domingo, 16 de outubro de 2016

Tiranias



- Oh pai? A água ferve a 90º?
- Não, filho, que disparate! A água ferve a 100º.
- Ah, pois… A 90º ferve o ângulo recto!

Piadas à parte, a verdade é que quantificamos tudo na vida. Pesos, volumes, distâncias, temperaturas, energias, tempo… Ainda não quantificaram os afectos, mas creio que não faltará muito.
Com as artes e as expressões pessoais, o mesmo se passa. Nas métricas, nas rimas, nas proporções, nos equilíbrios… As fórmulas algébricas definem à priori ou explicam à posteriori aquilo que apeteceu fazer, aquilo que o criador entendeu por bem materializar.
E estas quantificações impõem regras e normativos. Que, por um lado, definem e generalizam o conceito de qualidade e, por outro, padronizam técnicas e materiais usados por cada um para se exprimir. E tente-se lá encontrar uma tela redonda para pintar…
Com a fotografia sucede exactamente o mesmo!
Submergida que está à ditadura das normalizações dos fabricantes, é difícil a roçar a impossibilidade de se lhes fugir. E se fabricarmos nós mesmos os materiais (equipamento e consumíveis) é quase uma impossibilidade, as expressões de surpresa ou de desprezo por parte de quem atende o público ao lhe ser pedido um trabalho não normalizado acaba por ser hilariante, se não fosse trágico.
Tente-se mandar imprimir uma fotografia a partir de negativo ou de ficheiro digital que tenha, por exemplo, uma proporção de 1:7,5. Suspeito que só alguma lei recôndita e obscura que impede os empregados de balcão de rirem, inibe o ouvir-se uma valente gargalhada. E provocaria uma chamada de urgência para o hospício mais próximo que pedíssemos um enquadramento trapesoidal irregular.
O alfa-numérico das regras, leis e normalizações é tão castrante quanto um capador de porcos.

E o ângulo recto, com os seus 90º exactos na esquadria do nosso enquadramento, é a cereja no topo do bolo!

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sábado, 15 de outubro de 2016

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Parece que a cerveja vai ficar mais cara para o ano que vem, de acordo com o previsto no Orçamento do Estado para 2017.

Tenho até ao fim do ano para aproveitar.
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Informação meteorológica minimalista



By me

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Promessa que espero manter:
Não levo mais livros p'ra casa enquanto não "despachar" uma das pilhas dos "por ler".
Excepção: a feira do livro da fotografia, daqui por um mês.
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Leio num jornal que uma das medidas do orçamento do estado é um imposto de 0,02 euro sobre cada bala ou projéctil feito de chumbo.

Considerando que as balas são feitas para matar, parece-me que este imposto é particularmente baixo.
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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

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Incomoda-me que o parlamento tenha como principal ocupação o redigir de leis que impõem ou proíbem, com as respectivas sanções.

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Foi ontem



Tal como em outras corridas de toiros, juntou-se uma pequena multidão em protesto contra a barbárie da tortura animal na arena.
Tal como em outras corridas de toiros, as forças da ordem estavam presentes, para obstar a distúrbios da ordem pública.
Tal como em outras corridas de toiros, a polícia delimitou com grades a zona onde o protesto ou manifestação poderia ocorrer.
A cada corrida de toiros essa zona é mais afastada da praça e de menor área. Este ano, e medido a olho, teria uns dez por oito metros.
Tal como em outras corridas de toiros, a polícia define a área de curro onde confina os manifestantes.

Não muito diferente do que acontece lá dentro, em boa verdade.

By me 

Troféus



Não tenho nem um autografo ou mesmo uma selfie que prove o que vou contar.
Mais ainda: os que comigo estavam aquando do episódio já não trabalham por perto para que os possa chamar a testemunhar.
Mas há coisas que não necessitam de testemunho, humano ou material. São verdade porque eu sei que são verdade e quem o puser em causa bem se pode dedicar à pesca.
Certo é que um dos pontos mais altos da minha carreira profissional aconteceu quando tive na minha objectiva, ao mesmo tempo, três grandes: Chico Buarque, José Saramago e Sebastião Salgado.
Três tão grande e tão ao mesmo tempo, unidos por uma mesma causa, que me senti mais pequenino que o diafragma da minha objectiva.
Se o cruzamento de informações que consegui na net estiver certo, bem como o que recordo daquela hora, ainda não tinha sido atribuído o premio Nobel a Saramago.
Tal como recordo Salgado ter desfeito um mito, ao afirmar que a sua primeira câmara fotográfica não foi uma Leica mas sim uma Pentax.

Há quem tenha por troféu na vida uma conquista, uma competição desportiva que venceu, o resultado de uma pescaria, um automóvel comprado…
Ter estado junto a estes três gigantes em simultâneo é um dos meus.


By me

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Ora bolas



Muitos são os que se escandalizam com a atribuição do prémio Nobel a Bob Dilan. Não conheço a sua obra em profundidade o suficiente para concordar ou discordar.
Mas o argumento de que ele andaria ganzado é que não funciona, desculpem lá!
Ou já esqueceram as monumentais bebedeiras de Hemingway?
Ou que Miró jejuava até à alucinação para conseguir pintar algumas das suas obras-primas?
Ou as grandes mocas que Balzac tinha com absinto?

Aos puritanos apenas me apetece dizer: “Metam-se na vossa vida e tenham a certeza sobre os vosso “pecados” antes de avançarem sobre os dos outros.

E, já agora, deixem de ter invejas doentias sobre aqueles que não conseguem imitar.

By me 

Sobre um livro



Estou em crer que já aqui falei dele.
Trata-se de um livro que me foi emprestado quando quis começar mais a sério na fotografia. Na altura, devorei-o como a um bolo e, garanto, soube-me a pouco, que queria eu mais daquilo.
O dono do livro nunca mo quis vender, oferecer, “emprestadar”-mo, deixar-me roubá-lo, sempre quis – e bem – ficar com ele. O tempo passou, este meu mestre morreu e perdi o rasto ao livro.
Há algum tempo, de conversa com uma livreira (que de muito gostar de livros, acabou por falir e fechar portas, para grande pena de todos os seus clientes e amigos) falei-lhe nele e ela disse que o iria procurar. Trata-se de um livro editado em 1973, nos EUA, e nunca reeditado. O seu nome? “Photographic Seeing”, escrito por Andreas Feininger.
Uns meses depois da conversa, recebo um E-Mail, informando-me que o livro existia em segunda mão, que custava 30€, se eu estava ainda interessado e se podia mandá-lo vir dos EUA. Claro que estava e só faltou mesmo sair de casa a correr para ir beijar a livreira.
Em o recebendo, li-o de fio a pavio, de novo, e fiquei com uma sensação esquisita:
Ou bem que quando o li, há mais de 30 anos, me influenciou de tal forma que ainda hoje penso como ele, ou bem que, com o correr dos tempos, fui afinando a minha própria forma de ver e pensar a fotografia e gostaria de eu mesmo o ter escrito. Isto, apesar das diferenças óbvias das técnicas e das modas de imagem.
Mas coisas há que acabam por ser intemporais e este livro está recheado disso mesmo.

Aqui vos deixo o início de um dos capítulos. Atente-se na simplicidade da linguagem mas, ao mesmo tempo, na eficácia do que aqui é descrito.
Quanto à imagem, desculpem qualquer coisinha, mas é minha. Alguma coisa teria que usar.


“Photogenic and Unphotogenic Subject Qualities and Techniques
Nobody denies that the means and methods of modern photography permit a photographer to depict any subject in the form of a recognizable and even faithful rendition. However, as any critical photographer knows from his own experience, a "faithful" rendition is not necessarily the same as a good picture. Faithfulness in photography is a quality which, of course, is indispensable in scientific, documentary, educational, medical, judicial, catalog, etc., photography, but insufficient as far as the creative photographer is concerned because it neither includes nor guarantees such picture qualities as meaning, impact, eye-appeal, stimulation, or graphically exciting rendition - the qualities which make a photograph "good," perhaps even great.

In their striving for "good" photographs, perceptive photographers have noticed that certain kinds of subjects consistently make better pictures than others and that this peculiarity has virtually nothing to do with the eye-appeal of the subject. For example, a wide-open view from a famous vantage point-miles and miles of mountains and valleys, blue sky and drifting summer clouds, hot sunshine and cooling breeze may be a breathtaking and unforgettable experience, but as sure as anything will make a miserable picture. Why? Because the subject is too big to be squeezed successfully into the small confines of an average-sized picture (it possibly would have been all right in photomural size); because it contains too much detail which, in the unavoidable reduction, becomes so small as to be virtually invisible; because it does not contain a focal point or center of interest - a specific motif, a nucleus around which the rest of the picture can be organized in the form of a satisfactory composition; because its overall contrast is too low, resulting in a flat, monotonous impression; because it contains an overabundance of weak colors and not enough strong ones and therefore produces a wishy-washy effect; because it is totally devoid of scale and consequently appears no larger than the projection screen or the paper on which it is printed instead of evoking that overwhelming feeling of immensity which prompted the photographer to make the shot in the first place. That's why.”
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