domingo, 7 de outubro de 2018
O nó
Sou, basicamente, um ignorante.
Li centenas de livros, fiz centenas de milhares de fotografias, vi uns milhões largos de imagens.
Tenho, ao longo dos anos, tentado passar o muito pouco que aprendi sobre imagem.
Mas não é possível transmitir conhecimentos que não se possuem.
E eu não sei o que é uma fotografia artística ou sequer o que é arte.
Sei olhar para algo – imagem, ícone ou real – e saber se gosto ou não dela.
Sei se me sinto bem em sua presença, se é algo de que gosto de ver e continuar a ver, entenda ou não o seu significado.
Sei olhar para uma imagem e procurar o seu significado, através da forma ou através do conteúdo.
Sei constatar numa imagem se ela possui as características de agradar e comunicar com a maioria dos elementos da sociedade em que me integro e que conheço.
Sei pegar neste saber e, se estiver concentrado e com vontade de tal, fazer imagens que se enquadrem nestas definições.
Sei usar de umas centenas ou milhares de truques técnicos e estéticos para comunicar com fotografia, quer seja pela comunicação directa e implícita, quer seja pelo seu contrário, obrigando o observador a parar para pensar no que vê.
Sei que algumas das imagens que faço me agradam e que de muitas não gosto o suficiente.
Sei que algumas das minhas imagens agradam a quem as vê. Quer se trate de clientes que as encomendem ou de desconhecidos que são com elas confrontados.
Sei que tenho dias em que consigo fazer imagens melhor que noutros dias, quer seja sob os meus próprios padrões de qualidade, quer seja sob os padrões de quem as vê.
Mas não sei o que é uma imagem artística, fotográfica ou outra. Não as sei fazer nem as sei reconhecer.
Se a arte for uma forma de expressão, então os assobios desafinados que emito quando tomo banho ou estou satisfeito são uma forma de arte.
Se a arte for uma forma de contestação estética, de rompimento com os cânones existentes, então chamaremos arte a tudo o que for diferente, entendendo-o ou não e esperemos que os vindouros lhes dêem significado e uma categoria.
Mas, no meio de tudo isto, não sei o que é uma fotografia artística.
Não o sabendo, não posso falar sobre tal, por muito que tenha visto, lido ou feito.
Aquilo que sei, sem sombra de dúvida, é aquilo de que gosto.
E suponho que sei o que a maioria das pessoas da minha sociedade cultural gosta.
Isto, eventualmente, coloca-me na categoria de “artesão da comunicação visual com suporte fotográfico”.
Mas não sei dizer se sou ou não um “artista fotográfico”, porque não sei o que isso seja.
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Em branco
Complicado mesmo é quando nos sentamos para escrever algo e,
passadas duas horas, ainda não conseguimos a centelha que dará início ao
processo.
Mesmo depois de irmos ver jornais, bebermos uma boa caneca
de café, manusearmos o que nos é querido, olharmos para o que amamos e
cuscarmos pela janela.
O síndroma da página em branco, no ecrã ou no papel, é
terrível quando acontece!
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sábado, 6 de outubro de 2018
.
Não se pode ter sempre razão. Isso é próprio de deuses e super heróis.
E eu, para além de agnóstico, não conheço nenhum pessoalmente.
Mas nunca ter razão? Até as pedras, no seu mutismo eterno, terão ao menos uma razão: a de ser.
A razão tem sempre dois lados: o de quem a reclama e o de quem a escuta.
E ver o outro lado da moeda dá-nos o seu real valor.
.
E eu, para além de agnóstico, não conheço nenhum pessoalmente.
Mas nunca ter razão? Até as pedras, no seu mutismo eterno, terão ao menos uma razão: a de ser.
A razão tem sempre dois lados: o de quem a reclama e o de quem a escuta.
E ver o outro lado da moeda dá-nos o seu real valor.
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sexta-feira, 5 de outubro de 2018
Um olhar num jardim
Durante alguns anos trabalhei com jovens no processo de
aprendizagens da captação de imagem. Fotográfica e videográfica.
Confesso que tive como preocupação, e para além dos
conteúdos e objectivos definidos pelo ministério e pela escola, de lhes tentar
criar as dúvidas dos “porquê” em paralelo e com a mesma intensidade que os “como”.
Até porque, e como venho defendendo desde há muito, em se sabendo os “porquê” é
bem mais fácil saber-se os “como”. Na técnica, na estética, na ética, na semiótica…
Também confesso que nunca lhes ensinei nada. O mais que fiz
foi ajudá-los a aprender, colocando à sua disposição os saberes e criando
modos, tão individualizados quanto o possível, para que os aprendessem. Que o
meu objectivo sempre foi que aprendessem e não que eu ensinasse.
A minha satisfação, actual e de então, é saber que seguiram
o percurso que queriam, mesmo que com os desvios óbvios que a vida ou os deuses
nos impõem.
Vou sabendo de muitos deles ocasionalmente. Ou porque nos
cruzamos na vida profissional, ou porque nos cruzamos na vida real, ou porque
nos cruzamos nas redes sociais. E é particularmente satisfatório e
reconfortante saber que o trabalho em conjunto que então tivemos lhes é útil hoje,
pese embora as evoluções tecnológicas e os pontapés da vida.
Há um caso individual que, pela sua originalidade, não
consigo esquecer:
Num encontro fortuito e único num jardim e ao fim do dia,
acabei por estar de conversa com uma mocinha estudante liceal. A coisa começou
por um cigarro que me pediu, seguiu por uma fotografia que lhe pedi, bem como
aos amiguinhos que com ela estavam, e evoluiu para a fotografia, o seu mister e
alguns aspectos bem para além dos pixels e das objectivas.
Que ela estava com uma dúvida, bem comum nessas idades,
sobre o seu futuro. E a fotografia parecia-lhe ser um caminho, ainda que de difícil
percurso tanto nas aprendizagens como profissionalmente. Mas que era algo de
que gostava, apesar de quase nada saber fazer, era um facto.
Dei-lhe umas dicas, brincámos um nico com algumas ideias
fora do comum e só “remotamente ligadas” ao acto fotográfico, vi os seus olhos
brilharem com algumas descobertas com o que lhe dizia, e separámo-nos. Que ela
tinha os amigos à espera e eu fome por um jantar ali perto. Ficou ela, apenas,
com o meu contacto numa rede social e nada mais.
Ao longo dos anos, ocasionalmente, vou sabendo dela, que os
algoritmos do Face me vão mostrando alguma coisa: escola profissional na área,
curso superior ligado à criatividade e à fotografia… E alguns trabalhos que vai
mostrando.
A minha satisfação é presumir que, de algum modo, aquela
conversa ocasional, informal e insólita, pode ter ajudado na sua opção de
percurso. E, por aquilo que vou vendo, ainda bem. Que o que vejo justifica a
escolha. E bem.
Fica, como ilustração, uma fotografia. Da série “um olhar”
que fui fazendo por aqueles tempos, suponho que sejam os dessa então jovem
adolescente. Mas não o afianço com rigor.
Se, por mero acaso, a pessoa que refiro ler estas linhas,
que me corrija se for o caso.
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quinta-feira, 4 de outubro de 2018
… pudor e recato, virtudes bem cristãs…
Li por aí que os “ultra conservadores” do CDS/PP não
gostaram que Assunção Cristas tivesse contado num programa de televisão que “já
tomou banho público em pelota”.
Acrescenta-se no artigo que essa facção interna desse
partido terá recomendado “… pudor e recato, virtudes bem cristãs…” aos
dirigentes nacionais.
É-me pouco importante o onde e como aquela senhora tenha
tomado banho. Assim como me é pouco importante que exista gente que não goste
de banhos públicos em pelota, em Portugal ou onde quer que seja.
Mas assusta-me que um partido com assento parlamentar
recomende “… pudor e recato, virtudes bem cristãs…”!
Esta expressão faz com que a minha memória recue meio
século, ao tempo em que este discurso era a base das recomendações governamentais.
Em que as mulheres sem a cabeça coberta eram
desconsideradas. Tal como o são hoje noutras paragens e culturas que estranhamos
e condenamos.
Em que enfermeiras e telefonistas não podiam ser casadas e
as professoras do ensino primário careciam de autorização ministerial para
casar. Em que sair do país sem autorização do marido era interdito. Em que o
adultério era punido e diferencialmente entre homens e mulheres. Em que a
Assusta-me ver na Assembleia da República, onde são decretadas
as leis que regem a sociedade, um partido onde há uma facção assim pensa.
Mas assusta-me ainda mais saber que esse partido está lá
porque cidadãos o escolheram como seus representantes. Ou, dito de outra forma,
que há um número significativo de portugueses que, de um modo ou de outro,
concordam com esta forma de pensar e agir.
Olhando para o que nos chega de aquém e além mar, fico ainda
mais assustado ao constatar que esta forma de pensar se vai instalando de novo,
de um modo mais claro ou mais discreto. Mas, lenta e firmemente, o pensamento
conservador e ultra conservador, que defende comportamentos sociais discriminatórios,
está a ganhar força. Por género, por etnia, por sexualidade, por credos.
As liberdades individuais e colectivas conquistadas e
consolidadas com esforço e sacrifício ao longo dos últimos 150 ou 200 anos
estão a esbroar-se.
Como se o ser Humano estivesse condenado a viver em sociedades
moralmente castradas e castrantes e estes dois últimos séculos tivessem sido um
intervalo.
Assusta-me pensar que é essa regressão social e
civilizacional que deixarei – deixaremos - aos meus vindouros.
By me
quarta-feira, 3 de outubro de 2018
Lisboa viva
No metro,
semi-apinhado, vagou um lugar sentado. A pouco mais de meio passo de mim.
A menos de três
bancos de distância, a dondoca de uns oitenta e muitos quilos, cabelo armado e
volumosa carteira dependurada da curva do braço, filou-o com o olhar. E sem mais
delongas, investiu.
Um primeiro
encontrão violento, bem sucedido, e avançou um pouco menos de um metro. Sem uma
palavra prévia ou posterior. Um segundo encontrão equivalente noutro incauto, e
andou mais meio metro. Também em silêncio. Um terceiro encontrão e o mesmo
resultado. Sem pedidos de desculpa ou quejandos.
Faltava-lhe,
coitada, um quarto encontrão. Em mim. Logo em mim. Que me havia apercebido de
tudo.
Melhorei o
equilíbrio nos pés, incrementei a firmeza com que me segurava, e aguardei o
embate com o braço esquerdo preparado. Não me afectou nem num milímetro. Nem
dei sinais de me ter apercebido.
Repetiu a proeza,
desta feita com redobrado ímpeto. E acusei o embate.
Olhando para ela
com ar de espanto, soltei um sonoro “Então!?”, que se espalhou em redor, acima
do ruído de fundo da carruagem em movimento.
Respondeu com o
maior dos desplantes: “Está ali um lugar vago!”
Olhei para onde
indicava com o seu queixo proeminente, olhei-a de volta nos olhos, e retorqui
candidamente: “Tem razão, não me havia apercebido. Obrigado.”
E, lestamente,
sentei-me.
Se o olhar que me
lançou matasse, eu estaria agora na morgue.
Mas os olhares
divertidos que me deitaram as vítimas anteriores compensaram tudo, incluindo os
embates recebidos.
By me
A prática da democracia e os movimentos de cidadãos
Já por cá ando há uns anos. E tenho andado mais ou menos
interessado pelo que vai acontecendo pelo mundo. Mais aqui ou menos ali, vou
sendo um espectador atento.
E, confesso, não me recordo de ter visto onde quer que seja
algo de semelhante ao que está a acontecer no Brasil: Uma movimentação política
de cidadãos desta dimensão a recusar a eleição de alguém.
Por aquilo que nos chega pelos media, pelas redes sociais,
pelas instituições internacionais, aquilo que se sabe é muito mais intenso
sobre o não querer alguém que sobre o querer-se alguém em alternativa.
O que é habitual, generalizado mesmo, é ouvir-se que Fulano
será o candidato melhor, muito melhor, que Cicrano. É, em não gostando de uma das partes,
apresentar-se uma alternativa que, mesmo que não seja boa, será melhor que
aquela de que se não gosta. O mal menor, podemos dizer.
Mas neste caso a coisa muda de aspecto. As manifestações,
domésticas ou não, centram as suas forças na recusa de alguém, passando para
segundo plano a alternativa possível. “Qualquer um é melhor que ele!”
Daquilo que tenho vindo a ler e saber ao longo dos tempos,
isto é original.
Gostava de saber que opinião têm sobre assunto os
especialistas em comportamento de massas e os politólogos.
E as consequências no curto e médio prazo para o Brasil em
particular e as práticas políticas e de democracia em geral.
By me, edit from images from the web
Publicidades
Alguém me explique, como se eu fosse muito burro, a validade
de um anúncio de uma câmara fotográfica ou de uma objectiva em que se diz “embalagem
selada de origem” ou “caixa por abrir” e se exibem fotografias do mesmo artigo
fora da caixa.
Será que foram sacar as fotografias da net? Pediram um
exemplar emprestado para fotografar?
Mais ainda: quem quer que tenha comprado o item agora em
venda em segunda mão não teve “pica” para, em chegando a casa, o ter
experimentado? O “brinquedo novo” não o entusiasmou?
By me, imagem roubada aleatoriamente da net
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Paixões e ódios de estimação
Sobre um assunto que está na ordem do dia mediática: As
acusações, anos passados, de assédio sexual ou violação.
Porque será que, tratando-se de personagens distantes,
vítimas e perpetradores, em que estes são figuras de destaque noutros países, a
opinião pública e os media portugueses assumem (explícita ou implicitamente) a
veracidade das acusações e quando se trata de ídolos portugueses a opinião
expressa é rigorosamente a oposta?
A forma como os casos divulgados nos EUA ou em França com
políticos ou figuras do mundo do espectáculo são comentadas nos jornais, nas
redes sociais e nas conversas de café ou de trabalho traduzem sempre simpatia
para com as mulheres, o elo mais fraco na questão (desde sempre). Mas quando se
fala em figuras portuguesas, e estou a referir o caso do Ronaldo, já se opina
que se trata de uma acusação oportunista, de uma tentativa de explorar a
celebridade, de extorsão…
Gente: sejam coerentes nas opiniões que emitem e nos julgamentos
que fazem sem factos concretos. Só porque Cristiano Ronaldo é o ídolo de
Portugal (triste motivo por sinal) não lhe confere a inocência universal.
Julguem e opinem sobre o que sabem ou julgam saber com os
mesmos critérios, deixando de lado paixões ou nacionalismos bacocos.
By me
terça-feira, 2 de outubro de 2018
Tempus fugit
Vejamos as coisas como elas são: A medição e organização do
tempo é coisa antiga. Muito antiga.
A unidade de tempo mais antiga, porque mais fácil de constatar,
terá sido o dia. Unidade inteira.
De seguida os ciclos lunares. De lua cheia a lua cheia, 28
dias.
A maior unidade de tempo inteira terá sido o ano, marcado
pelas posições do sol. Mais difícil de observar, devido às condições
atmosféricas.
Quanto às divisões destas unidades básicas, que não
necessitavam de instrumentos para as medir, teremos o ano dividido pelos
solstícios e equinócios. A sua importância, tanto no clima quanto no que
respeita a colheitas ou caça, fez com que os antigos, os muito antigos,
erguessem monumentos megalíticos, implicando o esforço de toda a comunidade na
sua construção.
Já a lua, por seu turno, ainda hoje lhe reconhecemos os
ciclos: os quartos de lua que, no hemisfério norte, lhe confere o apodo de
mentirosa.
O dia tem sido dividido desde sempre em duas metades, marcadas
pelo meio dia. É constatável sem mais que um pau ou o próprio corpo: Sabemos
que é meio dia quando a sombra é a menor possível, marcando ela o momento em
que o sol está o mais alto possível. É o meio dia solar.
A divisão do dia em fracções menores já é consequência da
tecnologia, mais ou menos elaborada. Desde a clepsidra ao relógio de sol, das
velas às ampulhetas, da mecânica ao nuclear, tudo tem sido usado para medir o
tempo: horas, minutos, segundos…
Vêm agora uns políticos iluminados querer reajustar aquilo
que já de si está mal calibrado: a variação horária legal de verão e inverno. Sondaram
as opiniões e concluíram que sim, quer será bom manter a referência horária ao
longo de todo o ano.
E concluíram que o melhor seria, por questões económicas,
manter a de verão.
Nada a apontar contra isso não fosse a hora de verão estar
desfasada da hora solar em uma hora. O meio dia do relógio não coincide, nem
sequer está próximo, do meio dia solar.
Querem estes senhores, que passam mais tempo no obscuro dos
gabinetes que sob o olhar atento do astro-rei, mandar às urtigas aquilo que
durante milénios foi importante para o ser humano, fosse qual fosse a
localização ou a cultura.
Em nome de teorias economicistas, de rentabilidades laborais
e de ganhos energéticos, querem decretar que os ciclos humanos são pouco
importantes e que de medidas temporais percebem eles.
Reduzam-se mas é à sua insignificância perante o universo,
apercebam-se da sua efemeridade e fragilidade e não queiram impor regras sobre
aquilo que não dominam.
O dia divide-se em duas partes iguais, marcadas pela altura
sol! E o meio dia é quando o sol está mais alto!
Já basta, nisso de alterarem datas e calendários, terem anulado
a importância da celebração ancestral do solstício de inverno de 22 de dezembro
(no hemisfério norte) para o natal uns dias depois.
By me
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