quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Linhas



O caminho-de-ferro não é sempre composto de linhas rectas e paralelas.
A vida muito menos!


By me

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Zippo



"Olha lá! Então tu ainda andas com isso aí?"
"Isso o quê?"
"Isso: o isqueiro no cinto."
"Claro que sim! Os hábitos ou vícios perdem-se, mas um de cada vez. Por enquanto tratamos do tabaco. Dos Zippos falamos depois. Em qualquer dos casos, e sendo eu parcialmente responsavel pela existência de Zippos à venda em Portugal (história velha que agora não vem ao caso), mal seria se não tivesse um comigo, tal como o canivete Suiço. E nem um nem outro me deixam ficar mal. Queres ver?"
E, tirando o bendito isqueiro do seu estojo no cinto, tentei acendê-lo. Sem sucesso.
Ao fim de mais de duas semanas sem uso, a gasolina que continha, embebida no algodão do depósito, evaporara-se pelas fendas. A faísca ainda obtive, agora a chama... Se eu tivesse parado para pensar, no lugar de ser Chico Esperto, nem o teria tentado acender. 
Vou ter que esperar o regressar a casa para o carregar de novo. Porque, e tenham lá paciência, um isqueiro faz sempre falta, e não apenas para acender cigarros.

By me

Café



Já foi hábito meu, que ultimamente pouco tenho praticado: num balcão pedir um café sem manteiga.
Os motivos para tal são vários, que passam pelas brincadeiras e quebra de rotina para quem está do outro lado e terminam na rapidez com que sou atendido.
Por via desta expressão, aparentemente absurda, tenho já vivido situações caricatas em que umas vezes sou eu a vítima, outras o empregado, outras ainda clientes ao meu lado.
Desta feita foi diferente:
Entro num café de estação onde sou cliente, digamos, uma vez em cada duas ou três semanas. Mas acabo sempre por meter conversa o que, aliado ao meu visual, me transforma em tudo menos num cliente ocasional e anónimo.
Pois como a loja estava vazia, uma das mocinhas que ali está viu-me aproximar e tratou de fazer o expresso do costume. E quando encostei no balcão perguntou-me, sorrindo:
“Um café cheio, verdade?”
Não me fiquei e retorqui:
“Isso! E sem manteiga, por favor!”
“Sem manteiga?!”, espantou-se ela, como eu esperava.
“Claro! Já provou café com manteiga? Eu já e não gosto. Por isso peço sem manteiga.” Tudo isto dito com um ar perfeitamente impassível, ainda que rematado com um sorriso de orelha a orelha.
Foi a vez dela me deixar de boca aberta:
“Pois olhe que até já bebi café com manteiga e até gostava.” O seu sotaque brasileiro acentuou-se “ Quando era pequena o meu avô bebia disso de manhã e, só um pouquinho, deixava-nos provar.”
“Pois aposto que viviam no campo, o seu avô tinha animais de grande porte na quinta e as manhãs eram bem frescas, de Inverno!”
“Pôxa! Como sabe isso? O Paraná é parecido com Portugal e tínhamos cavalos na roça.”
“É que era isso que o meu avô fazia. Com um capote vestido por cima da roupa de dormir, à luz de uma candeia de petróleo, ia acordar e dar de comer às vacas antes do amanhecer. Mas antes de enfrentar o orvalho nocturno, bebia uma malga de café com uma colher de manteiga, para aquecer o corpo e a alma. Só depois de os animais terem forragem fresca na manjedoira é que regressava a casa, lavava-se e vestia-se comia o pequeno-almoço, na altura chamado de primeiro-almoço.
“É! Outros tempos e boas memórias!” E continuava a atender outros clientes que, entretanto, tinham chegado e queriam levar qualquer coisa no estômago na viagem que os levaria de volta a casa.

Quando me afastei do balcão, despesa paga, olhei em redor. Os que ficavam tinham cara de quem tinha passado todo o santo dia a trabalhar. Mas consegui vislumbrar em alguns, atrás do cansaço, um brilhozinho de nostalgia alegre.

By me

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Vícios



Os vícios são terríveis. São vícios!
Como o da nicotina, que estou a tentar perder.
Ou como o da cafeína, que ainda não decidi perder.
Ou como o da heroína, que nunca tive pelo que nunca terei dificuldade em perder.
Ou como o do oxigénio, que espero nunca perder pois que será definitivo junto com todos os outros vícios, congénitos ou não.
Ou como outros vícios adquiridos que não queremos perder, como o de fotografar, o de escrever, o de criar, o de construir, mesmo que protestando ou porque protestando.
São estes vícios que se me entranharam na pele sem que desse por isso ou fizesse algo por isso. E dou comigo tão dependentes deles como de outros que, subtil mas solidamente, também se me entranharam. Como um rosto, uma presença, uma voz, uma proximidade.
Como qualquer vício, também estes padecem de sintomas típicos quando em estado de carência. E satisfação total quando a eles cedemos.
Há vícios bons!

Nota fotográfica adicional, também fruto do vício:
Foi particularmente divertido ver a cara de estranheza daquele casal já idoso, sentado à minha frente no comboio, enquanto manuscrevia isto.
E muito mais divertido ver as suas caras quando fiz a fotografia com o telemóvel.

Mas o divertir-me com os outros e as suas reacções aos meus actos fotográficos também é um vício.

By me 

O tempo é meu



Ontem perdi uma hora!
Não sei se foi ao sair da cama, se ao ler as notícias na net ou a tomar café com bolo do outro lado da rua.
A verdade é que, quando dei por mim, tinha perdido uma hora.
Bem que a procurei por entre as cobertas da cama, no fundo da chávena na cozinha e até no ralo da banheira.
Mas não encontrei a hora perdida!

Não é que seja muito importante. Atrás de uma vem outra hora, e outra ainda e ainda mais outra, e todos os dias têm muitas horas para usar. O que é frequente é desperdiçar horas em coisas inúteis, ou fúteis ou forçadas.

Mas, se por acaso virem por aí uma hora sem dono e sem uso, avisem-me que a vou buscar.

É que, sabem, gosto de cada hora do dia que vivo. Mesmo das menos boas!

By me

domingo, 10 de janeiro de 2016

Um olhar – Talvez Maria, a estudante



Hoje é dia dez de Janeiro, Domingo.
Feitas as contas, que são fáceis, conclui-se que hoje é o décimo quinto dia após ter acordado e dito: “É hoje!”
Claro que nem tudo são rosas neste percurso. Coisas há que deixam de acontecer ou que passam a acontecer.
Por exemplo:
Parte das fotografias feitas no meu projecto “um olhar” aconteceram por causa do tabaco. Abordado na rua ou num jardim para que desse um cigarro, propunha eu uma troca: um cigarro por uma fotografia dos olhos.
O inusitado da proposta, o ter sido eu o abordado e não o inverso, a câmara exibida, um sorriso apropriado, o alimentar o ego e, acima de tudo, o quererem um cigarro, acabavam por quebrar gelos e eu regressar a casa com mais um troféu fotográfico.

Se nada correr mal – e estou em crer que não – este não mais será motivo de conversa e de fotografias de olhos. Terei que inventar novas estratégias.

By me

sábado, 9 de janeiro de 2016

Uma pequena anedota



Aquele fulano – chamemos-lhe Zé – era particularmente devoto e cumpridor da religião. Todas as noites, antes de deitar, ajoelhava junto à cama e fazia as suas orações.
E, todas as noites, pedia encarecidamente que saísse a lotaria, que a vida estava difícil.
Uma noite, rezava o Zé aos pés da cama e surge uma luz brilhante no quarto, da qual saiu um ente estranho. Que lhe disse:
“Zé! Sou o arcanjo Gabriel e venho dizer-te que os teus pedidos foram ouvidos e que esta semana vai-te sair a lotaria. Mas ao menos compra uma cautela, certo!?”

Assim funcionamos nós:
Temos fé num deus, temos fé num governo, temos fé num país, mas ficamo-nos por isso – fé. Pouco fazemos para que com os nossos actos, as nossas preces ou desejos se concretizem!

São milhares, aqueles que protestam contra o facto de haver fome em Portugal, um país europeu. Muitos milhares mesmo!
Mas são poucos os que vejo a darem do que é seu (não do que lhes sobra) para terminar com isso.
As campanhas de solidariedade para com quem tem fome ou frio acontecem pelo Natal. Naquela altura em que os orçamentos familiares estão com um pouco de folga, que se recebeu (quem recebeu!) o subsídio de natal.
Mas não vejo (ou sei) de cidadãos que ao longo do ano retirem um pouco do que possuem para mitigar fome ou frio dos seus patrícios.

É bom rezar e ter fé. Num deus, num governo, num país. Mas se não se comprar uma cautela…

By me 

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Está demasiada gente preocupada com quem ganha ou perde nestes debates entre candidatos presidenciais.
E as gafes, e o levar ao tapete, e os descobrir as carecas…


Estou eu bem mais preocupado com o que o país ganha ou perde com o resultado das eleições.
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Numa entrevista a um psicanalista, diz ele a dado passo:

“... foi nos anos 1950 que as pessoas passaram a sorrir nas fotografias. Quando olhamos as fotografias do fim do século 19 e as do começo do século 20, os retratados aparecem seríssimos. Deixar-se fotografar era um momento solene. Só no pós-Guerra começou o costume de parecer feliz. As fotos do Facebook vêm dessa descendência. O problema é que ter de se mostrar feliz é um empreendimento constante e muito cansativo.”


Não podia estar eu mais de acordo.

A explicitude e o seu oposto



O trabalho que tive em explicar a um profissional da imagem que a comunicação visual não tem que ser clara, explícita, inequívoca!
Esse é um dogma que se transmite em quase todas as escolas, manuais e workshops.
Mas não é verdade! Pelo menos não é uma verdade absoluta, universal.

Se falamos de consumo rápido de imagens – fotográficas, videográficas, cinematográficas – esse dogma aplica-se. Simplicidade na forma para facilitar o acesso ao conteúdo.
Mas posso querer eu, enquanto fotógrafo, não ser assim tão explícito. Querer obrigar quem vê o que faço a não entender de imediato, a parar para perceber, a questionar e questionar-se naquilo para onde olha e a, mais que olhar, ver.
O desconcerto na leitura, a dúvida, a procura de significado… também isto é comunicação, visual no caso da fotografia.
Dir-me-ão, talvez, que esta forma de comunicação reduz a muito poucos os que a lêem, na medida em que a dificuldade de acesso ou de interpretação, nos tempos que correm e com a rapidez de consumo de conteúdos, afasta os mais apressados ou menos curiosos.
Mas talvez nem sempre eu queira comunicar com esses, pouco me importando se entendem ou não. Ou melhor: ficando satisfeito se o entendem mas nada preocupado com o seu oposto.
Fazer diferente, mesmo que fora dos códigos habituais de comunicação, é uma necessidade que a todos assola de quando em vez.
A diferença entre a grande maioria dos que usam a fotografia e de alguns que também a usam, é que estes, nestes casos, pouco se importam com a reacção ou interpretação do público. “Likes” e “Coments” são “Cenas que não os assistem”.
Fazem-no e exibem-no porque lhes apeteceu, porque foi assim que alinharam a cabeça, o olho e o cérebro. E não para que outros gostem, ou mesmo que interpretem, entre dois clicks ou o passar rápido das páginas de um site ou revista.

Se o objectivo de um fotógrafo for a comunicação de massas, o chegar a todos, o fazer passar uma mensagem, o ganhar apreço ou dinheiro, mesmo que seja com uma pasta de dentes ou com um pôr-do-sol, esqueça-se tudo o que disse acima. Sigam-se as regras da academia, as fórmulas e os algoritmos, as modas e as convenções.

Mas se o objectivo for colocar a sua alma no que faz e mostra, pouco preocupado com as interpretações ou opiniões de terceiros…

By me