quinta-feira, 22 de maio de 2014

Sorte ou nem tanto



Dizem que ter uma ferradura dá sorte.
Depende!
O mesmo não dirá o equídeo, onagro ou muar que a tenha perdido.
Tal como não o dirá quem, a tendo, a tenha recebido em pleno na cabeça.

Hoje sinto-me como asno fosse.

By me

Momentos



Há sempre uma madrugada que espera por si. Seja a que horas for do dia.

A questão é saber se você espera pela madrugada.

By me

Passageiros



A conversa já estava a azedar. Não era nada comigo, mas levantei o nariz do livro para a seguir, que as vozes já se alteravam
Estávamos no comboio suburbano, parados numa estação. A troca de palavras era entre o revisor e um passageiro. Mas a comunicação mal se fazia.
O passageiro, preto retinto, praticamente não falava português, tentando fazer-se entender em francês. Muito polidamente, mas em francês.
Por seu lado o revisor pouco ou nada sabia ou queria saber daquela língua. Apenas lhe interessava que o bilhete não era válido e havia que pagar a multa. Principalmente aqueles “escarumbas borlistas”, que tinham que pagar como todos os outros
A dado passo, agarra o passageiro por um braço, arranca-o do banco e arrasta-o para fora da composição. Os modos violentos do funcionário da CP pareceram-me muito para além do aceitável perante a atitude do passageiro.
Sabendo que o francês não é uma língua universal (e é pena porque até é bonita) resolvi intervir, quanto mais não fosse como intérprete. Pelo caminho que as coisas levavam, aquele fulano até que iria passar um mau bocado se ninguém o entendesse
Quando cheguei ao edifício, cruzei-me com o revisor que regressava à composição. Espumava e praguejava como poucos.
No cais, passageiros largavam impropérios contra a CP, o revisor e o passeiro borlista. Nada justifica estes atrasos!
E o comboio partiu.

Entrei meio a medo no gabinete do chefe da estação, onde este estava com a dificuldade que eu previa: a língua. Mas agora o tom da conversa tinha baixado para níveis civilizados.
Ofereci-me para traduzir, e a história assentava em mal entendidos. Tinha ele comprado uma senha de passe, aquando da sua mudança de residência para aquela zona, havia dias. Tinha perguntado se valia por um mês, o que lhe disseram que sim. O que não lhe explicaram era que se tratava de um mês de calendário e não de trinta dias a contar da data de compra.
E os bilhetes anteriores que tinha consigo comprovavam a veracidade da história.
Acontece, porém, que o chefe da estação já nada podia fazer. Apesar de estar incomodado com os modos do revisor, o auto já estava levantado. A multa teria que ser paga, até porque o infractor já estava identificado.
Havia apenas uma coisa a fazer: Apresentar a história no Gabinete de Apoio ao Cliente, no Rossio, e esperar que a sede resolvesse a questão. Ele próprio telefonaria para lá para contar a história.

Já que estava apeado, decidi acompanhar o caso. Fui com o passageiro até lá. A probabilidade de encontrar gente que fale francês é pequena nos tempos que correm.
Pelo caminho contou-me a sua história, rica de detalhes de países pobres e de dificuldades. Migrante clandestino, tinha conseguido legalizar a situação havia pouco, mas este tipo de situações só lhe estragavam as possibilidades de ficar em permanência.
Na altura, trabalhava na construção do tabuleiro ferroviário da ponte 25 de Abril. No turno da noite. E a jorna já estava perdida, que não lha iriam pagar com aquela atraso todo.
Chegados ao Rossio, apresentei o caso, mas nem tive muito que fazer já que a simpática senhora que ali estava não só já sabia do caso como dominava o francês.
Apesar disso, e tomadas as notas necessárias sobre a questão do bilhete, eu não me fiquei, que a questão da atitude do revisor me incomodava.
Ali mesmo formalizei queixa contra ele, por comportamento racista, impróprio e violento para com os passageiros.
E fiquei de voltar a saber o resultado das duas situações.

Passadas duas ou três semanas, recebi uma carta das relações públicas da CP, onde era informado do arquivamento do processo contra o passageiro, por terem sido provadas as suas argumentações.
Quanto à minha queixa sobre o revisor, nunca me responderam, mas deixei de o ver naquela linha, como era hábito. Suponho que tenha levado a sua raiva latente contra outras cores para outro lado. Pobres utentes dessa outra linha!

E o passageiro? Durante algum tempo cruzei-me com ele na estação. Depois deixei de o ver e aos seus conterrâneos.

Parte da comunidade Zairense migrou deste subúrbio para um outro qualquer mais barato, e ele deve tê-la acompanhado.

By me

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Pequenas frustrações pequeno-burguesas



Chegar um tipo a casa, desenfarpelar-se ficando como veio ao mundo e, querendo beber algo antes do jantar, constatar que a última garrafa fora aberta na véspera.
Depois de hoje, não mereço!



By me

Doi-me a alma


Ex-Café


Ex-Pronto a vestir


Ex-Stand de automóveis

Estou sim?



- Estou sim, bom dia.
- Bom dia! Estou a falar com o senhor Duarte?
- É o próprio.
- O meu nome é Maria Silva e estou a falar em nome da empresa XPTO…
- Só um instante, que a minha memória é fraca. Deixe-me tomar nota… Disse-me que o seu nome é Maria Silva?
- Exactamente. E queria perguntar-lhe…
- Só mais um bocadinho. E disse-me que fala da empresa XPTO?
- Disse sim. E queria saber se…
- Um momento. O meu telefone deve estar com uma avaria, já que não vejo aqui o seu número.
- É natural, já que estou a falar da empresa XPTO e queria…
- Espere! Então é natural que não saiba o seu número?
- Sim, mas…
- Bem, não me parece cordial eu estar a falar com alguém de quem não posso confirmar a identidade. Quer fazer-me o favor de me dizer de que número está a falar?
- Sabe: não o posso fazer. Estou a falar de um sistema automático e as regras da empresa…
- A sua empresa não autoriza que se saiba o vosso número?
- Não, são as nossas regras. Mas eu queria saber se…
- Pois essas serão as vossas regras mas não são as minhas, p’la certa. Vamos fazer assim: a senhora liga-me de novo, de um número identificado, e a conversa pode prosseguir a partir deste ponto.
- Não posso fazer, lamento. Mas o meu objectivo é…
- O seu objectivo não sei e não creio que o venha a saber. Para que haja uma conversa é necessário que ambos os interlocutores estejam em pé de igualdade. E não me parece que seja o caso.
- Bem, nesse caso terei que desligar.

- Faça o favor, já que não fui eu que fiz a chamada. Bom dia!

By me

Mensagens subliminares



Eu não queria falar na coisa. Mas de tanto por aí se falar e de nada nem ninguém o referir, acho que rebento se não desabafar. Aqui vai:

Esteve um candidato ao parlamento europeu em Peniche que declarou que o surf deveria fazer parte dos currículos escolares.
Acredito que o tenha feito a piscar o olho aos praticantes locais, aos comerciantes locais, aos hoteleiros locais. Que pôr o país a praticar surf é um incremento para o turismo (veja-se o exemplo de McNamara) e o alimentar o sonho de crianças e jovens.
No entanto, é sabido que não pratica surf quem quer mas só quem pode; não vai a praias com ondas surfaveis quem quer mas só quem pode; não tem uma prancha de surf quem quer mas só quem pode; não tem um fato de surf quem quer mas só quem pode.
Pese embora a densidade populacional na zona costeira em desfavor do interior e pese embora a enormidade da orla marítima portuguesa, a prática de surf é para elites. Elites com dinheiro para a sua prática.
É assim estranho que esta candidata ao parlamento europeu tenha vindo defender a prática curricular de um desporto de elite nas escolas públicas.

Ou talvez não seja.
Que é sabido que os candidatos a parlamentos, europeus ou nacionais, são elites dentro dos respectivos partidos. E que os partidos se entendem como elites, estando vedada a pertença a um partido se os demais membros não aceitarem a inscrição.
O sistema de gestão da coisa pública, vulgo governação, está reservado a elites. Que assumem o nome de “partidos”. E que, uma vez eleitos para os cargos, excluem os cidadãos da responsabilidade das decisões, alegando que a democracia representativa assim o impõe.

No dia em que vir uma organização politico-partidária defender e pôr em prática, para além da demagogia popularuncha, o artigo dois da Constituição da República Portuguesa (“… visando a democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa.”), contam com a minha participação activa.

Até lá, desculpem qualquer coisinha mas têm que levar comigo.

By me 

terça-feira, 20 de maio de 2014

Livros e certezas



Naquele tempo, digital era o que tínhamos nas pontas dos dedos.
E o conhecimento também era digital: o passar dos dedos pelos livros e revistas.
Não estava ele, o conhecimento, em permanência ao nosso alcance. Na bibliotecas – privadas, dos amigos, das escolas, públicas… - era lá que íamos tirar dúvidas. Que, em não havendo telefones moveis para perguntar a um compincha ou professor, haveria que esperar o chegar a casa, ou ao café, ou ao clube, ou à escola, e esperar encontrá-los para perguntar.
A alternativa eram pequenos livros de bolso, estilo compêndios condensados, que traríamos connosco, contendo as informações mais pertinentes e mais difíceis de fixar.
Regra geral, tratavam-se de edições estrangeiras, que pouco havia disso em língua portuguesa: francês, inglês, castelhano… Mais a sério, com tudo explicadinho que não apenas as fórmulas e soluções rápidas, ficavam nos pesados tomos guardados nas estantes.

Uma ocasião tive que fazer um conjunto de fotografias mais complicadas. Implicavam o uso de anéis de extensão para macro e o uso de flash.
Claro está que não havia flashes “dedicados”. O mais que havia eram automatismos incorporados no flash, usando de uma célula foto-sensível, que regulava a duração do disparo luminoso. No caso esse sistema não se aplicava. E as tabelas inclusas na unidade também não.
Haveria que usar de uma fórmula que, não a sabendo eu de cor, era possível de deduzir do que constava no livrinho que nunca abandonava o meu saco.
Feito o trabalho e revelado o rolo, constatei que tudo tinha corrido bem.

Mas não gosto de usar algo que não entenda. Pelo menos os seus rudimentos. Pelo que, em chegando a casa, fui consultar um daqueles livros de lombada grossa mas que tudo explicam. E estava lá o que procurava.
Mas com uma fórmula ligeiramente diferente. O suficiente para que resultado, em a aplicando, fosse notoriamente diferente. Consultado outro e outro livro, encontrei mais duas fórmulas, muito parecidas, mas todas diferentes entre si, com resultados quase tão diferentes quanto o dia da noite.
Chateado com a situação, decidi inverter a ordem dos factores: deduzir eu a fórmula, a partir das bases teóricas todas e verificar qual delas a correcta.
Estranho ou não, acabei por constatar que a do tal livrinho de bolso estava certa. As demais incorriam no grave erro de serem… gralhas de impressão ou erros de tradução.

Talvez que tenha sido esse o dia em que perdi a ingenuidade sobre o conteúdo de livros, mesmo que técnicos e de valor reconhecido.
De então para cá, sem que se trate de radicalismos, tenho posto em causa o que vou lendo, comparando o que encontro com o que eu mesmo sei ou deduzo. E, em caso de dúvidas ou discrepâncias, procuro confirmações.
Com o advento da internete e do mundo digital, em que qualquer um publica o que entende, com ou sem fundamentos, as minhas cautelas são ainda maiores.
Mesmo que em sites certificados, de reconhecido mérito, o cepticismo sobrepõe-se e trato de fazer confirmações se algo me parece estranho. E, com o passar dos tempos e o aumento de certezas que vamos tendo, são cada vez mais as ocasiões em que encontro escritos que me incomodam. E da certeza do que está no papel passo à incerteza do pôr em dúvida.

Vem isto a propósito de um livro em mãos.
Acabei, há dias, um de Orwell, intitulado “Porque escrevo e outros ensaios”. Encheu-me as medidas e aprendi algo sobre o que eu mesmo escrevo (e fotografo).
Mas ter o meu saco de “ir e voltar do trabalho” sem um livro é quase como sair sem câmara ou caneta. E olhei p’ra pilha dos por ler e peguei num que, cabendo no saco, me faria saltar dos ensaios em geral para os ensaios sobre imagem em particular.
Azar o meu.
Publicado por editora de prestígio, escrito por autor que não conhecia, parecia-me apetitoso quando o comprei. E quando o peguei para ler.
Mas encontrei tanta contradição com o que eu mesmo sei – teorias e técnicas – que ainda não sei se irei lê-lo até ao fim. Mesmo indo apenas na página 40.
Ter um livro do qual se desiste a meio é sempre mau. Mas ler um livro que se sabe estar errado em diversos aspectos…
Não sei qual das duas situações é pior.
Não vou referir qual o livro em causa. Para além das questões legais, o autor não está por perto para contestar a minha opinião.
Saiba-se, no entanto, que o da imagem está certo em tudo o que nele li e que, em tempos bem recuados, me safou num momento de aperto em que tive que fazer umas fotografias macro com flash e… mas já contei isso, creio.

Nota: saiba-se que a fórmula em causa é esta, usada apenas se empregues tubos ou foles de extensão:
D = NG x 100 / f x (ER + 1)
Em que:
D – Distância flash/assunto, em centímetros;
NG – Número guia do flash em metros;
f – Abertura de diafragma escolhida;

ER – Escala de reprodução em decimais.

By me

Raisparta, pegou a moda!


Agora qualquer gabiru cria e anuncia “workshops”. E os incautos vão, pagando naturalmente.
Acontece, porém, que não se tratam de “workshops”, no sentido de ir aprender e fazer algo. Que isso é regra geral caro, difícil de organizar e necessita de recursos (espaço, consumíveis, tempo…)
Aquilo que vem sendo anunciado como “workshop” são, as mais das vezes, palestras, com debates incluídos. Sem exercícios, sem prática, sem mais nada que os participantes façam que não seja ouvir e, eventualmente, fazer perguntas ou observações.
Acontece que uma “palestra” ou “aula aberta” desperta pouco interesse e, consequentemente, pouca participação. Com poucas inscrições e poucos pagamentos por elas. Ao contrário de um “workshop”.
Os “chicos espertos” sabem-no e jogam com isso: com os termos. E os incautos vão. Coitados!
Aprende-se muito em palestras. Sem dúvida!
Mas quero ser eu a decidir se vou ouvir e, eventualmente, falar, ou se vou fazer algo de prático, conjugado com o que oiça, para aprender.

E se há coisa de que não gosto é de ser enganado!
.

Magias



Fotografia é magia!
E cuide-se quem o contestar, que terá os espíritos de Nadar, Smith, Adams, Bresson e outros a assombrar cada disparo e a aluminar cada ida à câmara escura!

É a magia do momento decisivo, a magia do congelamento do tempo, a magia da perpetuação de um olhar, a magia de um raio de luz reflectido num sorriso.
E é a magia, bem negra, do vermelho sangrento das batalhas, das luzes hipócritas dos púlpitos políticos, das sombras de manipulações publicitárias.
Mas é também a magia da aposta pessoal sobre a capacidade de reproduzir algo que se vê e os sentimentos que lhe estão associados.
Raramente a pureza do olhar corresponde ao que, mais tarde, se obtém no ecrã ou no papel.
Daí que se usem múltiplos feitiços intermédios e subtis para dar ênfase aos pós de Perlimpimpim emanados da objectiva.
Uma das subtilezas passa pela cor.
Será que aquilo que vemos e que conseguimos reproduzir corresponde ao subjectivo da sensação? Raramente!
Existem poções, elixires, filtros, que podem dar uma mãozinha no sortilégio.
Pequenas alterações que aquecem ou arrefecem os sentimentos de acordo com o fogo ou o gelo do momento ou do desejo.
Com os Photoshop’s e afins não é magia – é tecnologia! Um gesto e o efeito é imediato. Não há o jogo da aposta, a dúvida do sucesso, o mexer o caldeirão na secreta esperança de se encontrar a formula magica.
Por outro lado, o ver neste ecrã onde se lê estas linhas, subverte o bruxedo inicial. Basta que não esteja afinado, ou que não esteja afinado pelo meu, para que a poção resulte de outra forma. Vermelho, Verde, Azul (RGB), qualquer dominante na bola de cristal altera os símbolos cabalísticos.
A imagem acima é uma montagem do mesmo cenário, feita com a mesma câmara digital e esta com a calibração de cor fixa em “luz de dia” e exposição automática.
A da esquerda foi feita sem nenhum artifício ou filtro. As demais filtradas na tomada de vista pelo filtro referenciado. Nenhum ajuste de cor ou contraste electrónico foi usado.
A temperatura de cor no momento era de 4500 kelvin e, para além do “corte”, foram todas sujeitas ao mesmo efeito visual.
Saberá alguém dar por ele?

Não há magias definitivas ou absolutas!
Há a sensação de triunfo tida pelo fotógrafo realizado e as sentidas pelo observador anónimo ao se confrontar com o resultado final.
Quando tudo bate certo, o fotógrafo sente-se muito mais poderoso que Panoramix ou Merlin!


O texto e a imagem foram feitos em 2003 ou 2004, não tenho a certeza.
A câmara usada foi uma Sony Mavica, com o seu registo em disquete de 3 ½ e a sua “magnifica” resolução de 640 por 480. Está ali guardada, pronta a usar.
Os filtros referenciados fazem parte do conjunto que possuo ainda e que sempre me acompanharam na época em que só havia película e em que havia que pensar e saber antes de fotografar.
Continuo a concordar com o que aqui consta, vírgulas incluídas.


By me