espalhou pelo mundo, do Brasil à Bulgária, passando pela Àfrica do Sul. Não sei se na Bulgária fizeram uma tradução ou se foi a versão original.

O que sei é que o meu exemplar foi comprado em Lisboa em 1982 e que custou 750 escudos. Provavelmente na livraria Bertrand.

Se o recomendo? O que recomendo sem sombra de dúvida é que andem de olho nos alfarrabistas e feirinhas onde aparecem livros com mais de 40 anos, como este. Garantidamente que estão desactualizados no que toca a técnica. As imagens serão “datadas” no que a estética diz respeito, pois seguirão as modas e tendências da época. Mas há coisas que não mudam e com os antigos aprendemos sempre qualquer coisa. Nem que seja a forma estável de segurar uma câmara ou a importância que tem um pára-sol.

Quanto ao resto, ver fotografias é sempre um prazer.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 50 1:4


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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Saberes e gerações




É um clássico do conflito de gerações: os mais novos escarnecerem dos saberes dos mais velhos e estes espantarem-se com as ignorâncias dos mais novos. Creio que sempre foi e que continuará a ser.

No meu caso, pertencendo aos mais velhos, creio ser bastante tolerante neste campo. Sei que ninguém nasce ensinado e que os mais novos têm saberes e competências que os mais velhos não têm ou não conseguem. O melhor mesmo é aproveitar o melhor dos dois mundos, partilhando conhecimentos e práticas.

No entanto, coisas há que me deixam mesmo surpreendido. Chegando a ficar incomodado com aquilo que os mais novos (ou alguns dos mais novos) desconhecem.

Um destes dias tive uma equipa de dois homens, um com 21 anos e o outro com 31, para fazer uma instalação de um equipamento aqui em casa. Competentes e bem sabendo do seu ofício, fizeram o que tinham a fazer a contento do cliente – eu.

Mas a dado passo, e para simplificar e melhorar o que faziam, emprestei-lhes um nível de bolha. Assim, verticais e horizontais ficavam garantidas.

E não é que não sabiam o que aquilo é?!

Que não soubessem o que é um fio de prumo ainda aceito. Não são nem pedreiros nem marceneiros, pelo que acredito que nunca tenham tido necessidade de usar um. Apesar de ter séculos de inventado. Agora um nível de bolha?!

De um modo ou de outro o seu princípio de funcionamento e a sua utilização fazem parte dos conteúdos do ensino, em ciências, física ou história. E, de um modo ou de outro, terão visto um exemplar mais elaborado ou mais simples.

Indo mais longe, a necessidade de garantir a horizontalidade de algo e a forma de o aferir, é algo que a todos toca algures e em muitos campos durante a vida. E não necessariamente longa.

Lá lhes expliquei o modo de funcionamento de ambos, onde se encontram e como o seu uso pode melhorar bastante os seus ofícios. Ou as suas casas.

A este respeito, recordo uma rábula do Jô Soares parodiando a situação, que terminava sempre com a mesma frase: “A ignorância da juventude é um espanto! É um espanto!”

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4

 

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Pontos de vista e fotografia




Não vale a pena pensar de outra forma!

 

Escancaradas que estão as hostilidades no leste europeu, estamos a ser bombardeados com informação. Opiniões de especialistas, políticos a falarem com alguma cautela mas hostis a uma das partes, repórteres e correspondentes no local, dizendo o que podem sobre os acontecimentos a que assistem...

A guerra está aberta e a comunicação social é uma das armas.

Claro que o imediatismo é importante. Não apenas o público quer saber como o negócio da informação vive de ser o primeiro a noticiar.

Uma das formas de comunicar, mas mais lenta, é a fotografia. Pese embora os meios de fazer e enviar as imagens recolhidas, o consumo de imagens prefere as que sejam animadas, com som, que encham os noticiários.

Veremos apenas daqui a uns tempos as “belas” fotografias da frente de combate, com material e gente a sofrer as consequências das decisões de quem está no conforto dos gabinetes. E, como é de esperar, mostrando os acontecimentos do ponto de vista do público a que se destina. E se os fotógrafos são ocidentais e vendem os seus trabalhos para jornais ou agências noticiosas ocidentais, serão quase de certeza imagens defensoras das perspectivas políticas ocidentais.

No entanto, esta abordagem parcial de um conflito mortal não é original.

Sugiro que se comparem as fotografias feitas há uns 150 anos, pouco depois da invenção da fotografia. Em particular as feitas na guerra da Crimeia com as da guerra civil Norte-Americana.

Se esta mostra imagens de destruição e de vítimas do conflito, numa clara demonstração da violência dos combates, já as feitas na Crimeia, por correspondentes Britânicos, são muito mais tranquilas, mostrando aquartelamentos e soldados em bom estado e saudáveis. Havia, neste caso, que tranquilizar os Ingleses sobre o que acontecia com os seus compatriotas na frente de combate.

As fotografias não mentem. Agora a forma e com que intuitos são feitas dependem dos objectivos dos fotógrafos no local e da utilização que lhes forem dadas.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Leituras




Esteve assim durante mais de uma hora.

Com o solzinho a bater-lhe nas costas, com as pernas em cima do banco, cabeça protegida por um lenço, o livro na mão.

Lendo devagar, mudando as páginas com calma e concentrada no que fazia, ao princípio nem dei por ela. Mas sendo que o meu artefacto, se não tiver “clientes”, não exige atenção, acabei por me aperceber da sua imobilidade. E fiquei curioso.

Ainda fiquei curioso com aquela figura, com um aspecto já não trivial, a ler num jardim. Afinal, não é todos os dias que se vê um idoso a ler um romance num banco de jardim, por muito apetitoso que possa ser o calor solar neste Fevereiro de noites frias.

E a curiosidade aumentou com o passar do tempo. E a falta de vergonha também, a ponto de fazer a foto que aqui se vê. E ainda fui mais longe:

Fazendo de conta que estava apenas num dos meus deambulares de cigarro na mão, aproximei-me o suficiente para ler o título do que ela lia. Nem Condessa de Ségur, nem Richard Bach, nem um opúsculo religioso.

Tratava-se, afinal, do “Guia prático da Artrose”.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Prazeres de caça




Quem faz fotografia gosta que o seu equipamento esteja em boas condições. E está sempre alerta para as ocasiões em que o pode usar. Faz sentido e eu faço fotografia.

Quem coleciona artigos de fotografia gosta que as peças que possui estejam em tão boas condições quanto o possível, apesar da idade que algumas já possam ter. E está sempre alerta para as ocasiões em que pode completar ou melhorar a sua coleção. Faz sentido e eu sou colecionador.

Mas há um outro aspecto que conta para o colecionador e, eventualmente, para quem faz fotografia: a história em torno da peças de equipamento que possui. E eu pertenço aos dois grupos.

Lembro, por exemplo, de uma Pentax Super A, que me foi vendida usada por alguém que me contou ter ela sido comprada pela filha quando estudava na alemanha e que agora estava no fundo de um armário porque ela preferia as câmaras digitais. E ele estava a precisar de dinheiro...

De igual modo recordo uma Pentax SFXn, comprada barata com duas objectivas e alguns acessórios pouco comuns, sobre os quais quem me vendeu me disse que tinham pertencido ao falecido pai que tinha tal estima no seu equipamento que o guardava religiosamente numa divisão da casa fechada à chave para que os filhos não lhe acedessem.

Eu gosto de conversar com quem vende para conseguir este manancial de histórias.

O que se vê na fotografia junta também tem história. Aliás, tem várias histórias.

Começa com a quase oferta da peça menor à direita, bem como do respectivo estojo, junto com uma outra compra que fiz. Trata-se de uma acessório a colocar num fotómetro Gossen Lunasix 3 para permitir fazer leituras de luz no ampliador fotográfico. Eu não tinha o fotómetro mas sabia que cedo ou tarde o teria, enquanto esta peça extra seria raro de encontrar. Esteve bastante tempo guardada à espera do momento. Que veio agora.

O dito fotómetro estava acompanhado de dois outros acessórios, à venda em Lisboa e por uma valor mais ou menos dentro dos parâmetros habituais e compatível com a minha disponibilidade. E em excelentes condições de funcionamento. Não me fiz rogado, já que o conjunto é invulgar, e tratei de combinar o encontro de negócios.

Neste, fiquei a saber que pertenciam ao seu patrão, o António Homem Cardoso, que estava a vender as peças mais antigas e que já não usa, para ficar com um conjunto minimalista. Até por causa da sua idade. Sorte a minha.

Sorte não apenas nas peças de per si mas com o acréscimo de saber que que me chegam às mãos vindas de alguém que é alguém no panorama fotográfico português.

Mas “cereja no topo do bolo” estava no aparelho, fabricado em meados dos anos 60. E de que só me apercebi em chegando a casa. Usa ele, de origem, pilhas que já não se fabricam porque baseadas em mercúrio. Há formas de contornar o problema, umas mais complexas que outras. Uma delas é o recurso a adaptadores para baterias actuais, vendidos pelo fabricante, caros e de encomenda demorada. Pois o belo do aparelho já os tinha, o que diz do cuidado e atenção do seu dono para com o que usava.

Todas as peças têm uma história, em que por vezes somos nós que as vivemos. Mas, para mim, as que realmente são importantes são as que me antecederam. É também com elas que se faz uma coleção.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 50 1:4


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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Vontades




Porque me apeteceu.

 

Pentax K100D, Sigma 400 1:5,6


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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Oh poder




De todos os graffitis que tenho visto e fotografado, este é um dos meus favoritos.

Na mensagem e na intemporalidade.

 

Nikon Coolpix 7000


By me


Não me fΘd@m!




Volta e meia recordo uma expressão que um chefe que tive usava amiúde: “Oh pah, fΘd@-se, não me fΘd@s!”

Vem isto a propósito do conceito bacoco de a representação pictórica (pintura ou fotografia) ter que ser objectica, clara, legível, inequívoca.

Não me fΘd@m! Não tem que ser!

Tem que ser, antes de mais, um equivalente do que a alma de quem criou “viu”, sentiu, pensou, idealizou. A partir do momento em que o que fez corresponda a isso, está feito e bem feito.

O ser interpretável por quem isso veja é outra questão, bem mais complexa.

Começa, desde logo, pela decisão do autor sobre se essa questão é ou não pertinente.

Se for pertinente o autor terá, naturalmente, que se expressar usando códigos visuais que o público entenda. Óbvia ou implicitamente. E terá que adaptar aquilo que sente ou imaginou a esses códigos. A isto chama-se “comunicação visual”. E só será um trabalho bem feito se conseguir comunicar com o público. Se este conseguir “ver” ou sentir aquilo que o autor quis que “visse” ou sentisse. Mesmo dando uma “margem de manobra” muito grande, permitindo múltiplas interpretações.

Mas se não for pertinente, se o factor “comunicação” não for importante... Não me fΘd@m! O autor pode fazer o que muito bem entender, explícito ou confuso ao público, mesmo não interpretável, que a única coisa que conta é a sua satisfação em ter conseguido materializar o que “viu” ou sentiu.

E o público, especialista ou não, o mais que pode dizer é “não entendo”. Qualquer outro tipo de comentário é um disparate, porque o que está a ver não foi feito para que entenda ou interprete.

Claro que no caso da fotografia a coisa é mais complicada que na pintura. Que se admite a um autor pintar sem ser representativo, mas não se aceitam fotografias que não sejam “legíveis”! A ideia, oriunda dos primórdios do processo fotográfico, de que a fotografia é uma cópia da realidade ainda hoje vinga. É um disparate, mas ainda hoje vinga.

E como a esmagadora maioria dos utilizadores de câmaras fotográficas procura o agrado do público, procura igualmente produzir imagens interpretáveis, quantas vezes castrando a sua própria criatividade em prol do aplauso.

Oh pah! Não me fΘd@m!

 

Nikon Coolpix P7000


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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Entaladas




Talvez já tenham reparado que alguns edifícios de Lisboa têm “enfeites” destes na sua fachada, geralmente encimando a porta principal.

Não sei se existem no resto do país, mas em Lisboas há-os. Na zona de Benfica, de Alvalade, de Belém...

Apelidadas de “Entaladas” pelo arquiteto Keil do Amaral, foram colocadas entre a porta principal do edifício e a varanda do primeiro andar, permitindo que a “obra de arte” valorizasse o imóvel e, com isso, a venda ou aluguer bem mais alto.

Estas esculturas ou relevos têm como motivo genérico mulheres (musas ou ninfas) mas não se restringindo a isso. Há exemplos de figuras masculinas, operários e não só, numa abordagem e simbolismo muito à época do decénio de 1950. Os temas também versavam o mundo animal, privilegiando a pomba da paz que, numa versão não tão prosaica, se referiria eventualmente ao espírito santo.

De parceria com estas “entaladas”, e com o mesmo objectivo de valorizar o negócio imobiliário, também encontramos azulejos mais ou menos trabalhados, por vezes colocados no átrio do prédio e não no exterior. Sempre com o mesmo objectivo de enobrecer o edificado, aumentando-lhe o valor e, com isso fazer distinguir os residentes dos demais em redor, quantas vezes muito mais singelos nas decorações, se alguma, e nas dimensões. A elite protege-se.

Ainda hoje, no bairro de Alvalade, qualquer prédio da avenida de Roma onde as entaladas pululam, é muito mais valorizado que os circundantes.

As entaladas marcam uma época da cidade no conceito arquitetónico, na separação social e no uso das artes enquanto elemento agregador.

 

Pentax K-S2, smc Pentax pancake 40 1:2,8


By me

domingo, 15 de fevereiro de 2026

José?




Enquanto fumador é-me difícil recusar um cigarro a quem mo pede. E quanto mais difícil a vida de quem mo pede aparenta, mais facilmente o dou. Que sei o quão difícil é ter que escolher entre comer e fumar. E o quão bom é, nessas condições, conseguir fumar um cigarro inteiro, novinho em folha.

Por isso quando um sem abrigo ou equivalente me aborda dou sem mais aquelas. A única questão é a forma como sou abordado, que se for abrupta ou em forma de ordem, bem podem ir fumar para outro lado.

Por vezes, se estou de maré e a conversa o permite, proponho uma troca sem obrigações: um cigarro por uma fotografia. Dou o cigarro na mesma quando não aceitam o negócio, mas fico todo satisfeito quando consigo o boneco.

Terá sido este o caso, há uns bons quinze anos.

Sei o tempo porque o arquivo me informou. Sei que terá sido uma “troca” porque me enfrenta com o cigarro apagado (por regra dou primeiro e fotografo depois).

Aquilo que não sei, ou talvez tenha sabido mas esqueci, é o seu nome. E isso irrita-me.

Uma fotografia de alguém não é apenas um troféu no cinto do fotógrafo. É alguém que acedeu a partilhar-se, a dar-me um pouco de si. E isso não pode ou não deve ficar no anonimato ou na frieza de um número.

Não sei o seu nome de baptismo. Mas vou chamar-lhe José para que não seja apenas mais um. Nunca somos apenas mais um.

 

Pentax K7, SMC Pentax-M 50 1:1,7


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Termos e expressões




É curioso como empregamos mal expressões e/ou palavras.

Quando dizemos, por exemplo, “não gosto de” estamos a afirmar a negação do sentimento “gostar”. E não a expressar o sentimento oposto a gostar, que será “desgostar” ou “ódio”.

Dizer “não gosto de” será, em boa verdade, dizer que “não se tem uma relação de afecto positivo com” e não “uma relação de afecto negativo com”.

Há pessoas ou situações ou paladares de que não gosto ou me são indiferentes.

E há pessoas ou situações ou paladares que odeio mesmo. Ou desgosto.

A língua portuguesa é muito complicada. Ou somos nós que a complicamos, mal usando termos ou expressões, confundindo sentidos ou sentimentos.

Um pouco como dizer “tirar uma fotografia” ou “fazer uma fotografia”, mas isso são outros contos e significados.

 

Nikon Coolpix P7000


By me

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Decisões




Já vos aconteceu levarem algo, satisfeitos com o estado de conservação e com o quanto isso vos irá facilitar a vida? Creio que sim.

Mas já vos aconteceu chegarem a casa e decidirem que, afinal, não irão usar, apesar de não darem por mal empregue o investimento? Poucas vezes, se alguma, suponho.

Foi o que me aconteceu.

Não estando novo mas aparentando, plenamente funcional e acompanhado da respectiva embalagem original, cabos e documentação, encontrei este transformador adaptador para alguns modelos de câmara Pentax. A um preço muito atraente. A sua utilização iria facilitar-me bastante o trabalho que vou fazendo.

Mas acabei por decidir não o usar depois de testado. Ficará como elemento de coleção e para usar apenas em casos de extrema necessidade.

Eu explico.

A fixa de conexão com a câmara é particularmente pequena. Medindo, tem 4,4 milímetros de largura. Por outras palavras, tem metade da largura de uma ficha de carregamento de um telemovel.

Este diminuto tamanho permite que, e por muito cuidado que se tenha, se estrague. Partir ou entortar os contactos metálicos. Tanto a que está no cabo como, e pior, a que está na câmara.

Tenho para mim que os equipamentos são para serem usados mas não abusados. Mas fichas de tão pequenas dimensões facilmente se estragam com o uso recorrente. E eu não quero correr riscos.

Ficará guardado no local certo, usando-o apenas quando entender que as baterias podem esgotar-se de modo catastrófico a meio de um trabalho.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4


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Lindo




Bom amigo fez-me presente desta pequena preciosidade:

O “British Journal Photographic Almanac” de 1946.

Segundo ele, tinha-o lá por casa, no meio de muita “tralha” e, no lugar de o deitar fora, decidiu passá-lo a quem lhe desse valor: eu.

Os meus agradecimentos e uma vénia p’la lembrança e presente.

Numa leitura rápida constatam-se diversos aspectos:

Na parte dos anúncios:

Vários vendendo câmaras de fotografia aérea. Será coisa estranha, caramba: quem compra, assim do pé para a mão, câmaras para instalar em aviões? Mas será menos estranho se se pensar que a data é 1946 e estas câmaras serão sobras da guerra.

Inúmeros fabricantes de objectivas, cada qual gabando a nitidez do seu produto. Hoje mais se preocupam com as resoluções das câmaras que com a qualidade das objectivas, para desalento de quem observa fotografia com olhos de ver.

Diversos fabricantes propagando as qualidades dos seus materiais fotossensíveis – papeis e negativos. E chamando a atenção para os pancromáticos e os orthocromáticos. Bem como película rígida e em rolo. Quem saberá, hoje, a diferença entre as sensibilidades cromáticas dos suportes?

Nos artigos para os formulários e respectivas vantagens deste ou daquele componente. Fixadores rápidos, reveladores de grão fino, viragens, toners, indicadores de acidez…

Um outro sobre retrato, que merece uma leitura atenta.

E um outro, que deveria ser lido pelos actuais fotógrafos e respectivos empregadores, sobre legislação de trabalho e do direito à imagem.

Quanto às fotografias exibidas… uma há que creio conhecer, não sei bem de onde, que não reconheço o nome do autor.

Por outras palavras, ofertaram-me um dia destes a versão de 1946 do Flickr, do Olhares, do facebook e do Google num só pacote.

 

Nikon Coolpix P7000


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Punhos




Em tempos o fazer fotografia implicava apenas química, óptica e mecânica.

Com as evoluções óbvias, a introdução da energia elétrica veio melhorar e facilitar o processo. A medição de luz, o avanço da película, os sistemas de obturação...

E se alguns destes sistemas consomem pouca energia, outros são “devoradores”, implicando maiores fornecedores de eletricidade.

O que aqui se vê são diversos modelos de motores para avanço de película e fornecimento de energia. Sistemas adicionais à câmara, as mais das vezes vendidos em separado do conjunto básico.

Estão aqui representadas as câmaras MX, ME super, a série MZ e, no campo das digitais, a K50 e a K200D.

Os fabricantes, neste caso a Pentax, têm o cuidado de acautelar o guardar no adicional a tampa a retirar na câmara para que o sistema funcione. Estão todas, as visíveis, vazias menos uma. De uma Pentax MX.

Acontece isto porque fui retirar o motor da respectiva câmara pois está em uso, com um rolo ainda por terminar. Regresará ao seu local de origem.

Já quanto ao “grip” para a K200D está solitário aqui por casa. Comprei-o porque apareceu bem barato, apesar de não ter a câmara. Quando aparecer ao meu alcance logo a completarei.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 50 1:4


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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Em branco




Faz tempo que não me acontecia:

Ter um assunto sobre o qual perorar e faltar-me a arte ou o engenho para o fazer. 

O tema é por si só complexo: as ligações afectivas com uma imagem fotográfica. Ligações positivas e negativas, o modo de o manifestar, as consequências dessas manifestações e emoções e as diferenças disto tudo entre a imagem em formato digital e em suporte físico.

Tenho tentado dar corpo a essas ideias sob a forma de texto e imagem passível de ser acedido por aqui, nas autoestradas da informação e nas redes sociais. Mas estou em crer que ainda não estiveram essas ideias em “banho maria” aqui na minha cabeça o tempo suficiente para as colocar cá fora organizadas e sucintas o suficiente.

Que, para cada ponto acrescentado, muitos são os que surgem correlacionados, qual deles o mais complexo e com mais ramificações.

Talvez que não tenha pensado o suficiente sobre o assunto. Talvez que não tenha lido o suficiente de outros pensadores sobre o assunto. Talvez que, enquanto produtor de imagens fotográficas, não consiga o distanciamento suficiente. Talvez que tenha que deixar de ter afectos (positivos ou negativos) com as imagens para sobre isso discorrer.

As ideias estão aí, batendo-me forte até porque com motivos recentes. Quase que me brotam da testa, quando não do teclado ou da caneta.

Mas o síndroma do papel virgem ou do ecrã vazio é terrível e doloroso.

 

Pentax K1 mkII, Tamron 18-200


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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Manuais




A história é velha de mais de quarenta anos.

Comprei este fotómetro a um amigo, colega e mestre, já usado e em excelentes condições de funcionamento.

Usava-o ele, essencialmente, para fazer medições de luz incidente e tinha-lhe sido fornecido uma ainda melhor. Vantagem minha.

Acontece que, já em casa, constato disparidades entre a sua leitura de luz reflectida e os resultados apresentados pela minha câmara. Estranhei e tratei de comparar as medições com outros aparelhos. Sempre a mesma diferença: um stop mais fechado em leitura reflectida. Em leitura incidente estava correctíssimo.

Não havia net como hoje nem os respectivos fóruns. E o manual de instruções, sempre vital, não me fornecia nenhuma indicação, numa primeira abordagem.

Mas a leitura atenta e interpretativa deu-me a resposta: tratando-se de um “fotómetro de estúdio” estava preparado para fazer medições directamente a partir do tom de pele e não de um cinzento com 18% de reflectância como eu queria e todos os outros aparelhos faziam. É interessante este método, supostamente dá resultados mais rápidos, mas é muito ambíguo, já que os tons de pele variam enormemente de individuo para individuo. Aliás, de zona do corpo para zona do corpo.

Resolvi a questão recorrendo ao espírito inventivo e de “desenrasca” que tão bem nos caracteriza:

Na grelha usada para medição reflectida, que aqui se vê entre os meus dedos, tapei alguns dos orifícios com fita preta. Tentativa e erro até os resultados serem os que queria. Bingo!

Até hoje matem-se fiel e constante nas suas medições, nunca me deixando ficar mal naquilo em que o usei.

O que acaba por ter piada é que há uns dez anos comprei um outro fotómetro. No caso específico, um exposímetro, já que não indica quantidades de luz mas tão só a exposição a fazer com ela. Luz continua e flash, luz incidente e reflectida pontual. Tudo em um.

A verdade é que, em modo spot constatei a mesma variação de um stop quando comparado com outros aparelhos que possuo. A marca é a mesma, “Seconic”, e a minha memória acordou. O manual de instruções está na net e forneceu-me a confirmação do que suspeitava: feito para medir a luz na pele do modelo.

Sendo um aparelho digital (L-558), a sua re-calibração foi bem mais fácil e rigorosa, permitindo-me manter os métodos e resultados consistentes do que vou fazendo.

 

Saber interpretar aquilo que usamos ou fazemos e ajustá-lo à prática é vital em tudo o que fazemos: fotografia ou vida.

A grande vantagem da fotografia é que vem com manual de instruções.

 

Pentax K7, Tamron SP Adaptall 2 90 1:2,5


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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O cabo




Há quem pense que trabalhar no meio audiovisual é o mesmo que plantar batatas:

Basta poder pegar na enxada e dar uma cavadela para colocar a batata.

Agora vão lá perguntar àqueles que o fazem se mesmo isso não tem ciência!

Até o ponto do cabo da enxada onde colocamos as mãos importa, quanto mais!

 

Nikon Coolpix P7000


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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Marca de luz




Fotografar implica a existência de algum tipo de luz. Mesmo que diminuto.

Pode ser natural ou artificial, constante ou instantânea.

Durante muitos anos recorri à luz artificial quando a natural não era suficiente ou do meu agrado. Em regra luz de flash.

Como o orçamento e o espaço nunca foram muitos, fui optando por flash portateis, vulgo speedlight. Comprados em função das necessidades do momento e das disponibilidades do mercado.

Claro que, sempre que possível, fui optando pela marca Pentax, acabando por juntar estes cinco.

Guardados em separado dos de outras marcas, já pouco uso dou a este tipo de luz pois acabei por optar pela luz LED, o certo para o que vou fazendo em interior.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 50 1:4


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Nostalgias




Faz-me falta voltar a poder fazer fotografias destas

 

Pentax K7, Sigma 70-300


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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Antônio Conselheiro




Toda a História tem pormenores originais, uns divertidos, outros não tanto.

A fotografia aqui exibida é de Antônio Conselheiro, um activista político-religioso que liderou um movimento ao estilo dos “sem-terra” no Brasil, no final dos anos oitenta do séc. XIX.

Ficou o movimento, e a guerra, conhecida por “A guerra dos Canudos”. E que terminou com aquilo a que se pode chamar de “massacre” dos “revoltosos” por parte do exército Brasileiro.

Nada tem de especial isto. Aconteceu um pouco por toda a parte ao longo dos tempos.

O que é realmente original é ter sido o líder desenterrado, que morreu na véspera do combate final, duas semanas depois para ser fotografado. Essa fotografia foi feita pelo fotógrafo brasileiro Flávio de Barros, ao serviço do exército.

O objectivo de tal macabro registo foi o divulgar a imagem pela imprensa nacional com o fito de demonstrar que o político e santo (ou vice-versa) mas rebelde, estava morto e, com ele, o movimento.

 

Há quem seja ”morto” nas fotografias (apagado delas) para que não haja provas públicas da sua envolvencia nas situações retratadas.

Esta intervenção fotográfica é, para mim, única na história.

Descoberta num pequenino livro sobre a história da fotografia no Império brasileiro, levantou-me suficientes desconfianças na sua veracidade a ponto de ter procurado outras fontes que o confirmassem.

 

Estranho mundo o nosso, o dos fotógrafos!


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domingo, 8 de fevereiro de 2026

Fruta da época




Esta é uma garbosa chave de fendas que reside numa mala de ferramentas.

Fui dar com ela assim, como a vedes, por via da água e do frio que temos vivenciado.

Mas, pensando bem, quem não?

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 100 1:4


sábado, 7 de fevereiro de 2026

Tristezas




Saber um ex-aluno a militar na extrema-direita é algo que me entristece.

É legítimo, mas entristece-me.

Se por outros motivos não fosse, porque não terá entendido que fotografia é partilha, é fraternidade, é dádiva sem olhar a quem ou porquê, mesmo que comercial. É procurar o que há de belo no universo, mesmo que horrendo.

É não ter interiorizado que cada bocadinho do mundo que recortamos com o nosso enquadramento e guardamos nos nossos arquivos faz parte de um todo que não dominamos mas que queremos melhor. Por isso o evidenciamos.

Saber que um ex-aluno não o entendeu ou que age em oposição disto significa que, de algum modo, falhei com ele. Por muito que possa saber e praticar de estética ou de técnica.

E isso entristece-me!

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


By me

Prazeres




Coisas que me dão prazer fotográfico.

Entrar num local (real ou virtual) e reconhecer consistência nos trabalhos fotográficos exibidos. Perceber que quem ali está a expor-se tem uma linha de forma ou de conteúdo definidas, quer o próprio o reconheça ou não.

E ainda me dá mais prazer o entrar num local (real ou virtual) onde estão trabalhos de vários fotógrafos e reconhecer um autor de fotografias mesmo antes de ver o seu nome.

Posso não gostar do que vejo ou gostar muito, pouco importa. Mas uma coisa é certa: aquele autor fotográfico é bom.

 

Pentax K7, Sigma 70-300

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Onde e como?




É sabido que há gente especializada em gerir situações como estas. Bombeiros e militares têm gente e meios para tal.

Mas vou pensando nas centenas de pessoas que foram para o terreno para prestar socorro e reconstruir o urgente. Trabalhadores de empresas de várias valências, cidadãos voluntários, soltos ou organizados.

Mas uma pergunta me assalta: onde dorme ou repousa e o que comem e como é confecionado toda esta gente? Foram montadas tendas de campanha com camas equivalentes? Foram instaladas cozinhas de emergência? As unidades hoteleiras e de restauração abriram as portas a estas centenas de pessoas?

É que para além de dar apoio às vítimas, haverá que apoiar para que bem façam o que estão a fazer, nalguns casos tarefas penosas, exigentes e arriscadas.

 

Pentax K7, SMC Pentax 50 1:1,2


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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Depois da tempestade...




Diz o povo que depois da tempestade vem a bonança.

Mas isto anda de tal forma que depois de uma tempestade veio logo outra e atrás desta vem uma terceira, sempre sem a bonança de permeio.

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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Not!




Just for the fun (or not)


Pentax K1 mkII, Tamron SP 90 1:2,5

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domingo, 1 de fevereiro de 2026

Modernices




“Pouco importa o que já fizeste se não te importares com o que ainda podes que fazer.”

 

Eu tenho uma pequena colecção de aparelhos de medida de luz.

Não gosto de lhes chamar de “fotómetros”, já que nem todos me apresentam resultados em “footcandle”. Alguns mostram-me “lux”, outros em Kelvin, outros ainda nem uma coisa nem outra, mas tão só os valores de exposição. Aliás, tenho mesmo um que não possui ponteiros nem célula e que é inerte, dependendo de uma mica graduada e da acuidade visual do utilizador.

Recentes ou bem antigos, incidente, reflectida, de largo ou estreito ângulo, continua ou instantânea, balanço e correcção de cor… tenho de quase tudo. Faltar-me-á um espectómetro, mas não tenho nem necessidade imediata nem meios para o comprar. Claro que nem aqui considero os sistemas de medição integrados nas câmaras.

Aquilo que ainda não tinha usado era a câmara de um telemóvel para aquilatar quantidade de luz. Surgiu agora a necessidade.

Uma conhecida recebeu e recuperou uma vetusta e ilustre câmara. Tudo agora funcional, excepto o “fotómetro” que, como seria de esperar, “morreu” de velho.

Lá lhe indiquei as velhas tabelas impressas no interior das embalagens de cartão em que se vendem os rolos fotográficos e que dão indicações preciosas, ainda que pouco precisas, sobre os ajustes de exposição em função das condições atmosféricas e mais uns trocos.

(É interessante verificar como é raro encontrar alguém que saiba que existia algo impresso no interior dessas embalagens. E, a maioria dos poucos que sabem, nunca o leram ou ponderaram as informações lá contidas. Um pouco como com os manuais de instruções.)

Pois para a ajudar, que a compra de um “fotómetro” está, para já, fora dos planos dessa minha conhecida, sugeri algo de forma errada: algo nunca tinha usado.

Refiro-me a aplicações para telemóvel que medem a luz e nos dão indicações sobre como ajustar a exposição: sensibilidade, tempo, abertura, EV…

Sendo que não gosto de ter pontos de interrogação suspensos sobre a cabeça, mas antes exclamação ou reticências, tratei de ver o que se encontra on-line.

São mais do que esperava. Alguns usam a câmara como sensor, outros um dispositivo adicional. Optei por experimentar um da primeira opção.

Numa primeira abordagem, gostei dos resultados. Comparado com as indicações dadas por duas câmaras e três aparelhos de medida externos, pareceu-me dar resultados medianamente consistentes e fiáveis.

Criei agora o desafio pessoal de usar este método e fotografar com a minha DSLR para tirar as teimas de modo prático.

 

Duas notas, no entanto:

- Independentemente dos resultados que obtiver, não creio que medir luz com um telemóvel dê o mesmo prazer ou afecto que com um fotómetro ou exposímetro;

- Não irei juntar um telemóvel à minha colecção de aparelhos de medida de luz.


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sábado, 31 de janeiro de 2026

Com F ou com PH



Primeiro

A coisa começou há muitos anos! Éramos – e eu os compinchas de várias andanças, incluindo a procura de perguntas e respostas – razoavelmente novos.

O caminho que então percorríamos juntos passava também pela fotografia. Partilhávamos os equipamentos, as técnicas, as estéticas os conhecimentos e descobertas que íamos fazendo. E, não sendo nenhum de nós génios, procurávamos também os livros e revistas onde pudéssemos ir beber em mestres o suficiente para os nossos passos.

Estávamos na década, melhor, no decénio de 70, inícios do de 80 e por cá, Portugal, pouca leitura havia em português sobre a matéria. Livros apenas alguns mais antigos, ao estilo de almanaques, e revistas só aquelas efémeras, cuja qualidade e pouca procura faziam morrer pouco depois de nascer.

A solução era, inexoravelmente, recorrer ao que vinha de fora, do Reino Unido, dos EUA, de França. Cada uma destas origens, então como agora, tinha abordagens diferentes às técnicas e estéticas e às soluções. E o hábito de ler, apreciar e mesmo falar ia-se atendo às línguas que praticávamos fotograficamente.

Claro que também contava, face à juventude que tínhamos, o prazer de usar um código semi-hermético aos circundantes, aqueles que não bebiam onde nós nos alimentávamos: o prazer de fazer imagens.

E criou-se a brincadeira, petulante é certo, de dizer que por cá se fazia “Fotografia” e que lá por fora se praticava “Photographia”.

Com o passar dos tempos e as variações de rumos das vidas de cada um, tudo isto se transformou ou diluiu. A literatura e os periódicos em língua portuguesa foram aparecendo, algumas por nós mesmos produzidas, muitas vindas de além-mar. E deixamos de parte a necessidade juvenil da afirmação por códigos e mistérios.

Mas a sensação da diferença entre “fotografia” e “Photographia” ficou. Já não agarrada à tradicional maledicência sobre tudo o que é português, mas antes para marcar alguma diferença no tipo de imagens produzidas, onde quer que fosse. Diferença esta que não está nas técnicas, nas estéticas ou nas temáticas. Constata-se em cada uma delas e no seu conjunto mas não reside aí.

Está, antes sim, na forma de pensar e de fazer fotografia.

Segundo

A representação pictórica, ou iconográfica, existe desde antes da escrita, com esta tem co-existido e, pela certa, a ela sobreviverá. Porque os códigos alfabéticos, fonéticos, ideográficos ou binários mudam com as civilizações e tecnologias, o que não sucede com o uso das belas-artes. Poderão estas mudar de estilos ou de interpretações, mas perduram.

O comum do ser humano, gregário que é mas igualmente desejoso de marcar a diferença na sociedade em que se insere, procura igualar ou suplantar aqueles que admira e a quem atribui qualidades superiores. Entre outros, os que bem se expressam, seja qual for a arte em causa. E a pintura e representação gráfica é uma delas. Mas ela não é tão simples como parece, já que, além do domínio das técnicas, implica um certo “fogo interior” que na maioria está apagado. Para já não falar na morosidade do processo.

Ao invés, a fotografia é quase imediata, por comparação. E é-o tanto mais quanto as técnicas usadas evoluem. Técnicas estas que, com um domínio não muito aprofundado, permitem obter resultados satisfatórios, não apenas perante a sensibilidade de quem as produz como a aceitação de quem as vê. E os automatismos contemporâneos ainda reforçam este facilitismo no fazer da fotografia.

Se a isto juntarmos o consumismo desenfreado que vamos vivendo e a necessidade de afirmação social mais pela posse de bens que pelo resultado daquilo que se é e se pensa, temos que meio mundo possui e utiliza câmaras fotográficas. E que o outro meio anseia por o ter e fazer.

Mas esta fotografia é feita a correr, oriunda em impulsos de momento, quase que por obrigação. As questões estéticas são ignoradas, dos factores de comunicação nem se desconfia, e com a mesma velocidade com que dispara o obturador, também o seu resultado é esquecido. Tão ou mais grave que isso, a fotografia contemporânea padece da efemeridade, já que o seu apagar ou destruir resulta do uso de uma ou duas teclas na sequencia de sistemas de armazenamento cheios. A mesma ausência de pensar no acto fotográfico conduz a uma ausência de importância no seu resultado. Conservar ou não uma fotografia é uma questão de apetite momentâneo. E já não se usam pastas de arquivo cuidadosamente arrumadas, caixas de sapatos empilhadas ou gavetas repletas de papéis mono ou multi-coloridos que, volte e meia eram remexidos e supostamente organizados.

Some-se a esta pouca importância dada ao pensar a fotografia o seu actual custo zero. Fazer uma fotografia ou dez consecutivas tem o mesmo preço e dá o mesmo trabalho em obter. Que o “rolo” já não chega ao fim e as memórias dos cartões são cada vez maiores.

Nos tempos que correm, a velha frase publicitária “Para mais tarde recordar” deixou de fazer sentido, face ao uso e importância que é dada à fotografia.

Terceiro

Alguns há, no entanto, que assim não procedem.

Ao olharem pelo visor da câmara, ou ainda antes disso, o seu objectivo é o registo permanente daquele jogo de luz e sombras, daquela perspectiva, o contar daquela história, o eternizar daquele momento. E que, em tendo oportunidade para tal, procuram melhorar as suas capacidades de o fazerem, tanto pela prática como pelo estudo de quem o faz ou fez ainda melhor. Em que a afirmação pela fotografia não passa pela competição com os restantes com base no resultado ou na exibição da factura do seu equipamento mas antes consigo mesmo e com o resultado obtido a cada imagem produzida.

E que sabem que esse processo começa com o olhar o assunto e termina com olhar sobre o produto acabado, sendo que tudo o resto que medeia entre um e outro são meras técnicas, mais ou menos dominadas. Na tomada de vista e na selecção e tratamento posterior.

Que sabem e praticam que uma fotografia é o resultado de um processo mental materializado pela técnica. E que é mais naquele que se preocupam que nesta.

Ao resultado dos trabalhos destes, chamo eu (e mais uns quantos não tão poucos quanto isso) “Photographia”. Para o trabalho dos demais fica o termo genérico de “Fotografia”. Alguns há, ainda, que diferenciam com o uso de maiúsculas e minúsculas, mas o significado é o mesmo.

Nenhum dos dois termos tem mais valor que o outro ou algum deles tem uma carga negativa. Porque, na vida, o que importa é a obtenção da felicidade naquilo que fazemos e nenhum método é universal ou único.

Mas porque não são iguais nem nos processos de obtenção nem nos resultados materiais, identifiquem-se umas e outras imagens e fotografias.

Até porque entre imagens fotográficas e fotografias (com “F” ou com “Ph”) também há diferenças. Mas isso são outros contos!


By me