domingo, 4 de setembro de 2016

Bancos



Este é o meu banco. E zanguei-me com ele!  
É que ele entendeu que, da mesma forma que tem andado a abrir as pernas a forças externas, a pressões fortes de rabos pesados, também ele tinha que me fazer sofrer, ameaçando que me atirava ao chão, que me punia pela minha audácia em o continuar a usar sem reforços significativos.
Não gostei. Nem um nico!
Vai daí, peguei em dois pedaços de corda, ambos com nó de forca na ponta e atei-o. Com uns pingos de cola, só p’rá sossega.
E fiz-lhe uma proposta irrecusável:
“Se me tornas a atirar ao chão, se me deixas em problemas, no lugar de uma corda é um martelo, uns pedaços de papel e um fósforo.”
A vantagem de largar fogo a este banco é que não tenho que partir vidros.

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Gostos



Há gostos que, uma vez adquiridos, dificilmente se perdem.
Talvez por ter feito o que fiz e ter pago o que paguei, continuo ferozmente a gostar de ser subversivo.


E o valor de uma factura não se relativiza com o mercado mas com o que cada um sabe, pode e está disposto a pagar.

By me

sábado, 3 de setembro de 2016

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Quando acontece contar em público o como, quando, onde e com quem agredi um primeiro-ministro português, o meu interlocutor sorri do episódio, até porque só isso é possível.
Mas quem está em redor e não me conhece ou ao meu ofício, fica a olhar-me de lado, com aquela expressão de "Coitado! Tem cá uma imaginação! Um destes dias é internado."
O que eu me divirto a ver essas caras.
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Sobre um livro e não só



Tenho vindo a afirmar, ao longo dos tempos, que o acto de fotografar é, entre outros aspectos, um acto de cobiça e apropriação.
Claro que a esmagadora maioria dos que me lêem, quer levem a fotografia mais a sério ou não, quer façam dela um ofício ou um alimento de alma, contesta-me. Alguns argumentando, outros apenas apelidando-me com variados epítetos, nem todos simpáticos.
Mas eu continuo na minha:
Ao fotografarmos estamos a criar um laço empático com o assunto, positivo porque gostamos, negativo porque não gostamos, e queremos levar connosco aquilo que vimos e com o qual reagimos.
Quer seja um pôr-do-sol de férias, uma vitória desportiva, um confronto bélico, um rosto amado, um rasgo de luz por entre a folhagem… até mesmo, e desde sempre, aquilo que a nossa visão e câmara não viu mas que o conjunto das técnicas envolvidas permite criar.
Vou baseando esta minha afirmação naquilo que eu mesmo analiso sobre a minha pessoa enquanto fotógrafo, as “confissões” que este ou aquele fotógrafo faz entre dois copos ou perante uma assembleia, nos relatos e memórias que vou lendo aqui e ali…
Com o passar do tempo tenho cada vez mais a certeza do que afirmo!
E ontem reforcei essa certeza.
Numa daquelas mini-feiras de livros, mais para despachar livros “encalhados” que outra coisa, encontrei este, a preço da chuva.
Trata-se do livro publicado em Portugal aquando da respectiva exposição em Cascais.
O texto de fundo e que acompanha cada fotografia, escrito pelo fotógrafo, é elucidativo do que vai na alma, mesmo de um profissional batido como era o caso. Pessoal e profissionalmente.

Sugiro que cada um que faz da fotografia a sua actividade, para alimentar o estômago ou a alma, que faça um sincero exercício de auto análise. Sem divulgar as conclusões mas tão só para que se conheça e às motivações interiores e profundas do uso da câmara fotográfica.

E que, depois, continue a fotografar como até aqui, tirando da actividade todo o prazer que sabemos dar.

By me

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Repetido



A situação repete-se centenas de vezes, milhares mesmo, todos os dias pelo mundo fora:
Ela(e) no degrau da carruagem, ele(a) de pé no cais, beijando-se apaixonadamente antes que a composição parta. Mesmo um rotineiro suburbano.
Por mais que a veja, tenho-a sempre por bonita.

By me

Novilíngua



Os termos usados definem pensamentos. E os pensamentos afinam as palavras.
Prefiro “fazer” fotografias a “tirar” fotografias. Fazer é algo de criativo enquanto que tirar acaba sempre por ter uma carga negativa.
Acabe-se com o ministério da educação e crie-se o ministério da aprendizagem. Que, se por um lado, se centraria toda a actuação no acto de aprender e nos estudantes, por outro acabava-se com o conceito de educação enquanto o moldar os jovens à vontade e saber dos adultos.
Mas o termo que está na moda e que mais me incomoda é o de “colaborador” no lugar de “trabalhador”. “Colaborador” define, sem sombra de dúvida, uma relação precária com a empresa ou empregador, dando-lhe um estatuto de total subalternização aos quadros superiores. Como se as empresas sem “trabalhadores” pudessem ter sucesso.

O Novo Acordo Ortográfico é mau. A Novilíngua liberal é péssima!


Imagem: palmada da net

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

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Não suporto gente que entende que o seu mundo funciona das 9 às 5, de 2ª a 6ª, e que todos os demais têm que estar 24 horas por dia, todos os dias da semana, às ordens do patrão ou de um chefinho da treta.
Por causa disso já hoje mandei alguém àquela parte, com palavras bonitas e um sorriso na cara. Só foi pena ser pelo telefone, que não lhe pude ver o semblante.

Nota adicional: ainda nem sequer são dez da manhã. O dia promete.
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Hoje irei trabalhar com aquela sensação antecipada de vazio.
Sei que lá não estará nem voltará a estar. Com a sua voz doce, o seu sorriso suave, o seu trabalho sempre cuidado e preocupado.
O mundo selvagem da precariedade, dos salários abaixo do decente, dos sorrisos hipócritas e do “salve-se quem puder” assim obrigaram a que tomasse outro rumo.
Talvez (e esperemos que sim) que lhe seja bem mais propício, com outras oportunidades, horizontes e sucessos.
Mas, por mim, irei hoje trabalhar com uma sensação de vazio.


“Muita merda p’ra ti!”
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