quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Nónio




Há que convir que necessitamos de um aparelho de medida deste género para aquilatar o carácter ou a honorabilidade de algumas pessoas.
O sr. Pedro Nunes, ao inventar o nónio que permite medir fracções de unidade e que por isso se tornou famoso, bem nos ajuda nesta tarefa ingrata.


By me

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Tolos e loucos




Afinal era uma mala com material fotográfico.
Quem foi o louco desgraçado que abandonou à sua sorte uma mala com material fotográfico?



By me

Conceitos




“Sempre achei que a estrutura formal de uma fotografia, a sua composição, eram tão importantes como o próprio tema… É preciso eliminar tudo o que é supérfluo, é preciso dirigir o olho com uma vontade de ferro.”
Brassai
“O bando do Grande Alberto, Quartier Italie, Paris 13ec. 1931-1932

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O voto




É também por causa de coisas como estas (os subsídios de alojamento e as presenças no trabalho) que defendo que as eleições para a Assembleia da República deveriam ser em nomes e não em listas de partidos.
Não importa conhecer apenas os cabeças de lista ou quem é o secretário geral ou presidente deste ou daquele partido.
A integridade moral, o historial de cada um dos candidatos (e para além dos programas apresentados) deveriam ser um factor de decisão vital quando se escolhe alguém para fazer leis. Alguém que, supostamente, conhece os padrões morais e éticos da sociedade ou do país e que legisla de acordo com eles.
O tipo que roubou os gravadores porque não gostou do tom das perguntas dos jornalistas que o entrevistavam continua activo na política, ainda que discreto na sua região natal; Os que declaravam viver longe mas que possuíam casa em Lisboa encontraram desculpas ou devolveram os subsídios; O registo de presença no plenário continua por explicar mas o subsídio foi pago.
“Tratem-se os bois pelos nomes!”, diz o povo.
Tratem-se os deputados pelos nomes e excluam-se os que não têm comportamentos de acordo com os mandatos de isenção e honestidade que lhes são entregues.



By me

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Aprendizagens




O episódio aconteceu há mais de trinta anos e nunca me esqueci dele.

No peitoril da janela apareceu um insecto voador. Bonito, de cores pouco comuns, quis logo fotografá-lo. Mas haveria que o “segurar” até eu estar pronto. Um copo com a boca para baixo fez a festa.
Mas para o fotografar o copo não servia. Através do vidro a imagem seria má, de boca para cima fugiria. Inventei!
Sacrifiquei uma caixa de um filtro redondo, a que cortei o fundo de uma das metades, colando-lhe um vidro (que tinha para fazer um filtro neutro com negro de fumo). Deste modo, teria o bonito animal seguro, sem lhe fazer mal e em condições para ser fotografado.
Preparei o material (câmara, tripé, luz, etc.) e, depois de assegurar enquadramento e exposição, fiz a transferência dele do copo para a caixa. Coloquei-a sob a objectiva e ainda fui a tempo de assistir pela ocular ao seu estertor moribundo.
Doeu-me! Doeu-me fundo!
A última coisa que eu queria era fazer mal ao pobre bicho, sendo garantido que o libertaria depois das fotografias feitas. Sem uma beliscadura. Agora vê-lo morrer assim… Doeu-me!
Passada a emoção, tentei perceber o que a havia provocado. E acabei por concluir que foram os vapores da cola que usara, que ainda não haviam secado por completo, que o intoxicaram. Doeu-me ainda mais por perceber que fora eu que o matara, mesmo que inadvertidamente.
Foi nessa tarde, há quase quarenta anos, que tive a certeza que o meu prazer fotográfico não se pode sobrepor ao direito à vida. Animal ou vegetal. Racional ou irracional.
As fotografias que faço de seres vivos, fraquinhas por sinal, têm por primeira prioridade o preservar a integridade do assunto. Nem sequer o colher de uma flor faço.
Que a minha “necessidade imperiosa” de fotografar não se sobrepõe ao direito à vida. No pequeno mundinho em que existo ou no universo.



By me

domingo, 4 de novembro de 2018

Detalhes




O tipo de humor e as indumentárias podem ajudar-nos a datar esta piada encontrada num velho livrinho humorístico.
Mas há um detalhe que ajuda a limitar no tempo, que talvez só os fotógrafos percebam:
Um flash de lâmpada descartável?
É que, ao que sei, foi na década de ’70 do séc. XX que os flashs electrónicos, como hoje conhecemos, começaram a ser difundidos, com as vantagens que possuem em relação aos de lâmpada de vidro com filamento de magnésio, que se queimava por inteiro quando activado e impedindo segunda utilização.
A versão mais recente deste tipo de flash foi o “magic cube”, aplicáveis a câmaras de baixo custo e que permitiam quatro fotografias cada um, havendo que os rodar para usar a face seguinte do cubo de plástico.



By me

Munições




E se, no final do desfile militar, se aperceberem que não há munições nas armas e cartucheiras, não pensem que foi um efeito de Tancos.
Já começaram a parada assim, por questões de segurança.



By me

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Na memória




Estávamos em Novembro de 2015. Na Assembleia da República votava-se a continuidade ou não do governo de Pedro Passos Coelho. Cá fora, a multidão seguia o que podia através da rádio, bem mais rápida e fiel que as redes sociais.
Quando o resultado se soube, correu por aquela mol de gente uma alegria incomum, em que conhecidos e desconhecidos se abraçavam e beijavam. Eu incluído, apesar do meu “disfarce” de fotógrafo, com a tralha na mão, ao ombro e a mochila nas costas.
A dado passo alguém gritou perto de mim uma palavra de ordem em desordem com as demais:
“Já caiu, já caiu, vão p’ra puta que o pariu! Já caiu, já caiu, vão p’ra puta que o pariu!”
Um rastilho não seria tão rápido. E, em menos de nada, éramos uns milhares a assim gritar, a plenos pulmões ou nem tanto.
Não recordo o rosto de quem primeiro o disse. Era um destes, talvez que mais à direita do enquadramento. Mas o grito ficou, ecoando naquelas paredes que tantos gritos já ouviram.
Quando, não muito tempo depois, alguns deputados se nos juntaram na rua para aquela celebração, o grito ainda se ouvia, aqui ou ali.
E recordo, a par do grito e da alegria, que um dos deputados que se juntaram à turba alegre e festiva era Jorge Falcato, na sua cadeira de rodas. Que se o Parlamento ainda não estava adaptado a pessoas com mobilidade reduzida, isso não o impediu de sair à rua e festejar.
Só o arquivo ou a net me dizem com rigor a data de tais acontecimentos. Dez de Novembro de 2015. Mas o que vi e ouvi jamais me sairá da memória.



By me

Ruído



“Como Serge Daney gosta de dizer, “ficamos cegos diante da hipervisibilidade do mundo.” De tanto ver já não vemos nada: o excesso de visão conduz à cegueira por saturação. Essa mecânica contagia outras esferas da nossa experiência: se antigamente a censura era aplicada privando-nos de informação, hoje, ao contrário, consegue-se a desinformação imergindo em uma superabundância indiscriminada e indigerível de informação. Hoje, a informação cega o conhecimento.”
By Joan Fontcuberta, in “A Câmara de Pandora”

E eu acrescentaria:
O mesmo se pode dizer, sem sombra de dúvida, da fotografia.
De tanto vermos fotografias sofríveis ou medíocres, perde-se a noção do que é bom ou não, afinando os nossos padrões por baixo. 
É aqui que livros, exposições e alguns sites, em que as escolhas podem ter duvidosa qualidade mas não costumam ser, servem para definirmos e aferirmos os padrões do que entendemos por bom e muito bom. 
E por bom não entendamos apenas o clássico, as abordagens convencionais e os jogos de cor, luz e composição de acordo com as regras habituais.
A experimentação, o fazer diferente, o insólito abordar de algo que estamos fartos de ver mas que nunca imaginaríamos registado daquela forma, mesmo e principalmente que à margem do convencional, fazem parte do “bom” ou “muito bom” desde que falem connosco. 
As mais das vezes, não é isto que encontramos nas redes sociais ou nas revistas massificadas de fotografia. 
Vendo a quantidade quase que incontável de imagens fotográficas que são disponibilizadas todos os dias, quase que podemos ficar com a ideia que foram feitas por apenas um pequeno punhado de pessoas, de tão semelhantes e inócuas que são. 
O ruído provocado pela superabundância de fotografias sofríveis, ou nem isso, impede-nos de ver ou reconhecer boas imagens.

By me

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Férias e manguitos




Depois de ler um pequeno ensaio sobre o conceito de férias (em casa, na terra, em terras distantes, os descanso e o aburguesamento do descanso) fiquei com uma dúvida terrível:
Pode um fotógrafo, ou qualquer outra pessoa que tenha uma actividade criativa, estar de férias? Realmente de férias?
Um engenheiro, um amanuense, um talhante, um advogado, um mecânico, podem, em estando de férias, deixar para trás toda a sua actividade profissional, guardando numa gaveta da mente os problemas. E, estando de férias, não ser estimulado pela que vê ou ouve para algo comisso relacionado.
Não creio que seja possível a um escritor ignorar os comportamentos humanos, guardando pequenos retalhos para os seus romances. Ou um compositor não pode não ouvir as melodias ou ritmos do marulhar das ondas ou do chilrear dos pássaros. Mesmo em tratando-se de uma tempestade ou do feio grasnar de uma gaivota.
Por seu lado o fotógrafo, e aqui falo com conhecimento de causa, mesmo que não tenha a câmara consigo, mesmo que não esteja a olhar para fotografias on-line, impressas ou expostas, não consegue deixar de apreciar uma perspectiva, um jogo de luz, um contraste de cores ou um momento único da fauna ou flora, humanos incluídos.
Quantos de nós, que fazemos da fotografia o alimento do estômago ou da alma, não comentámos ou pensámos “Que pena não ter aqui uma câmara”? Ou, mais utopicamente, quantos de nós não desejámos já que os nossos olhos fossem câmaras?
Não creio que um fotógrafo possa em algum momento estar realmente de férias.
O mais que pode acontecer, e uma vez mais falo com conhecimento de causa, é dizermos que estamos no defeso. Ou seja, que não materializamos o que vemos ou imaginamos que vemos, mas tão só estamos a guardar pistas ou quejando para trabalhos futuros.
Um fotógrafo que o seja realmente, artista ou artífice, nunca poderá fazer um real manguito ao que faz!



By me