terça-feira, 4 de setembro de 2018

Negócios sujos



A história passou-se em duas partes, com uns dias de intervalo.
Um conhecido, em conversa de ocasião, contou-me ter ido com uma amiga a uma loja de compra e venda de artigos usados. 
Encontrava-se ela em sérias dificuldades, depois de ter passado por uma situação realmente dramática, e estava a vender um conjunto de objectos de informática e fotografia.
Na loja ofereceram-lhe 100 euros pelo lote. 
“Por esse valor”, ter-lhe-á dito ele, “fico eu com isso”. E fizeram o negócio.
Quando ma contou, eu fiquei incomodado com a situação. Se a ideia era ajudar a amiga, e considerando os valores em causa, sempre poderia ter dado mais qualquer coisa, dez ou quinze euros por exemplo. 
Mas como não era nada comigo e conhecendo o meu interlocutor, nada comentei.

Eis que agora ele me aborda. Sabendo-me ligado à fotografia, queria saber se eu estaria interessado em comprar parte desse lote de objectos. No caso, uma câmara fotográfica. Preço: 100 euros.
Ia-me passando, mas consegui conter-me.
Que se o objectivo era ajudar a amiga, tinha-se agora transformado em negócio puro e duro. Com lucro para ele, naturalmente. Um bom e chorudo lucro.
E as tais necessidades da amiga, fruto da situação dramática vivida, já não contavam para nada. 

Agora digam lá se sou ou não um herói, ao não partido a traqueia e as vértebras deste abutre sem penas?


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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Crítica e verdade




“Aristóteles estabeleceu a técnica da fala fingida a partir da existência de um certo verosímil, depositado no espírito dos homens pela tradição, pelos Sábios, pela maioria, pela opinião pública, etc.. O verosímil é aquilo que, numa obra ou discurso, não contradiz qualquer destas autoridades. O verosímil não corresponde necessariamente ao que foi (pois não pertence à história) nem ao que deve ser (pois não pertence à ciência), mas simplesmente àquilo que o público julga possível e que pode ser totalmente diferente do real histórico ou do possível científico. Aristóteles fundamentava assim uma certa estética do público; se hoje a aplicássemos às obras de massa, talvez conseguíssemos reconstituir o verosímil da nossa época; porque essas obras nunca contradizem o que o público julga possível, por mais impossível que, histórica ou cientificamente, o seja.”
In “Crítica e verdade”, de Rolan Barthes”, 1966
É sempre esclarecedor e divertido saber o que sérios e bons pensadores produziram pouco antes de momentos importantes de viragem na história e no pensamento.

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Os cigarros e a merda ou a merda dos cigarros




Há por aí uma campanha séria sobre as pontas de cigarro jogadas fora indolentemente no espaço público. A forma como são levadas para o meio da natureza e os seus efeitos poluidores.
É uma boa campanha, meritória e à qual devíamos dar atenção. Contra mim falo.
Mas esta campanha, incluindo uma cidade onde jogar uma ponta de cigarro na rua dá direito a multa, recorda-me uma outra questão. Bem mais animal.
Urina e fezes.
Sabemos, e todos concordamos, que fezes e urina na via pública ou em espaços abertos nas povoações, são prejudiciais à saúde pública. É um saber básico. E sabemos que a lei, nacional ou local, o proíbe e pune. Quer se trate de dejectos animais ou humanos.
E se no que diz respeito aos dejectos de canídeos se recomenda que quem os vem passear à rua traga consigo um saco para os recolher, já no que diz respeito aos humanos isso não é pedido. Mesmo que alguém tenha consigo um saco para recolher as próprias fezes, o facto de defecar em público é delito. Ambiental e moral, que para o fazer haverá que exibir as partes pudendas e isso é considerado imoral e punível por lei.
Resta assim, ao pobre ser humano, procurar um local recatado e fechado aos olhares dos restantes para defecar ou fazer um xi-xi de urgência.
E a questão põe-se no onde. Onde jogar a ponta do cigarro ou onde satisfazer as necessidades fisiológicas.
Para os cigarros (e papeis, embalagens, etc.) a sociedade distribui pelas ruas e praças locais próprios onde os colocar. Papeleiras presas em postes, muitas com um pedacinho de metal onde é possível apagar o cigarro e jogá-lo no interior sem risco de incêndio. Ou superfícies rugosas, no rígido plástico do contentor, onde se pode fazer o mesmo. Ou, no caso de jardins, caixotes mais ou menos enquadrados na paisagem e estrategicamente distribuídos. Encontrámos soluções práticas para problemas que nós mesmos criámos.
Já para os dejectos humanos não encontrámos soluções. Públicas e de acesso generalizado.
A solução, que todos conhecemos, é recorrer a estabelecimentos comerciais, grandes ou pequenos, pedindo o favor de nos deixarem usar as instalações sanitárias. E trata-se de um favor, já que a lei não obriga os comerciantes a disponibilizar tal local. Só se o aflito for cliente e fizer despesa.
Na agora encerrada Pastelaria Suíça, o acesso aos sanitários era reservado a quem consumisse ou pagasse para tal. Cinquenta cêntimos, se bem me recordo.
O mesmo sucede a quem esteja na maioria das estações de caminhos-de-ferro. Pelo menos em Lisboa e arredores. Para aliviar a tripa ou a bexiga há sanitários mas pagos. Portas que só abrem com uma moedinha ou um torniquete e um funcionário que controla os acessos e mantém a higiene do local.
A única alternativa realmente gratuita para um xi-xi ou cocó na cidade de Lisboa é recorrer a um centro comercial. Aí ninguém pergunta nada a ninguém. Entra-se no espaço, procura-se a placa indicadora, faz-se o que se tem que fazer, incluindo o lavar de mãos, e sai-se anonimamente.
Mas procurem lá um sanitário, pago ou gratuito, em dias como o de Natal, de Ano Novo ou quejando. Zero ou quase.
Em tempos havia pela cidade os urinóis públicos. Dos quais ainda restam alguns, raros. Uns em alvenaria, com horário de funcionamento, outros de metal, sempre disponíveis, mas apenas para a fisiologia masculina. Conheço uns dois ou três ainda existentes e recordo outros, entretanto demolidos.
Indo mais longe, esta questão dos sanitários públicos para quem está na rua é um problema para quem nela trabalha. Que o diga quem conduz profissionalmente na cidade (transportes de pessoas ou mercadorias), feirantes, pessoal de limpeza urbana, agentes das forças de segurança, reparações na via pública…


Torna-se assim curioso reparar como resolvemos problemas criados pela civilização, proibindo, facilitando e inovando nas soluções, mas somos incapazes de solucionar para todos aquilo que a natureza nos impõe igualitariamente.
Que até para um salutar cocó é preciso ter sorte ou dinheiro.


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domingo, 2 de setembro de 2018

Clássicos




Eu sei que é um clássico.
Eu sei que já existirão uns milhares de fotografias deste local, com esta luz e com esta perspectiva.
Mas, desculpem, a minha menor preocupação é o ser original! Faço o que faço porque me apetece fazer, tentando ter prazer em o fazer e ponto final.
Quanto ao resto e para além da luz me ter cativado, o desfio foi fazer esta fotografia com o telemóvel, sem tripé e sem grandes edições posteriores.
Este é o resultado.



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Gostos e semiotica da imagem




Ontem, ao acordar, fiz uma fotografia da minha janela.
Em boa verdade, fiz várias, para ter o controlo de exposição pretendido.
O resultado, depois de editar um nico uma delas para obter o contraste e enquadramento que me satisfizesse, foi a de cima.
Publiquei-a com umas palavras, as que se me surgiram quando decidi fazer a fotografia.

No entanto, de cada vez que para ela olhava, algo não me agradava por completo. Havia ali qualquer coisa que…
Já no trabalho vi-a de novo e percebi o que era. E agora fiz a respectiva correcção, agradando-me e enquadrando-se muito mais naquilo que senti e naquilo que escrevi. É a de baixo.

Saberá algum dos que para isto olham dizer porque a segunda me agrada mais que a primeira? E porque esta se enquadra mais no que senti e escrevi?
Aguardo opiniões.



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Não havia nexexidade




Este sábado foi divulgado em diversos órgãos de comunicação social que os sistemas de vigilância de mais de um milhar de escolas no país estavam desactivados.
Acrescentavam que isto se devia à caducidade de um contrato com empresas de segurança e à ainda não existência de um novo, resultado de um concurso, a ser concluído esta semana.
Dizia-se ainda que só a segurança de instalações estava em causa e que, aquando do início das aulas, os alunos estariam seguros.

Bem, os negócios são o que são e nem sempre se consegue fazer tudo atempadamente.
Mas era necessário avisar todos os ladrões, gatunos, bandos e gangs da fragilidade das instalações?
Pergunto quantas escolas terão sido ou serão assaltadas estas noites até que tudo volte ao normal.



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sábado, 1 de setembro de 2018

Acordar




Fotografar o pôr-do-sol é sempre bonito.
É o fim de um ciclo, é o remate do que foi e a promessa do que será.
Mas o nascer do sol, meus amigos… O nascer do sol!
Antecipado e esperado, ou de surpresa ao abrir da pestana, é sempre algo que nos promete um dia bom, rematando uma noite eventualmente boa.
Recomendo!


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sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Regras de fumador



Qualquer utilizador da rede pública de transportes, qualquer que seja o meio, e que seja fumador, qualquer que seja a marca e tipo, sabe esta regra:
Em esperando um qualquer autocarro, numa qualquer paragem, e estando já à espera há um pedaço, se acender um cigarro é garantido que o autocarro surge na esquina segundos depois.
Pois! Eu não sou um qualquer!
Este foi o terceiro!


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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Tempo e medidas




Suponho que nunca se perguntaram porque é que a semana tem sete dias. Não dez, tantos quantos os dedos das mãos, ou quinze, por um outro motivo qualquer. Sete!
Claro que a tradição judaico-cristã nos afirma que o universo foi criado em sete dias por um deus. Essa será uma explicação teológica, válida para crentes.
Mas há uma outra, bem mais prosaica, que talvez espante os menos avisados: a Lua.
Sabemos que o ciclo lunar tem 28 dias. E que cada fase da Lua (crescente, cheia, minguante e nova) dura sete dias. Aí está.
Para os antigos, que não tinham mecanismos de medição do tempo, este era medido em função dos fenómenos que conheciam e que ser repetiam.
O mais básico seria o dia, facilmente constatável. De seguida a Lua, também repetido e previsível. Mas 28 dias é muito tempo. Quase um mês.
Daí que as fases da Lua, cíclicas e regulares, numa quantidade de dias facilmente comensuráveis.
Para os que tenham dúvidas, legítimas face à ancestralidade do ciclo de sete dias, repare-se na quantidade de civilizações que ainda têm por tradição o calendário lunar. Claro que estas, por imposição do comércio e demais relações internacionais, acabaram por considerar não apenas o conceito de anos em função da translação em torno do Sol, com o ajusta de um dia extra por cada quatro anos, como o calendário gregoriano, com os seus meses não regulares. E as semanas, a não caberem em quantidade certa em cada mês. Excepto o Fevereiro, com 28 dias. Menos o bissexto.
A origem das unidades, sejam elas quais forem, é sempre meio obscura. Tal como o sistema hexadecimal, usado para movimentos circulares: horas, graus, minutos, segundos.
Entender o passado, onde se alicerça o presente, permite-nos construir o futuro. Seja em unidades de medida, pensamentos ou emoções. Mesmo que estas não se meçam.

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Justiça




O endeusar a lei, fazendo dela e dos seus agentes elementos infalíveis da sociedade, só significa uma coisa:
Que essa mesma sociedade está caduca, enquistada, conservada em códigos éticos e morais de antanho.
Uma sociedade que se queira evolutiva, melhorada a cada dia que passa, tem que assumir que as leis e as regras podem ser mudadas, que as opiniões dos de hoje podem não ser iguais aos de ontem e que a lei, mais que ser servida por Homens, existe para servir os Homens.
Por outro lado, os agentes da lei, porque a interpretam e nos diversos patamares em que ela existe, são humanos. Passíveis de erro, mesmo de erros sucessivos, nas interpretações, demonstrações e aplicações.



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