quarta-feira, 25 de março de 2026

Le nu




Termos que nos deslocar a pé na cidade tem destas coisas: ser surpreendido com mercados de rua onde podemos encontrar pequenos tesoiros. Foi o caso.

Este livro, usado, custou-me cinco euros. Quase o preços da chuva, convenhamos. Mas o seu valor é muito superior, se considerarmos outros factores que não os de capa.

Para além de fazer parte de uma série de livros que existe desde há 40 anos, ao que sei, que são razoavelmente bem impressos para o preço, no seu conjunto abordam todas as vertentes da fotografia. Monografias por autor ou temáticas.

Claro está que um livro temático depende, no seu conteúdo, das opções do editor. Que pode não deixar de ser tendencioso e terá, certamente, preferências. Este exemplar é um exemplo oposto num aspecto.

Ao contrário da esmagadora maioria das obras sobre o nu fotográfico, este não se atém ao nu feminino. Contendo fotografias desde 1855 até 1984, talvez que 20% delas são masculinas, o que é particularmente raro.

Começa, desde logo, por geralmente se fazerem muito menos fotografias de nu de homens que de mulheres. Suponho que haverá algum receio por parte dos homens fotógrafos de serem chamados de “bichas” se o fizerem.

Depois porque, e isto aplica-se na pintura também, a maioria dos consumidores de fotografia (em livro, em revistas ou individuais) serem homens. Quer os que compram avulso, quer os que encomendam aos autores para comprar. E, não nos enganemos, a grande maioria dos consumidores de fotografia, bem assim como os produtores, fazem-no como substituto daquilo que não podem possuir. Seja um pôr-do-sol, seja um castelo, seja um automóvel, seja um ser humano. Um acto de cobiça, se quiserem ir longe nos conceitos. Sendo a maioria dos consumidores e produtores de fotografia homens, faz algum sentido que cobicem mulheres. Na posse ou na produção de fotografias, as mais das vezes, o sentido estético pesa objectivamente. Mas a posse do fotografado pesa subjectivamente, sem que disso nos apercebamos.

Como se tudo isso não bastasse, existe um conceito bacoco em que o belo no corpo humano apenas acontece no feminino. Só as mulheres são belas, só os corpos das mulheres podem acordar a líbido, só os corpos das mulheres podem evocar sentimentos. Conceito bacoco e machista! Sugiro que perguntem às mulheres se assim acontece.

É assim, pelo acima dito sumariamente e por tudo o que não é dito que longo seria, que um livro que aborde a fotografia do nu e inclua fotografias de nus masculinos se torna numa peça rara de encontrar. Numa livraria, numa feira de rua ou numa biblioteca. Excepção feita à minha, onde constam alguns.

Acrescento que imagem da capa que mostro está assumidamente censurada por mim para evitar que os puritanos (humanos ou algoritmos) das redes sociais a bloqueiem tão rápido a encontrem ou seja denunciada.

 

Pentax K1 mk2, Tamron SP 90 1:2,5

 

By me


Reunião magna

Acho que todos conhecemos a expressão “o idiota da aldeia”.

É que todas as aldeias têm um, seja qual for o tamanho da aldeia. Mais cómico ou mais trágico ou mais violento. Mas, no fundo, são todos e cada um mais ou menos inofensivos.

A questão complica-se porque há muitas aldeias. E todas enviam o seu representante idiota a uma reunião magna. E nesta se toma o poder sobre todas as aldeias.

Temos tido diversos exemplos ao longo do tempo e do espaço. Alguns tão próximos que são o presente. E com isso somos geridos num congresso de idiotas em que o líder foi escolhido por ser o mais idiota de todos.

 

By me

segunda-feira, 23 de março de 2026

Histórias velhas




À época não havia onde aprender o ofício. Aliás, só uma empresa tinha profissionais na área, já que era a única em Portugal que tinha aquele tipo de ramo: televisão.

Dos que passaram nas provas de admissão alguns de nós fomos admitidos ao curso de formação que nos daria as bases. Três meses de teóricas e dois meses de práticas. Na primeira parte seis horas por dia com diversos formadores em sala de aula, sem autorização de acedermos às áreas técnicas.

No primeiro dia de prática fomos recebidos no estúdio por três consagrados operadores de câmara. Daqueles cujo nome era de encher a boca.

Depois das apresentações, convidaram-nos a por em prática algo que haviamos aprendido das teóricas: executar um traveling. Por outras palavras, movimentar uma câmara para a frente ou para trás ou para os lados sempre com imagem útil.

Os que encheram o peito e foram mostrar as suas habilidades ou capacidades, ficaram todos de orelha murcha, já que nenhum foi capaz de o fazer, mesmo sob o sorriso irónico desafiante dos formadores.

Após o fiasco, um deles agarrou-se ao tripé e à câmara e quase que dançou uma valsa com ela, com uma suavidade e perfeição impressionantes.

Acabada a demonstração disseram-nos que no final do curso saberiamos fazer aquilo assim (ou lá perto) e que o truque ou técnica não estava (e não está) na força mas no jeito de o fazer. E isso aprende-se. Aprendemos.

Anos mais tarde sorria eu ao ver recém chegados, vindos de escolas profissionais ou mesmo já com experiência, a não serem capazes de fazer aqueles movimentos de câmara com suavidade, agarrando-se com força aos pedestais, coisa muito mais fácil de manobrar que um tripé.

Explicava-lhes então eu que aquilo se faz com quatro dedos: dois para o pedestal e dois para o punho da câmara. E que é fácil, muito fácil. E demonstrava.

Dava-me um prazer imenso ver como os seus olhos se abriam de espanto (mesmo os de alguns já com experiência) ao perceberem que afinal aquilo é quase manteiga, desde que se saibam os truques ou técnicas.

Terminava eu com a explicação dos motivos da física e da dinâmica que justificam essa facilidade. E essa é a “pedra de toque”. Perceber o porquê das coisas funcionarem. Permite bem fazer aquilo que se sabe fazer e aplicar esse conhecimento a situações novas ou diferentes, facilitando e melhorando a sua execução.

Os que não se preocupam em saber o que está para além do botão ou do manípulo nunca serão algo mais que repetidores ad nauseam das mesmas tarefas, incapazes de criar ou improvisar. A menos que se seja um génio, coisa rara de encontrar.

Isto é válido para imagem, culinária ou astronautica.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


By me

domingo, 22 de março de 2026

Amor/ódio




Há tarefas com as quais tenho uma relação amor/ódio em que o ódio prevalece. Um bom exemplo é o emparelhar meias.

Com o passar dos anos acabei por encontrar uma solução que me evita ter que o fazer: desfiz-me das meias que tinha, novas ou velhas, e comprei vários pares de meias iguais. Todas iguais no tecido, na cor, no padrão. Assim, quando as tiro do varal onde secaram depois de lavadas, vão a monte para a gaveta. E quando vou por meias lavadas basta-me meter a mão e tirar duas. Sei que serão iguais.

Mas há outras tarefas que não podem assim ser tratadas. Implicam tempo disponível, disposição para as executar e tranquilidade no fazer. Um bom exemplo é o limpar o sensor de uma câmara digital.

Sabemos que o sensor é uma parte delicada da câmara e que qualquer poeira se nota na imagem final. E que qualquer risco no sensor é o seu fim. Por saber da delicadeza da tarefa, de que não gosto pela dose risco que implica, faço-a apenas em último recurso e quando me sinto suficientemente tranquilo para tal. Foi o caso.

Sentado à mesa de trabalho do “estúdio”, o local tão imaculamente limpo quanto o possível, deito mãos à obra. Cavidade da câmara limpa antes de expor o sensor, espátula de limpeza retirada do invólucro estéril e devidamente humedecida, faço a primeira passagem. A meio da segunda passagem, em sentido inverso, aconteceu o mais improvável: fiquei sem energia elétrica.

Não que processo implique eletricidade. De preferência até não, para evitar estáticas. Mas convém que eu veja o que estou a fazer, principalmente quando estou a intervir no sensor. E ficar às escuras com a espátula nele encostada será algo de todo não recomendável.

Consegui retirar a espátula da cavidade sem com ela tocar o que quer que fosse e desliguei a câmara. Às escuras fui em busca de uma luz alternativa e tratei de aguardar tranquilamente pelo regresso da energia. O que não demorou mais de meia hora.

Mas, ali mesmo quase às escuras, fiz uma jura solene: de agora em diante ou faço esta limpeza de dia, perto de uma janela, ou faço-a à luz de baterias devidamente carregadas. Sempre evito o susto, o risco e o soltar uns valentes palavrões.

Nota adicional: o sensor ficou incólume.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


By me

quarta-feira, 18 de março de 2026

Imagem




Hoje fui tratado de um modo quase indigno: fizeram-me uma imagem!

É verdade que foi sugerida e eu aceitei mas, no final, nem ma mostraram e muito menos se proposeram dar-ma ou enviar-ma. “Tá feito, tá feito, venha outro!” como se eu estivesse na rua a acender um cigarro e viesse alguém com uma câmara apontada para mim.

Pior ainda: desnudei-me a pedido para a imagem.

Não que isso me incomode por demais. Nunca fui exibicionista ou envergonhado. Menos ainda com esta idade. No entanto, caramba: um tipo que se desnuda assim sem preconceitos perante a máquina merece um pouco de consideração. No mínimo deixarem-me ver aquilo que eles viram em mim que justificou o quererem fazer uma imagem. Mas não: nadica de nada.

Quando vim embora, vinha de mãos a abanar. Enfim, não completamente porque, liberto das restrições óbvias, vinha com um cigarro aceso, bem seguro por via da ventania.

Mas na minha cabeça ainda ressoavam aquelas palavras de antanho, que se repetem e que quase todos bem conhecem: “Encha bem. Não respire. Pode respirar.”

Saudades dos tempos em que ficávamos com o positivo em papel, à saída do fotógrafo. Ou a chapa em negativo à saída do consultório de RX.

 

Olympus C3030Z


By me

terça-feira, 17 de março de 2026

Imagem e realidade




Por vezes, pensando nisto e naquilo, chegamos a conclusões estranhas!

De acordo com as lei da física em geral e da óptica em particular, uma lente positiva – ou um sistema óptico positivo – formam uma imagem real, invertida e menor que o objecto.

Vem nos compêndios, aprendemos na escola e usamo-lo no quotidiano. Nas lupas, nas objectivas, no cristalino.

O que me leva a constatar que as imagens que temos e fazemos do mundo são, na sua essência original, o inverso do que pensamos e com que lidamos. Para chegarmos ao universo como o entendemos temos que inverter as imagens que produzimos, quer sejam a da câmara ou a do olhar.

Daqui que possa concluir, sem grande esforço, que o mundo que nos cerca e que constatamos com as imagens que construímos, é real, verdadeiro, muito maior do que o vemos e invertido à forma como o vemos.

Pergunto-me assim se, sendo o universo o inverso do que vemos, será que nós, seres humanos, temo motivos para assumirmos a importância que nos atribuímos?

E será que quando nos travamos de razões com alguém, o facto de vermos a vida de pernas para o ar não nos porá a ver o mundo com uma distorção diferente da do nosso interlocutor?

E vale a pena agredirmo-nos e matarmo-nos porque vemos e sentimos a vida do avesso?

 

Samsung S1060


By me

domingo, 15 de março de 2026

Cultura




Eis que me recordo de alguém que conheci que se candidatou ao cargo de realizador de televisão.

Na prova de cultura geral teve uma classificação de zero valores, da qual recorreu.

No recurso era argumentado que nenhuma das questões colocadas constavam num livro de cultura geral que havia estudado e que até sabia de cor.

Durante algum tempo este episódio era contado entre amigos e colegas, quando algum se sentia mais em baixo ou frustrado.

 

Pentax K100D, Pentax 18-55

sábado, 14 de março de 2026

Escritas




Se pensarmos bem sobre o que fazemos, nós os fotógrafos, acabamos por chegar à conclusão que a nossa actividade funciona pela negativa.

Já nem falo, agora, na questão do enquadramento, em que com ele excluímos tudo o que nos cerca menos o que nos interessa. O sistema fotográfico assim nos obriga.

Falo, antes sim, que ao fotografarmos não estamos a registar a luz que nos agrada mas antes a modificação que ela sofreu. Quer seja por atravessar a atmosfera, quer seja porque algo se interpõe no seu caminho, quer seja a que é reflectida de um qualquer objecto ou ser vivo.

Não fotografamos a luz mas sim as suas consequências.

Tenho uma especial predilecção por fotografar empenas.

São telas grandes, impolutas de cores e irregularidades de formas, o local certo para que a luz, que não vemos, incida, se manifeste e nos mostre as alterações que sofre: as modificações de quando o sol está baixo no horizonte, atravessando mais atmosfera e materiais em suspensão; a reflexão na atmosfera, mostrando-nos um cor celeste tão breve quanto o pôr-do-sol; a interrupção no seu trajecto, feita pelos prédios vizinho, que reduz à bidimensionalidade fotográfica o que é de facto tridimensional…

Para todos os efeitos, sombras projectadas são fotografias, na medida em que é a escrita da luz que vemos.

Naquele dia atrasei-me no meu caminho, entretido que estive a ver aquele magote de gente jovem a desfrutar do jardim, do fim do dia e da antecipação de férias. Espraiados pela relva em pequenos grupos sentados nela ou não, cavaqueavam e riam-se por entre golos de cerveja barata com a displicência e alegria própria de quem ainda não entrou nas rotinas e obrigações laborais, parentais e horárias. Bom de ver, mesmo!

Quando decidi seguir e ir até a uma das minhas empenas favoritas constatei que era tarde: não chegaria a tempo de assistir à última fotografia ali exibida pelo sol.

Mas sendo que estava disposto a fotografar uma fotografia, escolhi outra: esta, que estava mesmo ali e que, fosse lá porque fosse, ainda não havia descoberto.

E se nós, fotógrafos, procuramos com a nossa parafernália tecnológica a perpetuidade do nosso trabalho, o universo, na sua eternidade, escreve breve e rápido, não se preocupando com conceitos estéticos ou tecnologias.

Gosto de empenas ao cair do dia. E de sentir, com a modificação das sombras, a nossa rotatividade. E a nossa brevidade.

Manias!

 

Nikon Coolpix P7000


By me

sexta-feira, 13 de março de 2026

Zippo




Um dos meus muitos defeitos é o ter enorme dificuldade em deitar coisas fora. O que faz com que tenha um montão de coisas aparentemente inúteis em casa.

Quando deixei de usar os isqueiros Zippo para fumar, conservei tudo o que dessa marca tinha. Para além, claro, dos isqueiros. Torcidas, pedras, estojos, combustível...

As latas, estas três, estão por meio. Tinha uma em casa em uso, uma outra em casa de reserva e uma terceira no cacifo no trabalho. Assim como estavam, assim as guardei. Nunca se sabe se voltarei a usar os meus estimados Zippos.

Mas agora, considerando os tempos que correm e o que ainda têm dentro, pergunto-me quanto darão por elas numa casa de penhores.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4


quinta-feira, 12 de março de 2026

Talvez Nelson




Hoje tive que ir ao centro da cidade. Àquele espaço a que chamam de Rossio mas que, na verdade, tem o nome de praça D. Pedro IV. A esse respeito, aliás, há uma história curiosa sobre a estátua que a encima, mas fica para outros contos. O certo é que a loja que vende aquilo que procurava fica-lhe nas imediações.

Feito o negócio voltei a atravessá-la, desta feita para ir a uma outra. Não teria que ser exactamente aquela, apenas era a farmácia mais próxima. Comprei o que necessitava, deixando lá ficar o saco de plástico que me queriam impingir, atravessei meia praça e sentei-me.

Faz tempo que não usava o meu tempo naqueles bancos e fui-me deliciando com um passatempo muito meu: adivinhar à distância a nacionalidade de quem por ali está. É divertido, ainda que nem sempre tenha oportunidade de o confirmar.

Estava nestes entreténs e sou abordado. Com muita educação, com um “boa tarde” e um “desculpe” inicial e um “faz favor” de permeio, pede-me uma moeda de auxílio. Não resisti!

Enquanto que uma das minhas mãos rebuscava o bolso do colete em busca das que lá estivessem, atirei-lhe: “Até que enfim que oiço falar português aqui no Rossio!”

Sorriu de orelha a orelha e retorquiu-me: “Sabe, venho a descer a pé a avenida desde o Marquês e é só gringos!” (O seu sotaque era de terras de Vera Cruz) “Nem eles me entendem nem eu os entendo. E hoje, tal como ontem, isto está muito vazio.”

Eu já me tinha apercebido da escassez de gente, apesar do dia sorridente e bonito, e concordei. “Deve ser das tempestades e do frio que se tem sentido.”, concluiu ele.

Trocámos mais umas banalidades sobre o tempo, mostrando-me ele o pesado casaco amarelo berrante que tinha para quando o sol se escondesse, e preparava-se para continuar a sua rotina de abordagens a transeuntes.

Mas não resisti e, mesmo com a 40mm que tinha na câmara, pedi–lhe por um retrato. Este.

Acedeu mas estranhou quando lhe sugeri que mudássemos de posição para que não ficasse com a parede de fundo cheia de sol. A sua desconfiança manifestou-se na sua expressão, que se desvaneceu com um sorriso quando depois a viu.

Seguiu ele para o lados de um fast-food das imediações, onde as pessoas são mais generosas, e eu voltei para o banco de pedra, para dar mais um momento de tranquilidade às minhas amigas que vivem nas minhas ancas.

Uma hora e muito depois, já sem luz para fotografar, levantava-se uma aragem fria e eu conseguia imagina-lo a envergar o casaco antes de regressar ao local onde pernoitaria.

Fica o retrato de alguém a quem não perguntei pelo nome mas a quem posso apelidar de Nelson.

 

Pentax K-S2, smc Pentax-M 40 1:2,8

 

 By me

Certezas




Há que saber dizer “Não” com tanta veemência que o próprio “Sim” se envergonhe de existir.

Mas também há que saber usar o “Sim” com tanta vontade, que o “Não” se encolha de medo.

 

Pentax K7, Tamron SP Adaptall2 90 1:2,5


By me

quarta-feira, 11 de março de 2026

Crimes domésticos

A limpeza de minha casa é feita por uma senhora contratada para o efeito.

Damo-nos bem, é eficiente no que faz e a quase única restrição ao seu trabalho é o espaço a que chamo pomposamente de estúdio. É o espaço que, regra geral, é usado como sala de estar e de refeições num apartamento normal mas que, e por ser a de maior área, foi desde logo reservada para o efeito. E a restrição é simples: deste espaço cuido eu!

Não que tenha algum receio por questões de segurança, mas porque os acidentes acontecem a qualquer um e uma vassoirada num tripé de iluminação ou quejando seria um desastre.


Quanto ao resto da casa deixo-a trabalhar à-vontade, deixando eu o escritório livre quando toca a vez dele. Não nos atrapalhamos.

Da última vez que cá esteve eu ía ficando com os cabelos em pé.

Estava ela a cuidar do pó no escritório e eu tive que lá ir em busca já nem sei de quê. E em cima de uma das pilhas de livros que lá tenho por já não caberem nas estantes (por ler, já meio lidos, a reler ou de consulta) havia ela colocado uma embalagem de limpar vidros. Mesmo em cima da capa de um deles.

Não lhe disse nada, apenas ficando uns segundos na porta a ponderar o que fazer. Aproximei-me do lugar do crime, peguei na embalagem e tratei de a colocar diretamente no tampo da mesinha onde se encontravam. E levei comigo o bendito livro, na esperança de poder reparar algum dano que pudesse ter havido. Não havia, por sorte, e a capa com fotografia impressa estava incólume.

Eu sei que a culpa é parcialmente minha, pois nunca lhe disse que em cima de livros apenas se colocam livros. E deixar uma marca de produto químico num livro é uma acto tão criminoso quanto o deixar cair uma câmara. Ou mudar de objectiva no meio de uma tempestade de areia. E a estima que tenho por livros só é suplantada pela estima que tenho ao equipamento fotográfico. É que tanto uns quanto os outros me permitem viajar ou fazer outros viajar por outros mundos ou realidades.

E vou passar a estar de olho sempre que ela for trabalhar para o escritório.

Nota – A imagem aqui exibida não é a do “crime” mas apenas uma reconstituição, com a segurança de ter colocado sob a embalagem algo onde se ficar uma mancha me é indiferente.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4

 

By me

Paciências




É característica de um fotógrafo, creio eu, o ser paciente.

Quer seja para saber esperar que o assunto aconteça, quer seja para saber esperar que a luz seja a que se quer, quer seja o aguardar que os químicos actuem ou o processador processe.

Um fotógrafo tem que ter paciência, em maior ou menor grau.

O que não sei é se eu terei paciência para lidar com esta câmara de faz-de-conta que encontrei um destes dias. Melhor dizendo, se terei a paciência necessária para resolver o puzzle que a câmara contém.

O resultado final terá 33 por 48 cm, juntando todas as 550 peças que o compõem. No final, supondo que lá chego, terei um painel repleto de fotografias de objectos de fotografia: câmaras, objectivas, iluminação, fotómetros, tripés, peças em madeira, em plástico, em metal, arcaicas, de película, digitais, pequeno médio e grande formato... há de todo um pouco, incluindo marcas.

E nem vale a pena perguntarem: a minha marca – Pentax – está aqui representada, bem como um modelo de fotómetro que possuo.

O único “crime” deste conjunto é a caixa, de lata e bonita como se vê, representar outra marca que  não a da minha predileção. E, nos dias de hoje com a massiva divulgação dos sistemas digitais, só quem seja mais cota a reconhecerá.

Fica o desafio.

 

Pentax K-S2, smc Pentax-m Macro 100 1:4


By me

domingo, 8 de março de 2026

Ferramenta




Quando acontece eu abrir o meu canivete para fazer algo simples como abrir uma carta ou descascar uma peça de fruta e alguém por perto dizer “Chega para isso lá que tenho medo!”, costumo fazer uma brincadeira.

Dizendo-lhe “Vou-te mostrar algo”, aproximo a lâmina da sua cara. Na vertical e com o gume virado para mim.

Naturalmente que a reacção é a esperada: ou recuam, ou fecham os olhos, ou ficam rígidos…

De seguida acrescento “Agora espera”. E aproximo à mesma distância uma esferográfica que, entretanto, tirei do bolso.

A reacção também é a esperada: coisa nenhuma. Nem recuo nem manifestação de receio ou medo.

E continuo eu:

“Repara: apesar de me conheceres, de teres alguma confiança em mim e de saberes que não te iria fazer mal, tiveste medo da lâmina. Mas não tiveste medo algum da caneta. E, no entanto, em menos de coisa nenhuma, poderia espetar-ta no pescoço, antes que pudesses reagir.”

Assim é com tudo o que existe: por si mesmos os objectos não são perigosos!

É o uso que lhes damos que poderá, ou não, ser perigoso ou nefasto.

Um canivete, sabemo-lo, tanto pode servir para abrir uma garganta, para descascar uma maçã ou para talhar na madeira uma flauta.

Tal como uma caneta tanto pode servir para assinar uma declaração de guerra, preencher um impresso ou escrever um poema.

E, em última análise, sempre se pode concluir que a caneta é mais perigosa que um canivete, já que nos defendemos deste mas não daquela.

Em querendo, pode-se ainda usar uma velha analogia: “O poder da pena sobre a espada”.

 

O mesmo se pode dizer sobre a fotografia. Por si mesma ela não fará mal a ninguém. Mais ainda, temos a opinião generalizada que a fotografia e o acto de fotografar são questões técnicas ou artísticas, inócuas portanto.

No entanto, num bucólico jardim e numa tarde primaveril, tanto posso fotografar uma flor de uma árvore como posso afastar as folhas e discretamente fotografar o casal de namorados que ali se encontram à revelia do conhecimento das respectivas caras-metades.

A fotografia, por si mesma, nada tem de mal.

Mas quando a usamos para quebrar a privacidade de terceiros, para entrar abusivamente na intimidade de outrem, torna-se pérfida, odiosa, tão maléfica quanto qualquer outro objecto.

 

Naquele Domingo fui fotografar fantasmas. Para o fazer como quero, a técnica implica o uso de um tripé e nele a câmara orientada para zonas onde passem pessoas. Nada discreto, portanto.

Pois no jardim onde o fiz, vários foram os adultos que, acompanhando crianças pequenas, olharam para mim e para a câmara e tripé com ar agressivo. Suponho que pensaram que eu estaria a fazer imagens dos pequenotes. E, nos tempos que correm, isso é “politicamente incorrecto”. Creio que nada disseram ou fizeram porque não me viram a espreitar pelo visor. Mas que as suas caras demonstraram desagrado, lá isso demonstraram.

Felizmente, para mim e para quem estava comigo, não se aperceberam que a câmara estava a ser usada com um cabo disparador, fabrico caseiro, e que se eu quisesse fazer as imagens que eles temiam não dariam por nada.

Quando não, lá teria eu que desmontar a tralha, mostrar-lhes o que tinha registado e explicar-lhes que procurava fantasmas. Inócuo, portanto.

 

A ferramenta nunca é perigosa. O uso que lhe damos é que sim!

 

Pentax K7, Sigma 70-300


By me

sábado, 7 de março de 2026

Plink




Tinha comprado a Pentax K100D há umas duas ou três semanas. A minha primeira Reflex Digital.

Saíra de casa para ir tomar um café e, por qualquer motivo, tinha-a pendurada no pescoço e não no ombro como é meu hábito.

De súbito oiço um “plink” violento vindo do meu ventre. Como nada me doía, olhei para a câmara. Estava o filtro neste estado!

Doeu-me a alma! Coisa nova assim estragada! Depois de pensar um pouco, acabei por perceber o que se passara: uma pedrinha, que seria pequena, saltara de sob a roda de um carro ao passar e acertara mesmo em cheio na objectiva.

Por sorte, tinha e tenho o hábito de usar um filtro de protecção nas objectivas. Se assim não fosse, teria sido a objectiva a sofrer os danos.

Este é um dos argumentos a favor do uso de filtros de protecção: protegerem!

Não apenas de situações como esta, muito raras que são, mas também da água, das poeiras, de pancadas acidentais. E, igualmente importante, de riscos ínfimos que acontecem na sua superfície quando fazemos limpeza. Não damos por eles mas existem e, de algum modo, afectam a qualidade da imagem.

Os detractores do uso de filtros UV argumentam e com razão, que qualquer filtro que se coloque em frente da objectiva, por muito bom que seja, altera sempre a imagem. Tal como cumpre a sua função de filtrar parte da luz, no caso os ultra-violetas, alterando a fidelidade da cor resultante.

Assm, há quem argumente com fervor o uso de filtro, tantos quantos, com o mesmo fervor, argumentam contra.

A minha posição, tão válida quanto a oposta, é simples: a menos que não confie no estado de conservação do filtro, uso-o quase sempre. A excepção é em estúdio, onde tudo acontece com mais calma e onde a probabilidade de acidentes ou sujeira é muito pequena.

Por acréscimo, um alerta que me foi dado por um mecânico fotográfico há uns tempos:

Dizia-lhe eu que todas as minhas objectivas têm um filtro colocado, mesmo as que estão guardadas. E ele avisou-me que a caixa de ar criada entre ele e o elemento frontal da objectiva pode ser propício à criação de fungos, coisa que evitamos a todo o custo.

Pensei no que ouvira e, em chegando a casa, tomei cautelas: retirei todos os  colocados, mantendo apenas naquelas que tenho a uso. Em querendo usar, é só colocar o respectivo filtro.

Fiquei, assim, com quatro tipos de filtros arquivados: os UV de protecção, os específicos para usar com preto e branco, os de correção ou compensação de cor, hoje pouco usados porque o digital já permite esses ajustes, tanto na tomada de vista como na edição, e os quadrados, de acrílico ou de gelatina, com funções específicas e que raramente uso.

Claro que, para além dos filtro quadrados que são colocados usando um suporte especial, dos outros tenho vários repetidos devido à variedade de diâmetros frontais das diversas objectivas. Em alguns casos, aneis de adaptação permitem usar filtros maiores em objectivas menores, mas isso vai obrigar a mudar de pára-sol.

Mas uma coisa é certa, e para além das posições radicais que os defensores de uma ou outra abordagem possam ter:

Seja o que for que coloquemos à frente de uma objectiva vai alterar o resultado final. As mais das vezes essas alterações são as desejadas. Por vezes temos surpresas desagradáveis.

A sugestão que posso dar, para satisfazer ambas as partes, é usar um filtro protector e, dependendo do uso que é dado, substituí-lo de quando em vez por um novo, mesmo que não se notem riscou ou outros problemas.

A fotografia tem uns vinte e cinco anos, foi feita com a Pentax K100D e, provavelmente, com a Tamron SP Adaptall2 90mm 1:2,5.

Hoje não a poderia fazer porque, apesar de todo o cuidado que fui tendo, o vidro acabou por cair do aro.


By me

sexta-feira, 6 de março de 2026

Juntem-se as gerações




Cinquenta anos existem nesta fotografia.

A câmara, uma Pentax K7, foi fabricada em 2009. A objectiva, uma Super Takumar 105 1:2,8, foi fabricada na segunda metade dos anos ’60.

E se a câmara me acompanha desde então, fiel, robusta e sempre pronta, com muitos km no meu saco ou no meu ombro, já a objectiva chegou-me às mãos um destes dias, tão completa e em tão bom estado como se tivesse acabado de sair da fábrica. Para minha satisfação e para a do meu bolso, já que foi bem barata.

As condições atmosféricas ainda não me permitiram testar por completo esta coisa bonita que agora aqui aportou, mas por aquilo que puder ver até agora, não estou de todo arrependido da a ter comprado.

Durante uns dias o meu saco vai andar armado apenas com M42.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M 100 1:4


By me

Um brinde




Um brinde a todas as nossas vitórias e fracassos, que é disso que somos feitos.


Pentax K7, Tamron 18-200


By me

quinta-feira, 5 de março de 2026

Diatribes




Quando num autocarro vamos sentados de costas para o motorista só vemos pela janela aquilo que já passou. Mas se estivermos de virados para a frente da viatura vemos o que se aproxima.

Assim é com a fotografia:

O fotógrafo vê o há-de acontecer mas o público apenas vê o que já aconteceu.

 

Pentax K-S2, smc Pentax-M 40 1:2,8


By me

 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Verdades


“Os grandes cómicos e os grandes palhaços, contrariamente ao que às vezes se imagina, não são fúteis.

...

É que às vezes há umas coisas que nós demoramos dez minutos a proferir, três semanas a escrever e a vida inteira a pensar.”

 

José Barata Moura, in “Primeira Pessoa”, RTP 2026

 

Pentax MX, smc Pentax-M 50 1:1,7


By me

Um par




Já os tenho encontrado, solitários ou em pares, nos locais e situações mais diversas.

Mas fico curioso sobre como fica um par de sandálias, num dia farrusco, assim arrumadinhas lado a lado a um canto de uma paragem de autocarro em Lisboa.

Não foram jogadas fora, não foram perdidas, não fora esquecidas, não caíram de nenhum saco.

As histórias e estórias que estão por de trás de um ou dois sapatos caídos na rua ao abandono encheriam creio, vários tomos, tal como enchem a minha própria imaginação.

Em tom de conclusão, sempre acrescento que nove horas depois de ter feito esta fotografia já ali não estavam. Nunca saberei se foram recolhidas por algum cantoneiro municipal se apanhadas por alguém que entendeu dar-lhes préstimo.

 

Nikon Coolpix P7000


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terça-feira, 3 de março de 2026

Liberdade




De acordo com as leis e normas portuguesas, é obrigatório possuir-se um documento identificativo oficial: Bilhete de Identidade ou Cartão do Cidadão.

No entanto, e pasme-se, para se renovar o dito documento, mesmo que nada seja alterado, há que pagar por isso.

Por outras palavras: sou obrigado a pagar regularmente por algo que sou obrigado a fazer.

Posso não ter casa, posso não ter nenhum contracto com nenhuma empresa, posso não ter rendimentos, posso mesmo viver apenas do ar e das ervas selvagens que existem.

Mas pelo simples facto de existir sou obrigado a pagar.

 

Ouvi aí alguém falar em Liberdade?

 

Pentax K7, smc Pentax 50 1:7

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Um clássico




Suponho que conste em todos os manuais de governação:

Criar um inimigo, dentro ou fora de fronteiras, agir contra ele e afirmar que o estado e os governantes protegem os cidadãos.

Quanto assustador for esse inimigo e mais veemente for essa acção, quer pelos discursos, quer pelas legislações, quer por acções bélicas, mais os cidadãos se juntam em redor dos líderes, dando-lhes mais poderes na sua acção.

Claro que, em usando esta estratégia, o poder instituído consegue afastar para segundo plano, por vezes definitivamente, os seus detratores, garantindo assim a manutenção do status adquirido.

Isto nada tem de novo e tem sido usado ao longo de séculos em diversas civilizações mais ou menos autocráticas ou governantes com grandes ambições a tal.

Mesmo neste jardim à beira-mar e mal amanhado a que chamamos Portugal.

Já agora recordo o incremento da contestação interna e as eleições intercalares nos EUA em novembro.

 

Pentax K7, Tamron 18-200


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Alfarrabismo




Confesso que não resisti.

Numa página on-line sobre fotografia o autor mostra-nos este livro. Não exatamente este mas a sua versão original cuja capa não contém fotografias.

Quando o vi soaram campainhas na minha memória. Melhor, soaram carrilhões cá dentro. Eu conhecia aquilo e, ao mesmo tempo, não conhecia.

Apesar da hora bem tardia, atirei-me às estantes que, apesar de não lá muito bem organizadas, me mostravam as lombadas. Ao fim de um bom pedaço lá encontrei. Este.

O que acaba por ter graça é que o autor da página é um bem-disposto e provocava o público dizendo que lojas de livros usados sobre fotografia que se prezem têm que ter um ou dois exemplares deste. Claro que residindo no Reino Unido, local onde a versão original foi publicada, não conhece a realidade livreira portuguesa. Mas lá lhe respondi, exibindo o meu exemplar, que não está à venda.

Graça, mas graça mesmo, foi saber pelos demais comentários que esta obra se espalhou pelo mundo, do Brasil à Bulgária, passando pela Àfrica do Sul. Não sei se na Bulgária fizeram uma tradução ou se foi a versão original.

O que sei é que o meu exemplar foi comprado em Lisboa em 1982 e que custou 750 escudos. Provavelmente na livraria Bertrand.

Se o recomendo? O que recomendo sem sombra de dúvida é que andem de olho nos alfarrabistas e feirinhas onde aparecem livros com mais de 40 anos, como este. Garantidamente que estão desactualizados no que toca a técnica. As imagens serão “datadas” no que a estética diz respeito, pois seguirão as modas e tendências da época. Mas há coisas que não mudam e com os antigos aprendemos sempre qualquer coisa. Nem que seja a forma estável de segurar uma câmara ou a importância que tem um pára-sol.

Quanto ao resto, ver fotografias é sempre um prazer.

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 50 1:4


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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Saberes e gerações




É um clássico do conflito de gerações: os mais novos escarnecerem dos saberes dos mais velhos e estes espantarem-se com as ignorâncias dos mais novos. Creio que sempre foi e que continuará a ser.

No meu caso, pertencendo aos mais velhos, creio ser bastante tolerante neste campo. Sei que ninguém nasce ensinado e que os mais novos têm saberes e competências que os mais velhos não têm ou não conseguem. O melhor mesmo é aproveitar o melhor dos dois mundos, partilhando conhecimentos e práticas.

No entanto, coisas há que me deixam mesmo surpreendido. Chegando a ficar incomodado com aquilo que os mais novos (ou alguns dos mais novos) desconhecem.

Um destes dias tive uma equipa de dois homens, um com 21 anos e o outro com 31, para fazer uma instalação de um equipamento aqui em casa. Competentes e bem sabendo do seu ofício, fizeram o que tinham a fazer a contento do cliente – eu.

Mas a dado passo, e para simplificar e melhorar o que faziam, emprestei-lhes um nível de bolha. Assim, verticais e horizontais ficavam garantidas.

E não é que não sabiam o que aquilo é?!

Que não soubessem o que é um fio de prumo ainda aceito. Não são nem pedreiros nem marceneiros, pelo que acredito que nunca tenham tido necessidade de usar um. Apesar de ter séculos de inventado. Agora um nível de bolha?!

De um modo ou de outro o seu princípio de funcionamento e a sua utilização fazem parte dos conteúdos do ensino, em ciências, física ou história. E, de um modo ou de outro, terão visto um exemplar mais elaborado ou mais simples.

Indo mais longe, a necessidade de garantir a horizontalidade de algo e a forma de o aferir, é algo que a todos toca algures e em muitos campos durante a vida. E não necessariamente longa.

Lá lhes expliquei o modo de funcionamento de ambos, onde se encontram e como o seu uso pode melhorar bastante os seus ofícios. Ou as suas casas.

A este respeito, recordo uma rábula do Jô Soares parodiando a situação, que terminava sempre com a mesma frase: “A ignorância da juventude é um espanto! É um espanto!”

 

Pentax K1 mkII, smc Pentax-M macro 100 1:4

 

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Pontos de vista e fotografia




Não vale a pena pensar de outra forma!

 

Escancaradas que estão as hostilidades no leste europeu, estamos a ser bombardeados com informação. Opiniões de especialistas, políticos a falarem com alguma cautela mas hostis a uma das partes, repórteres e correspondentes no local, dizendo o que podem sobre os acontecimentos a que assistem...

A guerra está aberta e a comunicação social é uma das armas.

Claro que o imediatismo é importante. Não apenas o público quer saber como o negócio da informação vive de ser o primeiro a noticiar.

Uma das formas de comunicar, mas mais lenta, é a fotografia. Pese embora os meios de fazer e enviar as imagens recolhidas, o consumo de imagens prefere as que sejam animadas, com som, que encham os noticiários.

Veremos apenas daqui a uns tempos as “belas” fotografias da frente de combate, com material e gente a sofrer as consequências das decisões de quem está no conforto dos gabinetes. E, como é de esperar, mostrando os acontecimentos do ponto de vista do público a que se destina. E se os fotógrafos são ocidentais e vendem os seus trabalhos para jornais ou agências noticiosas ocidentais, serão quase de certeza imagens defensoras das perspectivas políticas ocidentais.

No entanto, esta abordagem parcial de um conflito mortal não é original.

Sugiro que se comparem as fotografias feitas há uns 150 anos, pouco depois da invenção da fotografia. Em particular as feitas na guerra da Crimeia com as da guerra civil Norte-Americana.

Se esta mostra imagens de destruição e de vítimas do conflito, numa clara demonstração da violência dos combates, já as feitas na Crimeia, por correspondentes Britânicos, são muito mais tranquilas, mostrando aquartelamentos e soldados em bom estado e saudáveis. Havia, neste caso, que tranquilizar os Ingleses sobre o que acontecia com os seus compatriotas na frente de combate.

As fotografias não mentem. Agora a forma e com que intuitos são feitas dependem dos objectivos dos fotógrafos no local e da utilização que lhes forem dadas.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


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sábado, 21 de fevereiro de 2026

Leituras




Esteve assim durante mais de uma hora.

Com o solzinho a bater-lhe nas costas, com as pernas em cima do banco, cabeça protegida por um lenço, o livro na mão.

Lendo devagar, mudando as páginas com calma e concentrada no que fazia, ao princípio nem dei por ela. Mas sendo que o meu artefacto, se não tiver “clientes”, não exige atenção, acabei por me aperceber da sua imobilidade. E fiquei curioso.

Ainda fiquei curioso com aquela figura, com um aspecto já não trivial, a ler num jardim. Afinal, não é todos os dias que se vê um idoso a ler um romance num banco de jardim, por muito apetitoso que possa ser o calor solar neste Fevereiro de noites frias.

E a curiosidade aumentou com o passar do tempo. E a falta de vergonha também, a ponto de fazer a foto que aqui se vê. E ainda fui mais longe:

Fazendo de conta que estava apenas num dos meus deambulares de cigarro na mão, aproximei-me o suficiente para ler o título do que ela lia. Nem Condessa de Ségur, nem Richard Bach, nem um opúsculo religioso.

Tratava-se, afinal, do “Guia prático da Artrose”.

 

Pentax K100D, Sigma 70-300


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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Prazeres de caça




Quem faz fotografia gosta que o seu equipamento esteja em boas condições. E está sempre alerta para as ocasiões em que o pode usar. Faz sentido e eu faço fotografia.

Quem coleciona artigos de fotografia gosta que as peças que possui estejam em tão boas condições quanto o possível, apesar da idade que algumas já possam ter. E está sempre alerta para as ocasiões em que pode completar ou melhorar a sua coleção. Faz sentido e eu sou colecionador.

Mas há um outro aspecto que conta para o colecionador e, eventualmente, para quem faz fotografia: a história em torno da peças de equipamento que possui. E eu pertenço aos dois grupos.

Lembro, por exemplo, de uma Pentax Super A, que me foi vendida usada por alguém que me contou ter ela sido comprada pela filha quando estudava na alemanha e que agora estava no fundo de um armário porque ela preferia as câmaras digitais. E ele estava a precisar de dinheiro...

De igual modo recordo uma Pentax SFXn, comprada barata com duas objectivas e alguns acessórios pouco comuns, sobre os quais quem me vendeu me disse que tinham pertencido ao falecido pai que tinha tal estima no seu equipamento que o guardava religiosamente numa divisão da casa fechada à chave para que os filhos não lhe acedessem.

Eu gosto de conversar com quem vende para conseguir este manancial de histórias.

O que se vê na fotografia junta também tem história. Aliás, tem várias histórias.

Começa com a quase oferta da peça menor à direita, bem como do respectivo estojo, junto com uma outra compra que fiz. Trata-se de uma acessório a colocar num fotómetro Gossen Lunasix 3 para permitir fazer leituras de luz no ampliador fotográfico. Eu não tinha o fotómetro mas sabia que cedo ou tarde o teria, enquanto esta peça extra seria raro de encontrar. Esteve bastante tempo guardada à espera do momento. Que veio agora.

O dito fotómetro estava acompanhado de dois outros acessórios, à venda em Lisboa e por uma valor mais ou menos dentro dos parâmetros habituais e compatível com a minha disponibilidade. E em excelentes condições de funcionamento. Não me fiz rogado, já que o conjunto é invulgar, e tratei de combinar o encontro de negócios.

Neste, fiquei a saber que pertenciam ao seu patrão, o António Homem Cardoso, que estava a vender as peças mais antigas e que já não usa, para ficar com um conjunto minimalista. Até por causa da sua idade. Sorte a minha.

Sorte não apenas nas peças de per si mas com o acréscimo de saber que que me chegam às mãos vindas de alguém que é alguém no panorama fotográfico português.

Mas “cereja no topo do bolo” estava no aparelho, fabricado em meados dos anos 60. E de que só me apercebi em chegando a casa. Usa ele, de origem, pilhas que já não se fabricam porque baseadas em mercúrio. Há formas de contornar o problema, umas mais complexas que outras. Uma delas é o recurso a adaptadores para baterias actuais, vendidos pelo fabricante, caros e de encomenda demorada. Pois o belo do aparelho já os tinha, o que diz do cuidado e atenção do seu dono para com o que usava.

Todas as peças têm uma história, em que por vezes somos nós que as vivemos. Mas, para mim, as que realmente são importantes são as que me antecederam. É também com elas que se faz uma coleção.

 

Pentax K1 mkII, SMC Pentax-M macro 50 1:4


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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Vontades




Porque me apeteceu.

 

Pentax K100D, Sigma 400 1:5,6


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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Oh poder




De todos os graffitis que tenho visto e fotografado, este é um dos meus favoritos.

Na mensagem e na intemporalidade.

 

Nikon Coolpix 7000


By me


Não me fΘd@m!




Volta e meia recordo uma expressão que um chefe que tive usava amiúde: “Oh pah, fΘd@-se, não me fΘd@s!”

Vem isto a propósito do conceito bacoco de a representação pictórica (pintura ou fotografia) ter que ser objectica, clara, legível, inequívoca.

Não me fΘd@m! Não tem que ser!

Tem que ser, antes de mais, um equivalente do que a alma de quem criou “viu”, sentiu, pensou, idealizou. A partir do momento em que o que fez corresponda a isso, está feito e bem feito.

O ser interpretável por quem isso veja é outra questão, bem mais complexa.

Começa, desde logo, pela decisão do autor sobre se essa questão é ou não pertinente.

Se for pertinente o autor terá, naturalmente, que se expressar usando códigos visuais que o público entenda. Óbvia ou implicitamente. E terá que adaptar aquilo que sente ou imaginou a esses códigos. A isto chama-se “comunicação visual”. E só será um trabalho bem feito se conseguir comunicar com o público. Se este conseguir “ver” ou sentir aquilo que o autor quis que “visse” ou sentisse. Mesmo dando uma “margem de manobra” muito grande, permitindo múltiplas interpretações.

Mas se não for pertinente, se o factor “comunicação” não for importante... Não me fΘd@m! O autor pode fazer o que muito bem entender, explícito ou confuso ao público, mesmo não interpretável, que a única coisa que conta é a sua satisfação em ter conseguido materializar o que “viu” ou sentiu.

E o público, especialista ou não, o mais que pode dizer é “não entendo”. Qualquer outro tipo de comentário é um disparate, porque o que está a ver não foi feito para que entenda ou interprete.

Claro que no caso da fotografia a coisa é mais complicada que na pintura. Que se admite a um autor pintar sem ser representativo, mas não se aceitam fotografias que não sejam “legíveis”! A ideia, oriunda dos primórdios do processo fotográfico, de que a fotografia é uma cópia da realidade ainda hoje vinga. É um disparate, mas ainda hoje vinga.

E como a esmagadora maioria dos utilizadores de câmaras fotográficas procura o agrado do público, procura igualmente produzir imagens interpretáveis, quantas vezes castrando a sua própria criatividade em prol do aplauso.

Oh pah! Não me fΘd@m!

 

Nikon Coolpix P7000


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