domingo, 6 de novembro de 2016

Se eu fosse mais alto



Ao longo dos tempos fui conseguindo ser original por cá em algumas coisas no campo técnico da fotografia.
Fui, por exemplo e ao que sei, o primeiro a usar flash sincronizado com a segunda cortina. Isto no tempo em que o digital ainda era só a ponta do dedo e nenhum câmara tinha esse ajuste. Um dispositivo, que um colega construiu a meu pedido, fazia a festa.
Com o tempo o dispositivo perdeu-se e agora qualquer câmara faz isso e mais um mundo, que os engenheiros dos fabricantes são imaginativos.
Fui também o primeiro, pelo menos nunca tinha visto nada disso até há pouco tempo, a fazer fotografias do estilo “se eu fosse mais alto”. Feitas uns dois metros mais acima da cabeça sem que eu saísse do chão, usava para isso um monopé esticado e bem subido com uma pequena câmara lá em cima. Permitindo-me perspectivas incomuns em momentos raros. Ou outras.
Com o tempo, passei a ver nas manifestações monopés subidos, paus-de-selfie em riste e, mais modernamente, os drones.
Tal como a corrente de autoclismo. Ou o regresso dos “á-lá-minuta”. Ou…
É bom saber que, de um modo ou de outro, alguns pegaram nas nossas ideias ou práticas e as passaram a usar, desenvolvendo-as e obtendo sucesso com elas.
Quanto a mim, continuo a achar que se tivesse mais uns dois metros faria imagens diferentes. E continuo a tentar demonstrá-lo.


By me

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

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A memória é surpreendente.
Devido a uma fotografia que fiz, fiquei a pensar sobre portas a abrirem para a esquerda ou para a direita.
E tratei de relembrar as casas onde vivi (foram várias desde que nasci) e para que lado abriam.

Não é que me recordo de todas e se abriam para a direita ou para a esquerda!
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Liberdade



Liberdade querida e suspirada
Que o Despotismo acérrimo condena;
Liberdade a meus olhos mais serena,
Que o sereno clarão da madrugada.

Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada.

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais que os astros, brilha;

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;
Dos céus descende, pois dos céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce liberdade.


Manuel Barbosa do Bocage, “Liberdade querida e suspirada”

O encontro



Sentadas em duas mesas de uma casa de hambúrgueres, duas mulheres.
Já é tarde, o jantar foi já há muito, e estão a usar o local como ponto de convívio, cada uma com os respectivos filhos, entre os dez e os doze anos.
Reconheceram-se após um interregno de oito anos, se bem ouvi a conversa.
De onde se reconheceram?
De terem estado em simultâneo alojadas numa casa-abrigo de apoio à vítima.
O que foi bom de ver?
O tom mais ou menos natural com que falaram desses tempos e do que lhes sucedeu depois de se terem separado. E do que sabiam de outras, desses tempos.
Falam das dificuldades financeiras e trocam números de telemóvel. Que não creio que venham a usar, que aquele passado quer-se bem enterrado e tão longe quanto possível dos filhos.
Fechados nos nossos casulos burgueses, na monotonia das nossas vidinhas, com mais ou menos meios económicos, nem desconfiamos das tragédias da porta ao lado. Por vezes na verdadeira acepção da palavra.

Espero que não contassem com uma imagem das intervenientes, mães ou filhos.

Fiquem-se com a fotografia do caderno onde foi registado o encontro.

By me 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Bola colorida



A diferença entre o idealista e o utópico é simples:
Enquanto este sonha com algo, aquele bate-se para concretizar o seu sonho.
Apesar disso,
“…
Eles não sabem nem sonham
Que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos de uma criança.

…”

By me

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

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Montaram um gigantesco galo de Barcelos em Lisboa, obra da consagrada Vasconcelos.
De acordo com a autora, é dar uma visão tecnológica a um dos mais tradicionais símbolos portugueses.
Fontes geralmente mal informadas acrescentaram os planos para um futuro próximo incluem uns Jerónimos em Sagres, uma Cabra em Barcelos e uns Clérigos em Beja.

O Templo de Diana foi excluído por se tratar de paganismo romano.

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Para que conste:

Tudo junto escreve-se separado e separado escreve-se tudo junto.
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Aparências



Um destes dias no comboio, um fulano aí com uns vinte e poucos estava meio perdido. Não sabia se estava no comboio certo nem onde fazer a mudança. Pediu-me ajuda e eu lá lhe expliquei a melhor forma de ir para onde queria.
Passado um nico pergunta-me ele:
“O senhor é artista?”
Estranhei e disse que não, naturalmente.
“Então é escritor. Ou pintor.”
“Também não. Mas porquê?”
“Com esse ‘look’, essa barba, esse cabelo…”
“Repare”, respondi sem perdoar, “Encontra gente com barba e cabelo como o meu entre os ciganos; encontra gente com barba e cabelo como o meu entre os indús; encontra gente com barba e cabelo como o meu entre os sikh; encontra gente com barba e cabelo como o meu entre os sem abrigo. Mas a nenhum pergunta se é “artista”. Se o pelo ou a roupa fossem definidores de condição ou profissão… Olhe (tínhamos parado numa estação): está a ver aquele polícia? O que está sem boné? Apesar de ser de Segurança Pública, sei eu que é dos que gosta de bater sempre que pode, que já o tenho visto a actuar. E, no entanto, está de farda.”
Riu-se a medo e eu voltei para o livro que tinha nas mãos.
Faz-me doer a alma a quantidade de gente que vive de e para as aparências!


É que, e apesar do que aparenta, o tempo não parou.

By me

terça-feira, 1 de novembro de 2016

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Há uma pergunta que me está sempre atravessada no cérebro e já não sei quem a fez:
“Quantos pobres são precisos para fazer um rico?”

A isto acrescento eu:

“E para que serve um rico?”
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Logo de manhã



Em minha casa entra quem eu quero ou autorizo.
Creio que esta afirmação é comum à maioria das pessoas.
Ora acontece que em minha casa não entra quem defenda regimes totalitários ou ditaduras. Ou tenha atitudes e comportamentos racistas ou xenófobos. Não quero estas pessoas em minha casa, conspurcando a minha habitação. Por isso, se me baterem à porta, não entram.

Esta reserva que imponho em minha casa estendo-a às redes sociais.
Não me interessa relacionar-me, mesmo que na virtualidade da web, com quem defende superioridades de raça, ditadores, polícias políticas e outras coisas semelhantes de má memória.
Portanto, todo aquele que me bater à porta virtual e que seja defensor de tais conceitos, pode contar com a minha recusa.


Bom dia!

By me