quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Critérios




Leio o título de um artigo de jornal em que nos dizem que “Há três premiados do Euromilhões em Portugal”.
Fiquei curioso e fui saber quanto havia tocado em sorte a cada um. Que uns bons milhões, mesmo que divididos por três, é muita sorte e dinheiro.
Acabo por saber, feitas as contas, que não são três premiados mas sim 156489 sortudos que acertaram nos números sorteados. Ou em parte deles, em boa verdade. Do quarto prémio ao décimo terceiro prémio.
E que esses tais “três premiados” sortudos acertaram no quarto prémio (não no primeiro, no segundo ou no terceiro), recebendo cada um a quantia de 5393,38 euros.
É um prémio simpático, sem dúvida.
Mas no sorteio anterior um português acertou no segundo prémio (156384,69€) e disso não foi feita notícia de destaque.
Critérios jornalísticos que escapam ao comum dos mortais.



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terça-feira, 9 de outubro de 2018

Os donos da chave da retrete!




Uma expressão que ouvi a um ex-colega e que não esqueci.
Aqueles pequenos títeres que mais poder não têm que possuir a chave do sanitário e que, com isso, condicionam a vida dos demais, controlando quem, quando e quantas vezes alguém usa a retrete.
Tenho o desprazer de ter conhecido alguns ao longo da vida. E o desprazer maior de conhecer mais um recentemente.
Mas, nesta fase da minha existência, o mais que pode acontecer é um dia enfiar a sua cabeça nela, ainda antes de dar uso ao autoclismo.
Porque, e com o passar dos anos, a paciência não se esgota: apenas mudamos o seu uso, com maior tolerância para algumas coisas e muito menor poder de encaixe para outras.



By me

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

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Eu juro que mantenho algumas pessoas como “amigas” nas redes sociais só para ver até que ponto pode chegar a parvoeira humana sem ser pelos jornais.
E quem não gostar do acima escrito pode riscar-me, apesar de eu perder com isso alguns pontos de referência.
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Trocos




Uma ocasião os órgãos do corpo humano fizeram uma reunião para definirem qual seria o mais importante.
“Eu, que dou as instruções para que funcionem!”, afirmou o cérebro.
“Eu, que faço os nutrientes circularem por todos vós!”, disse o coração.
“Eu, que filtro o sangue das impurezas!”, declarou o fígado.
Farto de toda aquela discussão, o cu entrou de greve.

Piadas aparte, façamos as contas:
Diz o governo, quando fala em função pública e eventuais aumentos salariais, que tem disponíveis 50 milhões de euros para tal.
Considerando os dados do Pordata, existem em Portugal cerca de setecentos mil pessoas a trabalhar na função pública, entre administração central, local e fundos de segurança social.
Feitas as contas entre estes dois valores e pensando em 14 meses por ano, constata-se que se teria um aumento aproximado de 5,1 euros mensais se fosse distribuído igualmente por todos eles.
Pouco significativo para quem está no topo de carreira, pouco mas mais significativo para os salários mais baixos.
E vi um destes dias uma dirigente de um sindicato (ou conjunto de sindicatos, já não sei bem) a afirmar que não aceita este tipo de distribuição, mas tão só um distribuição percentual em função do salário base. Maiores aumentos em euros para quem mais ganha, menores aumentos em euros para quem menos ganha, portanto.
Não será, de todo, esta a minha posição enquanto cidadão. Porque a barriga de uns é igual à dos outros, e a necessidade de comer, estudar, dormir, etc. é igual para todos.
Independentemente da função que desempenham.
Eu tenho um mau feitio…!



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domingo, 7 de outubro de 2018

A árvore da minha vida



By me

O nó



Sou, basicamente, um ignorante.
Li centenas de livros, fiz centenas de milhares de fotografias, vi uns milhões largos de imagens.
Tenho, ao longo dos anos, tentado passar o muito pouco que aprendi sobre imagem.
Mas não é possível transmitir conhecimentos que não se possuem.
E eu não sei o que é uma fotografia artística ou sequer o que é arte.

Sei olhar para algo – imagem, ícone ou real – e saber se gosto ou não dela.
Sei se me sinto bem em sua presença, se é algo de que gosto de ver e continuar a ver, entenda ou não o seu significado.
Sei olhar para uma imagem e procurar o seu significado, através da forma ou através do conteúdo. 
Sei constatar numa imagem se ela possui as características de agradar e comunicar com a maioria dos elementos da sociedade em que me integro e que conheço.
Sei pegar neste saber e, se estiver concentrado e com vontade de tal, fazer imagens que se enquadrem nestas definições.
Sei usar de umas centenas ou milhares de truques técnicos e estéticos para comunicar com fotografia, quer seja pela comunicação directa e implícita, quer seja pelo seu contrário, obrigando o observador a parar para pensar no que vê.
Sei que algumas das imagens que faço me agradam e que de muitas não gosto o suficiente. 
Sei que algumas das minhas imagens agradam a quem as vê. Quer se trate de clientes que as encomendem ou de desconhecidos que são com elas confrontados.
Sei que tenho dias em que consigo fazer imagens melhor que noutros dias, quer seja sob os meus próprios padrões de qualidade, quer seja sob os padrões de quem as vê.

Mas não sei o que é uma imagem artística, fotográfica ou outra. Não as sei fazer nem as sei reconhecer. 
Se a arte for uma forma de expressão, então os assobios desafinados que emito quando tomo banho ou estou satisfeito são uma forma de arte.
Se a arte for uma forma de contestação estética, de rompimento com os cânones existentes, então chamaremos arte a tudo o que for diferente, entendendo-o ou não e esperemos que os vindouros lhes dêem significado e uma categoria.

Mas, no meio de tudo isto, não sei o que é uma fotografia artística. 
Não o sabendo, não posso falar sobre tal, por muito que tenha visto, lido ou feito.

Aquilo que sei, sem sombra de dúvida, é aquilo de que gosto.
E suponho que sei o que a maioria das pessoas da minha sociedade cultural gosta.
Isto, eventualmente, coloca-me na categoria de “artesão da comunicação visual com suporte fotográfico”.
Mas não sei dizer se sou ou não um “artista fotográfico”, porque não sei o que isso seja.

By me

Em branco




Complicado mesmo é quando nos sentamos para escrever algo e, passadas duas horas, ainda não conseguimos a centelha que dará início ao processo.
Mesmo depois de irmos ver jornais, bebermos uma boa caneca de café, manusearmos o que nos é querido, olharmos para o que amamos e cuscarmos pela janela.
O síndroma da página em branco, no ecrã ou no papel, é terrível quando acontece!



By me

sábado, 6 de outubro de 2018

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Não se pode ter sempre razão. Isso é próprio de deuses e super heróis.
E eu, para além de agnóstico, não conheço nenhum pessoalmente.
Mas nunca ter razão? Até as pedras, no seu mutismo eterno, terão ao menos uma razão: a de ser.
A razão tem sempre dois lados: o de quem a reclama e o de quem a escuta.
E ver o outro lado da moeda dá-nos o seu real valor.

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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Um olhar num jardim




Durante alguns anos trabalhei com jovens no processo de aprendizagens da captação de imagem. Fotográfica e videográfica.
Confesso que tive como preocupação, e para além dos conteúdos e objectivos definidos pelo ministério e pela escola, de lhes tentar criar as dúvidas dos “porquê” em paralelo e com a mesma intensidade que os “como”. Até porque, e como venho defendendo desde há muito, em se sabendo os “porquê” é bem mais fácil saber-se os “como”. Na técnica, na estética, na ética, na semiótica…
Também confesso que nunca lhes ensinei nada. O mais que fiz foi ajudá-los a aprender, colocando à sua disposição os saberes e criando modos, tão individualizados quanto o possível, para que os aprendessem. Que o meu objectivo sempre foi que aprendessem e não que eu ensinasse.
A minha satisfação, actual e de então, é saber que seguiram o percurso que queriam, mesmo que com os desvios óbvios que a vida ou os deuses nos impõem.
Vou sabendo de muitos deles ocasionalmente. Ou porque nos cruzamos na vida profissional, ou porque nos cruzamos na vida real, ou porque nos cruzamos nas redes sociais. E é particularmente satisfatório e reconfortante saber que o trabalho em conjunto que então tivemos lhes é útil hoje, pese embora as evoluções tecnológicas e os pontapés da vida.
Há um caso individual que, pela sua originalidade, não consigo esquecer:
Num encontro fortuito e único num jardim e ao fim do dia, acabei por estar de conversa com uma mocinha estudante liceal. A coisa começou por um cigarro que me pediu, seguiu por uma fotografia que lhe pedi, bem como aos amiguinhos que com ela estavam, e evoluiu para a fotografia, o seu mister e alguns aspectos bem para além dos pixels e das objectivas.
Que ela estava com uma dúvida, bem comum nessas idades, sobre o seu futuro. E a fotografia parecia-lhe ser um caminho, ainda que de difícil percurso tanto nas aprendizagens como profissionalmente. Mas que era algo de que gostava, apesar de quase nada saber fazer, era um facto.
Dei-lhe umas dicas, brincámos um nico com algumas ideias fora do comum e só “remotamente ligadas” ao acto fotográfico, vi os seus olhos brilharem com algumas descobertas com o que lhe dizia, e separámo-nos. Que ela tinha os amigos à espera e eu fome por um jantar ali perto. Ficou ela, apenas, com o meu contacto numa rede social e nada mais.
Ao longo dos anos, ocasionalmente, vou sabendo dela, que os algoritmos do Face me vão mostrando alguma coisa: escola profissional na área, curso superior ligado à criatividade e à fotografia… E alguns trabalhos que vai mostrando.
A minha satisfação é presumir que, de algum modo, aquela conversa ocasional, informal e insólita, pode ter ajudado na sua opção de percurso. E, por aquilo que vou vendo, ainda bem. Que o que vejo justifica a escolha. E bem.
Fica, como ilustração, uma fotografia. Da série “um olhar” que fui fazendo por aqueles tempos, suponho que sejam os dessa então jovem adolescente. Mas não o afianço com rigor.
Se, por mero acaso, a pessoa que refiro ler estas linhas, que me corrija se for o caso.



By me

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

… pudor e recato, virtudes bem cristãs…




Li por aí que os “ultra conservadores” do CDS/PP não gostaram que Assunção Cristas tivesse contado num programa de televisão que “já tomou banho público em pelota”.
Acrescenta-se no artigo que essa facção interna desse partido terá recomendado “… pudor e recato, virtudes bem cristãs…” aos dirigentes nacionais.

É-me pouco importante o onde e como aquela senhora tenha tomado banho. Assim como me é pouco importante que exista gente que não goste de banhos públicos em pelota, em Portugal ou onde quer que seja.
Mas assusta-me que um partido com assento parlamentar recomende “… pudor e recato, virtudes bem cristãs…”!
Esta expressão faz com que a minha memória recue meio século, ao tempo em que este discurso era a base das recomendações governamentais.
Em que as mulheres sem a cabeça coberta eram desconsideradas. Tal como o são hoje noutras paragens e culturas que estranhamos e condenamos.
Em que enfermeiras e telefonistas não podiam ser casadas e as professoras do ensino primário careciam de autorização ministerial para casar. Em que sair do país sem autorização do marido era interdito. Em que o adultério era punido e diferencialmente entre homens e mulheres. Em que a
Assusta-me ver na Assembleia da República, onde são decretadas as leis que regem a sociedade, um partido onde há uma facção assim pensa.
Mas assusta-me ainda mais saber que esse partido está lá porque cidadãos o escolheram como seus representantes. Ou, dito de outra forma, que há um número significativo de portugueses que, de um modo ou de outro, concordam com esta forma de pensar e agir.
Olhando para o que nos chega de aquém e além mar, fico ainda mais assustado ao constatar que esta forma de pensar se vai instalando de novo, de um modo mais claro ou mais discreto. Mas, lenta e firmemente, o pensamento conservador e ultra conservador, que defende comportamentos sociais discriminatórios, está a ganhar força. Por género, por etnia, por sexualidade, por credos.
As liberdades individuais e colectivas conquistadas e consolidadas com esforço e sacrifício ao longo dos últimos 150 ou 200 anos estão a esbroar-se.
Como se o ser Humano estivesse condenado a viver em sociedades moralmente castradas e castrantes e estes dois últimos séculos tivessem sido um intervalo.
Assusta-me pensar que é essa regressão social e civilizacional que deixarei – deixaremos - aos meus vindouros.


By me