sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Censura




“Adicionámos uma capa à tua foto porque pode mostrar conteúdo violento ou gráfico.”

Fico sem saber o que é “conteúdo gráfico”, já que fotografias, desenhos, letras, rabiscos ou os famosos emoji são conteúdos gráficos.
Mas, e dando isto de barato, fico a saber que se considera violenta uma fotografia histórica, feita por Desderi em 1871, dos comunards de Paris.
Capturados na sequência das investigações do poder aos arquivos dos fotógrafos da época, foram executados sem apelo nem agravo.
Na fotografia mostram-se dez deles, nos respectivos caixões.
Vale o que vale, a censura do facebook. É censura, seja qual for o ângulo pelo qual se olhe!



By me

Sobre os descartados



“Olá! Posso tomar-lhe uns trinta segundos, não mais, do seu tempo?”
Isto foi dito já na rua, depois de termos saído do autocarro. A interpelada, de uns catorze anitos como as amigas e não tão franzina como uma e muito menor que a calmeirona da outra, ficou a olhar p’ra mim com ar de espanto, talvez que sem saber muito bem que responder.
Tomei o seu silêncio como uma anuência e continuei de seguida, mostrando a minha câmara fotográfica, que entretanto tinha tirado do bolso:
“Gostaria que com a minha câmara lhe fizesse umas fotografias sem que disso soubesse? E que as usasse sem lho ter perguntado?”
“Ah, não! Claro que não!” Respondeu recuperando o fôlego e meio assustada.
“Pois os pedintes e os sem abrigo também não gostam! Mais, a sua condição económica não lhes dá alento para sequer dizerem que não. Mais ainda, fotografar os que dormem nos cartões e nos vãos de escada ou sob os viadutos é o mesmo que alguém ir fotografar a sua casa, espreitando p’la janela e à surrelfa. Não gostaria disso, pois não?”
Ficou a olhar p’ra mim, continuando sem saber bem que responder, enquanto a maior sorria e, de dedo em riste, dizia “Eu bem dizia!”
O mutismo passou-lhe e arriscou:
“Mas era p’ra um trabalho da escola sobre o que passam essas pessoas no frio…”
“Pois será!”, continuei. “Mas tenha a delicadeza de lhes perguntar primeiro, respeitando a sua privacidade tal como gosta da sua.”
E afastei-me.

Esta conversa surgiu de ter ouvido no autocarro elas a combinarem que uma pediria a câmara emprestada ao pai e iria fazer aquelas fotografias.
Não sei se o meu discurso terá tido o efeito que queria. Mas certo é que há coisas que não se aprendem (ou ensinam) na escola ou nos livros que os mandam ler. E já só quando é tarde demais dão por aquilo que se lhes escapou.
As questões de Ética e Cidadania são conteúdos que, nesta sociedade competitiva, se recomendam não abordar na escola. Quem sabe se os jovens se rebelam…?

Quanto à fotografia, espero que não estivessem a contar que mostrasse as mocinhas em questão. Ou mesmo um sem abrigo.

By me

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Et maintenant, que vais-je faire



Caminhava calmamente pelo corredor, saindo da luz do sol e entrando na obscuridade das lâmpadas do centro comercial.
Entre o seu cabelo alvo, já um pouco rarefeito, e o casaco de cabedal um pouco coçado, um bigode farfalhudo e bem aparado compunha-lhe a cara.
A sua mão esquerda apoiava-se numa bengala, que manuseava com destreza, bem a compasso do seu caminhar e parar.
Porque ele parava! A cada meia dúzia de passos olhava para quem lhe estivesse mais próximo e cantava-lhe. Desafinado e já com falta de voz, repetia sempre os mesmos acordes e o mesmo verso antigo de nem sei quantos anos:
Et maintenant, que vais-je faire…
Eu, bem como os demais que ali estavam a almoçar, olhámos uns para os outros, meio espantados como insólito da situação. Mas nem a empregada que ali atendia, nem o segurança a uns metros de distância, lhe prestaram atenção. Deduzi que se trataria de um frequentador habitual do espaço, como tantos outros reformados que usam os centros comerciais como forma de matar o tempo que lhes sobra.
Este… bem, este ainda verbaliza o seu problema, de quem se viu sem ocupação e, talvez, sem com quem partilhar a sua amargura.
É tão difícil – e absurdo – definir normalidade!


By me

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

O tempo e a fotografia



Há uns anos valentes a escola onde eu leccionava organizou uma visita de estudo a Mérida, Espanha. Inseria-se ela na disciplina de História e tinha por objectivo o contacto de perto com a civilização Romana.
Aproveitei o ensejo e fui com a maralha. Foi francamente divertido e bastante instrutivo
Divertido porque os alunos fizeram questão que fosse com eles visitar os diversos bares que estavam abertos nessa noite. Alguns deles perceberam a segunda parte de uma “arengada” que lhes dava na primeira aula que tinha com eles, de permeio com a “apresentação e etc.”: “Preparem-se que quando for para trabalhar serei o último a cair de cansado e quando for para ir p’ros copos serei o último a cair de bêbado.” A primeira parte já tinham constatado, nesta noite perceberam que a segunda não era fanfarronice minha.
Instrutivo com aquilo que aprendi sobre a cidade e os Romanos, que o professor de história sabia o que fazia.
Assisti, por exemplo, ao acordar da cidade, após uma curtíssima noite de sono pouco reparadora. Faço sempre questão de ver despertar as cidades que visito. O limpar das ruas, os primeiros a vir ao pão, ainda de roupão, o abrir das lojas, a luz rasante…
Constatei também a enormidade de janelas gradeadas nos pisos térreos e nos primeiros pisos, que muito me contaram sobre a segurança e o nível de pobreza da cidade, incrustada numa zona agrícola e industrialmente pobre.
Assisti a parte da missa na principal igreja local. Conta-nos muito sobre as pessoas, o ver quem e como vai à missa dominical. Mesmo sendo agnóstico como sou. E, para meu espanto, a eucaristia foi co-celebrada por um sacerdote cego. Coisa estranha mesmo!
Claro que os vestígios romanos, museu incluído, encheram os dois dias e a memória. Com excelentes explicações a acompanhar. Uma delas não esqueço, por muito que viva.

Junto ao teatro romano, nas traseiras, admirava eu as monumentais colunas, com os colossais capiteis no topo. Decorados de modo intenso e difícil de ver cá de baixo.
Comentei a dificuldade e questionei a utilidade de tal trabalho, principalmente tendo em conta as técnicas de então. A resposta ficou-me até hoje: Tempo!
As festas na cidade, que era a segunda Roma do Império, duravam semanas. Vinha gente de toda a península para assistir ao teatro, aos combates, às corridas, fazer negócio, ver gente após longas separações… a cidade enchia e o tempo não faltava.
E não faltava tempo para se estar parado a olhar para cima e ver, mesmo que com dificuldade, os relevos gravados nas colunas e nos seus cimos. E as pessoas estavam.
Mais tarde nessa visita, e no museu, tive oportunidade de ver de perto um desses capiteis. Pedra única, monumental mesmo, finamente trabalhada, pese embora fosse para ser vista a uns bons metros de distância. Mas havia tempo para ver. E para pensar nos significados explícitos e implícitos.

Passados que são vinte séculos sobre o esculpir os capiteis, a questão do tempo de observação mantém-se tão actual quanto então. Com a diferença que as unidades de tempo usadas para se ver arte ou equivalente são bem díspares.
No caso da fotografia, e na forma como hoje é consumida, o tempo de observação é crucial. E depende do como e onde a vimos.
Se numa galeria ou museu, se numa revista ou livro, se num ecrã de computador.
Aqueles que já tiveram oportunidade de ver trabalhos impressos de Ansel Adams ou David Hockey ou Helmut Newton bem entendem o que quero dizer. Podemos estar uns cinco ou dez minutos a olhar para uma das suas fotografias na parede de um museu ou galeria que dificilmente nos cansamos. Mas gastamos uns dois minutos (120 segundos) se vistas num livro ou revista, mesmo que muito bem impressas. Já quinzes segundos para ver uma delas num site, por muito grande que seja a qualidade e resolução, será um exagero de tempo.
Consumimos imagens em função do suporte e da nossa própria disposição. E o tempo e disposição para ver fotografias numa parede não é igual ao que temos ou dedicamos a um livro. Já na web… bem sabemos que atrás de uma vem outra e não queremos perder nenhuma.

Esta forma de consumir fotografia conduz, sem sombra de dúvida, a condicionar a forma como são produzidas.  A facilidade de leitura, o imediatismo da possível interpretação, os contrastes e saturações empregues, tudo em função do suporte. Não apenas da sua qualidade como também do seu tamanho. E do tempo que sabemos que durará a sua observação. Tal como da durabilidade que terá na memória de quem a vê Porque, assumamo-lo ou não, todos nós queremos que os nossos trabalhos fiquem na memória do público. Quer pela forma, quer pelo conteúdo.

Faz assim sentido que, quando fazemos uma fotografia (ou um conjunto de fotografias), consideremos o como serão elas vistas. E onde. E por quanto tempo. Se com todo o tempo do mundo, como então se observavam os capiteis, se na voragem de uma ligação rápida de net e mais rápido e efémero consumo.
E quando nos habituamos às velocidades vertiginosas das auto-estradas fotográficas, fotografamos em consonância: rapidamente, menos ligando aos detalhes dentro da tirania do enquadramento, simplificando mesmo tudo isso para que se adeqúe ao que sabemos vir a ser uma leitura na diagonal, sem tempo para digerir detalhes ou quantidade de informação visual.
E contra mim falo, no consumo e na produção. Mesmo tendo o hábito de, quando não em modo de ensaio, fazer apenas uma imagem, mas com a certeza de estar como quero.
Teríamos muito a aprender, se fotografássemos na mesma altura em que se construíam os capiteis de Málaga, Espanha. 

By me

sábado, 30 de novembro de 2019

domingo, 24 de novembro de 2019

????????




Alguém sabe onde se desliga o cérebro? Ficha, interruptor, ícone?
É que com ele desligado não penso. E se não pensar não corro riscos.
É que risco é o oficio dos arquitetos, não de fotógrafos ou videógrafos, que mais não sabem que trabalhar com imagens.



By me

sábado, 23 de novembro de 2019

Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte...




Por aquilo que li, as Forças Armadas vão passar a pagar renda às finanças pelas instalações que ocupam.
O Estado paga ao Estado pelo uso de imoveis do Estado. O Estado não arrecada nada, o Estado não perde nada, apenas se transferem dinheiros de um para outro departamento ou ministério.
Por outro lado, os edifícios e outros imoveis pertencentes as confissões religiosas, sejam quais forem, bem como a partidos políticos, sejam quais forem, continuam isentos de IMI.
Há qualquer coisa de pouco equilibrado quando algumas entidades privadas têm benesses deste género e a generalidade dos cidadãos ficam à margem.
Mas como, por outro lado, na igreja não se toca e são os partidos políticos que fazem as leis…



By me

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Luz



A propósito do Instagram e outros programas e sites onde as fotografias são publicadas depois de serem objecto de modificação com filtros, recorda-me uma estória televisiva.

O programa “João Baião”, nas noites de sábado da SIC, tinha uma linguagem de imagem inovadora em Portugal: quase não havia planos ou imagens paradas e o conceito de câmara estável parecia não existir. Na altura, alguém classificou esta linguagem de “televisão em movimento”. E fez escola, passados que são todos estes anos.
Aquilo que pouco foi divulgado é que esse tipo de imagem não surgiu como conceito estético mas como solução encontrada “em cima do joelho”. Aquelas horas todas de emissão, com todo aquele espaço e o tentar dar dinamismo visual limitava em muito o uso de tripés ou pedestais para as câmaras. E as câmaras portáteis da época, pesadas que eram, tornavam impossível o seu uso medianamente estável ao ombro ou à mão durante tanto tempo.
Assim, a opção foi tornar uma limitação em estilo e assumir, logo de início do programa, a instabilidade da imagem, forçando mesmo o seu abanar e movimentos rápidos e pouco “certeiros”.
Foi esta abordagem particularmente criticada na altura, até porque o próprio público se cansava da falta de estabilidade. E foi imitada em diversas circunstâncias, com ou sem sucesso.
Passados todos estes anos, esta abordagem visual é um estilo, intitulado “câmara à mão” nos meios académicos. Assume-se a ausência de estabilidade.
Mas é usada de forma parcimoniosa, como código de comunicação ou estilo visual, empregue se e quando se justifica.

Os filtros que modificam ou “estragam” as fotografias são idênticos. São usados para, com um carimbo de “arte”, disfarçar as incapacidades técnicas ou criativas dos seus autores. Desfocada, mal enquadrada, deficientemente exposta, tremida… uns filtros de riscos, cores, redutores de definição ou excesso de saturação e transforma-se aquilo que não se sabe fazer numa “obra de arte”.

Toda a experiência e inovação é necessária e bem-vinda! E a necessidade é a mãe da invenção.
Mas transformar uma poia de vaca em bosta de arte bovina…
Sugiro, para aquele que alinham nestas modas estéticas, que vão aprender os percursos daqueles que de facto inovaram na criatividade. Descobrirão que se trataram de inovações pensadas, argumentadas, decisões conscientes no romper com o classicismo e o convencional. E não por modismos tecnológicos, sugeridos por quem quer vender equipamento ou software. E também não para disfarçar o não saber o que é luz e perspectiva.

By me

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Bazem!



As músicas de “elevador” dos centros comerciais já têm guizos e sininhos;
Já se vêem luzes a piscar sem estarem em automóveis;
Os mais minorcas já olham para mim com um outro brilho no olhar;
A Popota já saltita ágil nos ecrãs.

Bazem!

O natal está a chegar!

Nota adicional: improviso com um telemovel

By me

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Até ao próximo capítulo



Segundo algumas teorias, em finando-se o corpo, porque gasto e já pouco util, a alma, seja lá isso o que for, regressará noutro corpo, que viverá de acordo com os méritos ou deméritos da vida anterior até atingir a perfeição. E entenda-se por perfeição o que se quiser entender.
Confesso que estas teorias me convencem bem mais que outras, que referem depositos de almas, uns por recompensa, outros por castigo, em que só temos uma oportunidade e que tudo termina numa existência paradisíaca ou infernal.

Daqui por uns vinte ou trinta anos cada o teremos de novo, para nos ajudar com o que aprendeu e mais fazer para nos continuar a maravilhar.
Viva quem faz! Ou fez!

By me