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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Piadas e graçolas


Lamento dizer mas, mesmo para o projecto “Oldfashion” há rotinas! Há rotinas nas abordagens, há rotinas nas poses, há rotinas nas réplicas e há rotinas nas graçolas que vou dizendo.
Nenhuma delas foi prevista ou inventada de propósito. Antes pelo contrário, foram surgindo à medida que tenho que ir lidando com quem me aborda. E foram ficando, em uso de acordo com os presentes, idades, géneros, aspectos e disposições.

Desta vez saiu-me na rifa um cavalheiro particularmente bem disposto, daqueles de fazerem a festa, largarem os foguetes e apanharem as canas. Quis mesmo fazer de “angariador”, tentando convencer passantes a fazerem-se fotografar como ele mesmo tinha sido.
Convencida da coisa foi uma senhora, com o seu filho. Conversa vai, conversa vem com ela, tive que admitir que a minha câmara era daquelas de “meter os cornos debaixo do pano”, à semelhança de uma que seu pai tinha tido. Fica a frase na memória, para uso especial e apropriado.
No final, aquando do momento mágico de retirar a imagem e mostra-la, tenho uma outra frase feita, que uso volta e meia:
“Se não gostar não leva, combinado?”
É mesmo só uma graçola, já que tal só me aconteceu uma vez e ainda não usava semelhante dito. Mas desta vez repetiu-se!
Não gostou, de todo, do que viu! E, “armando-se ao pingarelho” como se dizia em tempos de antanho, criticou a definição e o foco!
Balelas! Tretas! Desculpas de mau pagador! O que não gostou mesmo foi do seu sorriso!
É que, apesar dos seus trinta e picos anos, a vida que presumo que tenha levado e aquilo que suponho que tenha vindo a consumir transformou-lhe o semblante em algo parecido com uns sessenta anos bem medidos, com todas as rugas associadas. Espero que o filho nada tenha herdado aquando do parto.
Mas se estava dito, estava dito e, escondendo no bolso a foto, entretanto recuperada, lá voltei a “meter os cornos debaixo do pano” e a fazer outra fotografia. Desta vez sem provocar o sorriso habitual, mantendo apenas uma ligação visual e verbal para com o pimpolho.
E, desta feita, já gostou do que lhe mostrei, ainda que nada tivesse eu alterado: técnicas de impressão ou de focagem, que funcionam em automático.
E foram-se, rindo e partilhando a foto, mãe e filho.
Quanto à primeira foto, fica nos meus arquivos, na secção de “gente”, escondida de olhares estranhos em respeito ao seu pedido.
E continuarei a usar das minhas tiradas, agora enriquecidas com uma especial, reservada para público que a entenda e aceite. E a "colocar os cornos debaixo do pano”!


Texto: by me
Imagem: me by Rui Palha

domingo, 11 de julho de 2010

Afectos e fotografia


Tenho vindo a afirmar, ao longo dos tempos, que fazer ou ter uma fotografia é o resultado de um sentimento de cobiça ou desejo de pose. Por aquilo que nela está iconoficado: o pôr-do-sol, a pessoa, o objecto.
Apenas para dar um exemplo que consubstancia esta afirmação, quantos serão os que fotografam e exibem objectos que possuem? Com que lidam todos os dias? A excepção será, talvez, quando a fotografia e a sua exibição sirva para demonstrar que se possui o retratado – pessoa ou objecto.
E quanto mais precioso é o icinografado mais sacramentalmente se guarda a imagem: álbuns especiais para aquelas férias ou casamento, molduras caras para este ou aquele retrato de um parente ou amado e, cereja no topo do bolo, a carteira onde constam as fotografias de parentes, em regra muito queridos, vivos ou não. E, quando se fala nos filhos, netos, namorado/a ou pais, aí está a carteira (mais modernamente o telemóvel) onde se encontram as fotografias mais recentes ou significativas.

Mas a fotografia também é uma manifestação de afectos negativos! Fotografa-se o acidente, o insólito, o feio, o incómodo!
E, aqui, há dois tipos de motivos: Ou o exaltar o fotógrafo, mostrando assim, com a fotografia, que ele esteve no local, que testemunhou aquela situação ou, menos frequente mas real, como forma de exorcismo do mal retratado, tentando assim que o iconificado não passe disso e não seja parte integrante da vida do fotógrafo ou exibidor.
Um pouco como sucede com as anedotas, de que tanto nos rimos, e que, se bem as analisarmos, nunca falam de coisas agradáveis ou boas que tenham sucedido aos intervenientes. Pelo contrário, rimo-nos com o mal dos outros como que, com o riso, possamos afastar a possibilidade de o mesmo nos acontecer.
Mas há ainda uma terceira atitude negativa que é tida perante a fotografia. Neste caso, não perante o acto de a fazer mas antes para com ela enquanto objecto ou ícone: a negação ou destruição!
O rasgar, queimar, destruir de uma fotografia é uma forma de remover o que nela consta ou conta das vidas de quem assim age. Uma forma de negar o passado ou tentar, com isso, impedir que este se repita ou continue.
Exemplo mais ou menos corriqueiro é o que sucede aquando de uma zanga entre namorados ou quebra de votos de afectos. As fotografias do “outro” são destruídas, na tristeza do privado ou na raiva do público.
Acontece mesmo ser o retratado a exigir a devolução de fotografias que o “outro” possui de si, impedindo que o mesmo “outro” possua o que quer que seja de quem protesta ou reclama. Nem mesmo a sua imagem!
O gesto supremo, então, é a adulteração da fotografia, rasgando-a e destruindo apenas a metade em que se vê o “outro”, como que um afirmar que se continua por cá, vivendo, mas que o “outro” já não faz parte dessa vida.
Refira-se, também, nesta relação de afectos negativos para com a fotografia, a adulteração bem mais sofisticada da imagem que foi o caso (quem sabe se ainda é?) do apagar em fotografias presenças de gente caídas em desgraça perante o regime. Como sucedeu, por diversas vezes, na União Soviética, para citar apenas casos públicos e notórios.

É assim que se constata que a relação com a fotografia (ou com a imagem no seu todo) é uma relação de afectos, de desejos de pose ou de repúdio, como os agora descritos.
E você? Já destruiu alguma fotografia?


Texto e imagem: by me

sábado, 10 de julho de 2010

Ginástica de luz


Sabemos, com a certeza que a ciência nos dá e a prática nos ensina, que fotografar é registar a luz.
A que é emitida ou reflectida dos objectos e que, passando por um qualquer sistema que a canaliza e organiza, vai modificar, transformar ou deformar um pedaço de matéria. Cabe ao fotógrafo rectangularizar a luz e permanentalizar essa modificação.
Isto é fotografia na sua essência. Todas as outras considerações sobre estética, ética e técnica são argumentos por vezes fúteis ou inúteis sobre esta verdade factual.
Podemos pensar em significados e significantes, mensagens e interpretações, se o retrato transmite a alma do retratado ou se a perspectiva é bonita. Mas sem luz, a nossa matéria-prima, nada aconteceria!
É ela que modela os nossos assuntos, que pinta o nosso rectângulo (um dia fotografarei em formato triangular!), que atrai as nossas atenções e nos mostra o que nos cerca. E quando ela lá não está como a queremos, ou quando queremos ou quanto queremos, usamos toda uma parafernália de equipamento para que esteja. Reflectindo ou projectando, continuamente ou por breves instantes, com instrumentos minúsculos ou com camiões e cordões umbilicais atrás.
Quando em exteriores, dependemos as mais das vezes do sol e das sombras naturais. Os contrastes são de mais complexo controlo e não raramente olhamos para um dado assunto, subjectivamente interessante, e dizemos: “Isto até tem graça e é bonito, mas com esta luz não!” E registamos um eventual regresso ao local em condições mais propícias.

Um exercício de imaginação e de capacidade (ou incapacidade) de resolver problemas relacionados com a luz é passar um dia plantado no mesmo local, fotografando.
Com árvores próximas e afastadas, provocando sol e sombra nos assuntos próximos e distantes. E, se a mãe natureza ajudar ao exercício, que o céu esteja ora coberto, ora descoberto, fazendo variar os contrastes de luz com frequência.
Para dificultar o exercício, tenham-se ideias definidas sobre semiótica, estética, perspectiva e mensagem. E recuse-se o recurso a luzes artificiais.
Garanto-vos: o maldito do movimento de rotação do planeta deita por terra as melhores intenções, obrigando a ginásticas mentais e práticas para encontrar equilíbrio entre todos os factores.
E, muitas vezes, ficamo-nos pelas eliminatórias!

Texto e imagem: by me

terça-feira, 6 de julho de 2010

Namorados


Uma das coisas que desde cedo me surpreendeu, no meu projecto “Oldfashion”, foi a escassez de namorados.
Refiro-me aos namorados em fim de adolescência ou início de idade adulta, algures entre os 17/18 anos e os 25/30 anos.
Nos outros grupos etários, acima deste, também fui surpreendido, mas pela positiva: apareceram bem mais do que eu esperava.
Mas naquela idade, em que se diz ser própria do namoro (como se houvesse uma idade certa para namorar!) poucos foram.
Entre as excepções, recordo uma em particular:

Passou-se num Domingo, dia de festa e música no Jardim da Estrela, pelo que estava à pinha.
De entre a multidão surge um casal com uma cara jovem conhecida: trabalhamos na mesma empresa. A jovialidade e alegria dela, que sempre nos contagiaram, desta feita transbordava por todos os poros.
Depois das saudações e beijocas da praxe, quiseram, ele e ela, fazer uma foto.
O cúmulo do invulgar não foi o relacionamento e as idades. Foi que, no lugar de olharem para a objectiva e ou fotógrafo, para o futuro, para o espectador, como todos os restantes, a sua pose foi a de olharem um para o outro, intensamente, como se o mundo e o tempo se resumissem a ali e então.
Bonito de ver e mais ainda de viver!
Acontece que eu estava em dia de surpresas: enquanto a caixa de madeira transpunha para o papel aquilo que a luz mostrara, era a altura do pequeno inquérito onde, e para além do primeiro nome (e só esse) e de outras minudências, perguntava pelo ofício.
E ela, que fazia as despesas da conversa, depois de dizer de si mesma, voltou-se para o companheiro e atirou-lhe: “Olha lá! Afinal, em que trabalhas tu?”
Espero que a minha cara, escondida que estava atrás da minha barba e sob o boné, não lhes tenha demonstrado a minha estupefacção.
Mas espero, por outro lado, que tenha espelhado a minha alegria por constatar que, pelo menos para aqueles dois, os afectos se sobrepõem às questões comezinhas e materiais, como “que fazes?” ou “quanto ganhas?”!

Na imagem? Não, naturalmente que não são eles. Que a minha câmara, por muito boa que seja, só consegue registar o “agora-que-já-é-passado”. O futuro ainda não está ao seu alcance.
Na imagem está, antes sim, um outro casal de namorados. Os de idade mais avançada que passaram e pararam em frente da minha câmara.
E que, para além desse detalhe que, só por si, faz dela uma imagem ímpar, foi este o único momento em que não estiveram agarrados, de mão dada ou braço dado, das muitas vezes que os vi passar no Jardim da Estrela.

Que os jovens tenham pudor, receio ou mesmo medo de, com uma fotografia, fazerem um documento mais ou menos comprometedor de um compromisso que não querem ou não sabem assumir, ainda entendo. Além do mais, já não é para os jardins que vêem namorar. E as fotografias dessa intimidade semi-pública são feitas pelos próprios, que não há jovem que não tenha câmara, telemóvel que seja.
Agora este casal de namorados, assumidos que mo disseram, terem esta atitude perante a câmara… Talvez um dia o entenda, se tiver a sorte de chegar enamorado a esta idade.

Texto e imagem: by me

A mentira


Primeiro veio um.
Estávamos em meados de Novembro e a dificuldade da língua foi, não apenas mais que evidente, como a mais complicada que já tive. Nem mesmo com aquele marinheiro Polaco, que nada sabia que não a sua língua natal, mas cujo guia rápido de conversação Polaco/Inglês/Polaco sempre ajudou um pouco.
Mas deu para ele entender que era grátis e quis fazer uma foto. Não lhe consegui arrancar um sorriso para a posteridade.
Passado um pouco, não muito, regressa com um companheiro. Com este a comunicação foi muito difícil, mas já dava para nos entendermos, entre palavras e gestos. Queriam fazer uma com os dois.
Pois que seja, que estamos em época baixa e não é uma extra que me empobrece.
E continuei a não ser capaz que sorrissem.
Feita, entregue e agradecida, ficaram à conversa na sua língua bem distante da nossa. Mas sempre deu para irmos percebendo (eu e um casal que por ali estava a assistir à função) que estavam a discutir.
Uns minutos passados, regressam e pedem para fazer uma segunda. Pelo que entendi, a questão era saber quem ficava com aquela que lhes tinha entregue. Com os pedidos habituais e as recomendações à protecção divina que é típica de quem vem daquelas bandas.
Quando me preparava para fazer uma segunda impressão, eis que constato que regressam ao local da pose. Mais, um deles, apesar dos protestos do companheiro, começa a despir-se, retirando um surpreendente número de camisolas, umas mais grossas que outras.

“Está grosso”, disseram os que assistiam. E pensei eu.

Mas não! Parou nos propósitos que aqui vêem e foi assim que quiseram ficar na fotografia. Sempre sem um sorriso.
Despediram-se com um forte aperto de mão, vénias, sorrisos rasgados e um franco elogio meio invejoso à minha barba.

Interpretação minha:
“Fortes, másculos, rebitesos, sem frio e sem fome”
Quem diz que a fotografia não mente?


Texto e imagem: by me

domingo, 4 de julho de 2010

Histórias de uma fotografia


A história aconteceu a vários tempos.

Conhecemo-nos no Jardim da Estrela, num domingo em que a Banda da Carris actuou. Durante o concerto, estava a câmara “Oldfashion” encostada, que o espaço era reduzido e as atenções mais para a música que para ela. Eu ia fotografando com a DSLR, a curta distância que as precauções assim o impunham. Mas, a dado passo, um homem acercou-se.Ex-marinheiro da Armada, recordava ter feito uma fotografia com uma câmara destas, no Terreiro do Paço, e que o fotógrafo tinha feito uma montagem desta com a da sua noiva. Há quase cinquenta anos. E que a esposa ainda a tinha a carteira.
Confesso que não resisti, engoli a vergonha e pedi para a ver. Foi ter com a esposa, que estava a uns metros de distância com amigos e regressou com a foto. Uma 9x12, dobradinha e quatro, faltando já prata nas zonas dos vincos, mas as caras ainda se viam, bem como o tom rosado da aguarelada dada às flores em redor.
A dona e retratada, à distância que aquela era uma conversa de homens, mantinha uma vigilância feroz sobre o seu tesoiro, não fosse algo acontecer-lhe.

Algum tempo depois, duas semanas mas não garanto, eis que o casal se cruza comigo de novo. Conversa vai, conversa vem, e perdendo toda a vergonha que ainda me pudesse restar, tenho o topete de lhes perguntar se poderia fotografar aquela antiguidade. Aquela fotografia com história. E que me comprometia a retoca-la, na medida do possível, eliminando os vincos e recompondo os pedaços em falta. E que lhes daria uma cópia impressa disso.Não sei se pela lisonja de saberem a fotografia importante, se pela cobiça de a terem retocada, acederam e eu fotografei-a com a 6Mpixel.Já em casa, e em tendo tempo, dediquei-lhe a minha melhor atenção. A empresa era mais complicada do que eu tinha suposto, que havia que inventar muito, mas lá fui dando conta do recado. Imprimi-a e coloquei-a junto com os “pertences” do “oldfashion”, que só assim os voltaria a encontrar, no jardim da Estrela.

O tempo foi passando e as férias de verão e a minha falta de disponibilidade para lá ir regularmente fizeram com que passassem mais de dois meses sem que nos cruzássemos. Quando, há coisa de semana e meia, os vi aproximar, a relação do casal era a do costume: ele a marchar à frente, ela arrastando-se atrás uns metros.
Veio ele direito a mim, com um sorriso equivalente ao que eu mesmo exibia e, após as cortesias habituais, entreguei-lhe a fotografia. O seu sorriso alargou-se ainda mais, agradeceu-me e afastou-se em direcção à esposa. E seguiram os dois, mais um casal que os acompanhava.
Um pouco depois, voltaram ambos pelo mesmo caminho e ele, desviando um pouco o rumo, disse-me que a mulher tinha gostado muito e que estava a pensar em coloca-la numa moldura a comprar. E afastaram-se.
Durante todas estas conversas, nunca consegui ouvir a voz da senhora e o mais que vi para além do olhar vigilante quando eu tinha a foto em meu poder, foi um sorriso tímido depois de ter recebido a cópia.

Hoje, a meio da tarde, cruza-se comigo uma senhora de idade. Uma daquelas que costuma frequentar o jardim, reformada que está, e com quem vou conversando quando calha.
Cumprimentámo-nos e, em tendo andado uns dez metros, volta para trás e interpela-me. Diz-me que já tinha visto a fotografia, que estava na salinha do casal, dentro de uma moldura de madeira comprada para o efeito. Que estava muito bonita e que a dona me agradecia muito pelo trabalho.

Tenho pena que a personalidade omnipresente e omnipotente de um sargento da marinha na reforma tenha eclipsado a possibilidade de a esposa fazer um agradecimento pessoalmente.
Mas o recado foi dado e a minha satisfação em a saber contente chega-me! Quem sabe que histórias e estórias esta foto, sacralmente guardada por cinquenta anos numa carteira e agora à luz do dia, tem para contar?

Texto e imagem: by me

sábado, 3 de julho de 2010

Mais uma


Assim que cruzaram o portão do jardim e me viram, nem hesitaram.
Aquele casal em finais de 50’s, princípio de 60’s, acercou-se de mim em passo rápido e sorriso brilhante.

“Boas tardes! Nós queríamos que nos fizesse um retrato!”
Nem tinham falado um com outro! Foi assim, em uníssono e de chofre.
Para mim, que tinha iniciado a tarde havia pouco, era um bom prenuncio. Lá lhes expliquei que à noite iria para a Internet, que era de graça…Aqui a coisa complicou-se! A net não atrapalhava, o preço sim.
Quiseram saber porquê, e eu expliquei. E eles afirmaram que continuavam a querer ser fotografados e levar a fotografia, mas que faziam questão em a pagar. Argumento para cá, resposta para lá… Parecia uma discussão num mercado árabe, mas ao contrário: eu a querer oferecer, eles a quererem pagar!
Mas o seu desejo em quererem o retrato mais a sua determinação em o pagar acabou por me convencer.
Depois do “olha o passarinho” e enquanto o processo interno se desenrolava, explicaram-me o porquê:
Desde que se tinham começado a namorar que se faziam fotografar por todos os “à-lá-minuta” que encontraram. Têm-nas todas desde então e revêem-nas de quando em vez com prazer. Esta seria mais uma.
Enquanto se afastavam em direcção à exposição iam ver - segundo me contaram – lamentei não lhes ter perguntado onde e quando tinham feito a primeira.
Mas, afinal, nem sequer é importante. Espero, antes sim, que depois da minha possam e queiram fazer muitas mais.

Texto: by me
Imagem: me, by a friend

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Apelo


Procura-se, com afinco, uma bicicleta e fé!

A bicicleta:
Amarela, com guarda-lamas azuis e a imagem e o nome de Nodi impressos de lado. É de tamanho infantil, tem duas rodinhas extra atrás para que não caia, é nova e chia ao andar.
A dona, Madalena de seu nome, deslocou-se ao Jardim da Estrela sábado passado com os seus pais, vinda de Odivelas nos arrabaldes, Com os seus cinco anitos, o seu intuito era usufruir do espaço, da tarde e da infância, andando no seu velocípede quase novo.
De acordo com o relato feito pelos pais, o brinquedo, que terá custado pouco mais de oitenta euros, foi emprestado pela mocinha a uma outra amiguinha ali recém-conhecida e que por ali também brincava. Enquanto a legítima dona brincava com uma bola, a outra dava umas pedaladas. Mais velhinha um pouco, gorduchinha e de vestido branco, não mais foi vista ou à bicicleta.
Nessa tarde e na seguinte, o jardim foi batido pelos pais, o alerta foi dado aos que por ali costumam estar, na esplanada, nos bancos e nas relvas, aos polícias de giro…
Até às 18 horas do dia seguinte ao desaparecimento, não havia boas notícias para contar.

A fé:
A fé da Madalena na partilha, na generosidade e na espécie humana.
Esta garotinha, triste e repreendida pelos pais por causa do seu empréstimo, terá perdido a natural espontaneidade em emprestar e a fé nos seus iguais.
Esta má experiência, que aos cinco anos pode ser traumatizante, irá prepará-la para o mundo agreste, violento e egocêntrico em que vivemos. Mas é uma preparação particularmente precoce e dolorosa.
Deveria durante muito tempo ainda – toda a vida se possível – ser solidária, generosa, partilhante de si mesma e do que possuir para com os que possam necessitar. “É de pequenino que se torce o pé ao pepino”, mas este deveria crescer a direito, rijo e recto em direcção aos outros, ao grupo, à humanidade.

As alvíssaras que se possam dar pela recuperação desta bicicleta e desta fé não serão em moedas. Medem-se em afectos!

Texto: by me
Imagem: by me (e não, não são os olhos da Madalena)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Culturas


Não eram particularmente bonitas. Pelo menos pelos nossos padrões Lusos. Mas também não eram feias. Nem pelos nossos padrões nem, suponho, pelos delas.
Irmanadas nos seus metro e sessenta, mais ou menos, diferiam nos volumes, sendo que uma era bem seca de carnes, enquanto que a outra era rechonchuda, sem ser gorda no entanto.
Partilhavam também as roupas modestas, os cabelos longos em trança numa e apanhados na outra, a carteira dependurada a tira-colo e os pensos-rápidos, os Borda d’Água e os calendários, que iam vendendo a quem encontravam no seu périplo pela cidade.
Ninguém duvidaria que se tratavam de duas Romani, ciganas vindas da Roménia.
Uma delas já eu tinha visto por ali, com a curiosidade dos seus vinte anitos e de quem vagueia sem rumo certo. Já tinha parado para ver o que ali acontecia, mas a sua timidez, bem manifesta no seu sorriso nervoso, sempre a arredara da frente da objectiva.
A outra, a mais gordita, ainda não a havia visto. Comunicativa e com um sorriso franco e cativante, logo identificou a sua conterrânea que tenho no expositor. E ainda que tenha tentado convencer a amiga em a acompanhar na experiência fotográfica, acabou por a fazer sozinha. Os pensos e o Borda d’Água ficaram de fora, mas o calendário fez questão de exibir para a posteridade. Talvez por ter a imagem da Senhora de Fátima com os pastorinhos.
Conversa feita, fotografia entregue, risos tidos, pedido de uma segunda, como não poderia deixar de ser, partiram para outras paragens por ali, em busca de alguém que quisesse o seu negócio.
O que me deixou mesmo espantado foi o fecho do episódio.
Antes de se afastar, a retratada quis-me cumprimentar e esticou-me a mão para um quase viril aperto de mão. Que retribui sem mais. E a amiga, que já tinha dado uns passos, voltou atrás para cumprir este ritual que em nada consta das tradições de origem. Que ao que sei, que fui saber para confirmar, por lá e nesta comunidade, contactos físicos entre Romani e não Romani são raros em havendo diferença de género. Mais ainda, se um homem da família não estiver presente.
O que me deixou mesmo boquiaberto foi o seu remate de saudação: levantado a mão, levou-me àquela palmada amigável de palma com palma. Sinal de código de grupo juvenil, em nada relacionado com as suas origens e menos ainda com as nossas diferenças de idade. Foi toque de cumplicidade, um agradecimento personalizado de alguém que pouco ou nada tem para dar em troca do recebido. E foi também um misturar de culturas, um mostrar conhecer os hábitos locais, ainda que não os certos.
Esta aculturação, e facto de o ter feito, fez com esta fotografia feita no Jardim da Estrela fosse das mais bem pagas que ali tive.
Senti-me honrado com a deferência!

Texto e imagem: by me, in “Estórias do Oldfashion”

terça-feira, 29 de junho de 2010

The last one



Most of the times, we do know when we are doing our first picture. A person, an object, a situation. And also we use to remember it, since the first time is always important.
But, do we remember the last one? Do we ever know, when shooting, if it is the last one? Generally, we don’t! We may realize, latter, that it was the last one, but, knowing it when pressing the shutter release, is seldom.
Through the years I had the chance of being there when the last photo was done. And when the one in front of the camera not just knew it, but also make everything so that the picture was done.
The first time happened some 40 years ago and I was an eyewitness. It was, probably, one of the most important photographs of my life.
Another one took place last year. This one!
One day, in June, these two came to me, at the Jardim da Estrela, where I play the role of an old fashion photographer, with my fake old camera.
They wanted to know if I have two pictures, one of each one, but both of them with a friend. He died some time before, but they want to have that souvenir. I did, but at home, so I promise them that I would bring it with me next time.
A week or so later we meet again and they received their photos. But she wanted some more: a photograph of both of them. And, of course, I did it. But they look so in love that I also took this one, with my reflex camera. Some time after we meet again, he and I, and I give him the photograph.Since then, we meet several times. He only. I never saw her again, walking around the park as she use to.

This week he came by once more and we chat a little. At some point, I ask him about her.
“She died last November”, he told me. And, shrugging his shoulders, he added: “Women problems, you know!”
I was speechless. What can we say on those moments?
But he added, smiling as always:
“I guess she knew it was her last picture, that one you make of us. You know, I still have it at home.”

We said some more non important things and he went away, with his swinging walk and his long lasting smile.
And I stood there, thinking on how the meaning or importance of a photograph can change. A trophy to some, a memory to others or even a farewell from those who left.
Is not easy to know we did the last one!


Texto e imagem: by me in “Estórias do Oldfashion”

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Au revoir



Nunca vos aconteceu? Acordarem de manhã com uma música no ouvido? Pois a mim acontece-me volta e meia.
Nunca percebi muito bem o motivo de tal e muito menos os critérios para que seja essa e não qualquer outra. Por vezes é uma mais popular e simples, outras uma mais pesada e “rocalhada”, por vezes ainda uma qualquer outra menos comum e insuspeita.
Pois nesta manhã de domingo, que tinha previsto ir passar no Jardim da Estrela, dei comigo a sair da cama com a Marselhesa no ouvido. O “Allons enfans de la patrie” não havia meio de querer parar de sair pela boca, ecoando na cabeça, materializado mais por assobio que cantado, que só sei a primeira linha. E nada o justificava, que não o tinha ouvido recentemente, não tinha visto nenhum filme desta língua, nem mesmo ouvido qualquer música com esta origem nos últimos tempos.
Não prestei muita atenção ao facto. Até porque o conceito que à época, o acompanhou – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – fazem parte da minha maneira de estar na vida.
E eis que dou comigo, em pleno Jardim da Estrela, com concerto musical por fundo, a fotografar desesperadamente. Foi uma tarde altamente proveitosa, sob diversos pontos de vista, incluindo o número de imagens efectuadas. Felizmente levava reservas de energia e matéria-prima, ou teria ficado apeado.
Com o que eu não contava foi o ter que usar dos meus parcos conhecimentos da língua francesa com transeuntes, fotografados ou não. Em regra o inglês sobrepõe-se, sendo que é o actual “esperanto”. Mas esta foi uma tarde francesa.
E, dos diversos contactos que tive nesta língua, evidencio com particular ênfase esta mocinha que aqui vedes. Depois de uma troca de fotografias, fiquei sabendo que, para além de marselhesa de origem, é estudante de fotografia. E, mesmo estando de férias, não dispensa a sua câmara e o seu uso. Recomenda-se!
O que também se recomenda é reparar com atenção no que tem nas mãos: uma Bronica 6x45. Película formato 120, doze fotografias por rolo, nada de zooms ou artifícios electrónicos. É com esta ferramenta que aprende o ofício, suponho que também com qualquer outra digital que possua. Mas esta foi a que escolheu para trazer nas férias.
Digam lá o que disserem os pedantes da fotografia contemporânea, a fotografia faz-se pensando, mesmo a reportagem. E esta câmara é uma das que obriga a tal exercício. Pela forma como é manuseada, pelo custo de cada imagem, pela sobriedade das opções. Há que saber o que se faz antes de o fazer. Ou, por outras palavras, há que saber o porquê antes de se encontrar o como.
Fica daqui o meu aplauso à Lola, assim se chama ela, bem como à escola onde estuda que a incentivou a tal.
Au revoir!

Texto e imagem: by me, in “Estórias do Oldfashion”

domingo, 27 de junho de 2010

É p'ró menino e pr'á menina



“Olha! Esta fotografia foi tirada em Sintra! E esta aqui no jardim. E esta também, lá do outro lado!”
“Ora então se sabe estas, talvez me saiba dizer onde foram feitas as outras, do outro lado da câmara.”
“Fácil! Então esta foi em Belém e estas foram aqui!”
“Boa! Pois por ter acertado em todas tem direito, completamente grátis, a fazer e levar uma fotografia feita aqui mesmo e agora!”
“Então e se não tivesse acertado?”
“Também fazia, e também de borla. Mas isso é outra conversa.”

Com estas e outras larachas, entre algumas risadas e outras conversas sérias, tive a tarde bem ocupada a fotografar.
O jardim estava cheio por via do concerto promovido por umas bebidas ditas “refrescantes”. Não gosto delas, mas a música sabe bem e ver a relva e os bancos assim compostinhos, com gente de todas as idades e estratos sociais, é uma alegria.
À conta da banca que montaram para ofertar as garrafinhas e que atrai uma multidão famélica de borlas e brindes, tive que improvisar e optar por outro poiso. E aquele que uso como alternativa estava ocupado com viaturas da produção do evento, pelo que tive mesmo que escolher outro local. Optei por uma meia distancia, entre a multidão e o quiosque-esplanada, onde agora vou tomando o meu cafezinho da ordem (bem bom, por sinal!)
Pois quando cheguei do almoço, perto desta nova localização, estava este “palhaço”, a tentar fazer pela vida. O seu negócio era vender estes balões de feitios. E, apesar do seu traje, o limitado do seu artesanato não aumentava com o seu sotaque de terras de vera cruz.
Mas como já lá estava aquando da minha chegada e a nossa proximidade seria alguma, fui ter com ele para lhe perguntar se não se importaria que montasse a minha banca por perto. É que, ainda que com negócios e clientela diferentes, acabaríamos por fazer alguma concorrência recíproca. Por mim, não me importava, mas ele estava a ganhar a vida.
Pois não levantou obstáculos, que em sendo um “sem licença”, tal como eu, ser-lhe-ia difícil de o fazer. E ainda acabou por me pedir, caso me fosse possível, o fazer-lhe umas fotos dele em acção, para um eventual portfolio que queria fazer.
Mas eu mesmo estive por demais ocupado para poder fazer muito mais que isto. E que a luz também não ajudava, que os “contra-luz”, em reportagem, implicam um cuidado que não pude ter.
Aliás, estive tão ocupado que, perante o calor que se fazia sentir, fui salvo por um velho conhecido ali do jardim, que me levou uma daquelas garrafinhas plásticas. Gostasse ou não, líquidos são líquidos e eu estava sedento. E, antes de se afastar, ainda me soube dizer:
“Com essas barbas, estás cada vez mais oldfashion!”
Bem, eu uso a pelagem, o colete e a barriga, este aqui usa a maquiagem, o colorido e o sotaque. E se ele cobra umas moedas, eu cobro um sorriso.
Em qualquer dos casos, tanto no negócio dele como no meu,

“É p’ró menino e p’rá menina, dos 8 aos 80, bem medidos para um lado e para o outro”.

Texto e imagem: by me, in “Estórias do Oldfashion”

sábado, 26 de junho de 2010

Aguaceiros? Pois sim!



E, se ao sairdes da cama num inicio de fim-de-semana, constardes que será de aguaceiros, não pondereis seriamente se ficareis em casa ou se saíreis para fotografar. Saí!

Tereis assim oportunidade de retratar:
gente dos oito aos noventa e dois anos,
solitários,
aos pares
ou em grupo,
pais e filhos,
namorados,
primos,
gémeos,
colegas
ou irmanados na mesma limitação,
faladores que nem gralhas
ou surdos-mudos de nascença.

Canalizadores,
esteticistas,
psicólogos,
arquitectos,
diplomatas,
armadores de ferro,
serventes,
estudantes,
reformados,
donas-de-casa,
professores,
operadores de lavandaria,
empregados de escritório,
técnicos de informática,
carpinteiros,
técnicos de elevadores
ou serralheiros mecânicos.

Podereis ainda:
rir e fazer rir,
sonhar e fazer sonhar,
fotografar e serdes fotografado.

Cobrir três dos cinco continentes sem sair do lugar,
escrever, soletrar ou copiar nomes arrevesados,
ter gente a não acreditar na oferta insólita
e outros a querer aproveita-la até à última gota.

Ver passar:
a polícia,
o vendedor de flores,
o de castanhas assadas,
o guarda-jardim,
os que passeiam o cão,
e por eles ser cumprimentado com um da casa.

Ser confidente de uma metade de um arrufo de namorados de longa data e prometer-lhe uma compensação por uma fotografia roubada.
Ver alguém triste e arrancar-lhe um sorriso porque, afinal, não é exactamente como se vê ao espelho.

Não!
Se o fim-de-semana prometer aguaceiros, saí e fotografai!
Não há duas nuvens iguais, tal como não há pessoas iguais nem fotografias iguais.
Mas os sorrisos, esses, provocam sempre o mesmo: outro sorriso.

Texto e imagem: by me, in “Estórias do Oldfashion”

sexta-feira, 25 de junho de 2010

À fé de quem sou!


Negra! Daquele tom africano que quase nos faz pensar em algo levemente azulado. E que, pela minha falta de hábito em registar este tipo de tez, me deixa quase à-toa em o reproduzir com exactidão.
Bonita! Francamente bonita. Pelo menos naquilo que lhe podia ver, ou seja, as mãos, metade dos pés e a cara. Que todo o resto estava integralmente coberto. Num sinal inequívoco da sua fé ou crença.

Quando passou para cima, acompanhada pela pequenada, olhou mas sem muito interesse, que a canalha miúda absorvia-lhe a atenção. Mas no regresso, com mais calma, ficou a olhar à distância para o meu artefacto. Sentindo-lhe interesse, sorri-lhe e gesticulei-lhe que se aproximasse, o que fez.

A comunicação começou por ser difícil e a medo, que pouco sabia de português. Mas em sabendo-me a falar, ainda que mal, o francês, tudo se tornou mais fácil e quis fazer uma fotografia.

Enquanto a impressão acontecia, fui inquirindo a anotando as respostas, como de costume. E foi aí que a coisa aconteceu!

Não tinha a senhora entendido que não apenas iria haver uma eventual publicação na web como, menos ainda, que eu ficaria com uma cópia do que lhe entregasse. E isso quase que a ofendeu. Acredito que entrasse violentamente em confronto com a sua religião que, ao que sei no seu país de origem – Senegal – é seguida com muito rigor.

Desfiz-me em desculpas pelo meu erro ou engano na informação e prometi-lhe solenemente que, em chegando a casa destruiria a cópia que possuía. Que ficasse tranquila que tal sucederia pela certa.

E tantas vezes o assegurei que ela acabou por se descontrair um pouco e passamos a uma pequena mas amena conversa. Estava há cerca de um ano em Portugal, a língua escrita entendia-a mas a falada era uma dificuldade. E que um dos objectivos em aqui estar era o continuar os estudos iniciados na terra natal, nomeadamente em filosofia.
Em chegando a casa e em tratando as imagens e dados recolhidos, confesso que me passou pela cabeça ficar com a imagem. Afinal, ninguém saberia da coisa, ninguém a veria, nem mesmo a retratada e a sua prole, pelo que nenhum mal daí adviria. Excepto…

Excepto a minha própria consciência! Que palavra dada é palavra a cumprir, mesmo que mais ninguém saiba que o fiz. Que o meu pior juiz sou eu mesmo!
E foi destruída!
E se a retratada, cujo nome eu tenho mas que aqui não referirei como é óbvio, por aqui passar, que esteja descansada:
Daquela fotografia, feita numa destas tardes de 2008 no Jardim da Estrela, não existe nenhum outro registo que não seja aquele pedaço de papel com que ficou.

Porque, afinal, seja qual for a fé que nos move (monoteísta, animista ou ateísmo) a honra é comum a todas!


Texto e imagem: by me, in “Estórias do Oldfashion”

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Quando eu morrer



Quando eu morrer não ficarei conhecido, certamente, como um tipo de bom feitio. Ainda que procure ser afável quando tudo corre bem, se me incomodam ou se me sinto atingido, reajo nem sempre da forma mais previsível ou agradável.
Foi no Jardim da Estrela. A tarde corria bem, o dia estava bonito, toda a gente parecia estar de bem com a vida. A única excepção fora uma das idosas, habituées do espaço, a queixar-se de todos os bancos estarem ocupados, para ouvirem aquela “porcaria de música clássica”. Tratava-se, entenda-se, de um concerto de Jazz, ali, ao vivo e de borla, como as minhas fotografias. Mas, pondo este comentário de parte, tudo estava a correr pelo melhor.
A certa altura surgem estas duas mocinhas. Vieram direitas a mim, sabendo do preço que cobro, e quiseram fazer uma foto. Vinham com a boa disposição própria da sua adolescência, de ser final de férias, de estarem de regresso de uma temporada de praia e novos amigos e estarem, de volta a casa, a reencontrarem os velhos amigos. Típico de um domingo, inicio de Setembro, com óptimo tempo.
No final, ao verem-se no papel, reagiram como de costume nestas idades, variando apenas nos apodos com que se mimosearam. No caso, um “Que nojo!”, normal para quem ainda não encontrou o equilíbrio consigo mesmo. Mas, quando lhes disse que se não gostassem da fotografia, não a levavam, riram-se a bom rir e fugiram com ela.
Tudo pelo melhor! Para todos os intervenientes!
Passado um pedaço, uma hora talvez, hei-las de volta. Desta feita com uma amiga, com quem queriam repetir a função. Mas, enquanto trocávamos umas graçolas, uma delas, qual Luky Luke da Estrela, saca do telemóvel, interrompe a conversa comigo e saúda o seu interlocutor. E, sem mais explicações, zarpam as três para longe. Suponho que ao encontro de quem quer que estivesse do outro lado da antena.
Não gostei! Não gostei nem um pouco! Esta mania de que quando o telefone toca tudo pára, tudo se interrompe, incomoda-me de sobremaneira. Quase que me transforma num louco furioso! É que, afinal, a vida é bem mais que os telemóveis, as fotografias, os computadores, as músicas ou o que quer que seja. O mais importante nela é mesmo aquele ou aqueles com quem estamos e desrespeitá-los assim é bem pior que um insulto ou agressão. Pelo menos eu não gosto!
Uns vinte minutos depois, bem medidos, regressam. Acompanhadas as três por dois amigos, vieram interromper a conversa que eu mesmo estava a ter com uma já conhecida daquelas paragens, ainda que oriunda do outro lado do globo. E se eu não tinha gostado que a conversa anterior tivesse sido interrompida por um telemóvel, também não gostei de ser interrompido em directo, aquando de uma conversa ao vivo. Não gostei mesmo nada!
Tal como ela não gostou de ouvir, na sequência do seu “Quero agora fazer a fotografia!” o meu “Não!”, seguido de “”Não gostei que tivesses interrompido a conversa por causa do telemóvel; não gostei que tivesses interrompido a minha conversa com esta senhora só porque chegaste. Não faço a fotografia!”
Estranhou, insistiu e eu insisti: “As fotografias aqui são grátis porque eu quero. E esta fotografia eu não faço! Talvez que assim aprendas qualquer coisa de boa educação!”
Fez beicinho, bateu o pé em tom de birra, deu meia volta que nem um recruta na parada e, agarrando na mão de uma das amigas, afastou-se a trotar. Com o resto do bando a olhar para mim e para ela e a seguir-lhe os passos.
A senhora que comigo falava, do alto do seu metro e meio, sorriu, acenou que sim e traduziu para a amiga a conversa. Suponho que tenha sido factual, que eu de indiano nada sei. Sei, isso sim, que a companheira sorriu também e acenou que sim igualmente. E, após mais umas banalidades sobre o assunto, o tempo e a música que se iria ali escutar, afastaram-se para usufruir, prazenteiramente, o resto daquele domingo saboroso.
Quando morrer certamente que ninguém dirá: “Aqui jaz um tipo de bom feitio.” Mas, caramba, nessa altura também não estarei por cá para ouvir e retorquir. Espero, no entanto, que esta mocinha, agora mal-educada, continue por cá por muito tempo e com melhores atitudes para com os outros. Se assim for, valerá a pena o que de mim disserem!

Texto e imagem: by me, in “Estórias do Oldfashion”