À época não havia onde aprender o ofício. Aliás, só uma
empresa tinha profissionais na área, já que era a única em Portugal que tinha
aquele tipo de ramo: televisão.
Dos que passaram nas provas de admissão alguns de nós fomos
admitidos ao curso de formação que nos daria as bases. Três meses de teóricas e
dois meses de práticas. Na primeira parte seis horas por dia com diversos
formadores em sala de aula, sem autorização de acedermos às áreas técnicas.
No primeiro dia de prática fomos recebidos no estúdio por
três consagrados operadores de câmara. Daqueles cujo nome era de encher a boca.
Depois das apresentações, convidaram-nos a por em prática
algo que haviamos aprendido das teóricas: executar um traveling. Por outras
palavras, movimentar uma câmara para a frente ou para trás ou para os lados sempre
com imagem útil.
Os que encheram o peito e foram mostrar as suas habilidades
ou capacidades, ficaram todos de orelha murcha, já que nenhum foi capaz de o
fazer, mesmo sob o sorriso irónico desafiante dos formadores.
Após o fiasco, um deles agarrou-se ao tripé e à câmara e
quase que dançou uma valsa com ela, com uma suavidade e perfeição impressionantes.
Acabada a demonstração disseram-nos que no final do curso
saberiamos fazer aquilo assim (ou lá perto) e que o truque ou técnica não
estava (e não está) na força mas no jeito de o fazer. E isso aprende-se. Aprendemos.
Anos mais tarde sorria eu ao ver recém chegados, vindos de
escolas profissionais ou mesmo já com experiência, a não serem capazes de fazer
aqueles movimentos de câmara com suavidade, agarrando-se com força aos
pedestais, coisa muito mais fácil de manobrar que um tripé.
Explicava-lhes então eu que aquilo se faz com quatro dedos:
dois para o pedestal e dois para o punho da câmara. E que é fácil, muito fácil.
E demonstrava.
Dava-me um prazer imenso ver como os seus olhos se abriam de
espanto (mesmo os de alguns já com experiência) ao perceberem que afinal aquilo
é quase manteiga, desde que se saibam os truques ou técnicas.
Terminava eu com a explicação dos motivos da física e da
dinâmica que justificam essa facilidade. E essa é a “pedra de toque”. Perceber o
porquê das coisas funcionarem. Permite bem fazer aquilo que se sabe fazer e
aplicar esse conhecimento a situações novas ou diferentes, facilitando e
melhorando a sua execução.
Os que não se preocupam em saber o que está para além do
botão ou do manípulo nunca serão algo mais que repetidores ad nauseam das
mesmas tarefas, incapazes de criar ou improvisar. A menos que se seja um génio,
coisa rara de encontrar.
Isto é válido para imagem, culinária ou astronautica.
Pentax K100D, Sigma 70-300
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